Mostrar mensagens com a etiqueta Eu e o meu espelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eu e o meu espelho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, outubro 07, 2009

1497. Tiros para o ar

- Que cara é essa? – Perguntei-lhe, pois não o costumo ver assim logo pela manhã.

- Não sei a que te referes… diferente de ontem? – Perguntou-me como se me respondesse.

- Não estás acostumado a que te interroguem, é o que é – disse-lhe eu tentando perceber o seu rosto estupefacto; definitivamente ele não estava a compreender nada.

- Olha lá – força de expressão, pensei, pois eu sempre estive a olhar – acordaste hoje com vontade de me chatear? É alguma vingança? – Voltou a interrogar-me.

(Abro aqui um parêntesis para vos relembrar que de facto é sempre ele que costuma fazer as perguntas ou, quando não, a atirar a primeira frase).

- Bom, eu vou directo ao assunto. Pareces um urso. Além dessa barba vergonhosa tens os cabelinhos todos em pé. – Agora sim, ele perdeu na antecipação. Quem me deveria estar a acusar era ele e não eu. Mas estou cansado de que em noites mal dormidas ou de estranhas condições seja eu o encostado à parede.

(deu uma gargalhada sonora e reflexiva de tal forma que o acompanhei na risota)

- Foi o vento caramba! Deves ter dormido que nem uma pedra, rapaz, não deste por nada e agora vens-me acusar de eu estar com os cabelinhos todos eriçados. – E dito isto o meu espelho tremeu, bateu ligeiramente contra a parede e por milagre não se fez em fanicos diante dos meus olhos.

(eu corri a fechar a janela).

Foto PreDatado©2009 – Vento

sexta-feira, abril 17, 2009

1415. 17 de Abril de 1969


Tive uma discussão enorme com ele. No final como de costume virei-lhe a costas. Não podia fazer outra coisa para não chegarmos a vias de facto. Na verdade nunca chegaríamos porque eu não sou violento. Uns gritos, uns apupos, umas pateadas, se for preciso ergo ao alto uns cartazes com uns dizeres mais acutilantes mas não entro em pancadaria. Foi sempre assim, não é cobardia é feitio. Ele diz-me que nem sempre fui assim e recorda-me, como quem me quer picar, os meus tempos de juventude, quando ainda estudante. E a discussão, que não começou aí, agudizou-se. Ele diz que tem melhor memória que eu e afirma que a idade é um posto. Coitado, apenas uns anitos mais velho e já pensa que é general. Enfim. Eram conversas sobre o Abril de 1969, sobre a crise académica, sobre o papel dos estudantes na sociedade, como Portugal nunca mais foi o mesmo e até de um golo de Eusébio se falou. Só que não valia a pena toda esta discussão. No final da contenda cada um ficou com a sua. Eu digo que o Alberto Martins está muito diferente daqueles gloriosos tempos das lutas académicas, da greve da academia, das justas reivindicações e principalmente do saber dizer NÃO sem medo e o meu espelho não tem a mesma opinião. Alguém entende os espelhos?
___
E se forem descontrair um pouco no GT, hein?

Foto encontrada pela net, desconheço o autor.

sexta-feira, março 20, 2009

1394. Sexta pela manhã

- Estás com uma carinha de segunda-feira e ainda hoje é sexta…, colocando uma espécie de reticências, o meu espelho provocou-me.
- Sono, o meu mal é sono, dormi muito mal, se é isso que queres saber – tentei rematar a conversa.
- Dores? - Perguntou compadecido.
- Não, nada, só sonhos… - condescendi em dar mais algumas explicações, enquanto o espelho espalhava a espuma de barbear no rosto.
- Pesadelos??!!! (gostava que tivessem visto a cara de assustado com me perguntou/interjeitou mal lhe falei em sonhos).
- Criatividade meu, esta noite estive a criar. A minha cabeça escreveu de tudo, teatro, poesia, romance.
- E não queres reflectir essa criatividade aqui? – Perguntou-me com um ar tão sacana que me deixou fulo.

(Desta vez fiz-lhe mesmo uma cara de segunda-feira, sete da manhã, depois de um domingo de copos; depois passei abundante água fria no rosto, coloquei a toalha no ombro e dirigi-me ao duche; só podia estar a mangar comigo, se já se viu querer-me armar em espelho; reflectir, reflectir, reflectir… ele que reflicta que é essa a função dele… ele é que é espelho! Estou mesmo com cara de segunda feira; tomara já o fim de semana).

______

Se quiserem dêem uma voltinha na GT. A Janette está cá uma...

sábado, janeiro 10, 2009

1333. Era para ter sido um post


clique para ampliar





- Estás mais velho – atirou-me mal me aproximei dele. Nem sequer me deu os Bons Dias.
- Quem eu? Claro, tenho mais um dia. – Respondi-lhe, pagando-lhe com a mesma moeda, isto é, sem o cumprimentar.
- Não falo disso, acho-te mesmo mais velho. – Insistiu, sem dó nem piedade.
- Porquê tamanha barbaridade? – Já me estava a sentir enfastiado. Não é que não encare bem este tipo de observações mas, vindo de quem veio, achei estúpido.
- Estás todo branco – disse-o, desta vez meio intimidado com a minha expressão facial.
Saiu-me uma sonora gargalhada e soltei:
- É neve!

(o meu espelho nem reagiu; a palavra é completamente nova para ele; acho que estava a dormir quando há dois anos nevou por aqui depois de mais de 50 sem cair um farrapinho)

PS. Ao contrário do costume, este diálogo com o meu espelho foi completamente inventado. Todos os meus leitores e as minhas leitoras sabem que não costuma haver a mínima ficção nas conversas com o meu espelho. Mas desta vez o tempo pregou-me a partida. Parece que nevou em quase todo o país mas na minha cidade, embora estejamos com 2 grauzitos, brilha um sol radioso.

Foto: João Capote. Chalet Les Diablerets, Suiça

segunda-feira, dezembro 29, 2008

1321. Duplos sentidos


- Pára!
- Que foi?
- Estou com medo
- De quê? Dos disparos?
- (…)
- Isto é só uma máquina fotográfica.
-(…)
- Um auto-retrato, entendes?
- Tenho medo, já disse…
- Maricas!
- Tenho medo de ficar mal na fotografia.

(O meu espelho tem destas tiradas mas eu não corroboro os seus receios; ele é um menino muito bem comportado)

quarta-feira, dezembro 10, 2008

1309. Da janela do quarto dele


- O miúdo tem jeito, atirou mal o encarei esta manhã.
- Ai, estamos mal a falar de bola a estas horas, ripostei ainda esfregando os olhos com sono.
- Qual bola, meu? Não é desse, é do teu, informou-me deixando-me perplexo.
- O que é que queres dizer com isso? – acabei perguntando eu que até lhe conheço as artes, a música, a pintura, o design e outras, mas que quando acordo ainda tenho uma série de interruptores desligados.
- Para escrever, homem. Já leste o blog dele?

(…)

Acabei de fazer a barba e de lavar os dentes. Não continuamos o diálogo. Aliás nesta altura eu ainda só tinha a pestana do olho direita levantada. Nesta pausa na conversa com o meu espelho, continuei a tratar de mim. Tomei o meu comprimido diário para a hipertensão, tomei banho, preparei o pequeno-almoço, comi e vesti-me. Vim também ao computador ler os títulos dos jornais da manhã e obviamente ler o blog do garoto. Voltei ao espelho ajeitando o nó da gravata.

- Se eu tivesse a paisagem que ele tem da janela do quarto dele também eu me inspiraria assim, disse-lhe em tom meio de desculpa, meio de justificação, enquanto sacudia um cabelo na banda do blaser, dando-lhe a entender que já tinha ido ler o blog do rapaz.

(… deu uma gargalhada, como quem pergunta: o quê tu?)

- O quê tu? – perguntou.
- Sim eu, respondi-lhe peremptório – Ou achas que não sou capaz? Ainda lhe perguntei enquanto me “despenteava” com o gel, wet effect.
- Vaidoso – terminou, acabando por me virar as costas.

(ainda gostava de saber porque é que este meu espelho me vira sempre as costas em fim de conversa)

PreDatado©2008, in Conversas com o meu espelho
Foto, Lausanne, “da janela do meu quarto”, João Capote

segunda-feira, novembro 10, 2008

1286. Espelhos escondidos com cauda à vista

- Miau, ouvi de repente sem estar à espera.
(virei-me e não vi nenhum dos meus gatos; talvez não fosse cá em casa)

- Miaaaaauuuuuu, agora sim era um gato da casa.
(inclinei-me e procurei por debaixo do móvel . Até abri as portas que escondem toalhas e acessórios)

Levantei-me lentamente, olhei em frente e lá estava o Schubert, ao fundo da casa, no parapeito, cauda de espanador e orelhas espetadas para trás. Um pombo que pousou no lado de fora da janela tinha-o assustado. O espelho ria, baixinho, de gozo. Tinha sido ele próprio a miar sem que eu tenha dado por isso. Olhei-o, olhos nos olhos:

- És mesmo um macaquinho de imitação!

(acho que até agora o meu espelho ainda se deverá estar a interrogar porque é que lhe chamei macaco se ele apenas reproduziu o som de um gato. Bem feito. Ainda te hei-de chamar pior.)

sexta-feira, novembro 07, 2008

1280. Tempo, O Implacável

- Já foste lá a baixo?
- Onde?
- À caixa.
- Não estou doente.
- Não é à Caixa, é à caixa, à caixa do correio?
- Para quê?
- Ela não ficou de te escrever?
- Ah sim, mandou-me um e-mail.

(Vi-o com uma estranha cara de estupefacção. O meu espelho é muito mais antigo do que eu pensava. Impávida e serena, enquanto conversávamos, Julieta continuava a arear-lhe os dourados).

quarta-feira, novembro 05, 2008

1278. Regresso

- Gordo! - Chamou-me.
- (… Apenas sorri).
- Do que é que ris?
- Não me ri, apenas sorri. Estou feliz.
- És gordo e feliz?
- Sou, mas não disse que sou. Disse que estou.
- E porque estás?
- Porque voltaste a falar comigo.

(Virou-me as costas, não porque tivesse ficado amuado, tão só porque não lhe apeteceu continuar a conversa. Há mais de um ano que o meu espelho não fala comigo. Vamos ver se é para continuar.)

domingo, agosto 26, 2007

1131. Assim é que eu gosto de o ver...

disse-me o espelho quando de repente dei de caras com ele; na verdade acordei tão bem disposto que hoje quem faz o almoço sou eu. Até já.