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quinta-feira, setembro 13, 2018

1642. Lunch Time Blog - Em ponto lula


A Maria José fez lulas de tomatada com arroz ao almoço e eu fiz uma omelete de frango para o jantar. As enormes e lindas lulas que ela esteve a arranjar ficaram bem pequenas no tacho e eu aproveitei o frango de churrasco que sobrou do almoço de ontem para desfiar e preparar a omelete. Não são pratos de extrema laboração, não poderiam concorrer no Master Chefe sob pena de termos de ir à prova de eliminação, mas o que conta é que estavam saborosos. Na omelete juntei um pouco de pimenta preta moída na altura, já que no churrasco de véspera não tinha sido usado nenhum picante. As lulas estavam no ponto, nem elásticas, nem a desfazerem-se, estavam num ponto, a que poderíamos designar por, não sei se existe ou não, ponto lula. A Charline, que é a nossa gata preta e branca com um bigode à Charlot, miou à nossa volta à hora do almoço, mas esteve sossegada ao jantar pelo que se pode deduzir que o prato confecionado pela Maria José estaria mais apelativo. Eu gosto mais de lulas recheadas, mas se a minha mulher o tivesse feito hoje corria o risco de no fim do cozinhado termos ingredientes recheados com lula, a não ser que tudo encolhesse na mesma proporção. O arroz estava soltinho como devia estar o que, com aquele molho da tomatada, ficou ainda mais gostoso. A omelete foi acompanhada por meia dúzia, poucas por causa do sal, de batatas fritas de pacote Lays gourmet compradas em promoção por metade do preço e uma salada de tomate coração de boi temperada com orégãos. Ah, é verdade, enquanto estive a descrever o que descrevi esqueci-me de dizer que o ministro Cabrita apresentou os sete pontos do governo para a descentralização, que o Putin anda a brincar aos espiões com os ingleses, que o tufão Florence se aproxima da costa sul dos Estados Unidos e que o vice presidente do Benfica deu uma conferência de imprensa por causa do roubo de correio eletrónico privado. Como não percebo nada de meteorologia um dia destes escreverei sobre trabalho precário, o que, não vem nada a propósito nestes LTB, pois é de ir à náusea. Entretanto, porque preciso de fazer umas análises ao fígado daqui a um mês e porque os meus diabetes andam um bocado malandrinhos, acompanhei as referidas refeições com água fresca e assim o farei às vindouras. Quando puder voltar a comer caviar logo voltarei ao champanhe. Mas para falar verdade, verdade, gosto mais de ameijoas à Bulhão Pato. Com champanhe, claro!

PS.  Aqui atrasado, farto de comer sopa, pedi à minha mulher que me fizesse faisão para o almoço. Estava delicioso. Comi três tigelinhas, com umas sopinhas de pão.

sábado, julho 28, 2018

1640. Fobias e almoços ou mais um LTB


V tem algumas fobias, é ele que o diz e eu não tenho como duvidar. Sei que a sua terapeuta e amiga MH conhece algumas, mas as que fazem parte do foro clínico privado, nem ela nem eu as divulgaremos. Dei-lhe a minha palavra. Mas há uma que me dá uma certa graça contá-la, espero que esta o V não a tenha como privada, pois falamos nisso abertamente e fora do âmbito clínico. E lembrei-me disto à hora do almoço, por isso incluí-la no meu LTB. Entrei num snack bar, (ainda se usa esta expressão?) com vontade de comer uma bifaninha e tomar uma bejeca, pedi ao balcão e o senhor solícito e amável, mandou-me sentar que já me atendia. Pelo caminho reconsiderei e achei que iria comer um prego no prato. E, depois da mesa posta, o senhor que há pouco estava ao balcão perguntou-me só para confirmar: É então uma bifaninha no pão e uma imperial, não é? E eu ripostei, Olhe traga-me antes um prego no prato com umas batatinhas fritas, não são das congeladas, pois não?, e uns pickles. E sim traga-me uma imperial. Isso vai demorar um bocadinho mais, informou-me. Não faz mal, respondi. E ali fiquei no bar praticamente vazio, o tipo do balcão que devia ser o patrão e que era também quem atendia às mesas e quem fritava as bifanas, grelhava os pregos e picava os pickles, uma boa meia dúzia de mesas à espera de clientes, um cão deitado no chão junto a uma das mesas, com ar de poucos amigos, assim de uma raça que não conheço, focinho achatado a parecer um tanque de guerra, pelo branco com manchas cinzentas, meio com ar adormecido mas que, na verdade, nunca tirou os olhos de mim. Pacientemente comi o meu prego, sempre, também eu, sem tirar os olhos do cão, num perfeito tête-à-tête,
 mas já com uma saída de emergência fisgada, não fosse o diabo tecê-las e eu à rasca, mas onde é que andará o dono do cão? E foi aí que me lembrei do V.

O V tinha a mania de mudar de emprego, como quem muda de camisa. Não que não se sentisse bem onde trabalhava, presumo que de algumas delas sente ainda hoje saudade, pela forma como fala das mesmas, mas achava sempre que podia não só aprender mais, mas também ser mais valorizado pelo trabalho e pela influência que tinha nas empresas onde trabalhou. Talvez nisto houvesse uma certa dose de narcisismo, mas ele era assim mesmo e a verdade é que, tanto quanto sei, foi sempre bem-sucedido nesta sua pretensão, ou melhor, nesta sua perspetiva de melhoria pessoal no mundo do trabalho. E dai que passava o tempo a responder a anúncios.

Entrou num prédio que, pressupostamente, deveria ter porteiro. O átrio era amplo, tinha um sofá em couro preto, sobre um pavimento de mármore branco, impecavelmente limpo. No balcão, em meia lua imperfeita, deveria existir um porteiro, mas ninguém estava para o atender. Um prédio que parecia deserto, silencioso, quase fantasma. E isso começou de imediato a incomodar V. Subiu ao quarto andar. Carregou no botão do elevador, esperou apenas alguns segundos, as portas abriram-se de par em par, V entrou num elevador todo em aço inoxidável, mais parecendo um elevador de hospital, vazio como era de se esperar, um painel de botões que ia até ao 12º, um subir absolutamente silencioso, num ápice no quarto andar. Tocou a campainha do 4º esquerdo, mas não ouviu o toque. Quase em simultâneo, um subtil click de abertura do trinco, a porta começou a abrir-se paulatinamente sem que ninguém lhe tocasse, V entrou, pediu licença sem obter qualquer resposta e só um novo click de trinco lhe fez notar que a porta se havia fechado nas suas costas. Levantou um pouco a voz, Boa tarde, onde me devo dirigir, mas aquele corredor frio e vazio, não lhe respondeu. Esperou, pelas suas contas duas horas, pela passagem real do tempo não mais de vinte segundos. Uma eternidade! Um senhor, alto, muito mais alto do que o 1m63 de V, trazia pela trela um imponente pastor alemão, de ar ameaçador, de dentes aguçados que fez o favor de mostrar num imenso bocejo. Falando um francês com sotaque de Bruxelas, o senhor que recebeu V, fê-lo entrar numa ampla sala, talvez uns quarenta a sessenta metros quadrados bem medidos, de decoração austera, dois sofás, um aparador, na parede dois quadros, uma pintura de Paula Rego e uma gravura quinhentista de um mapa-mundo de grande qualidade gráfica e riqueza de cores, com uma rosa dos ventos que só por si não deixaria ninguém indiferente à presença daquele quadro e escrito, se não em castelhano, em português arcaico daquele que só vê nos fac-simile das obras de Luís de Camões ou do padre António Vieira. V foi convidado a sentar-se, mas antes que a entrevista para o novo emprego começasse, o eventualmente belga e possível dono do pastor alemão deixou-o só com o seu portentoso animal em guarda. Passaram-se um, dois, três minutos, três anos? Para V, um século, as pernas tremiam-lhe, a serenidade abandonava-o, na rua não passava um carro, não passava uma senhora com o seu saco de compras no Corte Inglès ou na Loja das Meias, um executivo de gabardina e pasta na mão, um homem estátua que regressasse de um dia de estático mister, ninguém de quem se pudesse socorrer, ninguém a quem soltar um grito de socorro, se a sua fobia a cães e ao vazio o fizesse entrar em desespero. Ninguém. Só, numa sala com um cão.

Paguei a conta e saí. Seria igual se em vez de um prego, tivesse sido um bacalhau à Brás, uma económica em tijela de alumínio, dois rissóis e uma carcaça. Desde que a imperial estivesse fresquinha.

segunda-feira, julho 23, 2018

1638. L'Histoire d'O ou um LTB um bocadinho diferente


Os caminhos da memória. A propósito do comentário da minha amiga e seguidora antiga, Boop , no post anterior.

Ontem aconteceu-me uma coisa extraordinária. A minha mãe vive connosco e, à mesa, gosta de conversar de coisas antigas. Às vezes as conversas tornam-se repetitivas, mas são os seus arquivos de memória e eu não me importo.  Conversa puxa conversa e lembrei-me que uma amiga e vizinha dela, lá do Bairro, lhe tinha mandado recomendações. E disse-me: - Eu acho que ela se lembra de mim, mas se não se lembrar diga que sou a prima da O que ela lembra-se logo. E assim fiz. Dei-lhe os cumprimentos e o beijinho que a outra senhora me tinha recomendado. Perguntou-me então a minha mãe se eu sabia quem era a O. Eu não fazia ideia nenhuma mas, entretanto, comecei a construir a imagem de uma pessoa que para mim poderia ser a O. E descrevi a imagem que fiz à minha mãe. Ela disse-me que não, que a O não era nada como eu estava a dizer, que a O frequentava a casa de uma tia minha (irmã da minha mãe) quando a minha tia morava ainda em tal sítio assim, assim. E que até se admirava de eu não me lembrar dela, já que a minha mãe reconhece que eu, por acaso, tenho uma boa memória. Pois não consegui imaginar a tal O. Aliás, não seria fácil porque a O, de quem a minha fala, terá por esta altura mais de 70 anos, talvez uns 10 a mais do que eu, a ser visita da minha tia na tal morada que a minha mãe refere será pessoa que eu não vejo há mais de 50 anos, ou seja, desde que a O era uma teenager e eu nem teria buço ainda. E, por isso, uma descrição fisionómica de agora, como a minha estava a fazer ou a tentar, seria sempre diferente da construção que a minha memória estivesse a fazer. E pronto, ficamos por aqui, eu acabei o meu parguinho grelhado, que estava delicioso, o vinho branco também estava a condizer, na verdade um Tavedo Doc Douro 2017 da casa Burmester e a Charline, que é a minha gata preta e branca, nem andou à minha roda a chatear muito pois, mal a  ouvi miar, reforcei-lhe a ração e dei-lhe um pouco de uma musse de peixe do oceano e, assim, não só me pude concentrar nos aromas exalados pela malvasia fina, pela gouveio e pela cerceal, mas também a rebuscar na minha intrigada memória quem seria a O.

E, de repente, já com uma taça de cerejas frescas e reluzentes na mão perguntei à minha mãe se também queria e sem acabar a frase, atirei: Como é que se chamava a mãe da O? E ela: Era a M. E quem é que era assim tal qual como eu estava a descrever, mãe? Ah! Era a M. A mãe da O é que era como tu estás a dizer. E pronto, Sherlock Holmes não faria melhor. Ou faria? Se calhar sim, mas teria que ser com um bom vinho do Porto. Tão elementar meu caro Watson!

PS. Acho que se um dia encontrar a O vou reconhecê-la.

quinta-feira, julho 19, 2018

1636. Escrito à hora do almoço tem de ser Lunch Time Blog


Está um excelente dia para o blog. Só dias com coisas para contar alimentam o conto. Sem coisas para contar não há contos. Ou então que se inventem. Não é o caso. Ao toc toc da bengala, junta-se o restolhar dos chinelos, a receita perfeita para que V não durma. Mas V está vacinado e se sabe que aqueles são os sons, é porque os aprendeu antes. Apenas não conta que hajam sons diferentes e esses são alertas. V lembra-se do dia em que às quatro da manhã o navio que conduzia perdera som. Toda a gente a bordo acordou com aquele repentino abaixamento de ruído. Esse foi um dia de caos. Hoje a mãe de V produziu mais som do que aquele que o que o ajuda a dormir. Caiu, bateu com a cabeça num móvel, gritou por ajuda e V foi mais rápido a chegar ao pé da mãe do que o chefe ao pé da caldeira a que se apagara um queimador. Aparentemente foi só o susto e a ansiedade. Um tremendo galo, um saco de gelo. Pelas frestas semicerradas da persiana a luz mostra o rosto de M, pálido. Também se levantou repentinamente para ajudar a mãe de V mas sem que V se tivesse apercebido tinha a seu lado uma mulher doente. Corajosa, de nada se queixa, mas está debilitada. V que tinha ido levar o filho ao aeroporto acaba por tomar conhecimento de que o avião na escala, não voará para Itália. Vai ficar apeado no Porto, não sabe até quando. Na boa, o navio andou à deriva por uns dias e nunca perdeu o rumo. O queimador foi substituído e não houve danos colaterais. V não dormiu por setenta e duas horas, hoje só dormiu três e o filho de V vai encontrar uma diversão alternativa. A mãe de V já tomou os comprimidos, já desjejuou, parece bem. V terá alternativas. Um livro, a máquina fotográfica, a neta. Olhou novamente o rosto de M e, sem lhe tocar, ajeitou-lhe o lençol. Deixou-a ficar deitada, com a neta ao lado, ambas dormindo. A pequena está bem e recomenda-se. Pousou o livro de poemas de Saramago, aberto em Rainer Maria Rilke. Ou a ele. “Homem me digo homem, poemas faço”. V fez-lhe uma canja de galinha.

PS. Fiz, é como quem diz. Tenho a galinha ao lume. Eu que gosto de elaborar receitas devo ter optado pela coisa mais fácil que conheço na cozinha. Só estou em dúvida se hei de deitar o ovo cozido picadinho sobre o prato dela ou se fique pela folha de hortelã. Se fosse comigo já estaria a gritar: ai que morro!

quarta-feira, julho 18, 2018

1635. Lunch Time Blog

No tempo em que criei a minha série Lunch Time Blog tinha um gato e escrevia um post à hora do almoço. Escrevia-o depois de almoço, depois de me repastar com a comida que a Fátima, que era a minha empregada, me preparava, de ter visto as notícias da hora do almoço, mas antes da sonolência a que a barriguinha cheia convida. O meu gato era o Schubert que partilhava comigo as histórias e tinha muitos comentários, não eu, nem o post, mas sim o Schubert. Era no tempo em que púnhamos no blog, se calhar ainda agora poem, pois parece que quem tem muitos acessos passa a ter revenue por isso, publicidade paga, patrocinadores, que enfastiam os leitores que aos poucos também acabam abandonando as leituras. Hoje em dia, há pessoas que profissionalmente são bloggers (e youtubers e facebookers e twiteiros e tal), outros saltaram dos blogs para a política (do que eu me livrei) e alguns para belos tachos como comentadores em jornais, revistas e televisões (a massa que eu tenho andado a perder). Mas enfim, nunca fui dos mais lidos, também nunca fui dos mais assíduos na arte de publicar, coisas boas ou banalidades, nunca vos mostrei as fotos, nem publicitei, os meus ténis cor-de-rosa choque que comprei para condizer com uma camisa que uma prima minha me trouxe da América (antigamente o pai dela trazia-me gravatas floridas), nem vos dei a receita de pastelinhos de chicharro com queijo de azeitão, receita minha, fazendo assim jus à nossa península de Setúbal, nem sequer fui muito cáustico com o Sócrates, quer dizer fui, mas como o coitado agora, apesar de ser uns bons milhões mais rico, anda um bocado pelas ruas da amargura, eu digo que não fui porque nunca bato em ninguém caído no chão. E pronto, como já leram, estou cheio de inveja das Pipocas e dos Mexias e dos RAPs e de outros, claro, já não falo do Pacheco porque ele era maoísta e portanto nunca precisou de ter um blog para poder um dia vir a ser alguém na política, e pior ainda nunca me inscrevi num partido político, ou vá lá, num daqueles partidos que distribuem jobs, então nunca tive assim tantas visitas por aí além. Mas o pior de tudo foi ter morrido o meu Schubert, o meu querido e saudoso gato siamês. O Lunch Time blog devia-lhe tanto a ele. Vamos a ver se consigo voltar aonde já fui feliz.

PS. A minha mulher, entretanto, aposentou-se e a Fátima já cá não trabalha. Agora os almoços são feitos a meias entre mim e a Maria José, mas não é bem cinquenta-cinquenta. É de toda a justiça dar a César o que é de César. E ela fez cá uns croquetes para o almoço de deixar invejoso qualquer presidente 

terça-feira, outubro 18, 2016

1629. Lunch Time Blog

É a Justiça, estúpido!

Uma mania, provavelmente parva, que tenho quando almoço em casa é assistir a noticiários na televisão. Misturar uma posta de cherne grelhada com uma salada mista ainda vá que não vá. Agora misturar um branquinho da região de Palmela com pensões de alimentos, ou não me sabe bem o vinho ou tenho uma náusea inesperada. Mas como eu gosto de cada coisa no seu lugar, vamos lá por partes.

Senhor António Costa, senhor Jerónimo de Sousa, senhora Catarina Martins, vamos lá ver se nos entendemos. Quando eu voto num partido político para que só, ou em coligação, mesmo que parlamentar e geringonciamente tática, venham a formar governo, não transporto para a urna de voto nenhuma paranoia "deficitária". Isto é, o orçamento e o déficit não são as minha metas, se bem que não deixe de lhes dar o relevo que devem merecer. Como diria Jorge Sampaio, nosso PR  já ex, «há mais vida para lá do déficit». E é por isso, meus caros condutores de uma geringonça, que eu estimo e apelo para que se não desmantele, que vos digo que o vinho do almoço, não me caiu nada bem. Nem a bela manga, de avião, dizem eles, esta agora dos aviões darem mangas é que me deixa perplexo, que comi de sobremesa, me impediu que tivesse tido ido à náusea. Felizmente que as minhas gatas estavam de barriga cheia, quando não teriam vindo a miar em meu socorro.

E então, para que o "vamos lá por partes" se complete, eu sou todo olhos, ouvidos, nariz e tatos, pontas dos dedos incluídos, para as políticas de saúde, de educação, de planeamento territorial, de economia, de finanças, de justiça e isso, está bom de ver, para além de outras. E se a porca torce o rabo em algumas destas matérias, na Justiça, coitadinha da porca, torce-se toda como se estivesse tomada pelo demo. Se calhar até é por isso que nem judeus, nem muçulmanos partilham do gosto pelo belo toucinho, como eu partilho, se calhar é mesmo porque a porca da justiça, ai perdão, porque a porca torce muito mais do que o rabo no que diz respeito à Justiça. Ia o meu garfo no ar com uma bela lasca do cherne, aloirado pelo calor da chapa, e que nem proveitinho me fez, porque se estava de boca aberta para a receber, assim fiquei, largos segundos, como que possuído. Então não é que passava na televisão a notícia de que uma mãe estava há 20 anos (eu vou repetir, por extenso, para que não fiquem dúvidas), há vinte (!!!) anos à espera da pensão de alimentos para um filho? Bom isto já seria motivo para que o cherne não mais entrasse na boca. Mas como os nossos gestos são reflexivos, o Pavlov explicará isso melhor do que eu, a garfada invadiu-me o palato, depois a faringe e em vez de se dirigir ao esófago, caiu-me no goto. Tossi, tossi, tossi e estava eu neste meu tossir engasgado, quando ouvi o jornalista dizer que o Tribunal de Menores de Torres Vedras informou o canal de televisão de que o processo estava a decorrer nos prazos normais. Normais (!), leram bem? Noutras circunstâncias teria desatado a rir, mas nesta apenas vos posso dizer que passei da tosse convulsiva à náusea.

Vá lá senhora Ministra da Justiça, faça coisas bonitas, vá lá. Se não, é tudo a dizer mal da geringonça e ainda vamos ouvir esta gente a dizer que os donos dos patrimónios imobiliários de luxo, apesar das cristas levantadas, pagam agora menos com este novo IMI da Mortágua do que com o imposto de selo do Sócrates/Coelho. E se calhar é verdade, não é? Desvie-lhes a atenção e ajude a que a nossa Justiça passe a funcionar. Era cá uma finta, que qual Messi, qual Ronaldo...

PS. Obviamente que a Florinha e a Charline, as minhas gatas de estimação, me disseram que isso passava melhor com um copinho de água, mas eu teimei no branco de Palmela. São gostos...

1628. Lunch Time Blog

É a Justiça, estúpido!

Uma mania, provavelmente parva, que tenho quando almoço em casa é assistir a noticiários na televisão. Misturar uma posta de cherne grelhada com uma salada mista ainda vá que não vá. Agora misturar um branquinho da região de Palmela com pensões de alimentos, ou não me sabe bem o vinho ou tenho uma náusea inesperada. Mas como eu gosto de cada coisa no seu lugar, vamos lá por partes.

Senhor António Costa, senhor Jerónimo de Sousa senhora Catarina Martins, vamos lá ver se nos entendemos. Quando eu voto num partido político para que só, ou em coligação, mesmo que parlamentar e geringonciamente tática, venham a formar governo, não transporto para a urna de voto nenhuma paranoia "deficitária". isto é, o orçamento e o déficit não são as minha metas, se bem que não deixe de lhes dar o relevo que devem merecer. Como diria Jorge Sampaio, nosso PR  já ex, «há mais vida para lá do déficit». E é por isso, meus caros condutores de uma geringonça, que eu estimo e apelo para que se não desmantele, que vos digo que o vinho do almoço, não me caiu nada bem. Nem a bela manga, de avião, dizem eles, esta agora dos aviões darem mangas é que me deixa perplexo, que comi de sobremesa, me impediu que tivesse tido ido à náusea. Felizmente que as minhas gatas estavam de barriga cheia, quando não teriam vindo a miar em meu socorro.

E então, para que o "vamos lá por partes" se complete, eu sou todo olhos, ouvidos, nariz e tatos, pontas dos dedos incluídos, para as políticas de saúde, de educação, de planeamento territorial, de economia, de finanças, de justiça e isso, está bom de ver, para além de outras. E se a porca torce o rabo em algumas destas matérias, na justiça, coitadinha da porca, torce-se toda como se estivesse tomada pelo demo. Se calhar até é por isso que nem judeus, nem muçulmanos partilham do gosto pelo belo toucinho, como eu partilho, se calhar é mesmo porque a porca da justiça, ai perdão, porque a porca torce muito mais do que o rabo no que diz respeito à justiça. Ia o meu garfo no ar com uma bela lasca do cherne, aloirado pelo calor da chapa, e que nem proveitinho me fez, porque se estava de boca aberta para a receber, assim fiquei, largos segundos, como que possuído. Então não é que passava na televisão a notícia de que uma mãe estava há 20 anos (eu vou repetir, por extenso, para que não fiquem dúvidas), há vinte (!!!) anos da pensão de alimentos para um filho? Bom isto já seria motivo para que o cherne não mais entrasse na boca. Mas como os nossos gestos são reflexivos, o Pavlov explicará isso melhor do que eu, a garfada invadiu-me o palato, depois a faringe e em vez de se dirigir ao esófago, caiu-me no goto. Tossi, tossi, tossi e estava eu neste meu tossir engasgado, quando ouvi o jornalista dizer que o Tribunal de Menores de Torres Vedras informou o canal de televisão de que o processo estava a decorrer nos prazos normais. Normais (!), leram bem? Noutras circunstâncias teria desatado a rir, mas nesta apenas vos posso dizer que passei da tosse convulsiva à náusea.

Vá lá senhor Ministro da Justiça, faça coisas bonitas, vá lá. Se não, é tudo a dizer mal da geringonça e ainda vamos ouvir esta gente a dizer que os donos dos patrimónios imobiliários de luxo, apesar das cristas levantadas, pagam agora menos com este novo IMI da Mortágua do que com o imposto de selo do Sócrates/Coelho. E se calhar é verdade, não é? Desvie-lhes a atenção e ajude a que a nossa Justiça passe a funcionar. Era cá uma finta, que qual messi, qual ronaldo...
PS. Obviamente que a Florinha e a Charline, as minhas gatas de estimação, me disseram que isso passava melhor com um copinho de água, mas eu teimei no branco de Palmela. São gostos...

quinta-feira, setembro 15, 2016

1627. Lunch Time Blog (revisited). Favas com futebol.

Cheira-me lá dentro à morcela e à cacholeira, às ervas aromáticas e ao entrecosto no estrugido que promete. As favas estão quase a invadir a panela e dou uma vista de olhos pelos jornais desportivos. Como não sou masoquista, quase só leio as "gordas". Não sou um saudosista, mas tenho saudades. Lembro-me de Carlos Miranda, de Aurélio Márcio, de Carlos Pinhão, de Alfredo Farinha e comparo-os, dececionado, a escribas de hoje em dia. Meu Deus quanta diferença. Bem sabemos que hoje há mais canais de televisão que as mães que os pariram, mas como era belo ler uma crónica de um jogo que não vimos e estarmos "lá dentro" do próprio jogo. E no momento do golo escrito nos apetecer gritar goooollllooo a plenos pulmões, mesmo quando esse golo já tinha acontecido vinte e quatro horas antes. Que pena a imprensa desportiva escrita ter descaído tanto e agora, para vender jornais, se decida pela opinião escrita de adeptos famosos (adeptos a quem a televisão deu fama, mesmo que advenha de minutos consecutivos a insultarem-se uns aos outros). Mas hoje, neste LTB ainda consegui sentir o perfume da pena de Santos Neves, não sei se inebriado pela sua escrita inteligente e assertiva se num misto de palavras com o aroma de umas favas com entrecosto numa tarde que se apresenta com menos 15 graus 15, que a tarde homónima de há uma semana atrás. Cheira-me a favas com entrecosto, cheira-me a outono, que quase me bate à porta e só já me falta escolher o vinho. Os jornais desportivos estão já arrumados, daqui a pouco é hora de reler Saramago, de preparar mais umas aulas de fotografia. Acho que vai ser alentejano. Regional, que os enchidos também o são! Só o meu Schubert não me fará companhia neste novo LBT. Partiu há mais de dois anos e será lembrado por muitos mais. Quanto ao Lunch Time Blog, se o ou os governos não aplicarem um imposto direto sobre quem escreve blogs, talvez eu venha a (re)tomar-lhe o gosto. Desculpem partir assim, repentinamente, mas já tenho o almoço na mesa.

PS. Ainda há tempo para um PS. O Schubert era o meu gato siamês. Era lindo!