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quinta-feira, abril 02, 2009

1405. Dia mundial do livro infantil


- Pai, porque é que a gente não deve dizer mentiras?
- Porque é feio.
- Muito feio?
- Sim, muito feio.
- Quanto pai?
- Conheces o hipopótamo?
- Conheço, pai.
- É assim muito feio como o hipopótamo.
- Ah!
...

- Pai.
- Sim, filho.
- Ontem tiveste um furo no carro?
- Não, filho.
- Pai, onde é que está o saxofone?
- O pai não tem nenhum saxofone, filho.
- Pai.
- Sim, filho.
- O que é um livro erótico.
- Filho é muito difícil explicar-te. Podemos deixar isso para depois?
- Depois quando pai?
- Quando o pai souber explicar.
...

- Pai.
- Sim, filho.
- Tu escreves histórias?
- Sim, às vezes escrevo.
- E são histórias de verdade ou histórias de mentira.
- Às vezes têm de se inventadas.
- O que é inventadas, pai?
- Digamos que são histórias de mentira.
- Pai, tu és feio.
- Muito feio, filho?
- Pai, és um hipopótamo.


(texto escrito por quem nunca submeteu nenhum livro a nenhuma editora nem tão pouco um livro erótico)

sexta-feira, outubro 24, 2008



foto de Markus Arns


1262. Mãos



De mão dada, lado a lado, que ela não era de escandaleiras. Ele bem tentava colocar-lhe o braço pela cintura e nem mesmo por cima do ombro ela o consentia. Condescendia apenas em ir de mão dada porque assim poderia controlar a distância do seu corpo ao dele.


Na igreja, ajoelhavam-se um ao lado do outro mas, de blusa quase sempre fechada, retirava-lhe as hipóteses de pensamento pecaminosos quando furtivamente os seus olhos se lhe dirigiam ao colo. E a completar o seu pudor, de diferente malha consoante a estação, longas meias torneavam-lhe as pernas cujo vestido as cobria até bem perto das canelas. Mas por detrás da diáfana cortina que os seus cabelos formavam quando baixava a cabeça em veneração à santa poder-se-ia ver-lhe um brilho nos olhos que apenas um olhar mais atento descobriria uma réstia de pecado.


Nem o escurinho do cinema, aos Domingos, constituía uma tentação para ela. Quando as luzes se apagavam e a projecção começava, concentrava-se na tela sem nunca perder de vista a mão dele a que sistemática e delicadamente empurrava de cima das coxas.


No quarto despia-se lentamente. Sempre em frente ao espelho que lhe conhecia os segredos. E quando o chão do quarto já não comportava mais nenhuma peça de roupa,deitava-se, pegava na mão “dele” e deixava-o aproximar-se.

quinta-feira, outubro 16, 2008


1254. Trovoada

Desligou o motor. Devagar, fechou as janelas e desligou o rádio. Tirou o cinto, aproximou-se dela e beijou-lhe o rosto, acordando-a. – Chegamos, disse .
Já fora do carro, espreguiçou-se, deu alguns estalidos aos joelhos e respirou fundo. Uma canícula completamente fora de tempo, fazia-se sentir. Pelos seus cálculos estariam uns 28 graus o que, para uma noite de Outono, não era costumeiro. Quando ela saiu do carro transmitiu-lhe os seus receios. – Trovoadas, alvitrou.
Por entre um véu de nuvens ligeiras espreitava um projecto de luar. Dentro de três dias seria noite de lua cheia e o que seria normal era terem luz que lhes alumiasse o resto do caminho até à casa. Mas o cheiro da noite e o ar quente, que numa ligeira brisa soprava de Sul, convidaram-nos a ficar por ali mais uns minutos. Encostados ao carro abraçaram-se. Um abraço forte e longo, tão longo quanto o beijo que encetaram. Ele imaginou que se estivesse luar aquela teria dado uma bonita fotografia. Ao mesmo tempo pensou, e bem, que não poderia ser fotógrafo e objecto em simultâneo. Aquilo não era um jogo de espelhos, antes sim um jogo de sedução.
Já no quarto abriram um pouco a janela. Os corpos já incendiados pelos beijos como achas em fogueira de sentidos começavam a ceder. Pouco mais resistiriam a uma noite de amor. Lá fora trovejava.
E quando por fim ele se introduziu no seu corpo suou o ribombar de um trovão. Mas apenas a casa estremeceu. O vento aumentou de intensidade e abriu-lhes as janelas de par em par. Lá fora a chuva caía abundante. A trovoada continuava a fazer estremecer as estruturas de betão. Eles só mais tarde estremeceram. Juntos.
foto encontrada aqui