Extractos ao acaso
Un solo ser, pero no hay sangre.
Una sola caricia, muerte o rosa.
Viene el mar y reúne nuestras vidas
y solo ataca y se reparte y canta
en noche y día y hombre y criatura.
La esencia: fuego y frío: movimiento.
Pablo Neruda, El Mar
Vou sair, respirar o sol, banhar-me no vento, abraçar o mar. Depois pintarei o rosto de castanho claro.
terça-feira, março 23, 2004
Design
Tirou o último cigarro do maço
Tossiu.
Olhou para cima da estante
Onde um relógio de pau-preto,
Sem debruns nem de ouro nem de latão amarelo,
Mas com mecanismo suíço,
Lhe apontava as 4h32m.
Não teria tempo de comprar outro maço.
Sentou-se na cadeira, em couro enrugado, da secretária
Balançou a cadeira para trás
Esticou o braço
E enfiou o cigarro na boca da caveira de acrílico que lhe decorava a mesa.
Adormeceu de seguida.
AF in Livro das Artes
Tirou o último cigarro do maço
Tossiu.
Olhou para cima da estante
Onde um relógio de pau-preto,
Sem debruns nem de ouro nem de latão amarelo,
Mas com mecanismo suíço,
Lhe apontava as 4h32m.
Não teria tempo de comprar outro maço.
Sentou-se na cadeira, em couro enrugado, da secretária
Balançou a cadeira para trás
Esticou o braço
E enfiou o cigarro na boca da caveira de acrílico que lhe decorava a mesa.
Adormeceu de seguida.
AF in Livro das Artes
Religião
Obviamente, nem eu precisaria dizer isto, que as minhas amigas leitoras e os meus amigos leitores sabem que não sou nada de meter em assuntos religiosos. Nadinha mesmo. Eu nunca falei aqui em religião e prometo que irão passar várias luas até que o volte a fazer. Eu já fui católico (prefiro dizer isto do que utilizar o eufemismo de católico não praticante), baptizado, crismado e casado sob a bênção da igreja católica e por isso não me resta mais do que respeitar as convicções religiosas de cada um. Era o mais que faltava não respeitar os outros. No entanto um e-mail que recebi há uns dias e que por sorte não fez parte dos 75% que eu mando directo para o lixo sem abrir, tinha uma frase, que citarei mais tarde, a qual me inspirou estas linhas. Quando eu era solteiro, o meu, na época, futuro cunhado era já um fiel seguidor da igreja evangélica. Hoje é um proeminente pastor e uma pessoa de quem eu gosto muito. A sua personalidade religiosa, um tanto ao quanto ecuménica, permitia-lhe uma abertura de espírito para debater as igrejas e as religiões com outras orientações religiosas. Lembro-me nessa época de durante semanas a fio ele receber em sua casa, um duo mórmon e passarem horas a conversar. Vi-o discutir ideias com padres, com pessoas sem religião e com outras correntes evangélicas. Expectável era que, no caso dos mórmones, nem eles virassem Luteranos, nem o meu cunhado viesse a ser um futuro Elder. Como aliás se confirmou.
Comigo passou-se um caso até curioso e engraçado para ser contado. Quando eu era católico, todas as manhãs de Domingo eu assistia à Eucaristia Dominical na televisão. Pois era a essa hora que, não sei se de propósito ou apenas por coincidência de horários, sempre as Testemunhas de Jeová me tocavam a campainha. Um dos dias, convidei-os a entrar e os seus olhos brilharam. Conduzi-os à sala, onde a TV transmitia a Santa Missa, convidei-os a sentar e não só. Pedi-lhes que comigo assistissem à transmissão religiosa e que no final da celebração, então sim, conversaríamos. Não vale quase a pena vos contar o desfecho pois, é óbvio, que já adivinhastes. Não aceitaram o convite, o brilho nos olhos perdeu-se e saíram, educadamente.
Contado que foi o episódio e pedindo desculpa pela maçada da enorme introdução que fiz, vou partilhar convosco a frase que, pressupostamente é atribuída a um vivido sexagenário e que recebi no e-mail:
“As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas, consigo, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.”
Vocês podem ficar a pensar se tem ou não alguma verdade inserida. Eu tenho a certeza que sim.
Obviamente, nem eu precisaria dizer isto, que as minhas amigas leitoras e os meus amigos leitores sabem que não sou nada de meter em assuntos religiosos. Nadinha mesmo. Eu nunca falei aqui em religião e prometo que irão passar várias luas até que o volte a fazer. Eu já fui católico (prefiro dizer isto do que utilizar o eufemismo de católico não praticante), baptizado, crismado e casado sob a bênção da igreja católica e por isso não me resta mais do que respeitar as convicções religiosas de cada um. Era o mais que faltava não respeitar os outros. No entanto um e-mail que recebi há uns dias e que por sorte não fez parte dos 75% que eu mando directo para o lixo sem abrir, tinha uma frase, que citarei mais tarde, a qual me inspirou estas linhas. Quando eu era solteiro, o meu, na época, futuro cunhado era já um fiel seguidor da igreja evangélica. Hoje é um proeminente pastor e uma pessoa de quem eu gosto muito. A sua personalidade religiosa, um tanto ao quanto ecuménica, permitia-lhe uma abertura de espírito para debater as igrejas e as religiões com outras orientações religiosas. Lembro-me nessa época de durante semanas a fio ele receber em sua casa, um duo mórmon e passarem horas a conversar. Vi-o discutir ideias com padres, com pessoas sem religião e com outras correntes evangélicas. Expectável era que, no caso dos mórmones, nem eles virassem Luteranos, nem o meu cunhado viesse a ser um futuro Elder. Como aliás se confirmou.
Comigo passou-se um caso até curioso e engraçado para ser contado. Quando eu era católico, todas as manhãs de Domingo eu assistia à Eucaristia Dominical na televisão. Pois era a essa hora que, não sei se de propósito ou apenas por coincidência de horários, sempre as Testemunhas de Jeová me tocavam a campainha. Um dos dias, convidei-os a entrar e os seus olhos brilharam. Conduzi-os à sala, onde a TV transmitia a Santa Missa, convidei-os a sentar e não só. Pedi-lhes que comigo assistissem à transmissão religiosa e que no final da celebração, então sim, conversaríamos. Não vale quase a pena vos contar o desfecho pois, é óbvio, que já adivinhastes. Não aceitaram o convite, o brilho nos olhos perdeu-se e saíram, educadamente.
Contado que foi o episódio e pedindo desculpa pela maçada da enorme introdução que fiz, vou partilhar convosco a frase que, pressupostamente é atribuída a um vivido sexagenário e que recebi no e-mail:
“As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas, consigo, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.”
Vocês podem ficar a pensar se tem ou não alguma verdade inserida. Eu tenho a certeza que sim.
segunda-feira, março 22, 2004
Extractos ao acaso
“Sinto que até mesmo para mim a onda se eleva. Incha; dobra-se. Tomo consciência de um novo desejo, de qualquer coisa que se ergue em mim como um cavalo orgulhoso, cujo montador esporeou antes de obrigar a parar. Que inimigo vemos avançar em direcção a nós, tu, a quem agora monto enquanto desço este caminho? É a morte. É ela o inimigo.”
In As ondas, Virgínia Woolf
Hoje um terrorista (Sharon) assassinou outro terrorista (Yassin); é a celebração da morte, da expansão da morte, da propagação da morte. Quem vai parar este cavalo, antes que o cavaleiro continue a esporear?
“Sinto que até mesmo para mim a onda se eleva. Incha; dobra-se. Tomo consciência de um novo desejo, de qualquer coisa que se ergue em mim como um cavalo orgulhoso, cujo montador esporeou antes de obrigar a parar. Que inimigo vemos avançar em direcção a nós, tu, a quem agora monto enquanto desço este caminho? É a morte. É ela o inimigo.”
In As ondas, Virgínia Woolf
Hoje um terrorista (Sharon) assassinou outro terrorista (Yassin); é a celebração da morte, da expansão da morte, da propagação da morte. Quem vai parar este cavalo, antes que o cavaleiro continue a esporear?
Lunch Time Blog
Pronto e lá voltamos nós à banal rotina dos almoços caseiros em dia de semana. Vamos ser confrontados com o estafado bife com batatas fritas, a costeleta grelhada, os filetes de pescada com arroz de ervilhas, as salsichas embrulhadas em couve lombarda, a posta de peixe cozida com grelos e, no fim, a maçã starking, o pêro bravo de esmolfe e, se tivermos sorte e o tempo der para mais, uma taça de morangos com ou sem chantilly. Resta-nos a consolação de chegar a casa e “o seu almoço já está pronto”. Obrigadinho. E a vingança! Sim a vingança de ir à garrafeira e escolher um bom vinho tinto. Pelo menos não se há-de estragar a tarde.
PS. Ainda bem que o Schubert está a dormir. Quando não, com três ou quatro miaus, teria vindo reclamar do post e obrigar-me a escrever este pêésse para colocar os pontos nos is. É que a escolha hoje não foi tão boa como isso. Límpido, de cor rubi, espuma vermelha fugaz e com um aroma ligeiro a madeira e a frutos, apenas se bebe. Foi Casaleiro, 2001 mas a um Puro Sangue Ribatejano ainda não chega lá. Pelo preço, bebe-se, não se pode dizer que tenha sido mal empregue. Vou deixar envelhecer um pouco mais as garrafas que me sobram. Talvez no final do ano eu tenha uma opinião diferente.
Pronto e lá voltamos nós à banal rotina dos almoços caseiros em dia de semana. Vamos ser confrontados com o estafado bife com batatas fritas, a costeleta grelhada, os filetes de pescada com arroz de ervilhas, as salsichas embrulhadas em couve lombarda, a posta de peixe cozida com grelos e, no fim, a maçã starking, o pêro bravo de esmolfe e, se tivermos sorte e o tempo der para mais, uma taça de morangos com ou sem chantilly. Resta-nos a consolação de chegar a casa e “o seu almoço já está pronto”. Obrigadinho. E a vingança! Sim a vingança de ir à garrafeira e escolher um bom vinho tinto. Pelo menos não se há-de estragar a tarde.
PS. Ainda bem que o Schubert está a dormir. Quando não, com três ou quatro miaus, teria vindo reclamar do post e obrigar-me a escrever este pêésse para colocar os pontos nos is. É que a escolha hoje não foi tão boa como isso. Límpido, de cor rubi, espuma vermelha fugaz e com um aroma ligeiro a madeira e a frutos, apenas se bebe. Foi Casaleiro, 2001 mas a um Puro Sangue Ribatejano ainda não chega lá. Pelo preço, bebe-se, não se pode dizer que tenha sido mal empregue. Vou deixar envelhecer um pouco mais as garrafas que me sobram. Talvez no final do ano eu tenha uma opinião diferente.
Escultura
Despiu-a.
Corrigiu-lhe a posição.
Um braço circundava a cabeça
Primorosamente colocado atrás do pescoço.
Ou outro corria-lhe pelo corpo.
Assentou-lhe uma mão sobre a púbis.
Ficou quieta.
O balde do gesso esvaziado sobre o corpo quieto.
Outro balde.
O corpo quieto.
Ainda outro.
O corpo continua quieto
Em exposição.
AF in Livro das Artes
Despiu-a.
Corrigiu-lhe a posição.
Um braço circundava a cabeça
Primorosamente colocado atrás do pescoço.
Ou outro corria-lhe pelo corpo.
Assentou-lhe uma mão sobre a púbis.
Ficou quieta.
O balde do gesso esvaziado sobre o corpo quieto.
Outro balde.
O corpo quieto.
Ainda outro.
O corpo continua quieto
Em exposição.
AF in Livro das Artes
domingo, março 21, 2004
Lunch Time Blog
A alface é assim, picadinha. Faz-me lembrar quando a senhora Isabel, está a picar a couve para dar à criação. Só que quando ela está a fazer isso, eu estou sempre com os dois olhos bem abertos, não vá algum galo pensar que tem um competidor por ali. Mas as favas só têm um olhinho e, esse, mesmo assim a gente tira para fora. Depois, o Álvaro e a São é que trataram do entrecosto, dos chouriços, das mouras, dos cheiros. Amanhã quem vai tratar de mim é a Drª Anabela. Vai ser cá um raspanete. E eu ralado. Perdoa-se o bem que sabe ao mal que faz. Mas quando eu lhe disser que acompanhei com tinto do Esporão, a médica vai responder: “Bom, assim está bem!”.
PS. Quando regressamos a casa o Schubert estava a dormir, ao sol, entre o cortinado e a janela. A ele nem lhe perguntei o que almoçou. Seria sobre o almoço dele que ele estava a falar, quando me disse miauuuuuuuuuuuu?
A alface é assim, picadinha. Faz-me lembrar quando a senhora Isabel, está a picar a couve para dar à criação. Só que quando ela está a fazer isso, eu estou sempre com os dois olhos bem abertos, não vá algum galo pensar que tem um competidor por ali. Mas as favas só têm um olhinho e, esse, mesmo assim a gente tira para fora. Depois, o Álvaro e a São é que trataram do entrecosto, dos chouriços, das mouras, dos cheiros. Amanhã quem vai tratar de mim é a Drª Anabela. Vai ser cá um raspanete. E eu ralado. Perdoa-se o bem que sabe ao mal que faz. Mas quando eu lhe disser que acompanhei com tinto do Esporão, a médica vai responder: “Bom, assim está bem!”.
PS. Quando regressamos a casa o Schubert estava a dormir, ao sol, entre o cortinado e a janela. A ele nem lhe perguntei o que almoçou. Seria sobre o almoço dele que ele estava a falar, quando me disse miauuuuuuuuuuuu?
Pesca
O pai pescador, a mãe pescadora, o filho pescador.
O avô pescador também.
O rio e a barragem.
As canas de pesca os anzóis afiados.
De dupla barbela.
Os achigãs, as carpas e os barbos…
Um a um introduzidos na manga.
Fizeram uma caldeirada de avô e avó.
Vazaram a manga na barragem.
Para preservação da espécie.
AF in Livro das Artes
O pai pescador, a mãe pescadora, o filho pescador.
O avô pescador também.
O rio e a barragem.
As canas de pesca os anzóis afiados.
De dupla barbela.
Os achigãs, as carpas e os barbos…
Um a um introduzidos na manga.
Fizeram uma caldeirada de avô e avó.
Vazaram a manga na barragem.
Para preservação da espécie.
AF in Livro das Artes
Extractos ao acaso
“Se a mulher está em casa do amante e discute com ele, deve encolerizar-se e abandoná-lo logo. Depois de ele lhe ter enviado o Vita, o Vidushaka ou o Pithamarda para a acalmar e demover, ela deverá então seguir os mensageiros para passar a noite com o amante.
Assim terminam as discussões de amor.”
In KamaSutra, Vatsyayana
É tão bom saudar o regresso da Primavera!
“Se a mulher está em casa do amante e discute com ele, deve encolerizar-se e abandoná-lo logo. Depois de ele lhe ter enviado o Vita, o Vidushaka ou o Pithamarda para a acalmar e demover, ela deverá então seguir os mensageiros para passar a noite com o amante.
Assim terminam as discussões de amor.”
In KamaSutra, Vatsyayana
É tão bom saudar o regresso da Primavera!
sábado, março 20, 2004
Caça
O pai canibal, a mãe canibal, o filho canibal.
A floresta.
As flechas de pontas envenenadas
Apontavam as presas
Prendiam-nas.
A jovem canibal, ou não, refrescava-se na represa.
Nua, escultural, pura.
O filho acendeu a fogueira.
A água no caldeirão fervilhava.
Comeram a mãe.
À tarde regressaram a casa,
O pai canibal, o filho canibal,
A jovem, nua, escultural, pura
Canibal, ou não.
AF in Livro das Artes
O pai canibal, a mãe canibal, o filho canibal.
A floresta.
As flechas de pontas envenenadas
Apontavam as presas
Prendiam-nas.
A jovem canibal, ou não, refrescava-se na represa.
Nua, escultural, pura.
O filho acendeu a fogueira.
A água no caldeirão fervilhava.
Comeram a mãe.
À tarde regressaram a casa,
O pai canibal, o filho canibal,
A jovem, nua, escultural, pura
Canibal, ou não.
AF in Livro das Artes
Nunca mais tenho juízo
Eu devo ser meio estúpido. Se só meio estúpido for suficiente para me definir. Tenho a a mania de ler blogs por aqui e por acolá. Logo eu que, como vós sabeis amigas leitoras e amigos leitores, não sou não sou nada de me meter em política, como também não sou nada de me irritar com as análises manipuladoras. Hoje, como sempre o faço, estive uns minutos valentes no Abrupto. E vejo que o José Pacheco Pereira, na sua postagem sobre Manipulação da Informação se insurge contra o que, ele, nos últimos dias, encontrou sobre este tema. Mas li e reli e voltei a ler. E não vi o Dr. JPP, escrever: “Ontem a RTP deu um exemplo claríssimo da sua independência, face ao poder. Se alguém tivesse dúvidas de que a RTP não manipula a informação, ao contrário de algumas outras televisões ibéricas, nem está ao serviço dos partidos do governo, poderia ter dissipado por completo essas mesmas dúvidas. O Sr. Primeiro-ministro foi entrevistado por 4, fixem bem QUATRO, jornalistas e apenas 3, fixem bem APENAS TRÊS, são claramente apoiantes deste governo”. Mas será que eu estava mesmo à espera de ler isso?
Eu devo ser meio estúpido. Se só meio estúpido for suficiente para me definir. Tenho a a mania de ler blogs por aqui e por acolá. Logo eu que, como vós sabeis amigas leitoras e amigos leitores, não sou não sou nada de me meter em política, como também não sou nada de me irritar com as análises manipuladoras. Hoje, como sempre o faço, estive uns minutos valentes no Abrupto. E vejo que o José Pacheco Pereira, na sua postagem sobre Manipulação da Informação se insurge contra o que, ele, nos últimos dias, encontrou sobre este tema. Mas li e reli e voltei a ler. E não vi o Dr. JPP, escrever: “Ontem a RTP deu um exemplo claríssimo da sua independência, face ao poder. Se alguém tivesse dúvidas de que a RTP não manipula a informação, ao contrário de algumas outras televisões ibéricas, nem está ao serviço dos partidos do governo, poderia ter dissipado por completo essas mesmas dúvidas. O Sr. Primeiro-ministro foi entrevistado por 4, fixem bem QUATRO, jornalistas e apenas 3, fixem bem APENAS TRÊS, são claramente apoiantes deste governo”. Mas será que eu estava mesmo à espera de ler isso?
Lunch Time Blog
Definitivamente aderi à globalização. A minha salada tinha tomate espanhol, alface e cenoura portuguesa, queijo de cabra grego, azeite de oliveira português e ervas aromáticas que não lhes descobri a origem. Depois veio a feijoada de chocos com gambas. As gambas eram de Madagáscar, o feijão branco (ou antes, os porotos alubia, cosecha 2003, origen Salta) eram argentinos e os chocos, sepia sp., vinham em embalagem espanhola. Se toda a globalização fosse assim eu aplaudia. Estava divinal esta refeição de Sábado. O vinho era branco, regional do Alentejo. Mas de vinhos brancos eu não falo. Estava fresco e soube bem.
Definitivamente aderi à globalização. A minha salada tinha tomate espanhol, alface e cenoura portuguesa, queijo de cabra grego, azeite de oliveira português e ervas aromáticas que não lhes descobri a origem. Depois veio a feijoada de chocos com gambas. As gambas eram de Madagáscar, o feijão branco (ou antes, os porotos alubia, cosecha 2003, origen Salta) eram argentinos e os chocos, sepia sp., vinham em embalagem espanhola. Se toda a globalização fosse assim eu aplaudia. Estava divinal esta refeição de Sábado. O vinho era branco, regional do Alentejo. Mas de vinhos brancos eu não falo. Estava fresco e soube bem.
Hoje fui ao barbeiro… estou tão bonitinho de chapéu novo.
Primeiro era o coxo. Não tenho recordações de muito, muito novo, mas dos meus 6 ou 7 anos, sim. Recordo-me de algumas coisas desse tempo. Ir ao Zé barbeiro era um suplício. Todos o conheciam pelo coxo, porque de facto o era. O Zé barbeiro, não sei se por ser coxo ou por ser barbeiro, odiava cortar cabelos a crianças. Eu acho que não há nenhum barbeiro que goste. Pegava no alicate (alicate sim, para mim era pior que um alicate, era um crocodilo) e toca de desbastar. Mas o Zé barbeiro gostava de mim. Pudera, eu ficava que nem uma estátua. Talvez porque aos meninos que cortavam o cabelo antes de mim, as ameaças de que, “daqui a pouco corto-te uma orelha”, me deixassem aterrorizado. Até que veio a moda dos cabelos compridos. Ufa! Pelo menos livrei-me de metade das idas ao barbeiro. Depois, o Zé barbeiro faleceu. E eu passei a ir ao algarvio. Só ía ao algarvio, porque ficava perto de casa e porque gostava do sotaque. Do corte e do penteado nunca gostei. Depois o algarvio faleceu. Há mais de 30 anos que vou ao Zé Manel. É um vício. Nunca vi nenhum benfiquista como ele. Deve ser o benfiquista que mais mal fala do seu clube. E o que ele se dana comigo, porque eu nunca falo mal do Glorioso. Olhem que nem no tempo do Vale e Azevedo eu conseguia falar mar do meu SLB. E é por isso que a gente se pega. Eu sempre a falar bem do Benfica e ele sempre a apontar-me os erros. Mas porque é que a gente não muda de barbeiro? Agora só quando ele falecer. Ou eu. Ou então quando, no calor da disputa, ele me cortar uma orelha.
Primeiro era o coxo. Não tenho recordações de muito, muito novo, mas dos meus 6 ou 7 anos, sim. Recordo-me de algumas coisas desse tempo. Ir ao Zé barbeiro era um suplício. Todos o conheciam pelo coxo, porque de facto o era. O Zé barbeiro, não sei se por ser coxo ou por ser barbeiro, odiava cortar cabelos a crianças. Eu acho que não há nenhum barbeiro que goste. Pegava no alicate (alicate sim, para mim era pior que um alicate, era um crocodilo) e toca de desbastar. Mas o Zé barbeiro gostava de mim. Pudera, eu ficava que nem uma estátua. Talvez porque aos meninos que cortavam o cabelo antes de mim, as ameaças de que, “daqui a pouco corto-te uma orelha”, me deixassem aterrorizado. Até que veio a moda dos cabelos compridos. Ufa! Pelo menos livrei-me de metade das idas ao barbeiro. Depois, o Zé barbeiro faleceu. E eu passei a ir ao algarvio. Só ía ao algarvio, porque ficava perto de casa e porque gostava do sotaque. Do corte e do penteado nunca gostei. Depois o algarvio faleceu. Há mais de 30 anos que vou ao Zé Manel. É um vício. Nunca vi nenhum benfiquista como ele. Deve ser o benfiquista que mais mal fala do seu clube. E o que ele se dana comigo, porque eu nunca falo mal do Glorioso. Olhem que nem no tempo do Vale e Azevedo eu conseguia falar mar do meu SLB. E é por isso que a gente se pega. Eu sempre a falar bem do Benfica e ele sempre a apontar-me os erros. Mas porque é que a gente não muda de barbeiro? Agora só quando ele falecer. Ou eu. Ou então quando, no calor da disputa, ele me cortar uma orelha.
sexta-feira, março 19, 2004
Lunch Time Blog
Estais obviamente admirados, amigas e amigos leitores. Eu sei, ninguém me contou, que pelo menos duzentos de vós tereis vindo aqui, hoje, pensando: “deixem-me lá ver o que é que o PreDatado almoçou hoje”. Depois foi a decepção. Este tipo não foi à Bairrada, pensarão alguns. Outros, o que é lhe terá dado para não ter ido comer aquelas amêijoas na cataplana, terá sido o defeso? E ainda aqueloutros, mais drásticos, terão imaginado, só pode ter sido um acidente, o PreDatado teve uma congestão com certeza, ele nunca fica sem sobremesa, pois desta vez comeu um gelado (congelado há mais de 6 meses), tirado daquela montra que abre e fecha em cada 5 minutos e truz, catrapuz, caiu para o lado. Pois alegrai-vos amigas leitoras e amigos leitores. Não foi nada de especial. É que, simplesmente, não almocei. E quem não almoça não tem o direito de escrever um blog à hora do almoço.
Estais obviamente admirados, amigas e amigos leitores. Eu sei, ninguém me contou, que pelo menos duzentos de vós tereis vindo aqui, hoje, pensando: “deixem-me lá ver o que é que o PreDatado almoçou hoje”. Depois foi a decepção. Este tipo não foi à Bairrada, pensarão alguns. Outros, o que é lhe terá dado para não ter ido comer aquelas amêijoas na cataplana, terá sido o defeso? E ainda aqueloutros, mais drásticos, terão imaginado, só pode ter sido um acidente, o PreDatado teve uma congestão com certeza, ele nunca fica sem sobremesa, pois desta vez comeu um gelado (congelado há mais de 6 meses), tirado daquela montra que abre e fecha em cada 5 minutos e truz, catrapuz, caiu para o lado. Pois alegrai-vos amigas leitoras e amigos leitores. Não foi nada de especial. É que, simplesmente, não almocei. E quem não almoça não tem o direito de escrever um blog à hora do almoço.
Farto de aldrabices e truques de ilusionismo...
Ontem, estive a ouvir uma entrevista na RTP ao sr. Primeiro Ministro. Não sei porquê, lembrei-me de um extracto da peça “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna. Vou reproduzir aqui esse pequeno extracto, em que João Grilo consegue vender um gato que “descome” dinheiro. Aqui em Portugal costumamos dizer “vender gato por lebre”. Nem sei porque me havia de lembrar disto.
JOÃO GRILO
Ah, mas aquilo é porque foi o cachorro. Com meu gato é diferente…
MULHER
Diferente de quê?
JOÃO GRILO
Porque em vez de dar despesa, esse gato dá lucro.
MULHER
Fora vaca, cavalo e criação, bicho que dá lucro não existe.
JOÃO GRILO
Não existe se não… Eu fico meio encabulado de dizer!
MULHER
Que é isso João, você está em casa! Diga!
JOÃO GRILO
É que o gato que eu lhe trouxe descome dinheiro.
MULHER
Descome dinheiro?
JOÃO GRILO
Descome, sim.
MULHER
Essa eu só acredito vendo.
JOÃO GRILO
Pois vai ver. Chico!
MULHER
Ah, e é história de Chico? Logo vi.
JOÃO GRILO
Nada de história de Chico, mas foi ele quem guardou o bicho. Chico!
CHICÓ (entrando com o gato)
Tome seu gato. Eu não tenho nada com isso.
(João dá-lhe uma cotovelada e apresenta o gato à mulher)
JOÃO GRILO
Está aí o gato.
MULHER
E daí?
JOÃO GRILO
É só tirar o dinheiro.
MULHER
Pois tire.
…. Aqui, vou fazer um pequeno salto. João Grilo, por duas vezes, usando artifício de ilusionista, tira dinheiro do rabo do bichano… mais à frente…
MULHER
Nossa Senhora é mesmo. João me arranja esse gato pelo amor de Deus.
JOÃO GRILO
Arranjar é fácil, agora pelo amor de Deus, é que não pode ser, porque sai muito barato. Amor de Deus é coisa que eu tenho, dê ou não lhe dê o gato.
MULHER
Quer dizer que não tem jeito de eu arranjar esse gato?
… Ao fim de alguma conversação a Mulher compra o gato por 500 mil reis ao João Grilo.
Ontem, estive a ouvir uma entrevista na RTP ao sr. Primeiro Ministro. Não sei porquê, lembrei-me de um extracto da peça “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna. Vou reproduzir aqui esse pequeno extracto, em que João Grilo consegue vender um gato que “descome” dinheiro. Aqui em Portugal costumamos dizer “vender gato por lebre”. Nem sei porque me havia de lembrar disto.
JOÃO GRILO
Ah, mas aquilo é porque foi o cachorro. Com meu gato é diferente…
MULHER
Diferente de quê?
JOÃO GRILO
Porque em vez de dar despesa, esse gato dá lucro.
MULHER
Fora vaca, cavalo e criação, bicho que dá lucro não existe.
JOÃO GRILO
Não existe se não… Eu fico meio encabulado de dizer!
MULHER
Que é isso João, você está em casa! Diga!
JOÃO GRILO
É que o gato que eu lhe trouxe descome dinheiro.
MULHER
Descome dinheiro?
JOÃO GRILO
Descome, sim.
MULHER
Essa eu só acredito vendo.
JOÃO GRILO
Pois vai ver. Chico!
MULHER
Ah, e é história de Chico? Logo vi.
JOÃO GRILO
Nada de história de Chico, mas foi ele quem guardou o bicho. Chico!
CHICÓ (entrando com o gato)
Tome seu gato. Eu não tenho nada com isso.
(João dá-lhe uma cotovelada e apresenta o gato à mulher)
JOÃO GRILO
Está aí o gato.
MULHER
E daí?
JOÃO GRILO
É só tirar o dinheiro.
MULHER
Pois tire.
…. Aqui, vou fazer um pequeno salto. João Grilo, por duas vezes, usando artifício de ilusionista, tira dinheiro do rabo do bichano… mais à frente…
MULHER
Nossa Senhora é mesmo. João me arranja esse gato pelo amor de Deus.
JOÃO GRILO
Arranjar é fácil, agora pelo amor de Deus, é que não pode ser, porque sai muito barato. Amor de Deus é coisa que eu tenho, dê ou não lhe dê o gato.
MULHER
Quer dizer que não tem jeito de eu arranjar esse gato?
… Ao fim de alguma conversação a Mulher compra o gato por 500 mil reis ao João Grilo.
quinta-feira, março 18, 2004
Lunch Time Blog
Hoje a minha vontade era de ir ao Leo. O Leo é um restaurante em Setúbal onde o prato principal é choco frito. Existem outros, mas eu tenho por hábito ir ao Leo. Já comi choco frito em quase todo o litoral português, do Minho ao Algarve. Nunca comi igual ao que se come em Setúbal. Não lhe conheço o segredo tendo mesmo tentado cozinhá-lo em casa, por mais de uma vez, sem nunca ter acertado na fórmula. Sejam grandes os pedaços, sejam pequenos, sempre “al dente” como soi. Gosto de o comer na esplanada, acompanhar com salada mista de tomate e alface e um bom vinho branco. Fresquinho. Eu não sou um amante de vinho branco, mas com aquele prato cai bem. Levantei-me, fiz a barba, lavei os dentes, tomei um café, fumei um cigarro, li uma meia dúzia de blogs, voltei à casa de banho e água? Nem uma gota nas torneiras. Esperei até quase à uma da tarde, pois sem banho meus amigos, santa paciência, mas não saio de casa. Fiquei-me pelos lombinhos de porco preto. Mas vinguei-me. Reguei a refeição com uma Herdade de Espirra, 1999, DOC. Excelente.
PS. Eu sei que estão todos perguntando: e então o Schubert? O Schubert comeu a sua ração para gato bebé e o leitinho. Espero que nunca me obrigue a partilhar o Herdade de Espirra com ele. Era o que mais faltava… um gato besanas.
Hoje a minha vontade era de ir ao Leo. O Leo é um restaurante em Setúbal onde o prato principal é choco frito. Existem outros, mas eu tenho por hábito ir ao Leo. Já comi choco frito em quase todo o litoral português, do Minho ao Algarve. Nunca comi igual ao que se come em Setúbal. Não lhe conheço o segredo tendo mesmo tentado cozinhá-lo em casa, por mais de uma vez, sem nunca ter acertado na fórmula. Sejam grandes os pedaços, sejam pequenos, sempre “al dente” como soi. Gosto de o comer na esplanada, acompanhar com salada mista de tomate e alface e um bom vinho branco. Fresquinho. Eu não sou um amante de vinho branco, mas com aquele prato cai bem. Levantei-me, fiz a barba, lavei os dentes, tomei um café, fumei um cigarro, li uma meia dúzia de blogs, voltei à casa de banho e água? Nem uma gota nas torneiras. Esperei até quase à uma da tarde, pois sem banho meus amigos, santa paciência, mas não saio de casa. Fiquei-me pelos lombinhos de porco preto. Mas vinguei-me. Reguei a refeição com uma Herdade de Espirra, 1999, DOC. Excelente.
PS. Eu sei que estão todos perguntando: e então o Schubert? O Schubert comeu a sua ração para gato bebé e o leitinho. Espero que nunca me obrigue a partilhar o Herdade de Espirra com ele. Era o que mais faltava… um gato besanas.
Ontem fui lá
É indescritível. Durante mais de 10 anos tive um lugar cativo na Catedral. Mesmo no último, em que eu sabia que não iria usufruir, a tempo inteiro, da minha cadeira, eu paguei o meu lugar. Queria, é certo, tirar algumas vantagens, pois saberia assim que seria dos primeiros a ser convidado para um lugar na nova. Mas a vida tem destas coisas e não me senti, nem com coragem, nem com disponibilidade mental (e material, diga-se de passagem) para pagar a exorbitância que me era exigida, para reservar um lugar no novo estádio. E digo bem, reservar, pois para assistir aos jogos eu teria sempre de adquirir o respectivo ingresso. No antigo, o preço do lugar incluía também o valor da entrada. Não era barato mas era acessível. Por isso eu fiquei triste e fui resistindo, resistindo, resistindo. Mas ontem fui lá. O resultado era importante, sem dúvida. Gosto que a minha equipa ganhe sempre, sabendo eu quão difícil o é nos tempos que correm. Mas eu não fui só ver o jogo. Fui ver a Nova Catedral. É indescritível. Vocês, amigas leitoras e amigos leitores, mesmo que nada os ligue ao Glorioso, precisam ir lá ver. Depois não descrevam. Retenham apenas na memória.
É indescritível. Durante mais de 10 anos tive um lugar cativo na Catedral. Mesmo no último, em que eu sabia que não iria usufruir, a tempo inteiro, da minha cadeira, eu paguei o meu lugar. Queria, é certo, tirar algumas vantagens, pois saberia assim que seria dos primeiros a ser convidado para um lugar na nova. Mas a vida tem destas coisas e não me senti, nem com coragem, nem com disponibilidade mental (e material, diga-se de passagem) para pagar a exorbitância que me era exigida, para reservar um lugar no novo estádio. E digo bem, reservar, pois para assistir aos jogos eu teria sempre de adquirir o respectivo ingresso. No antigo, o preço do lugar incluía também o valor da entrada. Não era barato mas era acessível. Por isso eu fiquei triste e fui resistindo, resistindo, resistindo. Mas ontem fui lá. O resultado era importante, sem dúvida. Gosto que a minha equipa ganhe sempre, sabendo eu quão difícil o é nos tempos que correm. Mas eu não fui só ver o jogo. Fui ver a Nova Catedral. É indescritível. Vocês, amigas leitoras e amigos leitores, mesmo que nada os ligue ao Glorioso, precisam ir lá ver. Depois não descrevam. Retenham apenas na memória.
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