domingo, abril 25, 2004

Contributo

Durante o último mês tentei dar o meu contributo, através de uma visão pessoal do enquadramento do 25 de Abril, na situação antes e na evolução que teve a Revolução durante o primeiro ano, para a comemoração dos 30 anos do 25 de Abril. Como referi no dia em que iniciei a escrita desse pequeno romance, não tive nenhuma pretensão de escrever uma “obra”, mas apenas proporcionar, principalmente aos mais novos, o conhecimento da época em que vivíamos, época em que alguns dos meus leitores ainda não eram nascidos. Verifico me mais de 270 pessoas acederam ao meu texto, pese embora tenha consciência que nem todos terão lido o texto completo. Ainda assim, acho que valeu a pena. Quem ainda tiver curiosidade de o ler pode encontrá-lo aqui nesta morada: Livro de Contos.
Pi

"Se os filhos da puta voassem, deixava-mos de ver o Sol"

Pi de la Serra, Cantor Catalão
25 de Abril!


"...Foi então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra

na madrugada serena

um poeta que cantava

o povo é quem mais ordena..."

J.C. Ary dos Santos, in As Portas Que Abril Abriu

sábado, abril 24, 2004

Memória III

Durante a manhã, fiquei pelo Bairro. Reuníamos no muro comentando. Um ouviu isto na rádio, outro ouviu aquilo, entretanto chegavam uns, partiam outros, a confusão era grande, as notícias incoerentes, os boatos, muitos.
Almocei algo nervoso. O meu irmão e o meu pai tinham saído para o trabalho e a preocupação no rosto da minha mãe era indisfarçável. Eu tinha decidido não ir ao Técnico, já que as recomendações eram para não sair de casa. Por outro lado, não estava disposto a que a minha mãe ficasse só. Fui apenas a Almada, comprar jornais. Todos os que consegui. Quando Marcelo saiu na Chamite, do Quartel do Carmo, as lágrimas correram-me de emoção. Na esquina, eu e um amigo abraçamo-nos. Apenas. Fortemente. E dissemos em uníssono: Ganhámos!
Vozes

- Ó pá, sabes porque é que o boi muge, quando vê uma vaca?
- ... ?
- Porque não sabe assobiar.

(eu não diria melhor!!!)
Lunch Time Blog

O meu amigo Manel tem um rebanho de ovelhas. Mas ao contrário de certos pastores que é Ó Violeta, psiuuuuuu, Ó Mimosa vem cá, pcheeeeetttttttt Papoila, Ó Malhadiiiiiinhaaaa, o meu amigo Manel não põe nomes aos animais. Ele diz, com razão, que bicho com nome não se come. Eu também acho que ele está completamente certo. E é por isso que quando eu quero um borrego, acabadinho de matar, o encomendo ao meu amigo Manel. Ao menos assim, sei que não estou a comer o Careca, nem a Florzinha, nem a Manquita, mesmo que o animal coxeie de uma pata. Mas confesso que, ainda assim, prefiro os carapaus. A um cardume de uns bons milhares seria impossível pôr o nome um a um. E mesmo que o pescador o fizesse, haja imaginação, a peixeira não teria tempo de decorar. A propósito, será que um carapau em francês é visage-batôn? E em inglês será stick-face? É que o molho, que eu ponho por cima, ninguém tem dúvidas: spanish style sauce. Só que ás vezes a cebola faz-me chorar dos olhos.

PS. Schubert conta lá ao pessoal se os carapaus não estavam bons. Conta, vai, não fiques assim acanhado. Gato que é gato não se envergonha.
Ruivas

Nunca entendi porque é contam anedotas de loiras. Para mim, uma anedota, é uma pequena história caricata, normalmente inventada e que quase sempre faz rir. Ora se é inventada, não faz sentido contar-se anedotas de loiras. Porque são sempre verdade. Ah, mas com as ruivas é diferente. E é por isso que esta Ruiva não é uma anedota. É uma miúda genial, que eu conheço e que faz umas postagens muito interessantes. São coisas de ruiva, eu sei, mas são giras.
Restaurantes

Ao meu amigo Zacarias, de quem já vos contei algumas histórias, acontece-lhe cada uma… Como quase todas as sextas-feiras, encontramo-nos à noite no café para dois dedos de conversa e uma cerveja. “Parabéns Zac, foram 10 não foram?”. Não tinha a certeza, mas pelas minhas contas ele tinha acabado de fazer 10 anos de casado. “Então onde foi a comemoração?”. Bom, que foram a um novo restaurante francês que abriu em Lisboa, por sinal muito bom, mas caríssimo, que lhe ia dando um traique-livaique. Mas segundo ele, acabou por nem pagar muito. Então contou-me o que eu vou transcrever em diálogo:

- Zacarias (Z) : 140 Euros? Você está doido ou quê? O que é isto couvert? Nós não comemos couvert nenhum.
- Empregado (E) : O couvert estava aí, você não comeu porque não quis.
- Z : E este champanhe que nem sei ler o nome? Também não bebemos champanhe nenhum.
- E: Estava aí, o senhor não tomou porque não quis.
- Z: Sobremesas? Nós não comemos estas sobremesas todas.
- E: Mas estavam aí, à disposição. Você não comeu por que não quis.
- Z: Bom está bem, você tem razão. Então 140 Euros, subtraindo 100 por você ter feito amor com a minha mulher, dá 40 e é só isso que eu vou pagar.
- E: Eu? Mas isso é um absurdo. Eu nem olhei sequer para a sua esposa.
Zacarias levantou-se, deixou os 40 Euros em cima da mesa, olhou o empregado com desdém e respondeu-lhe:
- Estava aí, você não comeu porque não quis.
Bom Dia!

"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história"


Carlos Drummond de Andrade, Quadrilha

E há por aí muitas outras quadrilhas. Vocês sabem que eu sei que vocês sabem que há por aí muitas quadrilhas. Ó, Ó, se há! Tenham um muito Bom Dia!

sexta-feira, abril 23, 2004

Livro

Hoje não posso escrever mais. Já falei sério, já disparatei, enfim, stress vai-te embora, meu querido, que hoje não te aturo mais. Agora vou ler. Sendo que é Dia Mundial do Livro, porque é que não hei-de fazer o que faço nos outros dias todos?
Perisemples

A Espectacológica hoje fez uma postagem a dizer que "morrer é um alívio". Eu tive a oportunidade de lhe deixar um comentário que aqui reproduzo: "Opá, mas se um gajo morre.. assim perisemples.. um gajo morre não é? E pode levar um computador para ler os berlogues? E assim também, perisemples, pode fazer comentários?".
Mas se fosse só para dizer isso, bastava pedir-lhes para irem lá ler o comentário. Mas não é. É que depois fiquei a pensar, assim também perisemples, um gajo morre, prontes, alivia não é? E como é que quem fica cá sabe se um gajo alivia se um gajo morre e não pode dizer? Pois é, agentes morre, não é? E depois a gentes vai para o céu não é? Então se agentes vai para o céu, porque é que agentes não cai? É só porque a gentes perde 21 gramas e fica assim mais levezinho? Oh pá perisemples, eu vou pensar um bocadinho nisso e já volto.
É que eu não estou nada com vontade de aliviar ainda. Eu acho que ainda posso aguentar mais um bocadinho, assim, perisemples, se não me obrigarem a ver a TVI, nem me derem iscas ao almoço, não acham?
Siglas

Desde que me desempreguei há 2 anos que tenho apresentado o meu CV às mais diversas entidades. Alguns ER agradecem o envio e informam-me que passarei a constar dos seus ficheiros para uma oportunidade. Outros dão-me uns documentos para preencher que não são mais que um TPC em modo interrogativo. No final verifica-se que o meu QI é quase zero e lá vou eu borda fora. Claro que nem me atrevo a chamar-lhes FDP. Eles sabem que são.

Glossário

CV Curriculum Vitae
ER Executive Researcher
TPC Ter Portentosa Cunha
QI Quem Indique
FDP Todos sabem
Lunch Time Blog

O Schubert sentou-se comigo à mesa. Pôs o babete para não sujar o laço, olhou para mim e disse-me:

- Miau!
- Ó tonto, não vês que não preciso. Não estou de gravata.
- Miau!
- Faca e garfo? Para quê? Tu ainda não sabes comer de talher, só tens 3 meses.
- Miau!
- Porque tem alhos.
- Miau!
- Natas. Não sabes o que são natas? Estás a ver o teu leitinho? É assim parecido, só que mais espesso.
- Miau!
- Cogumelos.
- Miau!
- Claro que não tens rapaz. A veterinária disse que podias comer um bife, mas teria de ser grelhado e sem temperos.
- Miau!
- Se gostares, sim, posso te fazer uma bica.
- Miau!
- Primeiro a sobremesa? Claro. Gostas de morangos? Se gostares eu dou-te.
- Miau!
- Só do molho com açúcar? Isso é a tua dona, eu não como morangos com açúcar.
- Miau!
- Que gostaste da refeição sei eu, és um guloso.
- Miaurrrerrrerrre.
- Schubert!!!!! Não precisas arrotar à mesa!

PS. Querias um pêésse só para ti? Não te chega a atenção que te dei ao almoço?
Bom Dia!


“Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a convencer-se; é aos desta classe que me dirijo, e não aos que julgam humilhação vir escutar o que eles chamam ilusões. Com estes eu não me ocupo, absolutamente”.

Allan Kardec, O que é o espiritismo.


Neste parágrafo, Kardec refere-se aos que consideram a existência de espíritos uma ilusão. O pensamento é bom mesmo que aplicado a “outras coisas” da vida. Eu não me ocupo absolutamente de quem não quer aprender. Aos atentados à inteligência eu não deixo o meu desejo de Bom Dia. Nem me obrigará a dizer obrigado, ariel.
Visitei

Visitei o blog Estrada do Coco. Está publicado um excelente extracto referenciado como : Ruben Braga [1913-1990], Pequena Antologia do Braga, Editora Record, 7.ª Edição, 2004.

Só porque falamos a mesma língua, vale a pena ler. Eu, por ter muitos amigos e amigas brasileiras e por ler muitos autores brasileiros, já conhecia a maioria das expressões. E ainda não está, escarrapachada a gíria, que para nós é calão. Porque essa é quase in-traduzível. Não podemos esquecer a dimensão do Brasil e “as gírias” regionais. Não é só esta postagem que vale a pena ler. Eu por mim, estacionei (aparquei?, parqueei?) por lá longos minutos. Gostei.
Estacionamento

Prometi-te, cá vai a história. Eu já fui assistir a uma sessão do Parlamento. Ao vivo! Parece cretino que, ao fim de trinta anos de democracia, eu esteja aqui a dizer que já assisti a uma reunião plenária dos nossos representantes. Mas é verdade, fui só a uma e fui forçado. Já assisti a horas e horas a fio de debate parlamentar, mas, ao vivo, nunca lá tinha estado. Tudo por causa do estacionamento. Fui almoçar a S. Bento, ao restaurante de uma ex-colega de uma das empresas onde trabalhei. Naquele tempo, no tempo em que eu ainda estava empregado, tinha um bom carro. Marca “nobre”, alta cilindrada, ainda brilhante de novo, poderia ser o carro de um deputado. Voltas e mais voltas e lugar para estacionar, népias. Vai já para ali. Um carro destes pode estacionar no parque da AR que ninguém desconfia. Os outros que lá estavam, tinha um dístico identificador. Mas caramba, um deputado da nação tem direito a ter um esquecimento, ou não? Quando regressei do almoço, tinha a bloquear-me, o carro, este sim de um senhor deputado. E agora? Não poderia ir chamar a polícia. Seria lata a mais. E dinheiro a menos, pois sem multa não passaria. E além disso, alguém iria dizer lá, no parlamento, aos microfones: “O Sr. ou Sra. Deputada que tem o carro a bloquear a saída de um pacato cidadão que acabou de almoçar, faça o favor de ir retirá-lo”? Aguentei-me à bronca. Tomei um táxi e fui trabalhar. Às sete da tarde, o meu carro ainda estava bloqueado. Fui então assistir ao resto do debate parlamentar. Discutia-se votava-se o “totonegócio”. Só quando o Dr. Almeida Santos deu por terminada a sessão, já passava largamente das oito, é que toda a gente debandou da sala. O Sr. Deputado, dono do carro bloqueador, chegou primeiro do que eu, ao parque. Depois saí calmamente a assobiar, como se nada fosse comigo.
Memória II

São sete da manhã e o telefone toca. Ainda não me tinha levantado apesar de nem me ter deitado tarde. Contra o costume estava a dormir havia, por aí, umas 6 horas. O meu tio António nascera perfeito durante a guerra de 1914-18, poucas semanas depois de o meu avô ter partido para França. Quando regressou, libertado pelos alemães, por quem tinha sido capturado na célebre batalha de La Lis, encontrou um filho, o seu primeiro filho, cego por um surto de bexigas. O meu tio António, era no ramo paterno, a pessoa mais esclarecida da família, talvez a mais culta e certamente a que melhor “via” o país e a sociedade.

- Estás acordado?
- Agora estou, tio. Há algum problema?
- Ainda não ouviste notícias?
- Não tio, acordei com o telefone. O que há?
- Bom, filho. Não saias de casa. Liga a telefonia. Até agora parece que os nossos estão a controlar. Mas é preciso dar tempo.
- Está bem tio, obrigado. Mais tarde eu ligo-lhe.

Desligamos, acendi a telefonia, não voltei para a cama. Os nossos? Não me lembro de ter alguma vez, abertamente discutido política com o meu tio. Não me lembro se alguma vez me “descaí” sobre as minhas opções. Mas o meu tio António apesar de cego, não tinha só quatro sentidos. Ele sabia, que a mim, poderia dizer: os nossos.
Novo

Está aí um novo blog. Bem vinda!

quinta-feira, abril 22, 2004

Lunch Time Blog

Um dia destes o meu compadre Anastácio, numa daquelas informações que ele me costuma dar e que eu vou guardando na agenda para quando me fizerem falta, se é que fazem, disse-me que a maneira de descobrir, quando dois borregos, um branco e um preto, já estão mortos e esfolados, qual dele é o branco ou qual deles é o preto, é pela língua. Pronto está bem, fica a informação. Não faço a mínima ideia se esta observação se aplica aos porcos. Não chegamos a falar disso. Mas uma coisa é certa. Gosto muito mais de porco preto do que de porco branco. As costeletas são mais tenrinhas, o sabor é delicioso e este que comi hoje, dizem, foi alimentado a bolota. Não só não deu para lhe perguntar, porque o porco já estava morto, mas também, mesmo que vivo o javardo se encontrasse, não acredito que me respondesse. A predominância das castas Tinta Roriz e Tinta Branca, Touriga Franca e Touriga Nacional neste Douro fê-lo deixar-me ficar na boca por uns bons momentos de prazer. Não foi uma refeição e peras, mas para um dia de semana, apresentava-se escorreita. Comi uma laranja que eu próprio descasquei. Adoro comê-las em gomos irregulares.

PS. Não te deu o cheiro Schubert? Hoje não me foste visitar à sala de jantar. Estás feito um dorminhoco não é? Acho que quem vai dormir a seta agora sou eu.
Adolescente

A Kachia virou-se para mim e disse:

- Eu hoje me sinto uma adolescente.
- Porquê? Você sente-se jovem, alegre, bonita, apaixonada?
- Não. Tenho uma borbulha ne testa.

E eu sempre a cair nestas. Mas brasileiro só sabe zoar?