quinta-feira, junho 03, 2004

413. Bom Dia!

No seu cabelo branco, já escasso, gosto de passar a mão. Como ele me fazia a mim quando eu era criança e como eu ainda faço aos meus filhos. É um gesto de ternura que sempre me agradou. Eu estou quase com meio século, prestes a atingir uma idade de ouro. Mas ele hoje é um diamante. O meu precioso diamante. Parabéns pai pelos teus 75 anos e que tenhas um óptimo dia! E já agora vê lá se esperas que eu chegue lá, combinado? Um beijo e um abraço do tamanho do mundo, velho Augusto!

quarta-feira, junho 02, 2004

412. Não tem piada

Cara Inês

Sou um cidadão livre, num país democrático, com direito ao livre pensamento e à livre expressão do mesmo. Por isso lutei antes do 25 de Abril de 1974 e por isso continuaria a lutar até ao fim dos meus dias se para tal fosse necessário. As minhas críticas às instituições não são uma falta de respeito, antes pelo contrário. È o meu respeito pela Constituição da República Portuguesa, que me permite (me obriga) a criticar a “Saúde” que temos em Portugal – não sei se Inês recorre ou não ao SNS, para poder atestá-lo pessoalmente -, a criticar a “Educação” que temos em Portugal – não sei se a Inês tem dois filhos, estudantes universitários, pelos quais paga mais de 850 € por ano, por cada um -, a criticar a política de Trabalho que temos em Portugal – não sei se a Inês também está desempregada -. E para não me alongar, é também o Respeito pela Constituição da República Portuguesa que me permite afirmar que não acredito na Justiça, nos moldes em que ela se pratica em Portugal. Quanto às minhas convicções, àquilo que eu acredito ou não acredito, ponto final. Ninguém tem o direito de achar que eu deva pensar desta ou daquela maneira.
Quanto ao caso concreto da Casa Pia e da sua referência à presunção da inocência, eu, que não tenho formação jurídica, nem estou engajado a nenhuma organização profissional, pela qual tenha de seguir um código de ética, sinto-me livre de poder ser bem mais taxativo e não ter de fazer floreados para dizer o mesmo. Há tempos o José Pacheco Pereira no Abrupto, colocava a hipótese, que poderia bem ser um case study, de se nenhum, friso nenhum dos arguidos do processo fosse culpado. Eu ripostei-lhe, sem piada, obviamente, que se isso se viesse a verificar, teríamos forçosamente que ser inscritos no Guiness Book of the Records, como o país que tem a mais cretina comunicação social do mundo, dado o seu papel na denúncia do caso, a mais estúpida magistratura pública do mundo por não ter acertado em nenhum, a pior polícia de investigação do mundo por ter detido 13 ou 14 pessoas totalmente inocentes e finalmente, acrescento agora, o povo mais estúpido do mundo por ter acreditado que alguns deles poderiam ser culpados. Quer melhor tese para a presunção da inocência do que desenvolver o tema “proposto” por José Pacheco Pereira?
Por muita simpatia política que eu tenha, e que de facto o tenho – sou também livre de o expressar aqui – por Paulo Pedroso e pela simpatia que tenho por Herman José, que considero humorista único, estou convicto que a sua ida a julgamento seria muito mais transparente e muito mais gratificante sob o ponto de vista da eventual limpeza da sua imagem do que a decisão tomada pela Juíza do processo. Não sei se a Inês se recorda, mas o caso dos dinheiros da então CEE para a UGT, prescreveu. Culpados ou inocentes, nunca houve julgamento. Infelizmente a memória é curta e até parece que nunca se passou nada.
Para terminar, não esqueça, Inês, que a presunção de inocência é um conceito técnico-jurídico. Se a Inês fosse vítima de uma agressão, sob que forma ela fosse, conhecesse o seu agressor, o denunciasse, apresentasse testemunhas e a Inês tivesse a certeza absoluta de que “ele” era o seu agressor, até ao trânsito em julgado “ele” presumir-se-ia sempre inocente. E se os advogados “dele” lhe chamassem mentirosa a si e às suas testemunhas e a achincalhassem, a si, verdadeira vítima?
A presunção da inocência, não é um absurdo, é um conceito, mas reconheça que quem está por fora do processo tem o direito de, de uma forma não técnica nem jurídica, presumir a culpabilidade.

Cumprimentos.

PS. Todos os comentários feitos nos blogs não são mais que comentários de bancada. Apesar do nickname PreDatado, não sou um cidadão anónimo. Tenho o meu e-mail na página e pelo qual pode aceder ao meu perfil, incluindo nome. Desta bancada não me ouvirá chamar nomes aos árbitros, ou ofender, gratuitamente pessoas, enquanto pessoas, mas terei sempre uma “pedra”, neste caso feita palavra, para jogar contra quem tentar tolher o meu livre pensamento.

terça-feira, junho 01, 2004

411. Recordações

Eu não sou nada destas coisas de dia internacional disto, dia internacional daquilo. Não sou nadinha mesmo. Mas o de hoje é assim meio carinhoso. Sou um bocado sensível, sei lá. Acho que é a criança que tenho em mim que me dá para o sentimento. É que eu também já fui criança. Posso provar:


410. Tamém sou quiança.

Ce calar só vou quevêre éta postagem oje. Poque oje é o dia da quiança e eu inda não apendi a quevêre. Vou masé ali bincare cus meus carinhos e vêre sa minha namuada quére bincar aos pais e às mains. Oje é dia de bincadeira não é para mobigarem a quevêre. Se quiserem ofecerme um livo e uns lápis de coi es para eu riscare, obigadinho.
À o pué datado manda eu dai bom dia pa todas e pa todos os amigos dele e pás quianças de todo mundo.

segunda-feira, maio 31, 2004

409. Vergonha!

A vergonha e a falta de vergonha parecem contraditórias mas estão ambas instaladas. Em primeiro quero vos dizer que acho esta discriminação entre crianças de Cascais e crianças do resto do país uma infâmia. Considerar que há a possibilidade de serem violadas crianças fora do Concelho de Cascais e que as do Concelho de Cascais são imunes, só poderia ser em Portugal. Em segundo lugar, toda esta redução do número de crimes, pelos quais ficam indiciados e sujeitos a julgamento os arguidos do processo Casa Pia, se não fosse triste e dramático dar-me-ia vontade de rir. Actualmente num regime democrático e num estado dito de direito, um Ministério Público e uma Polícia Judiciária que investigaram, compilaram dados, juntaram provas, testemunhos etc etc, vêem todo esse trabalho, quase cair por terra, por uma única pessoa que conhece o processo há escassíssimos meses. Estamos em face de novas omnipotências incompreensíveis, a não ser pelos buracos todos que as nossas leis apresentam. Nisto tudo só acredito nas crianças molestadas. Eu já não acreditava na Justiça. Continuo rigorosamente no mesmo patamar, isto é, continuo a não acreditar.
408. Lunch Time Blog

Coitado do pato. Se um tipo cai numa armadilha, tem logo alguém à perna que lhe diz ‘caíste que nem um pato’. Se um indivíduo apresenta um comportamento provinciano (no sentido pejorativo), tem logo alguém a chamar-lhe ‘pato bravo’. Expressão idêntica serve para designar os construtores civis, ou alguém que conduzindo um Mercedes, apresente um ar bonacheirão ou conduza mal, aliás pior que os outros. Se alguém pagou o que eu devia pagar, a comida ‘soube-me a pato’. A única expressão simpática que conheço para o bichinho é quando, carinhosamente, a mãe, na praia, gaba a presença das crias na água ‘passam lá o dia todo, parecem uns patinhos’. Até os nossos irmãos brasileiros lhe trocaram o nome e chamam-lhes marrecos. Logo eu que gosto tanto destes corcundinhas desfiadinhos, misturados com arroz e cozinhados no forno. Hoje o meu almoço só pecava por a travessa não trazer uma pequena rodelinha de chouriço e uma pequena fatia de toucinho que, além do embelezamento do recipiente “fornífero”, deixa um aroma que as pituitárias agradecem. Repeti o Quinta da Caniça, tinto, por ter gostado antes e, porque em equipa que ganha não se mexe… às vezes.

PS. Schubert, estou com saudades tuas. Foi um fim-de-semana de grandes cumplicidades, ambos a subirmos as árvores. Imagina a cumplicidade quando tu tiveres idade de ires às gatas. Cala-te boca.
407. Bom Dia!

Fomos de fim-de-semana ao Alentejo e eu tive saudades deste meu espacinho. Há uma relação entre mim e a folha de Word de há vários anos, mesmo antes de haver blogs na net, ou pelo menos antes de serem conhecidos, que me deixa quase em delirium tremens quando não a uso. Já me estou a imaginar na semana que vem, que vou passar inteirinha na Madeira, eu a tomar a minha metadona-block-notas de substituição. Se alguém conhecer algum centro tipo Viciados na Escrita Anónimos ou Centro de Recuperação dos Types, por favor avise-me. Por agora quero vos desejar, amigos leitores e amigas leitoras, um óptimo dia e, obviamente, uma estupenda semana.

PS. Por acaso não costumo escrever pêésses nos bons dias, mas desta vez, o inevitável Schubert merece também que eu lhe dê uma abraçode solidariedade pela perda da liberdade que usufruiu esta semana, quando ao ar livre fez novas descobertas, como a de andar à caça de gafanhotos, ou a aprender a subir às árvores. Gato que é gato tem tudo o que é felino nos genes mesmo que seja um gato caseiro. Bom dia Schubert!

sexta-feira, maio 28, 2004

406. Primos (por afinidade)

O João adoptou mais um gato. Lá deu uma voltinha na Internet e a ex-dona veio de Mafra trazê-lo ao Técnico, para dar ao João. O gatinho, que será primo do Schubert por afinidade já está em casa da avó. Da avó do João, é bom de ver. A minha mãe que já tem 8 netos e 1 bisneta tem agora um bisneto, por afinidade também. Ainda não sei qual vai ser o nome do bichano. Por mim seria Joan Sebastian Tarech, mas conhecido por Tareco. Mas será a avó, por afinidade, quem lhe escolherá o nome. Depois, eu aqui, nas minhas postagens irei dando notícias. Quanto ao Schubert não recebeu o primo (por afinidade) lá muito bem. Olhou com desconfiança, cheirou, cheirou e pfffffffffffff… Acho que era ciúme.

PS. Hoje almocei espetada de lulas. Estavam deliciosas. Amanhã irei para o Alentejo. Quem sabe o Lunch Time Blog regresse, hein? Sabem ando com pouca afinidade com a escrita.
405. Bom Dia!

Depois da festa a gente acaba sempre por se sentir um pouco cansado. Mistura o whisky com o champanhe, empanturra-se de doces, dois dedos de conversa fora de horas e o inevitável arrumar da tralha. Por isso este vosso amigo acordou bem manhã dentro e só agora pode vir aqui desejar-vos um óptimo dia. Com a consolação da ciática não o estar a apoquentar. Deve estar ainda anestesiada.

quinta-feira, maio 27, 2004

404. Bom Dia!

§ Parágrafo Único.

A enfermeira telefonou-lhe cerca das duas e meia da tarde. Ele estava a almoçar na cantina da Alfredo da Costa, pediu para a aguentarem um pouco, mas passados 10 minutos já estava a entrar na clínica. Perguntou-me se eu queria entrar. Não me senti suficientemente corajoso para o fazer. Fiquei na sala, andando de um lado para o outro, fumando cigarro atrás de cigarro. Os nervos à flor da pele, a ansiedade. Poucos minutos depois, a recepcionista informou-me, ‘nasceu, é uma menina’. Tremi ainda mais. Algumas lágrimas, de alegria, humedeciam-me os olhos . Depois as habituais perguntas, que ajudam a descansar a alma, ‘como correu? A mãe está bem? A menina está boa? Etc. etc.’ Aproximei-me do corredor, não sei bem como, talvez caminhando sobre algumas nuvens, a cama vinha já rolando em direcção à enfermaria. Mãe e filha lindas, lindas, lindas. ‘Se for tão difícil como foi, quero ter meia dúzia de filhos’. Estava feliz, um sorriso cobria-lhe todo o rosto. A menina vinha de olhinho fechado, colada a ela e era linda. Linda! Hoje, no dia 27 de Maio de 1981 este vosso amigo foi pai pela primeira vez. Ela continua linda e hoje, no dia do seu 23º aniversário, desejo-lhe um dia muito feliz. Parabéns minha querida filha!

PS único. Também para vós amigas leitoras e amigos leitores, desejo um óptimo dia, na partilha desta minha felicidade.

quarta-feira, maio 26, 2004

403. Taça

Parabens FCP, mereceram. Mas porra que aquela taça brilhava que parecia um espelho.
402. Datas!

Aquele garotinho filho de um amigo meu, de quem já vos tenho falado e que costuma dar puns, quando o Mourinho fala (este fim de semana surpreendeu-me, também estava a dar puns, enquanto passava um congresso, ou lá o que era aquilo, na televisão), tem a mania de me chamar tio.
Eu já lhe disse, ‘ó Diogo Gonçalo, o menino ou deixa de me chamar tio, ou pára de dar puns, isso não fica bem a um menino que mora em Telheiras’. Pois o DG (ai a mãe dele se ler isto… o que ela se irrita de eu chamar DG ao fedelho, ó tio Pré o menino é Diogo Gonçalo não é DG), como eu estava a contar, o DG ainda não fala muito bem e em vez de me chamar Tio Pré, chama-me tio puré. Eu que sou extremamente cuidadoso com a alimentação, peguei imediatamente na caixa da Knorr e ufa! até respirei de alivio: 4 / 6. Ainda estou dentro do prazo de validade.

PS. Isto é só para vocês verem, como o gajo é embirrento. Por acaso, lavo sempre as mãos antes de pegar em qualquer alimento, mesmo que seja em latas, pacotes ou caixas. E enquanto lavei as mãos, olhei para ele e ele mostra-me 6 do 4. Não é cretino o meu espelho?
401. Bom Dia!

Hoje estou a pensar em ir cortar o cabelo. Ainda não sei se vou. Estou com algum medo. A barbearia onde vou (o dono prefere que lhe chamemos cabeleireiro de homens, mas eu não me ajeito, sei lá) tem espelhos por tudo quanto é lado. E se eles desatam a falar comigo?

- Hoje vais cortar o cabelo…
- Vou, como é que sabes?
- Nunca reparaste na figura ridícula que me fazes fazer?

(Um espelho a achar-se ridículo! Onde já chegou a cretinice de um espelho se achar ridículo e principalmente onde chegou a insolência de me responsabilizar por tal),

- Tu? E eu não? – ripostei.
- Eu preocupo-me com a minha imagem.

Disse-me isto com um desdém que só me apeteceu pegar no frasco do after shave e atirar-lhe à cara. Depois pensei, ‘se o faço, parto-o e depois com quem é que eu vou conversar?’ Pousei o frasco lentamente sobre a bancada, apoiei as duas mãos sobre a bacia, olhei-o, olhos nos olhos, ambas as melenas completamente desgrenhadas e pensei de novo (ultimamente ando muito pensativo) ‘talvez melhoremos os dois de imagem, e assim todos bonitinhos poderemos desejar a uma só voz, muito bom dia às nossas amigas leitoras e aos nosso amigos leitores’.
400. Surpresa!

My dear thank you!!!!!! Eu não acredito, não acredito mesmo. Até fui ao espelho dar duas bofetadas na cara para ver se estava acordado. A vieira do mar, pôs como música de fundo Here Comes de Sun. Mais logo vai estar bom dia. Thank you my dear! Mereces o post 400, ai mereces, mereces.

terça-feira, maio 25, 2004

399. Imperceptível

- De novo?
- Não posso?
- Podes!

Não percebo porque é que está sempre a meter-se comigo. De há uns dias a esta parte, não me posso aproximar dele. Está embirrento. Fui só cortar um pequeno pelo que me saía do ouvido direito.

- Cuidado!, gritou o espelho.
- O que é agora?
- Torces a espinha.
- O que tens com isso?

Não sabia que ele se preocupava tanto com a minha coluna. Ficou amuado coitado, ele que estava apenas a cuidar de mim. Virou-me as costas, não sem antes ter dito algo quase imperceptível. Fui ao Google, tentar perceber o que ele me tinha dito.
398. Espelhos

‘Duas namoradas que tive tinham gosto pela escrita…’ – Disperso – As minhas não, meu querido. Gostavam mais de oral.

‘É absolutamente proibido usar, neste Verão, chinelas de salto alto…’ – Papoila – Juro que não vou usar. Eu cumpro as leis.

‘Coloca à prova toda a tua cultura musical…’ – Robina – Sou um inculto compulsivo. Não acertei nenhuma.

‘Eu neste lugar exilium em mim…’ – Ágora – Vou estudar latim, começar em exilium e terminar em mim. Novo espelho?

‘You're looking kinda lonely girl…’ – Batukada – pelo blog parece. Será o blog um espelho?

‘O que teria acontecido a Guevara se não tivesse sido assassinado?...’ - Aviz - Não sou bruxo, mas vou fazer um exercício. Depois publico os resultados.

‘Já tenho o Moët et Chandon no gelo…’ – Desassossegada – para mim pode ser D. Pérignon? Se não puder diz, que eu não sou esquisito.
397. Simétrico

Entrei no carro e um barulho estranho emanou dos altifalantes. Não sei o que era, nem me preocupei em saber. Saía da track 5. Deve ter sido o João quem pôs o CD no leitor. Se o pôs é porque o queria ouvir, por isso não o tirei. Não tenho vontade de tirar discos do leitor de CDs. Um condutor não fez piscas na rotunda e apesar do som da track 5, adivinhei para onde ele queria ir. Provavelmente não estava com suficiente atenção ao som que saía da track 5. Eu não costumo adivinhar coisas. Já tentei mas estou com medo que me acusem de bruxaria. Ultimamente andam a acusar-me de muitas coisas, mas desta vez eu juro que não fui eu quem pôs aquele disco no leitor. Tive dificuldade em sair do carro, porque a perna teima em doer-me, mas saí. Não ía almoçar no carro, para não me acusarem de sujar os estofos. Não o vi entrar na porta do prédio, deve ter entrado sorrateiro. Só dei por ele quando entramos ao mesmo tempo no elevador. Não sei porque é que ele entrou pela porta das traseiras e se aproximou tanto de mim. Olhei-o e disse-lhe, ‘hoje não tens tantas borbulhas’. Ele mexeu os lábios mas não emitiu qualquer som. Pelo menos eu não o ouvi, porque só a minha voz acompanhou o barulho do motor na subida. A vitela estava boa e o Palmela óptimo. Só não sei porque é que ele usa o risco à direita.
396. Bom Dia!

- Estás com uma cara horrível.
- Tu também, disse eu para o espelho.
- Mas a mim passa-me, basta que te vás embora.

O meu espelho a responder como se fosse gente. Logo o meu espelho que não pensa, a fazer um raciocínio lógico. Voltei para trás e fui-lhe responder à letra.

- És um insensível. Não sabes que não dormi esta noite?

Virei-lhe as costas. Este espelho irrita-me. A sua insensibilidade é aterradora. Só está bem comigo para me ajudar a ajeitar o nó da gravata. Até a pentear me contradiz. Faz sempre o risco no lado errado da cabeça. Mas nunca me vira as costas, é uma verdade. Ou se vira eu não vejo. Mas porque é que eu hoje acordei a embirrar com espelho? Que culpa é que ele tem da ciática não me ter deixado dormir? Que culpa é que ele tem de eu estar cheio de borbulhas?

E vós, amigas leitora e amigos leitores, que culpa é que tendes de eu hoje estar meio esfarrapado? Nenhuma evidentemente. Eu vim aqui para vos desejar um bom dia e, desculpem a sinceridade, também para me desejar um bom dia a mim próprio. É que bem preciso.

segunda-feira, maio 24, 2004

395. Sensações

Entrei no elevador, olhei para o espelho e senti-me um adolescente. Não, não é nada disso que podeis estar a pensar, não estou mais novo. Estou é com a testa e o rosto cheios de borbulhas.
Agora das duas, uma… ou então não. Poderá haver mais hipóteses. Mas pensei em duas. Poderá ser uma reacção alérgica a algum comprimido que tomei ou a algo que tenha comido. Poderá ser uma doença de criança, sei lá, tipo uma daquelas que a minha avó incluía na lenga-lenga ‘sarampo e sarampelo sete vezes vem ao pelo’. Mas que me lembre, já tive sarampo, varicela, rubéola, escarlatina e outras que não me lembro e até cálculos renais, hérnia discal (esta ainda tenho), hemorróidas e tosse convulsa, ou seja até tive bem mais de sete.
Vamos então pensar que possa ser a primeira hipótese. Suponhamos que é algum comprimido. Eu, excluindo a paroxetina (genérico), Triticum 100, Noctamide e Sedoxil, só tomo Pravacol, Nodulide e Nolotil. Claro, se não falar do Zurcal e do Ben-U-Ron e de umas fricções de Voltaren ou Bálsamo Analgésico, mas isso não são comprimidos. Ou quando me engano, como já aconteceu a semana passada o Micardis da minha Maria. Considerando que o Stodal é um mero xarope para a tosse, ainda por cima, homeopático, que apenas tomo uma vez por dia, ao deitar, nas noites em que me deito e, considerando ainda que lavo a cabeça sempre com o mesmo shampoo de aveia que compro no Lidl há mais de dois anos (não vale a pena fazer referência que ontem, experimentei o novo herbal, shampoo e acondicionador, cujas amostras promocionais me foram gentilmente deixadas na caixa do correio) e que o sabonete é Nívea creme, não estou a ver mesmo nenhuma razão para ter reacções alérgicas. A não ser que seja a segunda hipótese, algo que eu tenha comido. Mas tenho andado tão regrado. Só tenho comido carne de porco, enchidos e queijos, quase sempre alimentos grelhados ou fritos (os queijos não, evidentemente). Quase não tenho comido feijoadas, cozidos à portuguesa, favas com entrecosto e ervilhas com ovos. Assim não estou mesmo a ver o que possa ser. Devo precisar de alguma ajuda ou sugestão. Se algum médico me estiver a ler, dê-me uma pista por favor. Caso contrário, o melhor será ir à farmácia comprar um anti-alérgio, um anti-estamínico qualquer. Assim como assim, estou com a sensação que estou doente.
394. Bom Dia!

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

(…)

Eu que não sei cantar, que mal abro a boca os vizinhos começam a preencher um abaixo-assinado para me despejarem, que tenho de abrir as torneiras do chuveiro para que se pense que são as gotas de água a chorar quando solto os primeiros acordes, eu, dizia, acordei a cantar o fado. E não foi um fado qualquer, foi este bonito poema de Alexandre O’Neil. Começar o dia com poesia e com Lisboa só pode vir a ser um óptimo dia. E esses são os meus votos, hoje, para todos vós.