A Catarina colocou esta postagem ontem no 100nada. Atrevendo-me a citá-lo na sua totalidade para que não se perca o contexto, dou-lhe o benefício da dúvida. Até porque, apesar da postagem do Altino Torres, hoje em novo artigo que cita este último, a Catarina reitera o fundamental do primeiro post. Diz a Catarina:
Lembrei-me agora.
Se um inglês, espanhol, francês, americano, chinês, polaco, búlgaro, russo, japonês ou marciano encontrar um conterrâneo noutro país, mete conversa, fala, pergunta se é férias, se gosta, aconselha, enfim, comunica.
Se, noutro país, um português encontrar (ou, mais precisamente, verificar que nas redondezas está um desconhecido) outro português (vi centenas de cenas destas), diz para o lado: cala-te, cala-te que está ali um português.
Obviamente não vou fazer nenhum reparo nem ao texto de uma, nem ao texto de outro. Mas vou contar uma pequena história:
Esperávamos o início do musical Cats, que começaria às seis e meia da tarde, cedo demais para jantar e, terminaria depois das dez, tarde demais para jantar, quando decidimos que o melhor seria comer uma bucha (a fome, a mim, desconcentra-me e do Cats não se pode perder pitada). Discutíamos as escolhas já dentro do snack-bar, em português, of course, e depois, nas calmas e como era evidente, pedi a comida em inglês (com aquele sotaque do sul, percebem?). No final perguntei ao barman ‘Do you have express coffee?’ (assim, com sotaque, estão a ver?). Ele respondeu-me ‘Uma óptima bica’. Depois ficamos dois minutos à conversa, que o snack estava cheiinho e nós na hora de irmos para o teatro. Poderia contar outras, tenho até uma delas, publicada aqui, mas fica para a próxima.
PS. Já lá voltei. Os donos não eram os mesmos. O novo dono, à época, um mexicano a quem o snack tinha sido trespassado, falou-me com entusiasmo dos ex-proprietários.
Estradas de terra e alcatrão, veredas de lage, nos confins das serras. Estradas de nuvens que não se palmilham, onde a vontade de planar nos transforma em virtuais garajaus. Ruas de água que escorrem da montanha em percursos livres ou direccionados por mãos que dão de beber à vinha. Caminhos de banana, azinhagas de vinho, auto-estradas de hortênsias, túneis de fetos. Pistas de mar, largo, profundo, manhoso, traiçoeiro. A vedeta da marinha, sem sucesso, atravessou a manhã, infiltrou-se na tarde, penetrou a noite. Companheiros clamam o corpo jovem que a espuma não lavou, só levou. O mar é assim e nem todos conseguem vencer o Adamastor. Tinha 19 anos, desafiou os caminhos lêvedos, um pé no lugar errado da via, a traição da vaga à espreita por detrás do ilhéu. Boaventura é só um nome de terra. Aventureiro como o fora tantos e tantos anos. Mal-aventurado aquele dia de 5ª feira, 10 de Junho, que poderia ser o dia dos portugueses. Não foi definitivamente o dia dele. RIP.
Jorge Porco era um leitãozinho rosado que morava com Papai Porco, Mamãe Porco e seus irmãos Porco numa chácara no interior de Portugal. Quando Mamãe Porco estava grávida de Jorge e seus sete irmãos teve um sonho estranho: um anjo apareceu em uma nuvem ao nascer do sol. O anjo era humano - digo, tinha formas humanas. Não que fosse humano, você entende. Anjos não são humanos. Alguns são bem cruéis, até.
Se Adão existiu ele viveu numa ilha portuguesa. Numa das nove açorianas, ou na ilha da madeira. Quase que me apetecia aqui escrever um texto romântico. Olhas para o lado e as heras sobem aos postes feitos de abeto. No outro uma nuvem cobre-te a melena transforma-a em chapéu de algodão. Sais de casa, vais às Queimadas, não vês o Fujiama, mas ele não te interessa. Conversas com os lagos, beijas as estrelícias, abraças-te às margaridas, deitas-te ao som melodioso dos pássaros. Olhas à tua volta, tudo é verde, tudo é lilás, tudo é amarelo, tudo é vermelho, tudo é arco-íris. Apetece-te caminhar a pé, e vais aos caldeirões, ao verde e ao do inferno cujo paraíso o contradiz. Bebes ar em taças cristalinas das águas das levadas. Não te apetece abandonar o paraíso, sentas-te no chão e comes cerejas, pois maçã pode ser pecado. Tens uma mulher ao teu lado.
Um frigorífico para este senhor, uma máquina de lavar para esta senhora, para esta aqui um micro-ondas, ok, ok, um fogão em vez do micro-ondas. Esperem, acho que estou enganado, isto não é Madeira é Gondomar. Vou recomeçar, vamos lá ver se desta vez me saio bem. Os concelhos de Almada e do Seixal terão juntos, mais ou menos a mesma área da Madeira e também mais ou menos a mesma população da Madeira. Bem eu sei que estou a falar em mais ou menos, mas o rigor é inimigo da prosápia (anotem como uma máxima do PreDatado). Nestes dois concelhos, temos auto-estradas, estradas nacionais, variantes, comboio, autocarros e até vamos ter Metro. Mal comparado (cá está outro mais ou menos), a Madeira tem direito a ter as suas vias rápidas e os seus túneis. Acredito, sem ironia, que fazem falta às populações autóctones, já que a sua utilização pelos turistas lhes retira um bom bocado de Madeira. O Alberto João tem a Madeira transformada num imenso estaleiro. Ele é obras por tudo quanto é sítio. Dizem as más-línguas que com o dinheiro que lhes é enviado “por essa verborreia cooperativista de Lisboa”. As palavras entre aspas são do próprio Alberto João. Apesar de tudo ainda não vi os presidentes das Câmaras e Governadores Civis, respectivamente de Almada, Seixal e Setúbal, morderem da mesma forma na mão do dono que lhes dá de comer. As palavras que reproduzi acima (já sei que me vão perguntar: e o contexto? Mas também vos digo que o contexto não interessa para nada, pois seja ele qual for, utiliza sempre as mesmas frases), as palavras, dizia, foram proferidas durante a inauguração, na 5ªfeira passada, do novo túnel que liga a estrada da Eira do Serrado ao Curral das Freiras. Durante a referida inauguração, uma moradora, de ar humilde, e a modos que a pedir licença, Sr. Dr. que não quero ofender, mas sabe a minha casinha, sabe como é, não tem acessos, é uma miséria…’. ‘Ó secretário, aponte aí, uma estrada para esta senhora e rápido, ouviu?’. Pronto, mais um voto, o homem não desperdiça nada e, garantiram-me e eu acredito, a senhora terá a sua estrada. Pois Dr. Alfredo Monteiro, fique a saber que se quiser o meu voto nas próximas autárquicas, meta lá uma estação do novo metro na minha rua… ou então um micro-ondas.
Não,