Nem sei se a palavra existe. Chinchada, ir à chincha ou à xinxa. Hoje comi figos de S. João e lembrei-me desta. Antes de Almada estar transformada (como aliás todas as cidades dos arredores de Lisboa), numa betoneira de vários andares, antes de ser a cidade de betão que é, Almada era um aglomerado pequeno envolto por quintas. Há muitos, muitos anos. Os putos subiam valados, invadiam as quintas e iam à chincha. Isto é, directamente da árvore para o estômago. As ginjas, os damascos, os pêssegos, as maçãs (nessa época ainda havia maçãs), as peras. E os inevitáveis figos. Haviam figueiras por tudo quanto era sítio. E a malta ia à chinchada. Por acaso, este vosso escriba, não para se armar em santo, claro, confessa que não era muito dessas coisas. A ti Virgínia tinha uma quinta paredes-meias com a casa onde eu morava. Uma figueira entrava-me quase pela janela do quarto e nem assim eu lhe gamava os figos. A ti Virgínia era má como as cobras. Um dia, andava eu às azedas enquanto os outros putos andavam na chinchada, levei com um torrão no peito que nos meus oito anos de idade me fez derrubar e rebolar ribanceira a baixo. A dor de alma foi pior que a dor do peito. Logo eu que era tão quietinho. Nunca mais a figueira que me entrava no quarto deu figo de S. João que a ti Virgínia comesse ou vendesse. Lusco-fusco e lá estava esta alminha a saltar pela janela e a sacar todos quanto pudesse. E como eram bons, pele já rasgadinha, quase pretinhos. E granjolas!
PS 1. D. Crisálida não leia esta postagem. Quem ia à chicha era o outro teu filho. Eu não, eu era um santinho.
PS 2. Há algum direito que os figos de S. João estejam a 3,80 € o quilo?
PS 3. Ai apanhas, apanhas (private joke, ele sabe porquê). Um dia destes conto esta história.
A
Estradas de terra e alcatrão, veredas de lage, nos confins das serras. Estradas de nuvens que não se palmilham, onde a vontade de planar nos transforma em virtuais garajaus. Ruas de água que escorrem da montanha em percursos livres ou direccionados por mãos que dão de beber à vinha. Caminhos de banana, azinhagas de vinho, auto-estradas de hortênsias, túneis de fetos. Pistas de mar, largo, profundo, manhoso, traiçoeiro. A vedeta da marinha, sem sucesso, atravessou a manhã, infiltrou-se na tarde, penetrou a noite. Companheiros clamam o corpo jovem que a espuma não lavou, só levou. O mar é assim e nem todos conseguem vencer o Adamastor. Tinha 19 anos, desafiou os caminhos lêvedos, um pé no lugar errado da via, a traição da vaga à espreita por detrás do ilhéu. Boaventura é só um nome de terra. Aventureiro como o fora tantos e tantos anos. Mal-aventurado aquele dia de 5ª feira, 10 de Junho, que poderia ser o dia dos portugueses. Não foi definitivamente o dia dele. RIP.
Jorge Porco era um leitãozinho rosado que morava com Papai Porco, Mamãe Porco e seus irmãos Porco numa chácara no interior de Portugal. Quando Mamãe Porco estava grávida de Jorge e seus sete irmãos teve um sonho estranho: um anjo apareceu em uma nuvem ao nascer do sol. O anjo era humano - digo, tinha formas humanas. Não que fosse humano, você entende. Anjos não são humanos. Alguns são bem cruéis, até.
Se Adão existiu ele viveu numa ilha portuguesa. Numa das nove açorianas, ou na ilha da madeira. Quase que me apetecia aqui escrever um texto romântico. Olhas para o lado e as heras sobem aos postes feitos de abeto. No outro uma nuvem cobre-te a melena transforma-a em chapéu de algodão. Sais de casa, vais às Queimadas, não vês o Fujiama, mas ele não te interessa. Conversas com os lagos, beijas as estrelícias, abraças-te às margaridas, deitas-te ao som melodioso dos pássaros. Olhas à tua volta, tudo é verde, tudo é lilás, tudo é amarelo, tudo é vermelho, tudo é arco-íris. Apetece-te caminhar a pé, e vais aos caldeirões, ao verde e ao do inferno cujo paraíso o contradiz. Bebes ar em taças cristalinas das águas das levadas. Não te apetece abandonar o paraíso, sentas-te no chão e comes cerejas, pois maçã pode ser pecado. Tens uma mulher ao teu lado.