Olha blog, eu não te desprezei. Mas estás a ver, um gajo anda num curso, sai cedo de casa, chega tarde, depois quer ouvir as notícias da bola e as notícias do Santana. Notícias velhas, claro. Quase nem tenho tempo de pensar. Ando num vazio de ideias que tu nem imaginas. Ainda por cima está calor, derretem-se-me os poucos neurónios, é chegar a casa, meter a cabeça no frigorífico e esperar que uma cerveja fresca me faça rejuvenescer. Sabes blog que eu gosto de cerveja fresquinha? E num bar de praia à tardinha a olhar para o mar até que é bem melhor. Mas nem sempre é possível, e regressa-se a casa com a camisa molhada, direitinho ao duche (mesmo antes do frigorífico) e depois ao frigorífico, mesmo antes do sofá e depois ao sofá, mesmo antes do futebol, e depois ao futebol, mesmo antes do jantar, e depois ao jantar mesmo antes da conferência de imprensa do Santana. É o que se pode arranjar. Acho que nem há temas para escrever. Não acontece nada de novo. Os incêndios começaram, mas isso é novo? Fez-se alguma coisa desde o desastre do ano passado para melhorar a coisa? Então não é novo, é história velha. O Sadam Hussein está ser julgado. Mas isso é novo? O homem já está condenado, a pena já se sabe qual é, os americanos já determinaram. Não há novidades. O Sr. Presidente da República anda a ouvir personalidades, mas isso é novo? Não é, anda a ouvir desde sexta-feira, é coisa antiga, portanto. O Pacheco Pereira escreveu um artigo no público, anti-Santana, anti-ida de José Barroso para a Comissão. Mas isso é novo? Novo só no papel, o Pacheco Pereira anda a escrever isso desde Domingo…pobre país, o nosso, não é? Até a vitória de Portugal sobre a Holanda, já foi ontem, a próxima só será no Domingo. Não há novidades. Por isso amigo blog, é que não dá sequer para vir aqui escrever nada. Quem iria ler coisas velhas?
ou esta?
A
Estradas de terra e alcatrão, veredas de lage, nos confins das serras. Estradas de nuvens que não se palmilham, onde a vontade de planar nos transforma em virtuais garajaus. Ruas de água que escorrem da montanha em percursos livres ou direccionados por mãos que dão de beber à vinha. Caminhos de banana, azinhagas de vinho, auto-estradas de hortênsias, túneis de fetos. Pistas de mar, largo, profundo, manhoso, traiçoeiro. A vedeta da marinha, sem sucesso, atravessou a manhã, infiltrou-se na tarde, penetrou a noite. Companheiros clamam o corpo jovem que a espuma não lavou, só levou. O mar é assim e nem todos conseguem vencer o Adamastor. Tinha 19 anos, desafiou os caminhos lêvedos, um pé no lugar errado da via, a traição da vaga à espreita por detrás do ilhéu. Boaventura é só um nome de terra. Aventureiro como o fora tantos e tantos anos. Mal-aventurado aquele dia de 5ª feira, 10 de Junho, que poderia ser o dia dos portugueses. Não foi definitivamente o dia dele. RIP.
Jorge Porco era um leitãozinho rosado que morava com Papai Porco, Mamãe Porco e seus irmãos Porco numa chácara no interior de Portugal. Quando Mamãe Porco estava grávida de Jorge e seus sete irmãos teve um sonho estranho: um anjo apareceu em uma nuvem ao nascer do sol. O anjo era humano - digo, tinha formas humanas. Não que fosse humano, você entende. Anjos não são humanos. Alguns são bem cruéis, até.
Se Adão existiu ele viveu numa ilha portuguesa. Numa das nove açorianas, ou na ilha da madeira. Quase que me apetecia aqui escrever um texto romântico. Olhas para o lado e as heras sobem aos postes feitos de abeto. No outro uma nuvem cobre-te a melena transforma-a em chapéu de algodão. Sais de casa, vais às Queimadas, não vês o Fujiama, mas ele não te interessa. Conversas com os lagos, beijas as estrelícias, abraças-te às margaridas, deitas-te ao som melodioso dos pássaros. Olhas à tua volta, tudo é verde, tudo é lilás, tudo é amarelo, tudo é vermelho, tudo é arco-íris. Apetece-te caminhar a pé, e vais aos caldeirões, ao verde e ao do inferno cujo paraíso o contradiz. Bebes ar em taças cristalinas das águas das levadas. Não te apetece abandonar o paraíso, sentas-te no chão e comes cerejas, pois maçã pode ser pecado. Tens uma mulher ao teu lado.