segunda-feira, setembro 06, 2004

565. Véspera

Ela irá com um vestido branco. Uma coroa de brilhantes na cabeça. Um bonito boquet de flores vermelhas na mão. Eu não a vi ainda. Dizem que dá azar. Vou esperá-la à porta da igreja. Não irei de calções e pólo. Os meus pais não iriam achar piada nenhuma. Ela abanaria a cabeça e gritaria lá do fundo: Maluco! Como ela costuma reagir ás minhas extravagâncias. A minha mãe ofereceu-me um fato azul. Com colete e tudo. A camisa é branca e a gravata de um cinzento claro. Formal, mas discreto. Aos convidados foi-lhes dito que o traje era “business casual”. Nada de cerimónias. Se pudesse teria eu próprio ido de calções. Estava um calor quase tropical. Ela vinha deslumbrante. Não mais bonita do que era. Mas bonita de morrer. Queria poder tê-la possuído logo ali. Mas havia testemunhas demais e nenhuma era luar. A igreja irá ser engalanada esta noite. Com flores, para receber uma flor. Perfumarão as galerias de mil cheiros que os perfumes das damas e as águas dos cavalheiros não se sobreporão. Apenas uma flor cheirará mais bem. Curiosamente não estou nervoso. Apenas me vou “esquecer” de cortar a barba, mas não irei de calções. Um padre irá abençoar as alianças, mas a aliança fi-la eu com ela. Até que a morte nos separe. Tocará uma música nupcial quando ela entrar. A música é só para ela, eu não ouvirei os sons, seguir-lhe-ei os passos, compassados e o sorriso. Será amanhã.

domingo, setembro 05, 2004

564. Dois dias

Chegava tarde das aulas, longe ia a noite e tu esperavas-me. Dois toques na janela e qual Julieta esperando Romeu, as janelas abriam-se. Não eram precisas escadas, a janela era baixa, o suficiente para os meus lábios se colarem aos teus. Num abraço, com parapeito de permeio, transportávamo-nos ao tempo dos nossos pais, não, talvez ao dos nossos avós. Era engraçado namorar à janela e riamo-nos com isso. Mas o prazer de te ver, o brilho que o sono não conseguia eliminar dos teus olhos, a voz sussurrada que não acordava ninguém ao redor, o passar a mão nos teus suaves cabelos, o perdermo-nos num beijo longo, compensava o frio ou a chuva que nos acompanhava. Os corações estavam quentes e a chuva apenas causava inundações de paixão. Depois, como que escravizados pelos ponteiros do relógio despedíamo-nos. Mas a nossa teimosa vontade de lutar contra grilhetas vulgarizava os esclavagistas relógios, quase os humilhava. E ao telefone namorávamos noite dentro. Faltam dois dias.

sábado, setembro 04, 2004

563. Três dias

O monstro de ferro flutuante já se afastava da costa. Quase não tive tempo para te dar um beijo. Foi tudo tão de repente. Cheguei a alimentar uma ténue esperança de que a pequena avaria que tínhamos a bordo, obrigasse o comandante a dar meia volta e rumar ao local da partida. Poderia te abraçar de novo, beijar-te de novo, ficares no meu colo de novo, acariciar-te, mimar-te. Mas não. Segui viagem; só muitos, muitos dias depois voltei a saber de ti, só muitos dias depois voltaste a saber de mim. A hora da distribuição do correio era a hora da festa. Era a tua chegada. Recebia sempre um monte de folhas escritas, com tinta de paixão, tinta de palavras permanentes (tu não tens um blog, mas escreves muito mais do que eu). E como as palavras me beijavam! Letras, desenhadas com lábios que murmuravam saudade, letras que, no silêncio do meu quarto, me despertavam desejo, letras que, desenhadas, me traziam tu mesma. Quando a última frase encerrava o reencontro, eu voltava à primeira linha e tinha-te ali de novo. Porque te queria eternamente junto a mim.

Como são engraçados os caminhos da vida. Agora que te tenho todos os dias ao meu lado, escrevo-te. Sei que me lês. Quantas vezes cada palavra te beija, não sei. Faltam três dias.

sexta-feira, setembro 03, 2004

562. Senha número treze

A D. Conceição é uma velhinha de 80 anos. É de Moura, no Alentejo, mas vive na região de Almada há mais de 60 anos. Fala ainda com o sotaque com que nasceu. Todas as vezes que vou ao médico encontro-a no posto. Quase não pode andar devido a uma queda que deu. Tem imenso medo, pavor, mesmo, de escadas. Mora num 3º andar e há cerca de um ano caiu escada abaixo. “Por falta de luz”, contou ela. Eu conheço esta história há muito tempo. Desde a primeira vez que a vi. Repete-a sempre igual para todos os que esperam na sala. Uns riem-se, outros sentem pena, outros não reagem, indiferentes. Vai sempre à procura da Dr.ª Isabel, sem consulta marcada, em dias que a Dr.ª Isabel não dá consulta. Ou de avisadas, as funcionárias dizem-lhe que a Dr.ª não está. Faz da ida ao posto da caixa o seu passeio matinal. Um destes dias meti-me com ela. Ela queixa-se que não pode andar “Só Deus e eu é que sabemos…”. No entanto estava bem disposta. Convidei-a para bailarmos os dois nas próximas festas da vila. Deu uma gargalhada e foi o suficiente para me contar as histórias do tempo em que moça, “balhava e balhava bên”. De todas as vezes conta as agruras que passa com a filha. Mas há mais quem lhe conheça as histórias de vida ou quem já delas ouviu falar. Um deles, que esperava outra consulta com a senha número 13, “a filha é que tem a culpa; nem a luz paga à velha; só lhe quer é chupar o dinheiro da reforma”. Se calhar foi por isso que lhe deram o número 13.
561. Quatro dias

“Sôzé”, a minha voz tremia um pouco. Nesse tempo os rapazes pediam autorização para namorar. Andei-me a preparar uns quatro ou cinco dias. Deve vir desse tempo a minha mania de falar com o espelho. “Sôzé, venho aqui para lhe dizer que namoro com a sua filha”. “Não!”, gritava-me o espelho. “Assim não, rapaz. É muito directo, além de que não se trata de um pedido. Isso é uma afirmação”. Ficava desarmado. Tanto treino para nada. “Sôzé, como o senhor sabe…” “Não!”, interrompia-me de imediato o espelho, “Se ele sabe o que é que vais lá fazer?”. O dia aproximava-se e eu sem saber o que dizer. Afinal de contas era a primeira vez que eu enfrentava o pai da namorada. Já tínhamos falado do Benfica e do Sporting, ele já me tinha visto várias vezes chegar da escola com a filha ao lado, ele e o meu pai jogavam juntos às cartas, mas eu nem sabia se ele imaginava que eu lhe namorava a filha. “Sôzé, não sei se sabe por é que eu pedi para falar consigo…” . “Não!”, de novo o espelho, inflexível. “Vamos pôr os pontos nos is, rapazinho”. Finalmente, esperei que ele me desse uma dica. Até aqui sempre me atalhava o discurso, sempre me criticava a forma, sempre me apagava o conteúdo. “Em primeiro lugar, pára com essa história de sôzé. Há uma certa formalidade no acto. Deves começar com Senhor José. Não deves entrar directo no assunto. Arranja uma conversa de introdução que o deixe bem disposto e receptivo e, quando ele estiver com as guardas em baixo, vais direito ao assunto”. Uma lâmpada acendeu-se dentro da caixinha dos neurónios. Afinal de contas o Sporting tinha ganho na semana anterior ao meu Glorioso e o pai dela era lagarto. Ia ser doloroso, mas…

- Sôzé, a voz tremia, então lá ganharam no Domingo hein? (não consegui evitar o Sôzé; falar de futebol e começar com senhor José, não me parecia compatível, sei lá, não me dava jeito).
- É pá, aquilo é que foi uma vitória – não disse mais nada, mas viu-se-lhe um brilhozinho nos olhos.
Homem de poucas falas, não me deu hipóteses de continuar a desenvolver o fait-divers preparado com todo o cuidado. Naquele momento, apeteceu-me sair, dirigir-me ao espelho e dar-lhe uma daquelas descomposturas que ele nunca mais esqueceria por muitos anos que vivesse. No entanto, apenas em pensamento, o mandei bugiar.
- Sôzé, o senhor já me tem visto várias vezes com a sua filha. Eu e a Maria, gostamos um do outro. Não gostaria que o senhor viesse a saber de outra maneira. Foi por isso que pedi para falar consigo. E para lhe pedir permissão para vir cá a casa, namorar com ela – tudo seguido, em rajada, sem respirar e com a voz a sumir-se a cada sílaba que passava.

Nesse tempo ainda se pedia ao futuro sogro, autorização para namorar. Todos estes anos passados e ainda namoramos. Faltam 4 dias.

quinta-feira, setembro 02, 2004

560. Cinco Dias

Invadia-te a casa, o teu espaço, o teu canto. E tu invadias-me de tremores, de emoção, de desejos (mantêm-se intactos, em novas dimensões). Nunca te admiras dos meus espelhos pois sabes que sempre foram meus cúmplices. E teus cúmplices. Eram testemunhas mudas, de incalculável prestabilidade. Eram eles que permitiam que os cantos dos nossos olhos se apercebessem dos intrusos, dos vigilantes, dos desmancha-prazeres. Exacto, esta é a palavra-chave, a verdadeira. Desmancha-prazeres. E no quase silêncio da noite quando os espelhos não mais são precisos, os perfumes que a libido exala, o quase silêncio quebrado pela respiração que se ouve, alterada, arrítmica, sensual, e uma mão na boca tentando vedar sons que não se podem ouvir, numa censura de coronéis. Uma mistura extrema dos sentidos. O tacto, o veludo do teu corpo (nunca chegamos a acordo; és tu que dizes que as minhas mãos são aveludadas; eu nego; é a tua pele, veludo, cetim, seda pura). Depois…depois o ajeitar dos corpos, o olhar maroto de olhos trespassando olhos e o rubor que se esvai. E os espelhos mudos. No fim banhávamos a atmosfera com uma musica calma que saía da rádio. Ou que sempre lá esteve, sem que ninguém desse por isso. E se havia lua íamos observá-la. As estrelas que no seu brilhar pareciam ensaiar uma dança silenciosa, tinham sido observadas momentos antes. Momentos. Faltam 5 dias.

quarta-feira, setembro 01, 2004

559. Seis dias

Ela com uma infusa eu com outra, um braço sobre o seu ombro, outro que me enrola a cintura. O trilho marcado no restolho doirado foi feito por pés de pares e pares de pés, uns mais ligeiros, outros arrastados. A velha curvada, de lenço negro na cabeça e de negro também vestida, que o seu homem já se finara havia muito, parava ao longe para ver o casal parado. Se bandeava a cabeça reprovadora ou se sorria em sinal de consentimento não o sabíamos. O lusco-fusco e a distância, o céu vermelho e anil, manchado de pôr-do-sol, só desenhavam o vulto e o negro na planura. Um abraço que não se desfazia, os lábios que se não descolavam, no cruzamento de um ‘boa noite, meninos’, dois corpos que pareciam um, não fora as inclinadas cabeças o denunciarem. O percorrer da pele na pele, de dedos explorando percursos proibidos, de mãos irrequietas, o beijo que teimava em não findar. A água fresca, que a bica debitava, trespassava já a boca da bilha, desenhando um sulco cristalino na direcção do barranco. Amanhã cedo os pardais, os milharocos e os rabilongos viriam beber, saciar uma sede que, de diferente da nossa, não se bastaria de beijo. Beijariam as gotas orvalhadas, as águas correntes no barranco e rabilongos com rabilongas, milharocos com milharocas, pardais com pardocas nunca haveriam de conhecer o sabor dos lábios dela. E quando o luar invejoso queria também beijar, já tardava, bastaria agradecer essa natural lamparina que o trilho não se via no rastolho pardo, que doirado era antes. Indiferentes ao círculo que a lua riscava lá em cima, beijávamos de novo e as sombras desenhavam um estranho bailado. Faltam seis dias.
558. Mimosa

Este post, não me é indiferente...

terça-feira, agosto 31, 2004

557. Sete dias.

Ela entrava descalça no rio. A cada movimento, mais ou menos brusco, que deslumbrava sob as águas límpidas e cristalinas do Guadiana, ali onde as azenhas bebiam da corrente, tremia-lhe o corpo e apertava-me mais a mão. Quase entrava em pânico quando uma cobra de água sorrateira ou distraída deslizava como se lhe passasse debaixo dos pés. Pegava-a ao colo e caminhava com ela nos braços até ás pequenas ilhas de juncos e canaviais, nossos esconderijos. As vozes dos garotos, que se ouviam, ao longe, abafadas pela água cadente das pequenas cachoeiras que caíam das azenhas, para os lagos que o baixio paria, eram a única música que ouvíamos. E apetecia-nos dançar. Abraçávamo-nos num estranho balançar de corpos e sensual enlace. Depois procurávamos comodamente onde nos sentássemos, pés na água brincando como crianças e o abraço transformava-se em beijo. E ficávamos exarando os cheiros do aloendro, do rosmaninho que crescia nas margens, do verde do juncal no misto com o suor dos nossos corpos. E beijávamos. Faltam sete dias.
556. Breves de fim de mês

O Paulo Portas fez mais pela divulgação do nome de Portugal em 12 milhas marítimas do que o Francis Obikweli em 100 metros Proponho-lhe a atribuição de um balde de plástico (desculpa ó Portas mas as medalhas já acabaram).

Agora sou eu quem não já não percebe nada. Não foi o Ministério Público quem interpôs acção contra os arguidos do processo Casa Pia? Agora uma juíza quer mandar prender de novo e o MP já não quer? Macacos me mordam se eu percebo alguma coisa de leis.

As vezes que eu tive que me confessar ao padre só porque dizia à minha mãe que era o gato que comia os bolos todos. Com tantos padres-nossos e ave-marias apanhei o santo vício de não mentir. Agora são os padres que mentem.

Tadinhos. Olha eu aqui cheio de pena deles. Até as lágrimas me vieram aos olhos (já sei que me vais chamar chorão, Arminda).

Quando li o título, confesso que me intriguei: como é que pessoas tão velhinhas conseguiam combater fogos? Depois tudo se esclareceu e ficam aqui registados os meus parabéns.

Durante um mês… ou mais, os jornais desportivos “compraram” um jogador por dia para o Glorioso SL Benfica. Mas o Pintinho é que sabe. Quem não tem dinheiro não tem vícios.

O Rocha já voltou de férias e ainda não me convidou para almoçar. Nem actualizou o blog. Vê lá se te despachas que eu quero ver as fotos. E estou cheio de fome.


segunda-feira, agosto 30, 2004

555. Ele há dias assim

Por acaso hoje tenho andado numa de falta de inspiração. Haviam tantos temas que eu gostaria de trazer para aqui, mas a maioria é demasiado séria para ser tratado com a ligeireza de um blog não especialista. Para isso há os blogs dos experts, dos que fazem análise política, económica, desportiva, social e por aí fora. Eu de vez em quando faço umas referências, mas não tenho nem a capacidade para ir ao fundo das questões, nem os necessários e suficientes conhecimentos. No desporto, sou apenas, mais um, treinador de bancada. Na política sou um activo participante, uma vez que voto em todas as eleições. E acho isso o quanto basta. A partir daí já não temos mais voto na matéria. Da vida social, estiveram, um dia destes, uns amigos meus a explicarem-me quem era um tal de José Castelo Branco. Confesso que parti a moca a rir. Mas no final percebi que estavam todos a gozar comigo. Olha, olha, eles a pensarem que eu acredito em marcianos. Da sociedade civil em geral, sou um observador mais ou menos atento, mas tenho dificuldade em tratar certos temas sem dizer uma dúzia de palavrões. Por exemplo, que nomes iria eu, aqui, chamar a um ministro que retira um subsídio de invalidez a um homem paralítico e acamado, porque a mulher resolveu ganhar 60 contos por mês para não morrerem de fome? E, finalmente, em economia sou um zero à esquerda, aliás um espelho fiel do que vale a nossa economia: zero. Talvez pudesse falar da Justiça, da Saúde e da Educação, mas só me vem à memória aquela história de quando o Santana Lopes se começou a rir porque o Presidente Suíço lhe apresentou o Ministro da Marinha, uma vez que, não tendo a Suiça mar, como é que tinham um ministro da Marinha? Ao que o Presidente Suíço lhe terá respondido “Isso não vale, Dr. Santana Lopes. Eu também não me desatei a rir quando o senhor me apresentou os Ministros da Saúde, da Justiça e da Educação”. Bom, talvez escreva sobre literatura. Afinal de contas, esta semana, já li a TV +, a TV 7 dias, a TV Guia, a Lux, a Maria, a Nova Gente, a Ana, A Ana mais atrevida, a Flash, a Hola, e outras boas publicações, pelo que sou quase um especialista. Mas não, não falo, cairia o Carmo e a Trindade: “Ó Pré tu isto, ó Pré tu aquilo”, fazendo-me de facto limitar-me à minha insignificância. Podia escrever um poema, mas para arranjar uma rima vejo-me aflitíssimo e só me vem à cabeça uma quadra por acaso que nem é de minha autoria e por isso nem vou reproduzir aqui. E se eu não rimar, vêm logo com a conversa, “Ó Pré, estás armado em pós-moderno, ou quê?’. E eu fico acabrunhado, já se vê. Portanto resta-me falar de ciência. Era uma vez um gajo chamado Einstein… O quê? Já conhecem? Já sabem quem era? Então está decidido. Hoje não escrevo post nenhum. Ele há dias assim.

domingo, agosto 29, 2004

554. De repente

Como sabeis amigas leitoras e amigos leitores que me acompanham há alguns meses, eu sou fumador. Não vou aqui dissertar sobre os malefícios do tabaco, no seu todo, embora devesse escrever pelo menos um post por dia sobre isso. Mesmo que não convencesse ninguém, de tanto me flagelar, talvez eu me curasse dessa doença. Mas, como diz o nosso sábio povo, há males que vêm por bem. O fumo do cigarro, neste meu parco escritório-biblioteca, suja-me tudo. A minha Maria lava os cortinados todos os dois meses e, hoje, veio-me com a conversa de quem deveria lavar as paredes da sala era eu.

Passei os olhos pelas paredes, não as achei assim tão amareladas para merecer tamanho castigo, mas num relance olhei para a estante e vi que, algumas capas de livros, as quais eu tinha uma vaga ideia de serem brancas, já não o eram. Levantei-me para ver mais de perto, mas como sou um viciado em books, vai daí chamou-me a atenção um, que já li há uns bons pares de anos, chamado “Pelo Amor de Judith” de Meir Shalev. Já não me lembrava bem da história e fui ler a pequena súmula que vem na dobra da contracapa:

“Zaidé tem três pais. O que lhe deu o nome, o que lhe deu a vida e o que lhe contou a sua história. Três homens que amaram a sua mãe, Judith: Não sabe qual dos três é o seu verdadeiro pai…”

Depois, de repente veio-me toda a história à memória. Pensei ir relê-lo mas ficará para outra ocasião. Cheguei à conclusão que tenho boa memória (se calhar o tabaco não mata assim tantos neurónios, mas isso é para outra ocasião). O livro, recomendo-o vivamente.

E novamente de repente (como sabeis o pensamento voa mais rapidamente que o próprio repente), veio-me também à ideia que, no livro “Old Possum's Book of Practical Cats” de TS Eliot, ele diz que os gatos têm 3 nomes.

E assim de repente, lembrei-me também que já tenho bilhetes para ir ver o Cats em Outubro. E com esta, são 3 as vezes que vejo o Cats (roam-se de inveja, vá!).

Mas se, assim de repente, é tudo de 3 em 3, vou esperar que a minha Maria me diga mais duas vezes que as paredes precisam ser lavadas. Assim como assim, eu continuo a fumar….

sexta-feira, agosto 27, 2004

553. Lunch Time Blog

I’m so exciting. Imaginem que encontram na rua o Presidente da República, ou o Pedro Santana Lopes, que é quase a mesma coisa; ou então que está ali a cinco metros de vocês o José Mourinho, ou o Tony Blair, por exemplo, que fala quase tão bem inglês como o Mourinho; ou, por supuesto, o António Banderas ou o Joaquim de Almeida que falam quase tão bem espanhol com sotaque americano um como outro; ou, ainda, o Bill Gates ou então o Belmiro de Azevedo, assim tipo um Bill Gates à portuguesa; ou, já agora, o D. Duarte Nuno de Bragança, ou príncipe Carlos de Inglaterra, quer dizer, ambos são herdeiros mas não vão ter trono nenhum, ao que parece. Imaginem agora que um deles vos apertava a mão. Não seria excitante? Bolas, eu acho que sim! Eu nunca mais lavaria a mão que cumprimentasse uma figura destas. Mas não, desencantem-se porque não vi ninguém assim tão pouco interessante. Hoje enquanto almoçava o meu Bacalhau à Braz, almoçava também, numa mesa perto da minha, o Ricardo Araújo Pereira, do Gato Fedorento. Obviamente, fui cumprimentá-lo e agradecer-lhe os momentos de boa disposição que por conta dele e dos outros elementos do “seu grupo” e, também, por conta do meu filho saber quase de cor os sketchs do “Gato”, que passam no infelizmente pior canal de cabo que a TV nos oferece (juro que prefiro ver o Viver/Viver à SIC Radical), dizia eu, agradecer os momentos de boa disposição que me proporcionaram estas férias. Já agora quando é que o Gato Fedorento passa a dar num canal de jeito?

PS.
1. Nem precisava dizer que, é claro, lavei as mãos depois de almoçar. Mas que foi excitante cumprimentar o Ricardo, isso foi!
2. Schubert, bem sei que é uma heresia chamar fedorento a um gato. Cá para mim acho que os gajos encontraram um primo teu, abandonado numa fossa. E em vez de irem dar banho ao cão, quer dizer, ao gato, arejaram-no com algum do melhor humor que se faz aqui neste portugalinho.
552. O meu aplauso de hoje...

Para o post da Controversa Maresia colocado ontem, pelas 7:18 p.m., sem título. A vieira do mar, no seu melhor!
551. Esperanças

(I)

Acabei de ouvir que quando o vencedor dos 50 kms marcha, cortou a meta, um português de nome Manuel Martins, de 36 anos, estava ainda no km 35. Ora cá temos um jovem, a ganhar experiência para os jogos olímpicos de 2052. Ao que isto chegou...

(II)

Numa completamente a sério. O jovem Emanuel de 18 anos ficou em 7º lugar na final de k1 - 1000. Parabéns miúdo. Tens uma larga margem de progressão, assim continues a empenhar-te. Força.

quinta-feira, agosto 26, 2004

550. De novo Francis!

O meu amigo que é António e também é Silva, nasceu nos Estados Unidos da América e por lá viveu uma porção de anos. O pai é português e a mãe é brasileira. A páginas tantas, foram viver para o Rio de Janeiro, onde acabou de crescer, tendo-se radicado de vez em Portugal. Casou e por cá trabalha. Não faz atletismo, nem joga futebol. Tem, no entanto, tripla nacionalidade. Americana de nascimento, brasileira e portuguesa. Imaginemo-lo a ganhar uma medalha olímpica, com a camisa de Portugal. Deverá haver alguma contestação pelo facto de ter nascido na América? Deverão os brasileiros reivindicar para si a glória de mais uma medalha conquistada por um brasileiro embora vestindo a camisola de Portugal? E para os americanos mais medalha, menos medalha, aquece ou arrefece? Será que eles sabem que o António é americano?

Francis Obikweli nasceu na Nigéria. Vive e trabalha em Portugal. É filho, embora que adoptivo de um casal português (não é raro em Portugal, se adoptarem crianças de outras nacionalidades). Francis veio para Portugal com 16 anos. Podemos dizer, ainda uma criança. Correu e corre com a camisola de Portugal.

Tenho muito orgulho na medalha que conquistas-te. Desejo-te toda a sorte do mundo para logo à noite. Quero voltar a chorar de alegria, como quando te vi receber a medalha dos 100 metros. Força Francis! Força Portugal!

PS. Da mesma forma que não contive a lágrima com Sérgio Paulinho e com Rui Silva.

quarta-feira, agosto 25, 2004

549. Republicação e Contestação

Li hoje no blog da minha querida Papoila, o seguinte post que com a devida vénia republico:

(cito)

"Não há chapada nos comentários mas há nos mails...

recebi um mail cujo autor dizia que "os blogs (o meu especialmente, penso) são uma necessidade patética de chamar a atenção, e isso é irritante".

Caro leitor: quanto a essa treta de querer-ser-lido, comentado, admirado, massajado, eu explico: é tudo mentira!
O narcisismo existe, só que ele não está na vontade de sermos lidos. Ele está na necessidade de nos lermos."

(fim de citação)


E agora a minha contestação à resposta da Papoila. Eu quero ser lido! Olha o exemplo:

CV

Ex-oficial da marinha mercante, ex-director de informática de uma das maiores seguradoras europeias, ex-director de informática da mais conceituada marca japonesa de electrónica de consumo, ex-director da maior empresa de telecomunicações móveis privada, ex-director de informática do maior produtor de pasta de papel do país, consultor independente de sistemas de informação, senior surveyor em operações de carga e descarga de mercadorias, ex-professor de matemática no ensino secundário privado e no ensino superior privado, licenciado em engenharia electrotécnica, 49 anos, casado, encontra-se desempregado há 2 anos.

Podem considerar irritante esta chamada de atenção, patética ou não, mas é para ser lida. É mesmo!

terça-feira, agosto 24, 2004

548. Tenho de o aturar?

- Estou chateado contigo!

- Comigo? Porquê?

O espelho disse-me que estava zangado comigo e, apesar da minha interrogação, acreditei de imediato. Não esboçou qualquer sorriso (fá-lo sempre quando brinca ou quando está a ser sarcástico).

- És um mono!

Quem estava a começar a irritar-se era eu. Se alguma vez se viu um espelho chamar mono a quem lhe dá vida. No entanto, tentei manter a calma.

- Vais ter de me explicar isso melhor. Já te enfrentei hoje várias vezes e fechaste-te em copas e, é a estas horas da tarde que te apetece ofender-me.

Conhecem aqueles olhares penetrantes que parecem cuspir fogo quando nos fitam directos? Pois foi assim que o espelho me fitou. Senti-me trespassado. Quase adivinhei o porquê daquele ar. Ainda assim, esperei três segundos, três longos segundos que me deixaram demasiado ansioso.

- Todo o dia à espera que escrevesses algo de jeito e tu, sossegado no teu canto, que nem um armário. És um mono!

Afinal a montanha pariu um rato. Juro que pensei pior. Um dia vou ter de ter uma conversa séria com este “tipo”. Um blog não é uma fábrica de encher chouriços. E mesmo que fosse, nem sempre há matéria-prima. E hoje não houve. Por muitas voltas que as tripas dessem.
547. Chez PreDaté


Xorisso na canoa

Vinhos tintos, brancos e berde há preção.

Oje á caracois e caraculetas asadas.

Sandes de perzunto, qeijo e fiambre

Á bifanas guerlhadas ó feritas.

Tabaco só ó balcão.


Vou ali à tasca e já bolto. Tou cá cuma galga.

segunda-feira, agosto 23, 2004

546. Lunch Time Blog

Hoje fui almoçar ao Manel Zé. Como podem perceber pelo nome, trata-se de um restaurante de um tipicamente alentejano. A lista era alentejana, com pezinhos de coentrada e sopa de cação e tudo. Ao meu lado comia-se uma sopinha destas mas não cheirava a poejos. Falha do Manel Zé ou falha do cliente. Não perguntei a um, nem a outro. No serviço uns olhos verdes penetrantes, hipnotizadores sob umas sobrancelhas fartas. Um sorriso cativante, um corpo escultural. Hei-de voltar ao Manel Zé para tentar cheirar os poejos. Pode ter sido um erro momentâneo.

Fui lavar as mãos e inevitavelmente confrontei-me com o espelho.

- Charmoso!

- Já cá faltavas tu – ripostei, um tanto ao quanto surpreendido com um não sei quê de piropo, que me soou irónico.

- Charmoso, insistiu o espelho.

Olhei-o atentamente. Quis perceber o que é que ele queria, efectivamente dizer. E foi então que realmente entendi. A forte cor bronzeada fazia sobressair, da curta melena, os fios prateados que há algum tempo me vêm povoando a outrora castanha, quase mel, cabeleira. Só a gentileza e, aqui sim, com toda a propriedade, a elegância das mulheres bonitas, principalmente as mulheres interiormente bonitas, são capazes de chamar charme à idade. ‘Não lhe chamo velho, ele não merece; digamos que é um homem charmoso’.

- Ó rapaz, pareces uma gaja! – disse-lhe eu, piscando um olho e esperando uma reacção mais ou menos pateta, como tolo costuma ser o meu espelho.

- Uma gaja ponto e virgula; Uma lady, uma verdadeira lady.