terça-feira, setembro 14, 2004

582. Ser pai é,

- Ficar a tomar conta do puto, mudar-lhe a fralda e quando a mãe chega ele estar borrado até ao pescoço;

- Carregar com os vinte sacos do supermercado escada a cima, porque ele prefere o colo da mãe;

- Tentar convencê-los a ser do Benfica e ela preferir o Sporting, cedendo à chantagem da mama;

- Tirar do carro, armar o carrinho, tirá-los dos braços da mãe, pô-los no carrinho, apertar os cintos, empurrar o carrinho, dá-los para os braços da mãe, fechar o carrinho, meter o carrinho no carro;

- Ter a certeza que eles disseram primeiro papá do que mamã;

- Dizer estremunhado e virado para o outro lado “vê lá se acordas que a menina parece que está a chorar”;

- Dar-lhes um beijo antes de sair para o emprego, outro quando chega, afagar-lhes a cabeça e ficar a rezar para que ao Sábado ou ao Domingo eles não perguntem “mãe, este senhor que vem cá aos fins-de-semana é que é o pai?”

- Poder dizer “o teu filho já fez merda” quando eles fazem asneira e poder dizer “o meu filho é fixe”, quando eles fazem coisas boas;

- Não perceber porque é que a prancha de surf do ano passado já não serve; será que as ondas cresceram?

- Ampliar os armários da filha porque os cento e vinte pares de sapatos, chinelas, saias, blusas, vestidos, cuecas, soutiens e o diabo a sete, já não cabem no guarda-roupa;

- Pegar no berbequim, furar e apertar parafusos porque é preciso colocar os suportes da viola;

- Pagar as quotas do Sporting à filha, quando aquele dinheirinho era bem mais empregue numas jolas;

- Fazer-lhe o nó da primeira gravata;

- Dar uma de cota e explicar porque é que não quer que ele use brinco, porque é que não quer que ele use piercings, porque é que não quer que ele faça tatuagens.

- Emprestar-lhes o carro sempre que eles pedem e dar-lhes a chave mesmo quando eles não pedem, para poder ficar a sós com a mãe;

- Ter de ouvir rock punk hardcore em volume 17, quando está sentado no sofá a ler o jornal do fim-de-semana passado;

- Ficar babadinho até aos pés quando ela se licencia ou quando ele entra na universidade;

- Amar uma mulher que foi capaz de fazer as outras oitocentas e quarenta e duas coisas, aqui não relatadas e, que só ela “sabe” fazer.


(este post é dedicado à vieira do mar e por ricochete à papoila)
581. Orçamentos

- Olá, bem disposto?
- Cansado, mas feliz!
- Porquê tanta felicidade?

(o meu espelho, hoje nem estranhou de eu cortar a barba às 9h30; apenas reparou no meu ar de felicidade)

- Então não leste o meu post de baixo?
- Li sim, mas isso deixa-te feliz?
- Claro, os gajos tiveram que pagar 2 euros e meio, enquanto que eu só paguei 2 euros!
- Toma que já almoçaram!

(agora foi o meu espelho que exagerou. Eu posso estar feliz, mas não uso expressões tão popularuchas assim)

- E que me contas mais? – (insistiu)
- E agora meu querido espelho é que vão ser elas cá em casa!
- Cá em casa? O que é que cá em casa tem a ver com os Espíritos Santos? Viraste católico?

(eu não aguento isto. O espelho a fazer trocadilhos de mau gosto. Um gajo a falar a sério e ele sempre com piadinhas de algibeira. Estive quase para lhe virar as costas, mas..)

- Sim cá em casa; O João vai passar a pagar uma taxa por cada iogurte que comer. O mesmo vou fazer à Anita, nem que ela rejeite o jantar por achar que está gorda. Leva com um imposto-sobre-o-desperdício. E a Maria, se a apanho a comer uma torrada com manteiga, ao pequeno almoço, leva com a taxa-sobre- produtos-que-podem-causar-colestetrol. E no fim do ano vão passar a fazer uma declaração mod. 33, para pagarem o ISGED e o ISGPQNVAD.
. Que impostos são esses?!!!!

(desta vez admiti-lhe a interrogação pasmada que fez; de facto são dois novos impostos familiares, dos quais ele não tem conhecimento prévio. Ainda estão em estudo e só serão discutidos, cá em casa, no próximo plenário à mesa de jantar)

- Imposto-Sobre-Gastos-Em-Discotecas e Imposto-Sobre-Gastos-Para-Quem-Não-Vai-A-Discotecas.
- Ó Pré! (como é carinhoso o meu espelho, quando me trata por Pré). Tu levaste mesmo a sério aquela coisa do Bagão dizer que o Orçamento de Estado é como o Orçamento Familiar, não levaste?
580. Diferenciação positiva

Acabei de chegar do Centro de Saúde do Laranjeiro. Hoje estou feliz! Apesar de termos estado desde as 6 da manhã à chuva, na fila para marcar uma consulta, lá estive em amena cavaqueira com o Ricardo Espirito Santo Salgado, o Américo Amorim, o Belmiro de Azevedo e o não sei quantos de Mello (com dois éles, sim, com dois éles). Todos ali, na fila indiferentes à humidade da madrugada, para marcarmos as nossas consultazinhas. E toma! Eles pagaram uma taxa moderadora muito mais alta que eu.

(o Bagão, passou de carro e cumprimentou-nos; acho que não ficou nada admirado de ver gente tão rica num Centro de Saúde)

segunda-feira, setembro 13, 2004

579. Sou uma Estrela

Por sugestão do blog da minha amiga , fiz o quiz e sou:

The Star Card
You are the Star card. The Star is the light of
hope. Shining in the night, sending light into
darkness, the stars provide direction to
sailors and are a field on which to dream.
Humanity used to look up at the sky and desire
to be there, to find out what it all meant, and
now we have been a distance into space and have
elementary ideas of the makeup of all the
different stars. This kind of achievement adds
further fuel to our hopes. The eternal,
slow-moving stars that will be long shining
past the end of our own existence provide hope
of immortality, and the vast space they suggest
and the very mystery they hold provide us with
excitement and knowledge yet to be discovered.
Image from: Danielle Sylvie Taylor
http://members.limitless.org/~morpheum/gallery.html


Which Tarot Card Are You?
brought to you by Quizilla

Não está nada mal, não senhor.

- Ó Pre estás um bocado abichanado na foto, confessa!
( o meu espelho não tem tento na língua)
- Lá estás tu... hoje não estou para te aturar. Amanhã conversamos.
578. JanMarri Viãzici!

Ontem (e anteontem) fui visitar o Alentejo da minha Maria. A Tapada da Mina estava deliciosa, as águas claríssimas e, a temperatura, simplesmente de convidar a não sair. Além da banhoca, ainda deu para dormir uma soneca ao sol velado pelas ramagens de eucaliptos. Nesta época tem mais beleza, pois está menos cheia de gente e podemo-nos afundar no sono sem ser embalados por aquela “algarviada” de franciú misturado com alentejano.
577. Juro que não sou supersticioso

A propósito de nada lembro-me de histórias. Passo alguns bons bocados do meu tempo no escritório do meu amigo Rocha. Num desses dias, ele convidou-me a visitar um navio e, como é das normas de segurança e protecção pessoal, ele ofereceu-me umas luvas. Deixei-as em cima de uma secretária que costumo utilizar quando vou ao escritório. Um dia destes as instalações foram assaltadas. Vidros partidos, gavetas e armários revoltos, coisas pelo chão e outras que “voaram”. Vieram as autoridades, espalharam por aqui e por acolá o produto e… não havia impressões digitais. Sabemos quanto os ladrões, hoje em dia, são prevenidos. Alguns dias depois, no balanço do falta não falta, entre muitíssimas outras coisas, faltavam, também, as minhas luvas. Não bastava o jardineiro ter deixado a escada, com que sobe às árvores, à mão de semear, quanto mais eu deixar as luvas prontinhas a não deixar vestígios. Hoje, olhei para cima da secretária e vi que estavam lá umas luvas novas. Corri à janela para ver se o jardineiro tinha guardado as escadas. Não vá o diabo tecê-las.
576. Joaninha!!!!

A minha amiga Joaninha entrou directa em Belas Artes. Fiquei muito feliz! Parabéns para ela e para os pais dela.

sábado, setembro 11, 2004

575. Luto

Obviamente, hoje estou de luto. Estou de luto há três anos... ou mais. Se é verdade que Bin Laden me ofereceu o fato preto, também não é menos verdade que a camisa, a gravata, as meias e até os sapatos me foram oferecidos por outros. Peço desculpa se não vou aqui recordar todos os que me ofereceram tão negras vestes, mas não posso deixar de referir Bush, Sharon, Putin...

sexta-feira, setembro 10, 2004

574. Schubert...

Vou passar o fim de semana ao Alentejo, mas desta vez não te levo comigo. Sabes, meu querido, tu estás na idade de andar às gatas e nós estamos com receio que vás atrás de alguma e te esqueças do caminho de volta (lembras-te daquele gajo que saiu para comprar tabaco e só voltou ao fim de 20 anos?). Ou que te aconteça algo. Mas não vais ficar abandonado. A Fátima vem cá pelo menos duas vezes por dia visitar-te e dar-te de comer. Eu sei que vais estranhar a falta de companhia. Eu ainda nem saí de casa e já estou a sentir a tua falta. Mas a vida é assim meu caro gato. Há pessoas que abandonam animais, há pessoas que abandonam pessoas. Nós voltaremos para te mimar dentro de 48 horas. É só um instantinho.
573. Produtividade

Eu escrevi isto num comentário ao blog da Ana. Assim, de repente, apeteceu-me copiar para aqui. Só um incorrígivel produtivo.

"Eu estou desempregado há 2 anos. Já produzi 24 meses de inactividade. O que é obra! Pela teoria do primeiro ministro eu terei direito a um bom aumento... de tempo de desemprego. Esperam-me mais 15 anos assim? "

(a propósito dos aumentos segundo a produtividade)
572. À queima-roupa

O Sr. Carne publicou este post:

E disse-lhe a tia, à queima roupa:
"Olha, meu filho, a verdade é só uma: Um homem só é homem quando tem uma mulher!..."
# posted by carne @ 11:04 AM

E eu pergunto à referida tia: E se tiver duas? Ou mais? não é homem?

________

Um dia ouvi de um humorista brasileiro:

"Meu filho, você me pergunta quando é que você será um homem. Meu filho, pense, quando você jogar suas mãos nas suas partes baixas e você sentir, com nitidez, duas bolas, bem cheias, então, meu querido, aí você é um homem. Mas cuidado, porque se você achar quatro bolas, não pense que é o super-homem, não!"
571. Almoço animado

Hoje tive um almoço bastante animado. Não, amigas leitoras e amigos leitores, não é o que vós pensais. Não foi do álcool, até porque este vosso amigo agora dedicou-se às águas minerais e seus derivados. Entenda-se por derivados todas as bebidas que precisam do precioso líquido para se constituírem, como por exemplo o Capilé. Falou-se em reforma e na possibilidade de um indivíduo poder ser reformado se uma junta médica o considerasse gagá de todo. Estava eu a tentar congeminar uma táctica que me pudesse ser útil neste desiderato, quando um amigo meu me sugeriu: ‘porque é que não nomeias o Santana Lopes como primeiro-ministro?’ Terias a reforma garantida.

Mas ao almoço falou-se de mais coisas. Na reintegração das minorias étnicas. Na possibilidade de recuperarmos os trinta e tal anos de atraso que temos em relação a outros países acolhedores de emigrantes. O mesmo amigo achou que se deveria eleger Pinto da Costa para chefe do governo. Ele venderia 10 ao Chelsea, 8 ao Barcelona, alguns ao Manchester, quiçá ao Real Madrid. Em breve teríamos um número bem mais fácil de gerir. E equilibrávamos a balança de transações. Em alternativa, sugeriu que se denunciasse que todas as gajas que pertencessem às minorias fazem aborto. Aí o Paulo Portas mandava um tanque de guerra, um submarino ou um F-16 para a porta delas e elas seriam obrigadas a voltar para casa. Os gajos, naturalmente, acompanharem.

Falamos também das eleições para secretário-geral do PS. E fizemos apostas. A única dúvida, que o meu amigo tinha, era entre o poder da comunidade gay e o da comunidade maçónica. Convenhamos que não percebi nada do que ele queria dizer. Se alguém me puder ajudar, agradeço.

Finalmente, e já cheios de capilés, uns e, de groselhas, outros, não conseguimos especular sobre qual seria o próximo juiz de turno que iria anular todas as decisões dos anteriores no processo da Casa Pia. Pudera. Ele com quatro groselhas no bucho e eu com três capilés já não tínhamos discernimento para falar da Justiça em Portugal. Andamos todos bêbados, é o que é.

quinta-feira, setembro 09, 2004

570. Mais coisas

- Eu às vezes penso. Hoje dei comigo a pensar, no atentado de Jacarta e também nos acontecimentos de Beslan e no atentado de Atocha e no atentado que vitimou Vieira de Melo e nos ataques terroristas em Israel e nos bombardeamentos à Palestina e nos acontecimentos do teatro de Moscovo e nos milhares de iraquianos mortos e nos mais de mil soldados americanos mortos no Iraque, e nos raptos e assassinatos de americanos, japoneses, italianos, franceses e na portentosa frase de George W. Bush no congresso republicano “desde a ocupação do Iraque, o mundo está mais seguro”. Que merda de pensamentos que eu tenho.

- Hoje, em editorial no Correio da Manhã, Luís Filipe Menezes lançava a candidatura à presidência do Marcelo Rebelo de Sousa. Ora, uma vez que já não sou estudante e, portanto, já não preciso de notas, pus-me a pensar que podia ter lançado Valentim Loureiro, porque a nossa varinha mágica avariou-se cá em casa e uma nova fazia-nos falta. Também pensei que podia lançar a candidatura do Alberto João Jardim porque o Jorge Sampaio já não me faz rir e eu gosto muito de rir. Também pensei que ele pudesse lançar a candidatura do Zézé Camarinha. Se for para nos foder, ao menos que seja por alguém que o saiba fazer. Ou podia lançar o Pinto da Costa, já que são amigos. Pelo menos eu não teria que mudar de opinião, como quando deixei de gostar de Jorge Sampaio, uma vez que deste eu já não gosto. Que merda de pensamentos que eu ando a ter.

- Tenho estado a pensar que se existissem blogs no tempo das cavernas, O Acidental seria um guru troglodita. Que merda! Não será melhor parar de pensar?

quarta-feira, setembro 08, 2004

569. Coisas

- Tirei a música do meu blog; pesava demais na abertura; desculpem os que gostavam.
- Cada vez gosto menos dos comentadores desportivos das televisões; RTP à cabeça.
- Gostei da modificação que a Papoila fez no template; lia-o com dor de olhos.
- A blogger hoje chateou-me imenso; mas eu sou um gajo paciente.
- Emídio Guerreiro é um dos meus ídolos; tenho ciumes de nem lhe chegar aos calcanhares.
- União Europeia deu em média 333 euros a cada português; Ó Santana passa para cá os meus 67 contitos que eu não vi nenhum.
- Temos 10% de portugueses que não sabem ler nem escrever; heranças; em 30 anos, ninguém quis gastar esta herança.
- Afinal o Mourinho andava a comer a mulher do outro ou não?; ando tão distraído.
- A direita anda eufórica com o crescimento de 1,5% do PIB; já falam que Portugal está fora da crise; os 500.000 desempregados e os 2 milhões no limiar da pobreza ainda não deram por nada.
568. Obrigadinho

Os meus agradecimentos à Sofia, ao Bazaroco, à Robina, à Rititi, à Siamesa, à , ao JC, à Monalisa, à Caxopa, ao Kalvin, à Gotinha, à Helena, ao Carlos F., à Sonia, à Sitta, à Paula F, à Selma, à Ana, à Vieira do Mar, à Catarina, à Scoya, à monalisa (a que não tem blog), à Ana, à arminda, à trilha, ao BA, à Ruiva, à Magnólia, ao Unblog, à Loira, à Melancia, à Mar, à aNa, ao Rui e aos restantes 121 amigos e amigas que por aqui passaram sem abrir a porta. Bem hajam!

terça-feira, setembro 07, 2004

567. Hoje – 24 anos depois!




Por favor, amigas e amigos… não abram a porta agora. O Pré e a Maria estão em lua-de-mel!

___________

Foto daqui

segunda-feira, setembro 06, 2004

566. Este post é para ti, Anita

Parece que foi ontem que percorri quilómetros naquela maternidade, devorando cigarros atrás de cigarros, nervoso como nunca tivera estado, até ao anúncio do teu nascimento. Parece que foi ontem que te vi agarrada às mamas da tua mãe, de olhinho aberto, vigiando e tomando atenção ao que se passava em tua volta. Parece que foi ontem que te vi dar os primeiros passos e as primeiras quedas, que ouvi as tuas primeiras palavras. Parece que foi ontem que fui à loja comprar os teus primeiros nenucos, que te vi de bibe aos quadradinhos, que te comprei os primeiros livros, que te vi ler as primeiras letras, que te vi entrar na escola, que li a tua a primeira redacção. Parece que foi ontem que a tua mãe te descobriu mulherzinha. Parece que foi ontem que entraste para a universidade, que me apresentaste o teu namorado. Tudo me parece que foi ontem. E no entanto hoje terminaste a tua licenciatura. É por ter uma filha como tu (e, obviamente, um filho como o teu irmão), que o meu espelho, apesar de tudo, nunca critica os meus cabelos brancos. Parabéns Anita! Que me desculpem as minhas leitoras e os meus leitores, que sei que não vão concordar comigo, mas tu és a melhor filha do mundo. Um beijo do tamanho do Universo.
565. Véspera

Ela irá com um vestido branco. Uma coroa de brilhantes na cabeça. Um bonito boquet de flores vermelhas na mão. Eu não a vi ainda. Dizem que dá azar. Vou esperá-la à porta da igreja. Não irei de calções e pólo. Os meus pais não iriam achar piada nenhuma. Ela abanaria a cabeça e gritaria lá do fundo: Maluco! Como ela costuma reagir ás minhas extravagâncias. A minha mãe ofereceu-me um fato azul. Com colete e tudo. A camisa é branca e a gravata de um cinzento claro. Formal, mas discreto. Aos convidados foi-lhes dito que o traje era “business casual”. Nada de cerimónias. Se pudesse teria eu próprio ido de calções. Estava um calor quase tropical. Ela vinha deslumbrante. Não mais bonita do que era. Mas bonita de morrer. Queria poder tê-la possuído logo ali. Mas havia testemunhas demais e nenhuma era luar. A igreja irá ser engalanada esta noite. Com flores, para receber uma flor. Perfumarão as galerias de mil cheiros que os perfumes das damas e as águas dos cavalheiros não se sobreporão. Apenas uma flor cheirará mais bem. Curiosamente não estou nervoso. Apenas me vou “esquecer” de cortar a barba, mas não irei de calções. Um padre irá abençoar as alianças, mas a aliança fi-la eu com ela. Até que a morte nos separe. Tocará uma música nupcial quando ela entrar. A música é só para ela, eu não ouvirei os sons, seguir-lhe-ei os passos, compassados e o sorriso. Será amanhã.

domingo, setembro 05, 2004

564. Dois dias

Chegava tarde das aulas, longe ia a noite e tu esperavas-me. Dois toques na janela e qual Julieta esperando Romeu, as janelas abriam-se. Não eram precisas escadas, a janela era baixa, o suficiente para os meus lábios se colarem aos teus. Num abraço, com parapeito de permeio, transportávamo-nos ao tempo dos nossos pais, não, talvez ao dos nossos avós. Era engraçado namorar à janela e riamo-nos com isso. Mas o prazer de te ver, o brilho que o sono não conseguia eliminar dos teus olhos, a voz sussurrada que não acordava ninguém ao redor, o passar a mão nos teus suaves cabelos, o perdermo-nos num beijo longo, compensava o frio ou a chuva que nos acompanhava. Os corações estavam quentes e a chuva apenas causava inundações de paixão. Depois, como que escravizados pelos ponteiros do relógio despedíamo-nos. Mas a nossa teimosa vontade de lutar contra grilhetas vulgarizava os esclavagistas relógios, quase os humilhava. E ao telefone namorávamos noite dentro. Faltam dois dias.

sábado, setembro 04, 2004

563. Três dias

O monstro de ferro flutuante já se afastava da costa. Quase não tive tempo para te dar um beijo. Foi tudo tão de repente. Cheguei a alimentar uma ténue esperança de que a pequena avaria que tínhamos a bordo, obrigasse o comandante a dar meia volta e rumar ao local da partida. Poderia te abraçar de novo, beijar-te de novo, ficares no meu colo de novo, acariciar-te, mimar-te. Mas não. Segui viagem; só muitos, muitos dias depois voltei a saber de ti, só muitos dias depois voltaste a saber de mim. A hora da distribuição do correio era a hora da festa. Era a tua chegada. Recebia sempre um monte de folhas escritas, com tinta de paixão, tinta de palavras permanentes (tu não tens um blog, mas escreves muito mais do que eu). E como as palavras me beijavam! Letras, desenhadas com lábios que murmuravam saudade, letras que, no silêncio do meu quarto, me despertavam desejo, letras que, desenhadas, me traziam tu mesma. Quando a última frase encerrava o reencontro, eu voltava à primeira linha e tinha-te ali de novo. Porque te queria eternamente junto a mim.

Como são engraçados os caminhos da vida. Agora que te tenho todos os dias ao meu lado, escrevo-te. Sei que me lês. Quantas vezes cada palavra te beija, não sei. Faltam três dias.