sexta-feira, setembro 10, 2004

571. Almoço animado

Hoje tive um almoço bastante animado. Não, amigas leitoras e amigos leitores, não é o que vós pensais. Não foi do álcool, até porque este vosso amigo agora dedicou-se às águas minerais e seus derivados. Entenda-se por derivados todas as bebidas que precisam do precioso líquido para se constituírem, como por exemplo o Capilé. Falou-se em reforma e na possibilidade de um indivíduo poder ser reformado se uma junta médica o considerasse gagá de todo. Estava eu a tentar congeminar uma táctica que me pudesse ser útil neste desiderato, quando um amigo meu me sugeriu: ‘porque é que não nomeias o Santana Lopes como primeiro-ministro?’ Terias a reforma garantida.

Mas ao almoço falou-se de mais coisas. Na reintegração das minorias étnicas. Na possibilidade de recuperarmos os trinta e tal anos de atraso que temos em relação a outros países acolhedores de emigrantes. O mesmo amigo achou que se deveria eleger Pinto da Costa para chefe do governo. Ele venderia 10 ao Chelsea, 8 ao Barcelona, alguns ao Manchester, quiçá ao Real Madrid. Em breve teríamos um número bem mais fácil de gerir. E equilibrávamos a balança de transações. Em alternativa, sugeriu que se denunciasse que todas as gajas que pertencessem às minorias fazem aborto. Aí o Paulo Portas mandava um tanque de guerra, um submarino ou um F-16 para a porta delas e elas seriam obrigadas a voltar para casa. Os gajos, naturalmente, acompanharem.

Falamos também das eleições para secretário-geral do PS. E fizemos apostas. A única dúvida, que o meu amigo tinha, era entre o poder da comunidade gay e o da comunidade maçónica. Convenhamos que não percebi nada do que ele queria dizer. Se alguém me puder ajudar, agradeço.

Finalmente, e já cheios de capilés, uns e, de groselhas, outros, não conseguimos especular sobre qual seria o próximo juiz de turno que iria anular todas as decisões dos anteriores no processo da Casa Pia. Pudera. Ele com quatro groselhas no bucho e eu com três capilés já não tínhamos discernimento para falar da Justiça em Portugal. Andamos todos bêbados, é o que é.

quinta-feira, setembro 09, 2004

570. Mais coisas

- Eu às vezes penso. Hoje dei comigo a pensar, no atentado de Jacarta e também nos acontecimentos de Beslan e no atentado de Atocha e no atentado que vitimou Vieira de Melo e nos ataques terroristas em Israel e nos bombardeamentos à Palestina e nos acontecimentos do teatro de Moscovo e nos milhares de iraquianos mortos e nos mais de mil soldados americanos mortos no Iraque, e nos raptos e assassinatos de americanos, japoneses, italianos, franceses e na portentosa frase de George W. Bush no congresso republicano “desde a ocupação do Iraque, o mundo está mais seguro”. Que merda de pensamentos que eu tenho.

- Hoje, em editorial no Correio da Manhã, Luís Filipe Menezes lançava a candidatura à presidência do Marcelo Rebelo de Sousa. Ora, uma vez que já não sou estudante e, portanto, já não preciso de notas, pus-me a pensar que podia ter lançado Valentim Loureiro, porque a nossa varinha mágica avariou-se cá em casa e uma nova fazia-nos falta. Também pensei que podia lançar a candidatura do Alberto João Jardim porque o Jorge Sampaio já não me faz rir e eu gosto muito de rir. Também pensei que ele pudesse lançar a candidatura do Zézé Camarinha. Se for para nos foder, ao menos que seja por alguém que o saiba fazer. Ou podia lançar o Pinto da Costa, já que são amigos. Pelo menos eu não teria que mudar de opinião, como quando deixei de gostar de Jorge Sampaio, uma vez que deste eu já não gosto. Que merda de pensamentos que eu ando a ter.

- Tenho estado a pensar que se existissem blogs no tempo das cavernas, O Acidental seria um guru troglodita. Que merda! Não será melhor parar de pensar?

quarta-feira, setembro 08, 2004

569. Coisas

- Tirei a música do meu blog; pesava demais na abertura; desculpem os que gostavam.
- Cada vez gosto menos dos comentadores desportivos das televisões; RTP à cabeça.
- Gostei da modificação que a Papoila fez no template; lia-o com dor de olhos.
- A blogger hoje chateou-me imenso; mas eu sou um gajo paciente.
- Emídio Guerreiro é um dos meus ídolos; tenho ciumes de nem lhe chegar aos calcanhares.
- União Europeia deu em média 333 euros a cada português; Ó Santana passa para cá os meus 67 contitos que eu não vi nenhum.
- Temos 10% de portugueses que não sabem ler nem escrever; heranças; em 30 anos, ninguém quis gastar esta herança.
- Afinal o Mourinho andava a comer a mulher do outro ou não?; ando tão distraído.
- A direita anda eufórica com o crescimento de 1,5% do PIB; já falam que Portugal está fora da crise; os 500.000 desempregados e os 2 milhões no limiar da pobreza ainda não deram por nada.
568. Obrigadinho

Os meus agradecimentos à Sofia, ao Bazaroco, à Robina, à Rititi, à Siamesa, à , ao JC, à Monalisa, à Caxopa, ao Kalvin, à Gotinha, à Helena, ao Carlos F., à Sonia, à Sitta, à Paula F, à Selma, à Ana, à Vieira do Mar, à Catarina, à Scoya, à monalisa (a que não tem blog), à Ana, à arminda, à trilha, ao BA, à Ruiva, à Magnólia, ao Unblog, à Loira, à Melancia, à Mar, à aNa, ao Rui e aos restantes 121 amigos e amigas que por aqui passaram sem abrir a porta. Bem hajam!

terça-feira, setembro 07, 2004

567. Hoje – 24 anos depois!




Por favor, amigas e amigos… não abram a porta agora. O Pré e a Maria estão em lua-de-mel!

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Foto daqui

segunda-feira, setembro 06, 2004

566. Este post é para ti, Anita

Parece que foi ontem que percorri quilómetros naquela maternidade, devorando cigarros atrás de cigarros, nervoso como nunca tivera estado, até ao anúncio do teu nascimento. Parece que foi ontem que te vi agarrada às mamas da tua mãe, de olhinho aberto, vigiando e tomando atenção ao que se passava em tua volta. Parece que foi ontem que te vi dar os primeiros passos e as primeiras quedas, que ouvi as tuas primeiras palavras. Parece que foi ontem que fui à loja comprar os teus primeiros nenucos, que te vi de bibe aos quadradinhos, que te comprei os primeiros livros, que te vi ler as primeiras letras, que te vi entrar na escola, que li a tua a primeira redacção. Parece que foi ontem que a tua mãe te descobriu mulherzinha. Parece que foi ontem que entraste para a universidade, que me apresentaste o teu namorado. Tudo me parece que foi ontem. E no entanto hoje terminaste a tua licenciatura. É por ter uma filha como tu (e, obviamente, um filho como o teu irmão), que o meu espelho, apesar de tudo, nunca critica os meus cabelos brancos. Parabéns Anita! Que me desculpem as minhas leitoras e os meus leitores, que sei que não vão concordar comigo, mas tu és a melhor filha do mundo. Um beijo do tamanho do Universo.
565. Véspera

Ela irá com um vestido branco. Uma coroa de brilhantes na cabeça. Um bonito boquet de flores vermelhas na mão. Eu não a vi ainda. Dizem que dá azar. Vou esperá-la à porta da igreja. Não irei de calções e pólo. Os meus pais não iriam achar piada nenhuma. Ela abanaria a cabeça e gritaria lá do fundo: Maluco! Como ela costuma reagir ás minhas extravagâncias. A minha mãe ofereceu-me um fato azul. Com colete e tudo. A camisa é branca e a gravata de um cinzento claro. Formal, mas discreto. Aos convidados foi-lhes dito que o traje era “business casual”. Nada de cerimónias. Se pudesse teria eu próprio ido de calções. Estava um calor quase tropical. Ela vinha deslumbrante. Não mais bonita do que era. Mas bonita de morrer. Queria poder tê-la possuído logo ali. Mas havia testemunhas demais e nenhuma era luar. A igreja irá ser engalanada esta noite. Com flores, para receber uma flor. Perfumarão as galerias de mil cheiros que os perfumes das damas e as águas dos cavalheiros não se sobreporão. Apenas uma flor cheirará mais bem. Curiosamente não estou nervoso. Apenas me vou “esquecer” de cortar a barba, mas não irei de calções. Um padre irá abençoar as alianças, mas a aliança fi-la eu com ela. Até que a morte nos separe. Tocará uma música nupcial quando ela entrar. A música é só para ela, eu não ouvirei os sons, seguir-lhe-ei os passos, compassados e o sorriso. Será amanhã.

domingo, setembro 05, 2004

564. Dois dias

Chegava tarde das aulas, longe ia a noite e tu esperavas-me. Dois toques na janela e qual Julieta esperando Romeu, as janelas abriam-se. Não eram precisas escadas, a janela era baixa, o suficiente para os meus lábios se colarem aos teus. Num abraço, com parapeito de permeio, transportávamo-nos ao tempo dos nossos pais, não, talvez ao dos nossos avós. Era engraçado namorar à janela e riamo-nos com isso. Mas o prazer de te ver, o brilho que o sono não conseguia eliminar dos teus olhos, a voz sussurrada que não acordava ninguém ao redor, o passar a mão nos teus suaves cabelos, o perdermo-nos num beijo longo, compensava o frio ou a chuva que nos acompanhava. Os corações estavam quentes e a chuva apenas causava inundações de paixão. Depois, como que escravizados pelos ponteiros do relógio despedíamo-nos. Mas a nossa teimosa vontade de lutar contra grilhetas vulgarizava os esclavagistas relógios, quase os humilhava. E ao telefone namorávamos noite dentro. Faltam dois dias.

sábado, setembro 04, 2004

563. Três dias

O monstro de ferro flutuante já se afastava da costa. Quase não tive tempo para te dar um beijo. Foi tudo tão de repente. Cheguei a alimentar uma ténue esperança de que a pequena avaria que tínhamos a bordo, obrigasse o comandante a dar meia volta e rumar ao local da partida. Poderia te abraçar de novo, beijar-te de novo, ficares no meu colo de novo, acariciar-te, mimar-te. Mas não. Segui viagem; só muitos, muitos dias depois voltei a saber de ti, só muitos dias depois voltaste a saber de mim. A hora da distribuição do correio era a hora da festa. Era a tua chegada. Recebia sempre um monte de folhas escritas, com tinta de paixão, tinta de palavras permanentes (tu não tens um blog, mas escreves muito mais do que eu). E como as palavras me beijavam! Letras, desenhadas com lábios que murmuravam saudade, letras que, no silêncio do meu quarto, me despertavam desejo, letras que, desenhadas, me traziam tu mesma. Quando a última frase encerrava o reencontro, eu voltava à primeira linha e tinha-te ali de novo. Porque te queria eternamente junto a mim.

Como são engraçados os caminhos da vida. Agora que te tenho todos os dias ao meu lado, escrevo-te. Sei que me lês. Quantas vezes cada palavra te beija, não sei. Faltam três dias.

sexta-feira, setembro 03, 2004

562. Senha número treze

A D. Conceição é uma velhinha de 80 anos. É de Moura, no Alentejo, mas vive na região de Almada há mais de 60 anos. Fala ainda com o sotaque com que nasceu. Todas as vezes que vou ao médico encontro-a no posto. Quase não pode andar devido a uma queda que deu. Tem imenso medo, pavor, mesmo, de escadas. Mora num 3º andar e há cerca de um ano caiu escada abaixo. “Por falta de luz”, contou ela. Eu conheço esta história há muito tempo. Desde a primeira vez que a vi. Repete-a sempre igual para todos os que esperam na sala. Uns riem-se, outros sentem pena, outros não reagem, indiferentes. Vai sempre à procura da Dr.ª Isabel, sem consulta marcada, em dias que a Dr.ª Isabel não dá consulta. Ou de avisadas, as funcionárias dizem-lhe que a Dr.ª não está. Faz da ida ao posto da caixa o seu passeio matinal. Um destes dias meti-me com ela. Ela queixa-se que não pode andar “Só Deus e eu é que sabemos…”. No entanto estava bem disposta. Convidei-a para bailarmos os dois nas próximas festas da vila. Deu uma gargalhada e foi o suficiente para me contar as histórias do tempo em que moça, “balhava e balhava bên”. De todas as vezes conta as agruras que passa com a filha. Mas há mais quem lhe conheça as histórias de vida ou quem já delas ouviu falar. Um deles, que esperava outra consulta com a senha número 13, “a filha é que tem a culpa; nem a luz paga à velha; só lhe quer é chupar o dinheiro da reforma”. Se calhar foi por isso que lhe deram o número 13.
561. Quatro dias

“Sôzé”, a minha voz tremia um pouco. Nesse tempo os rapazes pediam autorização para namorar. Andei-me a preparar uns quatro ou cinco dias. Deve vir desse tempo a minha mania de falar com o espelho. “Sôzé, venho aqui para lhe dizer que namoro com a sua filha”. “Não!”, gritava-me o espelho. “Assim não, rapaz. É muito directo, além de que não se trata de um pedido. Isso é uma afirmação”. Ficava desarmado. Tanto treino para nada. “Sôzé, como o senhor sabe…” “Não!”, interrompia-me de imediato o espelho, “Se ele sabe o que é que vais lá fazer?”. O dia aproximava-se e eu sem saber o que dizer. Afinal de contas era a primeira vez que eu enfrentava o pai da namorada. Já tínhamos falado do Benfica e do Sporting, ele já me tinha visto várias vezes chegar da escola com a filha ao lado, ele e o meu pai jogavam juntos às cartas, mas eu nem sabia se ele imaginava que eu lhe namorava a filha. “Sôzé, não sei se sabe por é que eu pedi para falar consigo…” . “Não!”, de novo o espelho, inflexível. “Vamos pôr os pontos nos is, rapazinho”. Finalmente, esperei que ele me desse uma dica. Até aqui sempre me atalhava o discurso, sempre me criticava a forma, sempre me apagava o conteúdo. “Em primeiro lugar, pára com essa história de sôzé. Há uma certa formalidade no acto. Deves começar com Senhor José. Não deves entrar directo no assunto. Arranja uma conversa de introdução que o deixe bem disposto e receptivo e, quando ele estiver com as guardas em baixo, vais direito ao assunto”. Uma lâmpada acendeu-se dentro da caixinha dos neurónios. Afinal de contas o Sporting tinha ganho na semana anterior ao meu Glorioso e o pai dela era lagarto. Ia ser doloroso, mas…

- Sôzé, a voz tremia, então lá ganharam no Domingo hein? (não consegui evitar o Sôzé; falar de futebol e começar com senhor José, não me parecia compatível, sei lá, não me dava jeito).
- É pá, aquilo é que foi uma vitória – não disse mais nada, mas viu-se-lhe um brilhozinho nos olhos.
Homem de poucas falas, não me deu hipóteses de continuar a desenvolver o fait-divers preparado com todo o cuidado. Naquele momento, apeteceu-me sair, dirigir-me ao espelho e dar-lhe uma daquelas descomposturas que ele nunca mais esqueceria por muitos anos que vivesse. No entanto, apenas em pensamento, o mandei bugiar.
- Sôzé, o senhor já me tem visto várias vezes com a sua filha. Eu e a Maria, gostamos um do outro. Não gostaria que o senhor viesse a saber de outra maneira. Foi por isso que pedi para falar consigo. E para lhe pedir permissão para vir cá a casa, namorar com ela – tudo seguido, em rajada, sem respirar e com a voz a sumir-se a cada sílaba que passava.

Nesse tempo ainda se pedia ao futuro sogro, autorização para namorar. Todos estes anos passados e ainda namoramos. Faltam 4 dias.

quinta-feira, setembro 02, 2004

560. Cinco Dias

Invadia-te a casa, o teu espaço, o teu canto. E tu invadias-me de tremores, de emoção, de desejos (mantêm-se intactos, em novas dimensões). Nunca te admiras dos meus espelhos pois sabes que sempre foram meus cúmplices. E teus cúmplices. Eram testemunhas mudas, de incalculável prestabilidade. Eram eles que permitiam que os cantos dos nossos olhos se apercebessem dos intrusos, dos vigilantes, dos desmancha-prazeres. Exacto, esta é a palavra-chave, a verdadeira. Desmancha-prazeres. E no quase silêncio da noite quando os espelhos não mais são precisos, os perfumes que a libido exala, o quase silêncio quebrado pela respiração que se ouve, alterada, arrítmica, sensual, e uma mão na boca tentando vedar sons que não se podem ouvir, numa censura de coronéis. Uma mistura extrema dos sentidos. O tacto, o veludo do teu corpo (nunca chegamos a acordo; és tu que dizes que as minhas mãos são aveludadas; eu nego; é a tua pele, veludo, cetim, seda pura). Depois…depois o ajeitar dos corpos, o olhar maroto de olhos trespassando olhos e o rubor que se esvai. E os espelhos mudos. No fim banhávamos a atmosfera com uma musica calma que saía da rádio. Ou que sempre lá esteve, sem que ninguém desse por isso. E se havia lua íamos observá-la. As estrelas que no seu brilhar pareciam ensaiar uma dança silenciosa, tinham sido observadas momentos antes. Momentos. Faltam 5 dias.

quarta-feira, setembro 01, 2004

559. Seis dias

Ela com uma infusa eu com outra, um braço sobre o seu ombro, outro que me enrola a cintura. O trilho marcado no restolho doirado foi feito por pés de pares e pares de pés, uns mais ligeiros, outros arrastados. A velha curvada, de lenço negro na cabeça e de negro também vestida, que o seu homem já se finara havia muito, parava ao longe para ver o casal parado. Se bandeava a cabeça reprovadora ou se sorria em sinal de consentimento não o sabíamos. O lusco-fusco e a distância, o céu vermelho e anil, manchado de pôr-do-sol, só desenhavam o vulto e o negro na planura. Um abraço que não se desfazia, os lábios que se não descolavam, no cruzamento de um ‘boa noite, meninos’, dois corpos que pareciam um, não fora as inclinadas cabeças o denunciarem. O percorrer da pele na pele, de dedos explorando percursos proibidos, de mãos irrequietas, o beijo que teimava em não findar. A água fresca, que a bica debitava, trespassava já a boca da bilha, desenhando um sulco cristalino na direcção do barranco. Amanhã cedo os pardais, os milharocos e os rabilongos viriam beber, saciar uma sede que, de diferente da nossa, não se bastaria de beijo. Beijariam as gotas orvalhadas, as águas correntes no barranco e rabilongos com rabilongas, milharocos com milharocas, pardais com pardocas nunca haveriam de conhecer o sabor dos lábios dela. E quando o luar invejoso queria também beijar, já tardava, bastaria agradecer essa natural lamparina que o trilho não se via no rastolho pardo, que doirado era antes. Indiferentes ao círculo que a lua riscava lá em cima, beijávamos de novo e as sombras desenhavam um estranho bailado. Faltam seis dias.
558. Mimosa

Este post, não me é indiferente...

terça-feira, agosto 31, 2004

557. Sete dias.

Ela entrava descalça no rio. A cada movimento, mais ou menos brusco, que deslumbrava sob as águas límpidas e cristalinas do Guadiana, ali onde as azenhas bebiam da corrente, tremia-lhe o corpo e apertava-me mais a mão. Quase entrava em pânico quando uma cobra de água sorrateira ou distraída deslizava como se lhe passasse debaixo dos pés. Pegava-a ao colo e caminhava com ela nos braços até ás pequenas ilhas de juncos e canaviais, nossos esconderijos. As vozes dos garotos, que se ouviam, ao longe, abafadas pela água cadente das pequenas cachoeiras que caíam das azenhas, para os lagos que o baixio paria, eram a única música que ouvíamos. E apetecia-nos dançar. Abraçávamo-nos num estranho balançar de corpos e sensual enlace. Depois procurávamos comodamente onde nos sentássemos, pés na água brincando como crianças e o abraço transformava-se em beijo. E ficávamos exarando os cheiros do aloendro, do rosmaninho que crescia nas margens, do verde do juncal no misto com o suor dos nossos corpos. E beijávamos. Faltam sete dias.
556. Breves de fim de mês

O Paulo Portas fez mais pela divulgação do nome de Portugal em 12 milhas marítimas do que o Francis Obikweli em 100 metros Proponho-lhe a atribuição de um balde de plástico (desculpa ó Portas mas as medalhas já acabaram).

Agora sou eu quem não já não percebe nada. Não foi o Ministério Público quem interpôs acção contra os arguidos do processo Casa Pia? Agora uma juíza quer mandar prender de novo e o MP já não quer? Macacos me mordam se eu percebo alguma coisa de leis.

As vezes que eu tive que me confessar ao padre só porque dizia à minha mãe que era o gato que comia os bolos todos. Com tantos padres-nossos e ave-marias apanhei o santo vício de não mentir. Agora são os padres que mentem.

Tadinhos. Olha eu aqui cheio de pena deles. Até as lágrimas me vieram aos olhos (já sei que me vais chamar chorão, Arminda).

Quando li o título, confesso que me intriguei: como é que pessoas tão velhinhas conseguiam combater fogos? Depois tudo se esclareceu e ficam aqui registados os meus parabéns.

Durante um mês… ou mais, os jornais desportivos “compraram” um jogador por dia para o Glorioso SL Benfica. Mas o Pintinho é que sabe. Quem não tem dinheiro não tem vícios.

O Rocha já voltou de férias e ainda não me convidou para almoçar. Nem actualizou o blog. Vê lá se te despachas que eu quero ver as fotos. E estou cheio de fome.


segunda-feira, agosto 30, 2004

555. Ele há dias assim

Por acaso hoje tenho andado numa de falta de inspiração. Haviam tantos temas que eu gostaria de trazer para aqui, mas a maioria é demasiado séria para ser tratado com a ligeireza de um blog não especialista. Para isso há os blogs dos experts, dos que fazem análise política, económica, desportiva, social e por aí fora. Eu de vez em quando faço umas referências, mas não tenho nem a capacidade para ir ao fundo das questões, nem os necessários e suficientes conhecimentos. No desporto, sou apenas, mais um, treinador de bancada. Na política sou um activo participante, uma vez que voto em todas as eleições. E acho isso o quanto basta. A partir daí já não temos mais voto na matéria. Da vida social, estiveram, um dia destes, uns amigos meus a explicarem-me quem era um tal de José Castelo Branco. Confesso que parti a moca a rir. Mas no final percebi que estavam todos a gozar comigo. Olha, olha, eles a pensarem que eu acredito em marcianos. Da sociedade civil em geral, sou um observador mais ou menos atento, mas tenho dificuldade em tratar certos temas sem dizer uma dúzia de palavrões. Por exemplo, que nomes iria eu, aqui, chamar a um ministro que retira um subsídio de invalidez a um homem paralítico e acamado, porque a mulher resolveu ganhar 60 contos por mês para não morrerem de fome? E, finalmente, em economia sou um zero à esquerda, aliás um espelho fiel do que vale a nossa economia: zero. Talvez pudesse falar da Justiça, da Saúde e da Educação, mas só me vem à memória aquela história de quando o Santana Lopes se começou a rir porque o Presidente Suíço lhe apresentou o Ministro da Marinha, uma vez que, não tendo a Suiça mar, como é que tinham um ministro da Marinha? Ao que o Presidente Suíço lhe terá respondido “Isso não vale, Dr. Santana Lopes. Eu também não me desatei a rir quando o senhor me apresentou os Ministros da Saúde, da Justiça e da Educação”. Bom, talvez escreva sobre literatura. Afinal de contas, esta semana, já li a TV +, a TV 7 dias, a TV Guia, a Lux, a Maria, a Nova Gente, a Ana, A Ana mais atrevida, a Flash, a Hola, e outras boas publicações, pelo que sou quase um especialista. Mas não, não falo, cairia o Carmo e a Trindade: “Ó Pré tu isto, ó Pré tu aquilo”, fazendo-me de facto limitar-me à minha insignificância. Podia escrever um poema, mas para arranjar uma rima vejo-me aflitíssimo e só me vem à cabeça uma quadra por acaso que nem é de minha autoria e por isso nem vou reproduzir aqui. E se eu não rimar, vêm logo com a conversa, “Ó Pré, estás armado em pós-moderno, ou quê?’. E eu fico acabrunhado, já se vê. Portanto resta-me falar de ciência. Era uma vez um gajo chamado Einstein… O quê? Já conhecem? Já sabem quem era? Então está decidido. Hoje não escrevo post nenhum. Ele há dias assim.

domingo, agosto 29, 2004

554. De repente

Como sabeis amigas leitoras e amigos leitores que me acompanham há alguns meses, eu sou fumador. Não vou aqui dissertar sobre os malefícios do tabaco, no seu todo, embora devesse escrever pelo menos um post por dia sobre isso. Mesmo que não convencesse ninguém, de tanto me flagelar, talvez eu me curasse dessa doença. Mas, como diz o nosso sábio povo, há males que vêm por bem. O fumo do cigarro, neste meu parco escritório-biblioteca, suja-me tudo. A minha Maria lava os cortinados todos os dois meses e, hoje, veio-me com a conversa de quem deveria lavar as paredes da sala era eu.

Passei os olhos pelas paredes, não as achei assim tão amareladas para merecer tamanho castigo, mas num relance olhei para a estante e vi que, algumas capas de livros, as quais eu tinha uma vaga ideia de serem brancas, já não o eram. Levantei-me para ver mais de perto, mas como sou um viciado em books, vai daí chamou-me a atenção um, que já li há uns bons pares de anos, chamado “Pelo Amor de Judith” de Meir Shalev. Já não me lembrava bem da história e fui ler a pequena súmula que vem na dobra da contracapa:

“Zaidé tem três pais. O que lhe deu o nome, o que lhe deu a vida e o que lhe contou a sua história. Três homens que amaram a sua mãe, Judith: Não sabe qual dos três é o seu verdadeiro pai…”

Depois, de repente veio-me toda a história à memória. Pensei ir relê-lo mas ficará para outra ocasião. Cheguei à conclusão que tenho boa memória (se calhar o tabaco não mata assim tantos neurónios, mas isso é para outra ocasião). O livro, recomendo-o vivamente.

E novamente de repente (como sabeis o pensamento voa mais rapidamente que o próprio repente), veio-me também à ideia que, no livro “Old Possum's Book of Practical Cats” de TS Eliot, ele diz que os gatos têm 3 nomes.

E assim de repente, lembrei-me também que já tenho bilhetes para ir ver o Cats em Outubro. E com esta, são 3 as vezes que vejo o Cats (roam-se de inveja, vá!).

Mas se, assim de repente, é tudo de 3 em 3, vou esperar que a minha Maria me diga mais duas vezes que as paredes precisam ser lavadas. Assim como assim, eu continuo a fumar….

sexta-feira, agosto 27, 2004

553. Lunch Time Blog

I’m so exciting. Imaginem que encontram na rua o Presidente da República, ou o Pedro Santana Lopes, que é quase a mesma coisa; ou então que está ali a cinco metros de vocês o José Mourinho, ou o Tony Blair, por exemplo, que fala quase tão bem inglês como o Mourinho; ou, por supuesto, o António Banderas ou o Joaquim de Almeida que falam quase tão bem espanhol com sotaque americano um como outro; ou, ainda, o Bill Gates ou então o Belmiro de Azevedo, assim tipo um Bill Gates à portuguesa; ou, já agora, o D. Duarte Nuno de Bragança, ou príncipe Carlos de Inglaterra, quer dizer, ambos são herdeiros mas não vão ter trono nenhum, ao que parece. Imaginem agora que um deles vos apertava a mão. Não seria excitante? Bolas, eu acho que sim! Eu nunca mais lavaria a mão que cumprimentasse uma figura destas. Mas não, desencantem-se porque não vi ninguém assim tão pouco interessante. Hoje enquanto almoçava o meu Bacalhau à Braz, almoçava também, numa mesa perto da minha, o Ricardo Araújo Pereira, do Gato Fedorento. Obviamente, fui cumprimentá-lo e agradecer-lhe os momentos de boa disposição que por conta dele e dos outros elementos do “seu grupo” e, também, por conta do meu filho saber quase de cor os sketchs do “Gato”, que passam no infelizmente pior canal de cabo que a TV nos oferece (juro que prefiro ver o Viver/Viver à SIC Radical), dizia eu, agradecer os momentos de boa disposição que me proporcionaram estas férias. Já agora quando é que o Gato Fedorento passa a dar num canal de jeito?

PS.
1. Nem precisava dizer que, é claro, lavei as mãos depois de almoçar. Mas que foi excitante cumprimentar o Ricardo, isso foi!
2. Schubert, bem sei que é uma heresia chamar fedorento a um gato. Cá para mim acho que os gajos encontraram um primo teu, abandonado numa fossa. E em vez de irem dar banho ao cão, quer dizer, ao gato, arejaram-no com algum do melhor humor que se faz aqui neste portugalinho.
552. O meu aplauso de hoje...

Para o post da Controversa Maresia colocado ontem, pelas 7:18 p.m., sem título. A vieira do mar, no seu melhor!
551. Esperanças

(I)

Acabei de ouvir que quando o vencedor dos 50 kms marcha, cortou a meta, um português de nome Manuel Martins, de 36 anos, estava ainda no km 35. Ora cá temos um jovem, a ganhar experiência para os jogos olímpicos de 2052. Ao que isto chegou...

(II)

Numa completamente a sério. O jovem Emanuel de 18 anos ficou em 7º lugar na final de k1 - 1000. Parabéns miúdo. Tens uma larga margem de progressão, assim continues a empenhar-te. Força.

quinta-feira, agosto 26, 2004

550. De novo Francis!

O meu amigo que é António e também é Silva, nasceu nos Estados Unidos da América e por lá viveu uma porção de anos. O pai é português e a mãe é brasileira. A páginas tantas, foram viver para o Rio de Janeiro, onde acabou de crescer, tendo-se radicado de vez em Portugal. Casou e por cá trabalha. Não faz atletismo, nem joga futebol. Tem, no entanto, tripla nacionalidade. Americana de nascimento, brasileira e portuguesa. Imaginemo-lo a ganhar uma medalha olímpica, com a camisa de Portugal. Deverá haver alguma contestação pelo facto de ter nascido na América? Deverão os brasileiros reivindicar para si a glória de mais uma medalha conquistada por um brasileiro embora vestindo a camisola de Portugal? E para os americanos mais medalha, menos medalha, aquece ou arrefece? Será que eles sabem que o António é americano?

Francis Obikweli nasceu na Nigéria. Vive e trabalha em Portugal. É filho, embora que adoptivo de um casal português (não é raro em Portugal, se adoptarem crianças de outras nacionalidades). Francis veio para Portugal com 16 anos. Podemos dizer, ainda uma criança. Correu e corre com a camisola de Portugal.

Tenho muito orgulho na medalha que conquistas-te. Desejo-te toda a sorte do mundo para logo à noite. Quero voltar a chorar de alegria, como quando te vi receber a medalha dos 100 metros. Força Francis! Força Portugal!

PS. Da mesma forma que não contive a lágrima com Sérgio Paulinho e com Rui Silva.

quarta-feira, agosto 25, 2004

549. Republicação e Contestação

Li hoje no blog da minha querida Papoila, o seguinte post que com a devida vénia republico:

(cito)

"Não há chapada nos comentários mas há nos mails...

recebi um mail cujo autor dizia que "os blogs (o meu especialmente, penso) são uma necessidade patética de chamar a atenção, e isso é irritante".

Caro leitor: quanto a essa treta de querer-ser-lido, comentado, admirado, massajado, eu explico: é tudo mentira!
O narcisismo existe, só que ele não está na vontade de sermos lidos. Ele está na necessidade de nos lermos."

(fim de citação)


E agora a minha contestação à resposta da Papoila. Eu quero ser lido! Olha o exemplo:

CV

Ex-oficial da marinha mercante, ex-director de informática de uma das maiores seguradoras europeias, ex-director de informática da mais conceituada marca japonesa de electrónica de consumo, ex-director da maior empresa de telecomunicações móveis privada, ex-director de informática do maior produtor de pasta de papel do país, consultor independente de sistemas de informação, senior surveyor em operações de carga e descarga de mercadorias, ex-professor de matemática no ensino secundário privado e no ensino superior privado, licenciado em engenharia electrotécnica, 49 anos, casado, encontra-se desempregado há 2 anos.

Podem considerar irritante esta chamada de atenção, patética ou não, mas é para ser lida. É mesmo!

terça-feira, agosto 24, 2004

548. Tenho de o aturar?

- Estou chateado contigo!

- Comigo? Porquê?

O espelho disse-me que estava zangado comigo e, apesar da minha interrogação, acreditei de imediato. Não esboçou qualquer sorriso (fá-lo sempre quando brinca ou quando está a ser sarcástico).

- És um mono!

Quem estava a começar a irritar-se era eu. Se alguma vez se viu um espelho chamar mono a quem lhe dá vida. No entanto, tentei manter a calma.

- Vais ter de me explicar isso melhor. Já te enfrentei hoje várias vezes e fechaste-te em copas e, é a estas horas da tarde que te apetece ofender-me.

Conhecem aqueles olhares penetrantes que parecem cuspir fogo quando nos fitam directos? Pois foi assim que o espelho me fitou. Senti-me trespassado. Quase adivinhei o porquê daquele ar. Ainda assim, esperei três segundos, três longos segundos que me deixaram demasiado ansioso.

- Todo o dia à espera que escrevesses algo de jeito e tu, sossegado no teu canto, que nem um armário. És um mono!

Afinal a montanha pariu um rato. Juro que pensei pior. Um dia vou ter de ter uma conversa séria com este “tipo”. Um blog não é uma fábrica de encher chouriços. E mesmo que fosse, nem sempre há matéria-prima. E hoje não houve. Por muitas voltas que as tripas dessem.
547. Chez PreDaté


Xorisso na canoa

Vinhos tintos, brancos e berde há preção.

Oje á caracois e caraculetas asadas.

Sandes de perzunto, qeijo e fiambre

Á bifanas guerlhadas ó feritas.

Tabaco só ó balcão.


Vou ali à tasca e já bolto. Tou cá cuma galga.

segunda-feira, agosto 23, 2004

546. Lunch Time Blog

Hoje fui almoçar ao Manel Zé. Como podem perceber pelo nome, trata-se de um restaurante de um tipicamente alentejano. A lista era alentejana, com pezinhos de coentrada e sopa de cação e tudo. Ao meu lado comia-se uma sopinha destas mas não cheirava a poejos. Falha do Manel Zé ou falha do cliente. Não perguntei a um, nem a outro. No serviço uns olhos verdes penetrantes, hipnotizadores sob umas sobrancelhas fartas. Um sorriso cativante, um corpo escultural. Hei-de voltar ao Manel Zé para tentar cheirar os poejos. Pode ter sido um erro momentâneo.

Fui lavar as mãos e inevitavelmente confrontei-me com o espelho.

- Charmoso!

- Já cá faltavas tu – ripostei, um tanto ao quanto surpreendido com um não sei quê de piropo, que me soou irónico.

- Charmoso, insistiu o espelho.

Olhei-o atentamente. Quis perceber o que é que ele queria, efectivamente dizer. E foi então que realmente entendi. A forte cor bronzeada fazia sobressair, da curta melena, os fios prateados que há algum tempo me vêm povoando a outrora castanha, quase mel, cabeleira. Só a gentileza e, aqui sim, com toda a propriedade, a elegância das mulheres bonitas, principalmente as mulheres interiormente bonitas, são capazes de chamar charme à idade. ‘Não lhe chamo velho, ele não merece; digamos que é um homem charmoso’.

- Ó rapaz, pareces uma gaja! – disse-lhe eu, piscando um olho e esperando uma reacção mais ou menos pateta, como tolo costuma ser o meu espelho.

- Uma gaja ponto e virgula; Uma lady, uma verdadeira lady.
545. Tem jeito de ficar indiferente?

O meu amigo Branco de além-mar quase sempre nos presenteia com “estórias” deliciosas. Hoje li a “O Galaxão parte III - Tempos de secura” que ele escreveu no dia 19 (com atraso, mas férias são férias, né mesmo meu?), escrita como poucos saberiam escrever, em português do Brasil (se eu não tivesse já lido cardápio brasileiro ía lá saber o que era o xismaionese), que se não o fosse, não nos ofereceria o “movimento” que transmite, mesmo quando temos presentes um tanque vazio e bolsos quase duros, chorando quinze paus. Mas a minha referência a este texto tem dois objectivos: a divulgação que gosto de fazer aos blogs que eu gosto de ler e dizer que não há jeito de ficar indiferente, às histórias da adolescência. Se trocarmos um Galaxão por um Mini Cooper GT, um tanque de 100 litros por um de pouco mais de trinta, fizermos o câmbio do preço da gasolina na época, substituirmos os sete mânfios por cinco (o mini tinha dificuldades até com quatro, parecia que batíamos com o rabo no chão) e se contarmos que “no meu tempo” (ai que saudades ai, ai) o “agito” não era o que é agora, mas que havia bons locais para ver “passar” rios de mulheres… Olha aí meu, coloca antes 5 macacos no capot do Mini e a paisagem fica parecida. Cada um com a sua jola na mão. É que sempre sobravam cinco paus para uma loirinha. Menos seco...
544. Começar de novo…

A propósito do meu post n. 542, de Sábado, além dos comentários recebi vários e-mails de incentivo uns, de preocupação outros. Estive também à conversa com uma amiga bloguista no MSN que pertence ao meu “clube”. Falou-se em projectos e iniciativas e então eu fiz uma lista do que poderei fazer daqui para a frente:

1. Abrir um “Chez PreDaté” e passar a servir bicas; (a ideia não me parece feliz, pois iria plagiar de uma maneira rasca o meu amigo Joaquim que acabou de regressar de França);

2. Criar uma firma de lavagem de vidros pára-brisas nos sinais de trânsito; (a ideia também não me parece feliz, pois consta que os romenos só querem trabalhar por conta própria);

3. Abrir um cyber shop (não me parece boa ideia, pois eu consumiria todo o lucro em utilização de Internet);

4. Ter um jardim-de-infância (a ideia é no mínimo peregrina; eu não empresto a minha bola a ninguém e depois os outros meninos desatavam a chorar);

5. Importar saídinhas de praia, biquinis-tanga e shorts do Brasil para a comunidade brasileira da Costa da Caparica (oh Pré, mas tu estás parvo ou quê? Não viste no Algarve aquelas roupinhas made in Taiwan a metade do preço das brasileiras? - leia-se roupas);

6. Fazer de homem estátua no Rossio, nos Restauradores ou no Largo da Trindade (lá estás tu de novo a delirar, meu; passas quinze minutos sem beber uma jola? passas? lá se vai a estátua que nem a de Sadam em dia de invasão de Bagdad);

7. Escrever contos eróticos, de preferência uma banda desenhada (aqui há um pequeno handicap; eu não sei desenhar);

8. Vender bolas de Berlim, línguas da sogra, ou artesanato nigeriano pelas praias (não é má ideia, não; e o que é que vou fazer nos outros noves meses do ano? vou esculpir em madeira? sou algum Cargaleiro, sou?);

9. Ser assessor de um ministro ou secretário de estado (assim como assim, era só mais um não é?) .

Já chega! Vou começar a desenvolver um Business Case para cada uma das actividades descritas, preencher os quatro mil e setecentos documentos, ir às catorze repartições públicas, submeter o projecto a vinte e cinco instituições bancárias, daquelas que dizem sim em meia hora, e, entretanto, enquanto espero, treinar-me para a meia maratona do ano que vem. Acho que chegarei primeiro do que a aprovação do projecto… apesar da barriguinha.

domingo, agosto 22, 2004

sábado, agosto 21, 2004

542. Acabaram

Tinham de acabar. Não duram sempre as férias. E eu farto-me de rir com isto. Um desempregado, de férias (aqui dei uma gargalhada; é LOL que se escreve não é?). Pois é minha amigas leitoras e meus amigos leitores, estou de volta ao meu desemprego. Durante as três semanas que partilhei as férias da Maria até me esqueci que estava desempregado. Assumi as férias dela como se fossem minhas e, fiz férias também. Que isto de estar desempregado há 2 anos, sem direito a férias não é coisa que alguém goste. Estou, no entanto, com um dilema. Se por acaso, alguém se lembrar que o PreDatado, está desempregado e de repente o convidar para deixar esta vida de não faz-nada, como é que eu vou justificar o meu ar bronze acabadinho de regressar do Algarve? Vou dizer que passei os dias na varanda com uma tina de água ao lado a fingir de praia? Ou vou dizer que desempregado também tem direito a férias? Há algum contrato colectivo ou individual de trabalho que diga: “Todos os portugueses, há mais de 2 anos sem emprego, têm direito a gozar 3 semanas, com a sua Maria ou o seu Manuel, de preferência na praia. Caso o subsídio de um deles seja avantajado, poderão escolher, a Polinésia Tailandesa, o Nordeste Brasileiro, as Maldivas, as Seichelles ou as Maurícias (com um passagem por Reunião e Sta. Helena); caso vivam em Almada ou arredores, tenham juizinho e aproveitem a Costa da Caparica”? Se há, desconheço o contrato. Fiz uma trouxa num lençol, atei com dois nós a um pau de vassoura e, pernas para que vos quero, rumei ao Algarve. Agora estou de volta e cheio de esperança na bagagem. Como acabei de fazer 49 anos, a minha esperança é que nos próximos dezasseis anos consiga empregar-me. Caso não o consiga, reformo-me. E disse.

terça-feira, agosto 17, 2004

541. (XX) Mesmo em férias…

…há dias em que um gajo reserva as 24 horas do dia, para festejar o seu aniversário. Um, dois, três…começou!


(hoje nem que o Bin Laden fosse capturado, o Papa renunciasse, o George W. Bush dissesse um frase sem erros, o Milosevic ganhasse o Nobel da paz, o Pedro Santana Lopes anunciasse que a Cinha Jardim seria nomeada ministra adjunta do primeiro-ministro, o Pinto da Costa voltasse a contratar o Delneri, o Pacheco Pereira decidisse encerrar o Abrupto, a Playboy trocasse o coelhinho por um rinoceronte, a Maria fugisse com o Mr. Bean, o meu gatinho Schubert começasse a ladrar, nada, mas mesmo nada, me impediria de abrir uma garrafa de champanhe!)

segunda-feira, agosto 16, 2004

540. (XIX) Mesmo em férias…

..há avisos que não podem deixar de ser feitos. Amanhã, 17 de Agosto, é dia do meu aniversário. Faço 49 verões e estou aqui para as curvas (isto vocês não precisavam saber, mas já que escrevi não estou para voltar atrás). Vim aqui escrever esta nota, para vos intimar, leram bem? Intimar! Intimar a deixarem aqui uma mensagem de feliz aniversário. Estão desculpados e desculpadas, ou melhor dizendo, isentos e isentas de o fazer, todos os que se encontrarem em pleno gozo de férias blogosféricas, de férias reais, os que nunca me leram, nem vão ler esta mensagem, os que não gostam de mim (nem que seja por via de não gostarem do que escrevo), aqueles de quem eu não gosto (por exemplo, o Bin Laden, o George Bush, o Jorge Nuno Pinto da Costa, o Carlos Castro…), os que não sabem apreciar um pedaço de prosa quase sempre bem escrita (incha, que piroso e que convencido!), os gajos e gajas que têm uma inveja do caraças de eu fazer 49 e ainda estar aqui para as curvas (outra vez?), os distraídos e distraídas que só no dia seguinte é que se lembram e batem com a mão na testa e dizem ‘chiça, o Pré fez ontem anos!’ (alguns podem substituir o chiça por outra palavra que eu não levo a mal) e aqueles e aquelas que não dão nada a ninguém – forretas! – que nem os parabéns são capazes de dar. Todos os restantes aqui não mencionados, nem se atrevam, ouviram? Aliás, leram?

PS. Em férias não se fazem pêésses, mas é só uma pequena excepção. Escusam de se incomodar a ir comprar presentes, eu não sou muito dado a isso. È verdade, estava a esquecer-me. Ainda se lembram do NIB da minha conta bancária? O Porsche está lá, na loja, reservado. Vá lá, não sejam avarentos.

domingo, agosto 15, 2004

539. (XVII) Mesmo em férias

…há momentos para fazer uma pausa. Adicionem um feriado a um Domingo. Um feriado e um Domingo a um dia de férias. Depois juntem-lhe uma pitada (várias pitadas, para quem me conhece melhor) de falta de inspiração e temperem no fim com uma dose, uma grande dose de preguiça. Está aí a receita para não fazer nada. Fiquem em paz neste quinze de Agosto e tenham um muito bom dia!

sábado, agosto 14, 2004

538. (XVI) Mesmo em férias…

…há dias em que me apetece contar uma história real e deixar recados. Vou resumir, para que não enfade. Os nomes que vou usar na história são reais.

Conversei durante alguns anos com uma amiga minha da cidade de Cascavel, Paraná, Brasil, chamada Carin. A Carin parece-me ser uma pessoa respeitável e confiável. Um dia, do ano passado, falou-me que uma amiga dela, a Kachia, viria para Portugal para a cidade de Braga fazer um mestrado. Como amigo da Carin, achei que poderia em alguma eventual circunstância poder ajudar a Kachia, pelo que lhe pedi os contactos. Troquei e-mails com Kachia e coincidência pura, a Kachia viria para Portugal na altura que eu estava a partir, precisamente para o Paraná. Não pudemos entrar em contacto, mas quando regressei, prontifiquei-me a dar notícias. Algum tempo depois, recebi um e-mail da Kachia informando-me que viria para Lisboa, fazer o mestrado na FCT – FCSH e que estaria vivendo temporariamente na residência estudantil do Monte da Caparica. Marquei um encontro, almocei com ela e acedi ficar com o CV para ver se lhe poderia ser útil. Alguns dias depois, face a um bom, aparentemente, CV, intercedi junto do meu amigo Rocha para que lhe pudesse confiar uma tarefa na empresa dele, tarefa essa que, eu próprio, me disponibilizaria a orientar. Assim foi. Bem sei que o pagamento não era muito, mas seria justo para uma pessoa que nem sequer sabíamos o que iria render. Bom, a verdade é que a ajudei a arranjar emprego. Não vou contar aqui o que ao longo destes cincos meses de convivência foram os meus actos de solidariedade para com a Kachia. Ela como lê este blog, sabe-o e ficamos por aqui. Pois esta semana a Kachia decidiu despedir-se da empresa do Rocha. Tudo bem, era livre de o fazer. Mas, Kachia, eu não merecia, um e-mail, um telefonema ou um SMS? Além disso estive ao telefone contigo no dia que tomaste a decisão, mais uma vez numa atitude solidária e, não tiveste a veleidade de me informar? Pois “amiga”, eu não cobro nada, apenas reciprocidade. Tu quebraste o elo, está quebrado.

sexta-feira, agosto 13, 2004

537. (XV) Mesmo em férias…

… há males, que não vêm por bem. Hoje doem-me as articulações dos dedos. Está aí uma camada de ácido úrico a atafulhar-me as juntas. E agora eu pergunto: E então as jolas, também conhecidas como bejecas? E então os whiskyes mais ou menos on the rocks? E o meu tintol (ainda ontem uma Herdade de Espirra, 1999 sorriu para mim)?
Agora ando na fase das limonadas, dos sumos naturais, das águas lisas e com gás. Isto faz-se a um gajo que está de férias? É preciso ter um organismo muito maldoso, para trair um tipo desta maneira. No próximo ano, não me vai apanhar assim de repente, não. Vou-me prevenir antes. Ou deixo o organismo em casa, ou passo férias com a minha médica.

quinta-feira, agosto 12, 2004

536. (XIV) Mesmo em férias…

… há coisas que nos emocionam e que nos enchem de orgulho. Podem chamar-me vaidoso, que não me importo, pois é como me sinto, também, neste momento. E apetece-me partilhar convosco o motivo da minha emoção. A minha filhota acabou de receber a notícia de que lhe foi concedida uma bolsa para fazer o doutoramento. Como querem que um pai se sinta?

quarta-feira, agosto 11, 2004

535. (XIII) Mesmo em férias…

Ou talvez por causa delas, deito-me no muro que circunda o meu quintal, de barriga para cima, apago as luzes e olho para o céu. Nesta época do ano não vejo passar as renas puxando o trenó do pai natal; ainda faltam quatro meses para a sua sorridente viagem, de vermelho vestido, cantando e espalhando estrelas à passagem. O que vejo são as estrelas que ele plantou no ano anterior, algumas delas rasgando o céu e deixando rastos de luz como se fossem as caudas iluminadas da Dasher, da Dancer, da Prancer, da Vixen, do Comet, do Cupid, da Donder e da Blitze. E vou identificando as constelações e descubro as que estudei na escola e outras que eu invento. Nem sei se são constelações, mas vou juntando e juntando e faço colecção de estrelas. E vejo o dabliu da Cassiopeia e viro a cabeça ao contrário para ler nela um éme de Maria. E de repente sinto-me apaixonado pelo céu. E viajo pela via láctea, num skate debruado a pequenos diamantes e depois vou ao encontro da lua. E quando ela está de quarto, subo-lhe as montanhas à procura da luz de cheia e atravesso os rios para dormir no seu lado escuro. Como é lindo the dark side of the moon. E acordo banhado de pequenos pontos luminosos, beijado pela Merak e pela Dubhé, acariciado pela Betelgeuse, pela Bellatrix, pela Rigel e pela Saiph, depois da Sirius e da estrela Polar me terem vigiado o sono. Depois viro-me, deito-me de barriga para baixo, coloco as mãos sob o rosto e deixo-me massajar pelas três-marias, Alnitak, Alnilam e Mintaka e assim fico até os primeiros raios do todo-poderoso Sol, me informarem que a noite acabou, que agora é a vez dele reinar sobre todas as outras. Dentro de horas ele aí estará de novo. E não preciso de toalha para secar o meu corpo deste banho de luz e magia. Depois…


(hoje ouvi uma pequena história de fadas e lobisomens contada por uma criança; ele utilizou a palavra “depois”, quase uma centena de vezes; fiquei fascinado)

terça-feira, agosto 10, 2004

534. (XII) Mesmo em férias...

... há tempo para se ler e comentar o que escrevem nos outros blogs.

A Robina tem estado a publicar uma identidade nome-características no seu blog. Hoje chegou à letra V inicial do meu nome (para quem não sabe o PreDatado chama-se Vítor). Eu vou transcrever o texto dela e comentar em itálico o que penso do texto quando aplicado aqui ao Pre.


És:Tu és uma fonte de lucidez fora do comum, quando se trata de julgar o mundo e as pessoas. [ai meu Deus, como me engano com as pessoas]
De todas as vezes que abres a boca dizes coisas acertadas. [sem pretensiosismo, podemos ficar pelos 90%?]
O problema é que vives com um pé no chão e outro na lua, ligando e desligando a tua atenção com uma rapidez incrível. [e quantas vezes vivo com os dois na lua?]
Por isso, muitas vezes pareces ser indiferente ao que ocorre à tua volta. [aqui, sob pena de parecer contraditório vou arriscar: nunca ]
Liberdade, é para ti a coisa mais importante da vida e por isso costumas resolver sózinho os teus problemas sem pedires ajuda ou conselhos a ninguém. [absolutamente verdade]
Ordens? Detestas. Tanto dar como receber. [gosto de dar (ai, ai, estou a revelar-me demais)]
Só tens é de aprender a controlar essa tua teimosia. [burro velho não aprende latim]

E cá está minha querida Robi. Só falta uma frase no final. Mas essa, tu já deves saber qual é.
533. (XI) Mesmo em férias…

… há momentos em ficamos parados sem fazer nada; nestes momentos de puro “nadismo” o nosso pensamento parece fluir a uma velocidade hiper-sónica. Um micronésimo de segundo após o instante anterior já não nos lembramos o que estávamos a pensar no referido instante. Hoje dei comigo a pensar no que gosto e no que não gosto e de repente lembrei-me, sem saber como, que o primeiro pensamento foi café. Depois, em catadupa, isto e mais aquilo; seria despropositado e maçador listar estas pessoais preferências; até porque algumas são de carácter tão íntimo que só a mim, efectivamente, dizem respeito. E nesta senda de check-list mental associei de imediato ao café, o cigarro. Confesso que sou um viciado mas, o cigarro caiu na listagem daquilo que não gosto. Talvez se contem pelos dedos de uma mão, vá lá, de duas, para não exagerar, as vezes que fumei por prazer. É devido a este tipo de constatações que ao fim de 32 anos de fumo ando seriamente a pensar deixar de fumar. Mas nas férias não. Não as vou estragar com uma crise nervosa, uma tensão escusada. Os outros, à minha volta, não têm culpa. Vamos esperar mais uns diazitos.


alínea a) não é uma promessa, é uma vontade; alínea b) vou publicar o texto e tomar um café; alínea c) se tiver ali a playboy à mão, quem sabe dispense o cigarro; alínea d) não considerem a alínea c como a revelação de algo que eu goste ler.

segunda-feira, agosto 09, 2004

532. (X) Mesmo em férias…

… há coisas que não dispenso. Estava eu neste meu pensamento, profundo e pré-existencial, quando de repente fiquei com saudades de um certo PreDatado. Gostava de vê-lo a conversar com o espelho, de ouvi-lo manhãzinha cedo, gritar bom dia! aos quatro ventos, de lhe corrigir as redacções, da bandeirinha que ele só retirou do blog, quando o Dr. Lopes foi nomeado PM, e gostava dos cheiros e dos sabores do Lunch Time Blog. E porque é que fiquei com esta nostalgia assim de repente? (será porque, lá fora, a chuva não para de cair?). Não, eu explico-vos. Enquanto ao espelho cortava a barba, vejo-lhe no rosto abrir-se-lhe um sorriso. Os olhos do meu espelho sempre brilham quando as pituitárias são bem tratadas. O cheiro vinha da cozinha. Um prato de ovos mexidos e presunto, um sumo fresquinho de frutos, esperavam-me. Será que um dia destes teremos por aqui o Mary’s style breakfast?

(desculpem-me mas faço aqui uma pausa para café)
531. (IX) Mesmo em férias…

… há dias em que o máximo que nos apetece fazer é, nada. Um dia pachorrento, umas sonecas bem tiradas, um pouco de leitura para não perder o vício; uma cerveja geladinha, para não perder o vício; menos cigarros que o costume, só para matar o vício; a televisão em segundo, aliás terceiro ou mesmo quarto plano, para não ganhar um vício. E um post de início de madrugada. Porque eu sou viciado.

domingo, agosto 08, 2004

530. (VIII) Mesmo em férias…

…ou talvez por isso, há tempo e pachorra para ir aos bailes da aldeia. Não são os bailes da paróquia como canta o Rui Veloso, mas são parecidos. Dança-se de tudo, até uma adaptação mais ou menos pirosa de Nights in White Satin. Como se Nights in White Satin não fosse já pirosa q.b. O que me custa ver é a moçada da idade do meu filho, não saber agarrar-se à febra. Eu lá estava a marcar o ponto com a Maria e a lembrar-me de quando tinha 18 anos. As férias também servem para isto, para nos dar a descontracção suficiente de sacarmos as memórias lá do fundo. E mais uma vez dancei apaixonado.


(não digam a ninguém, mas não levei o Schubert; para olhar para as gatas estava lá eu, apesar da Maria… eu acho que ela nem notou os meus subtis desvios de cabeça e arrebitar de orelhas; devia estar a observar os gatos).

sábado, agosto 07, 2004

529. (VII) Mesmo em férias…

…há tempo para partilhar. Hoje vi-a. Estava deitada, de costas para cima, quase à beira mar. No lugar da tanga… pétalas. Não sei de que flor seria. Não reconheci. Aproximei-me lentamente e com os dentes tirei-as um a uma e soprei-as no ar; e uma após uma, foi-se revelando a mesma cor de pele e os espinhos. Esta flor tem espinhos que não ferem, apenas arranham um pouco. A pele estava mais seca, a tez a mesma… ao fundo alguém tinha colocado uma música de Leonard Cohen. Não falava de amor, apenas de encanto e de luxúria. O pensamento no pecado. Um pequeno insecto posou-me no ombro e falou, como se fosse o grilo do Pinóquio: o sal da água queima as mais bonitas flores.

(não se janta enquanto se procura um gato que feito vadio, não quer voltar a casa; pode-se gritar o nome, pode-se mandar SMS, pode-se quase chorar; um gato no cio, não responde; enquanto se envolve, o mundo reduz-se a ele e à gata; nem o pequeno guizo pregado ao pescoço o denuncia; mais tarde saciado, voltará ao ninho; a gata fará o mesmo; longe ou talvez não, alguém sofre.)

sexta-feira, agosto 06, 2004

528. (VI) Mesmo em férias...

... há tempo para seguir atentamente o debate entre o Pedro Ornelas e o Francisco José Viegas, sobre o escrever em Português. Só não gostaria que no calor do despique se chegasse ao insulto. Eles sabem o que eu quero dizer.


(a água na tapada da Mina está maravilhosa, no entanto amanhã haverá Algarve. E ficar a olhar atentamente o ar embevecido do Schubert para a gaiola do Fintas)


Notas 1. Schubert é um gato siamês e é meu.
2. Fintas é um hamster e é das minhas sobrinhas.

quinta-feira, agosto 05, 2004

527. (V) Mesmo em férias...

... há tempo para vos dizer que, andar a subir oliveiras e figueiras para ir buscar um gato - Schubert - caseiro, que ainda só sabe subir, mas tem medo de descer, deixa um gajo todo arranhado.


(e agora como é que a Maria vai acreditar, que eu estou arranhado pelos troncos de árvores, por causa de um gato, quando na verdade, ela deve estar convencida que teria sido uma gata?)


quarta-feira, agosto 04, 2004

526. (IV) Mesmo em férias...

... há tempo para dizer que o mesmo castanho e quente o Alentejo é lindo!


(Lá fora o vento sopra, uma brisa fresca amaina o todo-poderoso Sol. Um aperto no peito que me provoca tosse. Um gato - Schubert - fascinado com tanta liberdade, corre atrás dos gafanhotos. Eu volto a tossir. Neste jardim também há flores. O peito apertado.)

terça-feira, agosto 03, 2004

525. (III) Mesmo em férias…

… há tempo para vos dizer, que o espelho que estou a usar é muito melhor que o outro. Este é mais maduro, conhece melhor o mundo, dá-me conselhos sábios e diz ele (será que podemos confiar em profecias de espelhos?) que depois do dia 17 deste mês, um homem de 49 anos não será tão ingénuo como o de 48, tão sonhador como o de 47, tão irreverente como o de 46, tão utópico como o de 45 … e que será muito mais sóbrio, pujante e determinado.

Ele há espelhos que têm a mania… pelo sim pelo não, já estou a juntar dinheiro para comprar as velas.


PS. No anteriormente referido post 521, a CotadaEmBolsa disse:

“Ainda bem que escreveu essa carta...Sem PreAviso, fiquei a conhecê-lo melhor.”

Minha cara Cotada, o meu espelho lamenta desapontá-la; ele profetiza que depois do dia 17 de Agosto, eu serei diferente. Imagine cara amiga, você ter de começar de novo a sua aprendizagem do meu conhecimento. Estes espelhos são uns desmancha-prazeres… (malgré o PreAviso).

segunda-feira, agosto 02, 2004

524. (II) Mesmo em férias…

… há tempo para dizer que gosto dos vossos comentários; vejam se não é lindo este comentário ao meu post 521, deixado pela Flor:

“As flores secam mas algumas, de tão bonitas, guardamos entre as páginas de um livro, ou mantemos na jarra para continuarmos a apreciar...”

domingo, agosto 01, 2004

523. (I) Mesmo em férias...

... há tempo para dizer que ontem cortei o cabelo; ai amigas, estou tão bonitinho, que até tenho medo que me roubem.

sábado, julho 31, 2004

522. Chegaram as férias...

... e este blogue vai baixar de produção.

(no entanto, sempre que eu puder, virei dar uns palpites e, obviamente, ler os vossos)

Beijinhos e abraços.

sexta-feira, julho 30, 2004

521. Redacção – Cartas

Eu gosto muito de cartas. Quando era miúdo, a minha prima Maria foi a Sobral de Monte Agraço passar férias com a madrinha dela. Durante essa época escreveu-me várias vezes. Era para mim uma alegria pois nunca tinha recebido uma carta de ninguém e deixava-me em tal estado de ansiedade que à hora do carteiro lá estava eu no pátio expectante, ansioso, de coração apertadinho, nos meus seis anos de idade, para receber uma carta. Ficava triste, todo o dia, se não havia nada para mim. Depois, bem, depois tive vários anos sem receber cartas, até o  meu pai ter ido passar aqueles nove meses na Suécia, numa especialização profissional. Então era rara a semana que não havia uma carta para mim. Cartas de amor, só as recebi quando, por motivos profissionais, fiquei quase seis meses fora do país. Não havia Internet e o telefone era caro. Quando as recebia, eram sempre aos montes, pois a distribuição só se fazia duas a três vezes por viagem. Pelo facto de as não receber não estou acostumado a escrever cartas. Logo hoje, a minha professora havia de se lembrar de pedir, como redacção, que escrevêssemos uma carta. Eu vou tentar.

Almada, 30 de Julho de 2004
 
Caro Vitor

Vai ser difícil escrever-te, uma vez que tenho pouquíssimo para dizer. Todos os dias estou contigo pelo que, o que temos a dizer um ao outro fazê-mo-lo cara a cara. Conheço-te há muito tempo mas quase todos os dias me surpreendes. Não entendo como é que na tua idade e com a já interessante história de vida que tens, ainda és capaz de ter ilusões. Eu sei que sempre andaste a raiar a utopia. Acreditaste num país sem classes, num mundo de paz e fraternidade, lutaste desalmadamente e caíste do sonho sem teres sequer uma para-quedas robusto. Sei que te magoaste, como te magoas nas coisas simples do dia a dia. Apaixonas-te facilmente pelas coisas, pelas pessoas, pelas plantas, pelos animais e apenas dos animais não tens razão de queixa. Eu sei que por vezes até com as flores te desiludes. Murcham mais depressa do que tu estavas à espera. Levas algumas bofetadas para acordares, mas é assim que és. Depois, passas alguns dias tristes, invadido por uma nostalgia cretina e burra e responsabilizas-te pelo que não acontece. Não penses que és tão forte assim, que podes comandar o que quer que seja só com o pensamento. É preciso mais acção, mais arrojo, mais risco. Estás a passar uma fase que não é a melhor, mas faz como em outras vezes fizeste. Calca forte por baixo dos teus pés todos os maus momentos e sorri. Ri mesmo, dá aquela gargalhada que costumas dar quando ouves ou contas uma piada, leva as tuas utopias, as tuas paixões, os teus encantos e desencantos como se fossem apenas uma piada e sai daí. Amanhã é um novo dia, o sol vai raiar de novo. Conta contigo próprio, só tu te podes ajudar. Não vás atrás das tretas dos amigos. Tens sempre, sempre um monte deles nas tuas melhores horas. Tu sabes do que é que te estou a falar. Quem sabe, um dia destes, te volte a escrever de uma forma mais alegre? Quem sabe… O sol voltará a brilhar e isso ambos sabemos.
 

PS. Senhora professora, depois da introdução resolvi escrever uma carta a mim próprio. Sempre usufruo duplamente, escrever e receber.

quinta-feira, julho 29, 2004

520. Redacção Suspensa

[Hoje para uma coisa completamente diferente]
 
A jeito de intróito e aviso prévio, quero-vos dizer que este post hoje vai ser um bocadinho grande. Não por aquilo que vou escrever, mas por aquilo que vou referenciar ou reproduzir. Os posts grandes são chatos de ler, eu sei, mas o texto de Millôr Fernandes abaixo, considero que não o ler, é uma perda que irão chorar toda a vida.

Como devem estar cientes eu passo um bom bocado da minha cyber-vida na blogosfera. Presto uma particular atenção aos blogs que fazem parte da minha lista ali à direita e ainda a outros que, por preguiça, não adicionei, mas que tenho na base de favoritos do IE.

Como não podia deixar de ser, leio diariamente o Aviz (para ver se aprendo a escrever melhor) e, com o Francisco José Viegas, apesar de eu não estar na sua sintonia política, aprendo sempre qualquer coisa. Li o post, para mim um artigo, chamado ORTOGRAFIA [actualização] e, não concordo, nem discordo. Não é uma posição comodista dizê-lo assim. Vejamos esta frase retirada do referido post : “Temos nas mãos uma geração de líderes se contenta em falar e escrever mal o Português, em se desculpar do seu défice de conhecimentos e em parecer muito moderna e contente”. Não tenho dúvidas de que eu escrevo mal, mas tenho a sem-vergonhice de também me desculpar com o meu deficit de conhecimentos. Só que eu sou um pouco mais desculpável. Não sou líder de coisa nenhuma. E além disso não me contento em falar e escrever mal o Português. Posto isto façam o favor de lá ir ler. A seguir o Francisco José Viegas tomou a liberdade de reproduzir um raspanete de Pedro Ornelas ORTOGRAFIA, RASPANETE ao seu próprio artigo. O Francisco prometeu responder e eu espero que em boa hora o faça, pois vai ser muito interessante este debate, para quem se interessa pela língua portuguesa, escrita e falada. Eu vou estar atento.

Não fiz estas referências sem um motivo complementar. Não foi só para chamar a atenção para estes, para mim, deliciosos dize tu direi eu, mas para voltar a falar do PALAVRÃO. Fiz anteriormente uma redacção sobre o tema e, desconhecendo se existem alguns deles no Dicionário da Academia, uma vez que nem o possuo, fazem parte do linguajar de jornalistas, comentadores, políticos e, admirem-se, de todos. Quem alguma vez na vida não tenha dito FODA-SE que levante o braço que eu vou proceder à contagem.

Fez o favor, o meu amigo de além-mar, Branco Leone de me escrever um e-mail que, para além de se lamentar de eu não lhe comentar os posts (juro que os leio, caro Branco), me enviou um texto delicioso do grande, Millôr Fernandes. Nas palavras do Branco Leone “um de nossos melhores... melhores... melhores brasileiros”. Deixo-vos então com este delicioso texto.

 
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?

Millôr Fernandes

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.

"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porranenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba...Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cú!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cú!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cú!". Pronto,você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!".

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.". Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Foda-se.
 

quarta-feira, julho 28, 2004

519. Redacção – O Luar
 
Eu gosto muito do luar. Quando era miúdo vínhamos sempre para o pátio nas noites veraneias, de luar. Os adultos levavam a sua cadeira, sentavam-se em círculo e conversavam, enquanto nós, os miúdos, brincávamos por entre galinheiros, nas semi-sombras das árvores, que o luar provocava. Com os meus sete anos de idade roubava um beijo furtivo à minha “namorada”, a Luísa, e depois ficávamos os dois muito coradinhos. E só o sabíamos, porque o luar acabava por iluminar os nossos rostos. Ou mentira, porque cada um e, falo por mim, sentia o rubor nas faces. No Inverno, ouvia-mos, no aconchego do lar, os gatos miarem estridentemente lá fora e depois no ritual da cópula todos os barulhos que vocês conhecem. A maioria das vezes, eu já não ouvia, porque adormecia antes da hora da verdade. E só acordava com os meus velhotes ou os vizinhos a enxotarem-nos dos telhados. O luar trás misticismos acoplados. O luar é dos lobisomens, das fantasias, dos contos de suspense. Há sempre uma sombra numa parede, um passo lento, outro fugidio, reflectida. O luar é do canto do lobo, do uivar sedutor e do uivar que amedronta. O luar é a luz das sombras que atemorizam, é o brilho dos fantasmas que não existem. O luar convida à poesia, ao namoro, ao sexo. Uma praia e dois vultos que se movimentam, deitados. Vêem-se ao luar, são traídos pelo luar. O luar é dos amantes, desculpabilizador dos devaneios, tentador das paixões. O luar é sertanejo e musical, é quente e frio, é doce, suave, manso, nunca agreste. Hoje há luar, a lua cheia aproxima-se, já só faltam três dias. Hoje tenho vontade de fazer amor de janela aberta, preciso do sol da noite. Hoje é dia de me deixar invadir pela indiscreta luz. Como uma testemunha muda que tudo vê, nada diz. Se não houvesse nenhum outro motivo eu diria que gosto do luar, porque o luar só há à noite.

terça-feira, julho 27, 2004

518. Redacção – O palavrão

Eu gosto muito de palavrões. Quando eu era miúdo, ouvia-os e nem sabia o que eram. Hoje acho que ainda não sei o significado de muitos. Há palavrões que a moda cria. Por exemplo, os comentadores políticos utilizam, exaustivamente, de há uns tempos para cá, a palavra PUTATIVO. Ora eu que gosto tanto de palavrões pensei logo que isso tivesse alguma coisa a ver com as meninas que frequentavam os arredores da minha faculdade, fora das horas de aulas. Mas para isso, a palavra teria de ser PUTATIVA. E esta ouve-se menos, porque, diz a minha professora, nós somos muito MACHISTAS. Aqui está outro palavrão. Se nós fossemos machistas queria dizer que defendíamos mais os machos do que as fêmeas. E isso não é verdade, porque várias vezes oiço o meu tio referir-se a este ou aquele GAIJO, de quem não gosta, (ele diz gaijo, mesmo, deve ser um palavrão), dizendo que a pessoa é um cavalo e, no entanto, desata à bofetada à minha tia. Eu perguntei-lhe “tio, o senhor bate na tia porque o senhor é machista?” e ele responde-me sempre que não, que é porque bebe uns copos a mais, mas, na verdade, ela, a minha tia, é a sua égua preferida. Isso quer dizer que ele deve ter mais éguas e portanto não pode ser machista, dado esta protecção que falei atrás. Mas há mais palavrões que eu gosto, mas não posso escrever aqui, porque tem duas desvantagens a saber:

1. Quando viessem procurar esse palavrão ao Google, cairiam aqui que nem tordos. Isso só serviria para eu, mais tarde, me regozijar que o meu contador de visitas tinha bué, mas não serviria os meus intentos de ser lido por quem eu gosto que me leia.
2. Se eu escrever palavrões, as pessoas vão pensar uma de duas coisas que referirei:

a)      Este gajo quer é que a gente comente muito (toda a gente faz pelo menos 50 comentários a um foda-se, imaginem se se escrevessem palavrões aqui);
b)      Este gajo é um descaradíssimo mal-educado mas o melhor é ir ler o Pipi, que é bem mais explícito.

(abro aqui um parêntesis para referir dois pequenos pormenores que os mais atentos já terão reparado:

i.                     Utilizei o palavrão bué, porque é bué de giro;
ii.                   Concatenei duas vezes e, agora, uma terceira porque gosto bué de concatenar.

parêntesis fechado).

Mas para além do putativo e da respectiva fêmea, há outro palavrão que eu gosto muito de dizer, que é o palavrão DEFICIT. E pergunta a senhora professora (SP), porque é que eu gosto tanto do palavrão deficit.

- SP : Porque é que gostas tanto do palavrão deficit?
- Eu: Porque sim.

Acho que a senhora professora não vai entender a minha resposta, mas quem está a ler esta redacção já conseguiu descortinar que, quem não tem nada para escrever, inventa qualquer coisa. E fica aqui escarrapachado que este texto tem um deficit de não sei quê.
Aliás como muitos que eu leio e a malta ri-se muito. E porque a gente se ri é que eu gosto de palavrões.  

PS. Este não é um pêésse à redacção supra. É apenas para informar que o Schubert, tem sofrido tanto com o calor como nós, mas que ao contrário de nós, não escreve posts sobre o calor. Limita-se a miar e de vez em quando, quando está mais chateado faz ffffff…… (será que está a querer dizer algum palavrão?)

segunda-feira, julho 26, 2004

517. Redacção – O frio

Eu gosto muito do frio. Quando eu era miúdo a minha mãe passava o tempo a atafulhar-me de camisolas, casacos, sobretudos, “tu vais apanhar uma constipação, ai vais, vais”. Eu acabava sempre por me constipar por andar sempre, assim, agasalhado. Talvez seja por causa de o calor me causar tanto desconforto que eu gosto tanto do frio, mas hoje, ao propor-me este tema, a minha professora, desconfio que ela teve uma pequena trombose nos neurónios. (Espero bem que ela não tenha tempo para ler a redacção, senão será chumbo pela certa). Quando toda a gente fala de tempo quente, de calor, de quarenta graus, ela pede-me para falar do frio. Então eu pensei numa piscina, muito grande, cheia com água vinda directamente do pólo norte, de uma arca frigorífica aqui mesmo ao lado, carregada de super bocks, sagres, carlsbergs e outras coca-colas assim do género, das casas de gelados da rua dos pescadores na costa, do ar condicionado do meu carro sintonizado para o low que é o que refresca mais, dos cubos de gelo a encherem o meu copo, de gin e água tónica, muito, muito gelo, pouco gin, sonho, todas as noites, com um passeio à serra da estrela, escorrego pela neve, escorrego, escorrego até parecer um croquete envolto em gelo. E fico com uma vontade das noites de Dezembro na minha casa no Alentejo profundo onde posso jogar ping-pong no alpendre com dois ou três graus negativos. Depois entro em casa e lá está a minha Maria de lareira acesa e café quentinho pronto para me aquecer as entranhas. Esperem isto de lareira já não é frio, é calor. Até me deu um arrepio na espinha.

(definitivamente, não aguento mais; Mariaaaaaaa, tras-me aí mais uma cerveja à banheira e leva-me o portátil que ele também quer mergulhar)

domingo, julho 25, 2004

516. Calor selvagem

Hoje é Domingo e está um calor de ananases. Estou a derreter aos poucos. Não sei se em suor se mesmo em gordura. É o que faz ser anafadinho. Hoje não tenho trabalhos de casa por isso não escreverei a minha redacção. Não escreverei nem a redacção, nem nada. A minha amiga Catarina no seu post de hoje com o título “E continua o calor” diz que só está bom para o fazer (não é escrever, não) alarvemente. Confesso que não sou um alarve (sub. e adj. 2 géneros: tolo, bronco). Prefiro selvaticamente. Mas o adjectivo é dela, não o vou alterar. Até porque o calor, como já referi há dias, me afecta o raciocínio. Fico selvagem!

sábado, julho 24, 2004

515. Redacção – A guitarra

Eu gosto muito de guitarras. Quando eu era miúdo, o pai do meu amigo Costa ofereceu-lhe uma. Era uma guitarra pequena, moldada aos dedos de um garoto. De vez em quando ele emprestava-me, mas eu nunca atinei com os acordes. Era uma guitarra espanhola que hoje conhecemos por viola e os nossos irmãos de além-mar por violão. Gosto do som e gosto da forma. O corpo de uma mulher. No entanto, a guitarra que me faz tremer, é a guitarra portuguesa. Os acordes de uma guitarra penetram-se em cada poro do meu corpo, como se fosse, cada um deles, uma trompa de Eustáquio, um martelo, uma bigorna, uma membrana a vibrar. Nem todas emitem os mesmos sons. A guitarra “de Lisboa” e a guitarra “de Coimbra” têm trinados diferentes. Mas a arte está em fazê-las falar. Não falta quem se possa referir. Não vou fazer nomeações pois não quero ser injusto para os grandes mestres. Hoje, uma guitarra me faz chorar. Morreu ontem, quem eu considero o maior português de todos os tempos na arte da composição e da utilização da guitarra. Morreu Carlos Paredes e vai agora fazer companhia ao grande Artur Paredes, seu pai. Carlos Paredes nasceu em 1925 e tocava guitarra desde os quatro anos de idade. A biografia deixo-a para os especialistas. A minha redacção tem como objectivo apenas lhe falar no nome. E prestar-lhe a minha homenagem, enquanto escuto o Movimento Perpétuo. E dizer que gosto de guitarra.

sexta-feira, julho 23, 2004

514. Flores (quase sem redacção)

A aNa ofereceu-me este campo de flores. Vejam quanto é linda a aNa.





513. Redacção - As Flores

Eu gosto muito de flores. Quando eu era miúdo lembro-me da minha mãe ter sempre as jarras cheias de flores. A casa tinha sempre um cheiro a jardim. Ainda hoje ela tem esse costume. Mas é no campo que eu gosto mais de as ver. Quanto mais selvagens, mais atraentes. Gosto da flor do rosmaninho, roxa, misturada com o alecrim, gosto da flor branca das estevas à beira da estrada. Gosto dos campos amarelo e brancos de margaridas e malmequeres, aqui e ali, salpicadas de papoilas, dando um tom ensanguentado às terras castanhas. Gosto de ver as orquídeas selvagens crescerem no meio dos fetos. Gosto das hortênsias bordejando as levadas na Madeira, das flores das amendoeiras, no Algarve, no Alentejo e em Trás-os-Montes. Gosto da branca flor das laranjeiras, da cor quase salmão da flor da romãzeira. Mas gosto também das silvas nos valados, florirem para cachearem depois em amoras silvestres. E gosto de uma flor à minha mesa. Quando como, o perfume de uma rosa misturando-se nos aromas de um prato bem confeccionado, a beleza de uma tulipa como que me olhando, testemunha de cada garfada, dois cravos vermelhos invadindo-me as memórias. E gosto de ver o desabrochar de um botão, lembrando-me a infância, a ingenuidade, o pré-crescimento até ao abrir dos olhos. È por isso também que eu gosto das mulheres, porque a cada uma lhe atribuo um nome de uma flor, pelos olhos, pelo rosto, pelo cheiro, pelo tacto. Gosto de flores e de mulheres feitas estrelícias.

quinta-feira, julho 22, 2004

512. Redacção - As quecas

Eu gosto muito de quecas. Quando eu era miúdo, nunca ouvi essa palavra lá em casa. A fonia (e também a grafia), mais próxima, que eu conhecia era queque. Havia os da pastelaria e havia os meninos queques. Nunca percebi a comparação, até porque, para dizer a verdade, nunca achei o queque um bolo muito interessante. Só se isso queria dizer que os putos queques também não eram interessantes. Mas esse não é o meu problema. Voltando ao tema que a minha professora me mandou, como trabalho de casa, parece que o Verão anda a aquecer os miolos ao pessoal (pessoas, até à data decentes como o TOM, a Duende ou a Catarina, já andam a escrever textos de quecas. Deve ter sido neles que a minha professora se inspirou). Ou o Verão anda a aquecer os miolos desta gente, ou desataram todos a comprar o livro do João Ubaldo Ribeiro, influenciados pela encenação de “A Casa dos Budas Ditosos”. Mas uma queca é uma queca e duas ou mais ainda é melhor. Mas para o fazer é preciso saber-se, é preciso querer-se e é preciso poder-se. Bom, aqui tenho de avisar, quem ler esta redacção, que não é gralha. Em Portugal o ph já não se usa. Para saber-se, até há livros de receitas, como para fazer queques. Um deles, até fiquei envergonhado quando o abri, chama-se camassutra ou lá como é que se escreve. Vem até ilustrado. Portanto quem errar, é burrinho(a). O querer-se, tem a ver com uma coisa que não sei se me vão levar a mal, se eu escrever. Chama-se tesão e é aquilo que dá nos bichinhos quando o teor relativo de umas certas hormonas dispara. Mas isso é para os cientistas e eu não queco cientificamente. Poder-se é uma coisa mais complicada. Eu poderia teorizar sobre o poder aqui. Teria de falar de tanta coisa e de tanto gajinho e gajinha (minha senhora, isto é calão, não entre em conta para a nota final), que nunca mais acabaria a redacção. E, às páginas tantas, seria obrigado a escrever com ph, portanto é melhor ficar-me por aqui e dizer que o Verão também me está a afectar os miolos. Só que tenho um problema. Não sei fazer aquelas descrições do tipo, ‘ela deixou cair a toalha que lhe cobria o corpo. As gotas de água, do banho acabado de tomar, não tiveram tempo de secar. Imaginava-a de uma maneira diferente. Talvez tenha sido o factor surpresa que fez subir em mim o querer. As hormonas… Pensei, se face a uma escultura, não me imobilizaria, eu, também. Continuaria assim feito estátua? Saberia eu utilizar toda a minha imaginária versatilidade, face à estupefacção? De repente, abracei-a, olhei-a nos olhos, aproximei-me dos seus lábios. Beijei-a ternamente. Agora era apenas uma questão de poder. E ali, quem mais podia era ela’. Eu não faço a mínima ideia onde que os meus supra-citados arranjam tanta imaginação para escrever, mas tenho de concluir que eu gosto muito de quecas.  




quarta-feira, julho 21, 2004

511. Redacção - Os médicos

Eu gosto muito de médicos. Quando eu era miúdo a minha mãe queria que eu estudasse para médico. Eu sei porque é que ela queria que eu fosse médico mas, não é para falar dos gostos da minha mãe que eu estou a escrever este redacção. É dos meus e, de facto, eu gosto muito de médicos. Não sei viver sem eles e acho que eles já não sabem viver sem mim. “Ora cá está você outra vez, senhor PreDatado”. Ouço-o à entrada de cada consultório que visito. É mentira, eu sou um grande mentiroso e acho que alguém a ler esta redacção, já está a pensar: “ai coitado, o PreDatado, já está com os pés para a cova”. Então, vou continuar a minha redacção, sem mentir, porque eu quero ter boa nota e, sem uma nota muito mas mesmo muito boa não entro em medicina. E se não entro em medicina depois não posso ir trabalhar para o Hospital Garcia de Orta, não posso atender a minha sogra que entra lá paralisada, e depois receitar-lhe um analgésico e mandá-la para casa e depois ela estar há um ano e meio acamada. porque ela tinha a bacia partida e pronto, por isso tenho de ter boa nota na redacção. A minha mãe diz, “está bem filho, mas também não era para seres um médico assim que eu queria que fosses médico”  e, eu respondi “está bem mãe então eu se calhar vou ser engenheiro”, porque, no outro dia, quando eu tive aquela  dor de cabeça horrível que parecia que me saltavam os miolos e andei de generalista em generalista até ao especialista final, neurocirurgião conceituado que me explicou tim tim por tim tim as causas de uma cefaleia pós-coital , me receitou uma caixinha de comprimidos. E a minha mãe coitada a dizer-me “pois um médico assim é que tu devias de ser”. E eu que não tomo nadinha que não leia a chamada literatura inclusa, como diz na caixa, deparei escrito nos efeitos secundários ‘pode provocar dores de cabeça’. Eu gosto muito de médicos. Ah estava-me a esquecer de escrever aqui na redacção, e de engenheiros desempregados, também.

terça-feira, julho 20, 2004

510. Redacção – Aniversários
 
Eu gosto muito de aniversários. Quando eu era miúdo, os meus pais preparavam-me sempre uma festa. Eu e a minha Maria, também preparamos sempre uma festa de aniversário para os nossos filhos. Vêm os amigos, os familiares mais próximos e ultimamente também o Schubert. Apagam-se velas, cantam-se os Parabéns a Você (nunca percebi porquê, uma vez que toda a gente trata os meus filhos por tu), e acelera-se naquela parte “hoje é dia de festa, cantam as nossas almas…”, como se acelera sempre que se cantam os Parabéns a Você. Corta-se o bolo ás fatias e tiram-se muitas fotos, para mais tarde recordar. Abre-se um garrafa de Champanhe, às vezes mais, dependendo da vontade e da quantidade dos convivas, fazendo-se um grande alarido no momento das rolhas saltarem. Há discursos, desejos de felicidades, “que contes muitos” e “vocês que vejam” e no fim da festa, metem-se os pratos na máquina de lavar, os copos também, limpa-se e arruma-se a casa. A minha professora, acha que as minhas redacções são sempre muito previsíveis e que eu escrevo o que toda a gente escreveria, toda a gente não, mas sim toda a gente que tem tão escassa imaginação, quanto a minha. Pois hoje, senhora professora, resolvi fazer-lhe uma surpresa. Hoje vou dizer que gosto muito do aniversário da Ruiva, que está a comemorar um ano de blog. E ela também tirou uma fotografia para a posteridade e daqui, eu mando um grande sopro para ajudar a apagar a vela. Que contes muitos minha querida Ruiva, isto é, o teu querido bloguinho, Coisas de Ruiva. Eu gosto muito de aniversários, mas tenho de confessar que tenho um fraquinho pela minha afilhada.

segunda-feira, julho 19, 2004

509. Redacção – O ciclismo
 
Eu gosto muito de ciclismo. Quando eu era miúdo quis comprar uma bicicleta para ser como o Alves Barbosa. O pior é que o Alves Barbosa não era do Benfica, mas sim do Sangalhos. Mas isso não interessava, porque o Alves Barbosa era o maior! Infelizmente os meus pais não tinham dinheiro para comprar uma bicicleta e eu acabei por optar por uns patins. Mas nunca cheguei a ter esses patins, porque os meus pais tinham medo que eu caísse e partisse uma perna. Ou a cabeça. E sem cabeça, talvez eu não conseguisse fazer as redacções que a professora me pedia. Como não tinha bicicleta, montava-me numa cana de valado e corria, corria, corria. Mas aquilo era andar a cavalo, não era bicicleta. Então, eu acabei por optar, por uma lata de conservas vazia, forrava-a com um papel de seda, que vibrasse ao som da voz, e amarrava-a a um pequeno pau ou a uma caninha e estava feito um microfone. Imediatamente, de ciclista, passei a relator da Emissora Nacional. “Lá vai Fernando Mendes a atacar, mas a marcação cerrada de Joaquim Agostinho não lhe permite avançar nem 20 metros. A meta já está à vista, estamos a menos de 5 kms da chegada. O Agostinho não tem sprint, será desta que o Fernando Mendes vai conseguir ganhar uma etapa?” E depois havia o Roque, o Firmino o Andrade, o Venceslau. Todos tinham uma palavra a dizer. Mas cheio de força, Agostinho, sem levantar o rabo do selim, pedalava, pedalava, pedalava e no pelotão ninguém tinha pernas para o HOMEM. E havia a volta a França, a minha volta de sempre. Tão importante para mim como a Volta a Portugal. Já não me lembro do Ancquetil, mas ainda vejo o Merckx, o Hinault, o Indurain, o Armstrong. Ah e não me esqueço, do Poulidour, Pou-Pou o eterno segundo e nunca, mas nunca do Agostinho e dos seus honrosos terceiros lugares. Hoje não tenho a mesma doidice pelo ciclismo, mas tenho dois ídolos: Armstrong e Azevedo. Paulatinamente, ajudando o líder, sem darem por ele, temos o Azevedo, nos dez primeiros. Vou ali subir o Puis-de-Dome e já volto. E se eu não voltar é porque estou no alto da Senhora da Graça. Eu gosto mesmo de ciclismo.

domingo, julho 18, 2004

508. Redacção – Os políticos
 
Eu gosto muito de políticos. Quando eu era miúdo sempre pensei vir a ser político. O meu problema é que só havia a união nacional e eu não era muito unionista. Eu sempre fui pela independência das colónias e até achei que o Algarve devia, também, ser independente. Um dia, desenhei uma bandeira com umas rochas em fundo azul (cor de mar) e uma alfarroba no meio. Mas adiante. Mais tarde passou-me a onda da política e quis fundar uma igreja. Assim daquelas universalistas, onde eu pudesse ser dono e pastor. Leiam isto com sotaque brasileiro: “Irmãos, só Jesus pode vos salvar. Vêem ali no fundo da sala aquele gigantesco baú? Coloquem lá vossas oferendas e façam um desejo”. (Não esqueçam de passar este e-mail a 10 pessoas, em 5 minutos, para o desejo ser concedido). Mas depois achei que não ia resultar. Lixei-me, o Edir Macedo pegou na minha ideia e é o que se vê. Voltei então à política. Agora, eu já poderia ser secretário-geral de um partido. Foi então que me veio a ideia de consultar as bases. Fui à OTA, ao Montijo, a Beja, a Espinho, a Rio Tinto, a Figo Maduro e até às Lajes. Depois de fazer este périplo, o meu pai deu-me uma bofetada por eu andar a gastar dinheiro em viagens, sem o consultar. Afinal não eram aquelas bases. Enganei-me redondamente. Não podia ser chefe de nenhum partido porque eles nunca se enganam. Dei em palyboy, passei a andar de discoteca em discoteca. A minha avó diz-me que um dia eu hei-de ser primeiro-ministro. Mas eu não quero. Eu quero mesmo é ser secretário-geral. Já preparei a minha moção e vou levá-la a congresso não tarda nada. Não me peçam entrevistas, porque já tenho a agenda cheia. Gosto mesmo de políticos, mas gosto mais ainda de ser secretário-geral.

sábado, julho 17, 2004

507. Redacção – O Embaixador
 
Eu gosto muito de embaixadores. Quando eu era miúdo o meu pai também gostava muito de embaixadores e eu acho que é por essa razão que eu também gosto muito. Um dia estava a passear pelo Jardin des Deux Rives, já era eu crescidinho, veio uma pessoa muito ligada ao Senhor. Ministro dos Negócios Estrangeiros perguntar-me, em discurso directo e com uma frontalidade que me deixou perplexo, Predatado, queres ser embaixador? Num primeiro momento, pensei que fosse uma óptima proposta. Cheguei a casa, fui buscar uma balança de dois pratos, daquelas que se usavam antigamente nas mercearias lá do meu bairro e no esquerdo coloquei um monte de prós e no outro uma data de contras. A balança não me estava a ajudar nada porque lhe faltava uma peça muito importante: o fiel. Voltei ao jardim na esperança de encontrar a tal pessoa ligada ao senhor ministro, mas não o encontrei. Naquele mesmo lugar alguém me entregou um pequeno papelinho que dizia assim: “ e vais aceitar colocar uma mordaça na boca, sem poderes dizer o que pensas, em troca de mais uns cobres, por muito que pareça prestigiante o teu lugar?” Tinha uma assinatura quase ilegível. Tirei os óculos e com esforço consegui juntar as letrinhas e lá estava a assinatura: a consciência. Acabei de descobrir o fiel que me faltava na balança. Já não quis ser embaixador. Eu sei que alguém me anda a copiar o meu estilo de tomar decisões. Quem sabe um dia, com outra balança e com outro fiel…
 
 
PS. A minha professora, não gosta que eu escreva pêésses nas minhas redacções, mas era inevitável dizer que o Schubert, aplaudiu a decisão. No final, ela disse-me que era pobre país o nosso onde poucos gatos levantavam o seu miau para aplaudir decisões destas.

sexta-feira, julho 16, 2004

506. Redacção – A água
 
Eu gosto muito de água. Quando eu era miúdo, havia no Pombal, em Almada, um chafariz. No início, a maioria das casas não tinha água canalizada. Ai como eu sou antigo. Ao bom estilo chinês, uma vara sobre os ombros e um balde de cada lado íamos buscar água ao chafariz. Os rapazes e as raparigas, na época em que eu era miúdo, casavam com as raparigas e com os rapazes da região. Diziam que quem bebia água do Pombal, ficava como que enfeitiçado. Eu casei com uma pessoa que nasceu a mais de duzentos quilómetros. Fui embarcado. Passadas pouco mais de duas semanas, eu gritava a plenos pulmões: ‘Tirem-me daqui!’. E jurava a pés juntos, que depois do primeiro desembarque não voltaria à marinha mercante. Os meus colegas riam e gozavam comigo. Diziam-me que eu já tinha bebido água do tanque número três. Quem bebia a água de bordo, ia lá ficar toda a vida. Eu fiquei seis meses. Trabalhei numa empresa japonesa. Fui muito bem tratado e o Director Geral gostava do meu trabalho. Convenceu-se que à boa maneira japonesa eu ficaria lá para toda a vida. Teve um desgosto enorme quando me despedi, ao ponto de tirar uma semana de férias, coincidente com a data da minha saída, para não me cumprimentar no dia em que me vim embora. Hoje, embora esteja desempregado, sinto orgulho nas seis empresas onde trabalhei nos últimos 24 anos. Mas não enraizei em nenhuma. Um dos comentadores do meu post anterior escreveu na caixa de comentários: “Voltas. Sei que voltas. Isto já te entrou vida dentro e agora podes tirar férias, podes dar voltas ao miolo mas o que sentes acaba por sair. Portanto, um grande até já. Descansa. Mas voltas, tenho a certeza. Grande abraço!”. Ele sabia que eu tinha bebido água da blogosfera. A única água que me enfeitiçou. Eu gosto muito de água.

segunda-feira, julho 12, 2004

505. Bom Dia!

- Estás a pensar acabar com o blog não é?
- Como é que sabes?
- Vejo na tua cara. Tens cara de desistência.

(O meu espelho nunca tinha usado esta palavra. Ele sabe que eu nunca desisti de nada. Onde será que a aprendeu?)

- Enganas-te. Tenho cara de pausa.

(Ele fez uma careta. Acho que desconhece a expressão. Sempre me viu electrizado. Não me conhecia pausas)

- Queres explicar, ou ficamos assim?

(Disse-me isto com um ar tão crítico, tão acético, que não consegui virar-lhe as costas sem uma explicação)

- Preciso de ler. De voltar a vasculhar a biblioteca. Preciso de beber novos éteres e cheirar os clássicos. Renovar-me e repurificar esta sala. Cheira-me demasiado a tabaco.

(Baixou a cabeça, ficou uns segundos largos em reflexão, depois olhou-me nos olhos e falou-me em voz baixa)

- Hoje não digas apenas bom dia. Diz também até logo. Até sempre!