658. Vento
E das folhas caídas se faz chão. E do chão, tapetes, onde gosto de rebolar e sair húmido. Pegar uma mão cheia fazê-las esvoaçar e pentear-me de castanho e vermelho e roxo.
segunda-feira, outubro 18, 2004
656. Marujos
Noutros tempos chamava-lhes os “marujos”. Vinham a cavalo de Vila Real de Santo António até ao Pomarão. A cavalo, é como o Ti Manel se refere a virem de barco Guadiana acima. Depois, canastas à cabeça ou aos ombros calcorreavam montes e vales. Os pés escorriam sangue e nem para a bucha ganhavam. De que servia comerem um pedacinho de pão aqui ou ali se, em casa, uma prole de filhos os esperava com fome? Do Pomarão à Mina de S. Domingos, mesmo a corta-mato, são mais de 15 kms. De trem, só os senhores da mina. Os operários saíam noite pela madrugada, para pegarem às oito. As serviçais, que iam tratar das casas de quem mais posses tinha, faziam vinte, trinta ou mais kms sempre a pé. Os filhos ficavam na cama, guardados pelas irmãs mais velhas. Os filhos, duas horas depois, por volta das seis, levantavam-se para guardar rebanhos ou trabalhar na ceifa. E os contrabandistas atravessavam o Chança a nado, quase sem respirarem, onde do lado de cá os guardas-fiscais os esperavam. Tempos difíceis.
PS. 1 Maria Útilia, desejo-te um feliz aniversário. O Ti Manel, mandou-vos cumprimentos.
PS. 2 Apesar dos tempos estarem maus, não guardei as romãs só para mim.
Noutros tempos chamava-lhes os “marujos”. Vinham a cavalo de Vila Real de Santo António até ao Pomarão. A cavalo, é como o Ti Manel se refere a virem de barco Guadiana acima. Depois, canastas à cabeça ou aos ombros calcorreavam montes e vales. Os pés escorriam sangue e nem para a bucha ganhavam. De que servia comerem um pedacinho de pão aqui ou ali se, em casa, uma prole de filhos os esperava com fome? Do Pomarão à Mina de S. Domingos, mesmo a corta-mato, são mais de 15 kms. De trem, só os senhores da mina. Os operários saíam noite pela madrugada, para pegarem às oito. As serviçais, que iam tratar das casas de quem mais posses tinha, faziam vinte, trinta ou mais kms sempre a pé. Os filhos ficavam na cama, guardados pelas irmãs mais velhas. Os filhos, duas horas depois, por volta das seis, levantavam-se para guardar rebanhos ou trabalhar na ceifa. E os contrabandistas atravessavam o Chança a nado, quase sem respirarem, onde do lado de cá os guardas-fiscais os esperavam. Tempos difíceis.
PS. 1 Maria Útilia, desejo-te um feliz aniversário. O Ti Manel, mandou-vos cumprimentos.
PS. 2 Apesar dos tempos estarem maus, não guardei as romãs só para mim.
655. Bom dia
Passei o fim-de-semana no “meu” Alentejo. Seja Primavera ou Verão, seja Outono ou Inverno, o Alentejo é sempre lindo. Ontem foi dia de romãs. Uma pequena romanzeira que tenho no quintal, que nasceu espontânea há uns 3 anos atrás e tratada por quem nunca percebeu o mínimo de agricultura, deu romãs de 750 gramas. Maravilhosas na abertura, vermelhas e doces.
PS. Ao contrário da romã levei com um árbitro azul e amargo. Coisas do futebol.
Passei o fim-de-semana no “meu” Alentejo. Seja Primavera ou Verão, seja Outono ou Inverno, o Alentejo é sempre lindo. Ontem foi dia de romãs. Uma pequena romanzeira que tenho no quintal, que nasceu espontânea há uns 3 anos atrás e tratada por quem nunca percebeu o mínimo de agricultura, deu romãs de 750 gramas. Maravilhosas na abertura, vermelhas e doces.
PS. Ao contrário da romã levei com um árbitro azul e amargo. Coisas do futebol.
sexta-feira, outubro 15, 2004
654. Em defesa da língua portuguesa
Eu sou um conversador nato. Às vezes sinto-me, até, tagarela de mais. E quando não tenho gente perto, converso à distância. Seja ao telefone, seja nas salas de conversação da Internet, vulgo chats. É aqui que a porca torce o rabo. Viram que escrevi chats? Era necessário, uma vez que já tinha escrito antes salas de conversação? Não, não era. É também lá que eu costumo ler e escrever LOL…
Ao ler, ontem, o post do Circo Cerebral (ops, o post…, quer dizer o texto), ele que está a passar férias em Inglaterra, reparei que escreveu, e muito bem, acrescento, Escritório em vez de Office, Janelas em vez de Windows, Edição Casa em vez de Home Edition. Só não sei se fez bem em escrever Chispe em vez de XP, mas acho que foi por causa da falta do acento circunflexo no teclado. RAG.
PS 1. PS é latim, portanto é desculpável.
PS 2. RAG = Rindo Às Gargalhadas em vez do anglo-saxónico LOL. Em defesa da língua portuguesa.
PS 3. Em França existe já uma determinação oficial para se utilizar COURRIEL (uma junção/abreviatura de courrier electronique) em vez do anglicismo e-mail. Sabendo como funcionam os Correios em Portugal nem me atrevo a propor CORRELE. Nem em azul as mensagens chegariam a tempo.
Eu sou um conversador nato. Às vezes sinto-me, até, tagarela de mais. E quando não tenho gente perto, converso à distância. Seja ao telefone, seja nas salas de conversação da Internet, vulgo chats. É aqui que a porca torce o rabo. Viram que escrevi chats? Era necessário, uma vez que já tinha escrito antes salas de conversação? Não, não era. É também lá que eu costumo ler e escrever LOL…
Ao ler, ontem, o post do Circo Cerebral (ops, o post…, quer dizer o texto), ele que está a passar férias em Inglaterra, reparei que escreveu, e muito bem, acrescento, Escritório em vez de Office, Janelas em vez de Windows, Edição Casa em vez de Home Edition. Só não sei se fez bem em escrever Chispe em vez de XP, mas acho que foi por causa da falta do acento circunflexo no teclado. RAG.
PS 1. PS é latim, portanto é desculpável.
PS 2. RAG = Rindo Às Gargalhadas em vez do anglo-saxónico LOL. Em defesa da língua portuguesa.
PS 3. Em França existe já uma determinação oficial para se utilizar COURRIEL (uma junção/abreviatura de courrier electronique) em vez do anglicismo e-mail. Sabendo como funcionam os Correios em Portugal nem me atrevo a propor CORRELE. Nem em azul as mensagens chegariam a tempo.
653. Al(he)ado
Vejo, de um lado, o azul e também do outro.
Lá em baixo, um vapor passa, fumante.
E o fumo se mistura com o fumo de cá.
Na margem, o fumo esfuma-a.
Estou mais perto do Sol,
E à noite, das estrelas.
Vejo as estrelas num dos lados e também no outro.
E a luz se mistura com a luz de cá.
Tudo é igual nas duas margens.
Lá em baixo, entre a ponte e o mar,
O vazio.
Não voarei nesse ar!
Vejo, de um lado, o azul e também do outro.
Lá em baixo, um vapor passa, fumante.
E o fumo se mistura com o fumo de cá.
Na margem, o fumo esfuma-a.
Estou mais perto do Sol,
E à noite, das estrelas.
Vejo as estrelas num dos lados e também no outro.
E a luz se mistura com a luz de cá.
Tudo é igual nas duas margens.
Lá em baixo, entre a ponte e o mar,
O vazio.
Não voarei nesse ar!
quinta-feira, outubro 14, 2004
652. A operada
Catarina:
- Não sabia que ías tirar a vesícula. Da próxima vez estás proibida de o fazer sem me avisares. Os amigos são para as ocasiões. Se me tivesses dito, teria pedido para levares a minha também. Quem tira uma, tira duas. E assim poupava-se uma ida ao hospital (tirar uma vesícula é chic). Agora que os transportes públicos aumentaram, sempre se poupava uns cêntimos. Eu sei que não é bom estar a falar em poupanças, pois o nosso primeiro diz que agora há dinheiro a rodos, e vai aumentar as pensões e isso, e os funcionários públicos e isso, mas eu sempre fui assim. Só não sei o que é vou fazer daqui em diante aos euritos que me sobram e que aplicava em pêpêérres. Quanto à hérnia, não sei quê, não sei quê, a minha é discal, pelo que não a cedo a ninguém. Se me tirarem a dita, onde é que eu vou ouvir música? É que, apesar dos CDs, ainda tenho muitos discos de vinil para ouvir. Finalmente, vamos ao que interessa: os pontos. Ó miúda, mas tu não acabaste o liceu há uma data de anos? Ainda tens pontos? Ou estás a falar do relógio de ponto lá do emprego. Confesso que nunca vi um relógio de ponto de bikini. Mas tu é que sabes, se o bikini já era, olha, mal por mal, preferia os pontos de matemática. O quê? Não estás a ver a relação entre o bikini e a matemática? Então lê o PS.
PS. Ilha de Bikini / Atol de Bikini : Área terrestre: 3.4 square milles; Ilha: 384 acres; Ilha de Eneu: 308 acres; Total Lagoon área: 240 square milles. Quem não souber fazer contas está lixado.
Catarina:
- Não sabia que ías tirar a vesícula. Da próxima vez estás proibida de o fazer sem me avisares. Os amigos são para as ocasiões. Se me tivesses dito, teria pedido para levares a minha também. Quem tira uma, tira duas. E assim poupava-se uma ida ao hospital (tirar uma vesícula é chic). Agora que os transportes públicos aumentaram, sempre se poupava uns cêntimos. Eu sei que não é bom estar a falar em poupanças, pois o nosso primeiro diz que agora há dinheiro a rodos, e vai aumentar as pensões e isso, e os funcionários públicos e isso, mas eu sempre fui assim. Só não sei o que é vou fazer daqui em diante aos euritos que me sobram e que aplicava em pêpêérres. Quanto à hérnia, não sei quê, não sei quê, a minha é discal, pelo que não a cedo a ninguém. Se me tirarem a dita, onde é que eu vou ouvir música? É que, apesar dos CDs, ainda tenho muitos discos de vinil para ouvir. Finalmente, vamos ao que interessa: os pontos. Ó miúda, mas tu não acabaste o liceu há uma data de anos? Ainda tens pontos? Ou estás a falar do relógio de ponto lá do emprego. Confesso que nunca vi um relógio de ponto de bikini. Mas tu é que sabes, se o bikini já era, olha, mal por mal, preferia os pontos de matemática. O quê? Não estás a ver a relação entre o bikini e a matemática? Então lê o PS.
PS. Ilha de Bikini / Atol de Bikini : Área terrestre: 3.4 square milles; Ilha: 384 acres; Ilha de Eneu: 308 acres; Total Lagoon área: 240 square milles. Quem não souber fazer contas está lixado.
651. Conduzir à esquerda
O meu sobrinho anda por terras de sua majestade. Diz ele, lá no seu genial blog, que nunca viu tanta gente a guiar em contra-mão. Fez-me lembrar quando, há alguns anos atrás, invocando a mais antiga aliança do mundo, alguém, aqui no nosso cantinho, achou que também deveríamos começar a conduzir pela esquerda. Dizia às páginas tantas do seu argumentativo discurso: “… e, a título experimental, na primeira semana, serão só os camiões”.
O meu sobrinho anda por terras de sua majestade. Diz ele, lá no seu genial blog, que nunca viu tanta gente a guiar em contra-mão. Fez-me lembrar quando, há alguns anos atrás, invocando a mais antiga aliança do mundo, alguém, aqui no nosso cantinho, achou que também deveríamos começar a conduzir pela esquerda. Dizia às páginas tantas do seu argumentativo discurso: “… e, a título experimental, na primeira semana, serão só os camiões”.
650. Outonos da minha infância
O meu pião
Onde estará aquele meu pião? Era pequeno, maneirinho, como nós dizíamos, quando íamos comprá-los à Casa Ramos. Todo, cabia na pequena mão fechada. Era para dar pontaria. Tinha um pionais na cabeça. Chamávamos-lhe o bacelo. “Não tem bacelo? Vai para a quinta do camelo”. Eram assim a brincadeiras dos putos. A guita era de algodão. Essa não se desfiava. As de sisal não prestavam, não davam um bom aperto e, aos poucos, esfarelavam-se. Em cima, uma coleirinha pintada a várias cores. O meu pião tinha uma coleira verde e vermelha, feita com tinta de óleo. “Não tem coleira? Vai para o fundo da algibeira”. Era o código para que não fosse fanado. Havia putos que não compravam piões, fanavam os que não tinham coleira. O meu pião rodava sempre mais de um minuto. Eu jogava-o “à homem”. Um movimento de arremesso forte de cima para baixo. E apanhava-o entre os dedos ou com a própria guita. A mim não me fazia cócegas quando rodava na palma da mão. Era à homem. Eu não jogava à cagadinha. O meu pião rodava mais de um minuto.
Paravas, olhando o jogo do pião.
Num lance, a guita ainda a sibilar,
Pegava-o do chão.
E, com a perícia (já contada),
Punha-o a rodar
Na mão da namorada.
O meu pião
Onde estará aquele meu pião? Era pequeno, maneirinho, como nós dizíamos, quando íamos comprá-los à Casa Ramos. Todo, cabia na pequena mão fechada. Era para dar pontaria. Tinha um pionais na cabeça. Chamávamos-lhe o bacelo. “Não tem bacelo? Vai para a quinta do camelo”. Eram assim a brincadeiras dos putos. A guita era de algodão. Essa não se desfiava. As de sisal não prestavam, não davam um bom aperto e, aos poucos, esfarelavam-se. Em cima, uma coleirinha pintada a várias cores. O meu pião tinha uma coleira verde e vermelha, feita com tinta de óleo. “Não tem coleira? Vai para o fundo da algibeira”. Era o código para que não fosse fanado. Havia putos que não compravam piões, fanavam os que não tinham coleira. O meu pião rodava sempre mais de um minuto. Eu jogava-o “à homem”. Um movimento de arremesso forte de cima para baixo. E apanhava-o entre os dedos ou com a própria guita. A mim não me fazia cócegas quando rodava na palma da mão. Era à homem. Eu não jogava à cagadinha. O meu pião rodava mais de um minuto.
Paravas, olhando o jogo do pião.
Num lance, a guita ainda a sibilar,
Pegava-o do chão.
E, com a perícia (já contada),
Punha-o a rodar
Na mão da namorada.
quarta-feira, outubro 13, 2004
649. Bom senso
Eu já sabia que eu tinha bom senso. O que eu não sabia era que ela sabia que eu tinha. E agora que sei que ela sabe que tenho, com todo o bom senso que me caracteriza, não posso deixar de lhe mandar um beijinho.
PS. 1. Só ontem li a tua primeira crónica do DNA. Mais vale tarde que nunca. Mas como não sou crítico de escrita, manda o bom senso que não faça considerações.
PS. 2. Gostei.
Eu já sabia que eu tinha bom senso. O que eu não sabia era que ela sabia que eu tinha. E agora que sei que ela sabe que tenho, com todo o bom senso que me caracteriza, não posso deixar de lhe mandar um beijinho.
PS. 1. Só ontem li a tua primeira crónica do DNA. Mais vale tarde que nunca. Mas como não sou crítico de escrita, manda o bom senso que não faça considerações.
PS. 2. Gostei.
terça-feira, outubro 12, 2004
647. Caminhos
Se encoberto o céu se encontra,
Minh’alma está de cinza nublada.
Hoje fui passear pelo jardim onde já não se vêem rosas brancas. Por todo lado procurei verde, mas a cores do Outono confundem-se com as cores das romãs. Respirei fundo e consegui das magnólias, sentir-lhes o cheiro. Mas não encontrei os odores do rosmaninho.
Se encoberto o céu se encontra,
Vou tropeçando nas pedras do caminho.
Sempre te peço que abras as janelas, que lhe retires as trancas. Tu sabes quanto eu gosto que por elas seja invadido de manhãs. Se pudesse mandar desviar, as nuvens, as sombras, as paredes, queria ver o Sol o dia inteiro. Eu sei que não peço muito. Se fossem só as frestas me bastaria. Hoje, quase tudo se me nega.
Minh’alma está de cinza nublada
Como venda em jogo da cabra-cega.
Se encoberto o céu se encontra,
Minh’alma está de cinza nublada.
Hoje fui passear pelo jardim onde já não se vêem rosas brancas. Por todo lado procurei verde, mas a cores do Outono confundem-se com as cores das romãs. Respirei fundo e consegui das magnólias, sentir-lhes o cheiro. Mas não encontrei os odores do rosmaninho.
Se encoberto o céu se encontra,
Vou tropeçando nas pedras do caminho.
Sempre te peço que abras as janelas, que lhe retires as trancas. Tu sabes quanto eu gosto que por elas seja invadido de manhãs. Se pudesse mandar desviar, as nuvens, as sombras, as paredes, queria ver o Sol o dia inteiro. Eu sei que não peço muito. Se fossem só as frestas me bastaria. Hoje, quase tudo se me nega.
Minh’alma está de cinza nublada
Como venda em jogo da cabra-cega.
segunda-feira, outubro 11, 2004
domingo, outubro 10, 2004
643. Anjo da Guarda
Olho para o tecto, parece branco
Alguns vultos de sombra
Desenham estranhas nuvens.
Amedrontam-me, viro-me para o lado
Onde em paredes brancas
Vultos
Desenham estranhas nuvens.
Tapo os olhos, que nada vêem, com as palmas das mãos
Que me parecem brancas,
Vultos que são sombrias nuvens.
No outro lado estás tu.
Vulto,
Toco-te e adormeço.
Alves Fernandes in Complexos
Olho para o tecto, parece branco
Alguns vultos de sombra
Desenham estranhas nuvens.
Amedrontam-me, viro-me para o lado
Onde em paredes brancas
Vultos
Desenham estranhas nuvens.
Tapo os olhos, que nada vêem, com as palmas das mãos
Que me parecem brancas,
Vultos que são sombrias nuvens.
No outro lado estás tu.
Vulto,
Toco-te e adormeço.
Alves Fernandes in Complexos
sábado, outubro 09, 2004
sexta-feira, outubro 08, 2004
641. Nostalgias
Eram sete e meia da manhã. Nem mais, nem menos um minuto. Entrava no café precisamente sempre à mesma hora. O Sr. Andrade tinha já o galão e o papo-seco, que guardava de véspera, ligeiramente torrado e barrado com pouca manteiga, pronto para servi-lo. Tinha vestido um fato azul-escuro, camisa branca, gravata azul clara, lisa, de seda natural. Como sempre, chegou-se ao balcão, embora desta vez com alguma dificuldade pois, no lugar onde costumava tomar o pequeno-almoço estava agora encostada uma nova cliente. Não pediu licença. Aguardou calmamente a sua oportunidade. Mal se abriu uma nesga, esticou um braço, pegou no copo e bebeu um pequeno gole. Sem açúcar, como ele gostava. Depois, pegou no pão e comeu-o. Todo. Nunca embuchava quando comia pão. Comia-o calmamente enquanto o copo de café com leite arrefecia. Pagou, deu os bons dias de despedida e dirigiu-se ao carro. Esperava-o, pela frente, uma longa fila de trânsito.
Foi há mais de dois anos que repetiu este ritual pela última vez. Ainda hoje tem por costume já estar vestido às sete e meia da manhã. Já não toma o pequeno-almoço no café do Sr. Andrade, mas ainda gosta de café com leite morno, quase frio, sem açúcar, nem enfrenta a fila de automóveis, com condutores a esfregarem os olhos, passageiras a maquilharem-se, um ou outro dedo no nariz a completarem a higiene diária. Nem ouve a TSF no rádio do carro. Não sabe como estão os acessos ao túnel do Marquês, nem se há engarrafamentos na rotunda do Freixo.
Hoje, levanta-se da mesa, passa o copo do café com leite por água, coloca-o na máquina de lavar, dirige-se para a secretária, lê on-line todas as ofertas de emprego e depois escrevinha qualquer coisa no blog. Tem saudades do café do Sr. Andrade.
Eram sete e meia da manhã. Nem mais, nem menos um minuto. Entrava no café precisamente sempre à mesma hora. O Sr. Andrade tinha já o galão e o papo-seco, que guardava de véspera, ligeiramente torrado e barrado com pouca manteiga, pronto para servi-lo. Tinha vestido um fato azul-escuro, camisa branca, gravata azul clara, lisa, de seda natural. Como sempre, chegou-se ao balcão, embora desta vez com alguma dificuldade pois, no lugar onde costumava tomar o pequeno-almoço estava agora encostada uma nova cliente. Não pediu licença. Aguardou calmamente a sua oportunidade. Mal se abriu uma nesga, esticou um braço, pegou no copo e bebeu um pequeno gole. Sem açúcar, como ele gostava. Depois, pegou no pão e comeu-o. Todo. Nunca embuchava quando comia pão. Comia-o calmamente enquanto o copo de café com leite arrefecia. Pagou, deu os bons dias de despedida e dirigiu-se ao carro. Esperava-o, pela frente, uma longa fila de trânsito.
Foi há mais de dois anos que repetiu este ritual pela última vez. Ainda hoje tem por costume já estar vestido às sete e meia da manhã. Já não toma o pequeno-almoço no café do Sr. Andrade, mas ainda gosta de café com leite morno, quase frio, sem açúcar, nem enfrenta a fila de automóveis, com condutores a esfregarem os olhos, passageiras a maquilharem-se, um ou outro dedo no nariz a completarem a higiene diária. Nem ouve a TSF no rádio do carro. Não sabe como estão os acessos ao túnel do Marquês, nem se há engarrafamentos na rotunda do Freixo.
Hoje, levanta-se da mesa, passa o copo do café com leite por água, coloca-o na máquina de lavar, dirige-se para a secretária, lê on-line todas as ofertas de emprego e depois escrevinha qualquer coisa no blog. Tem saudades do café do Sr. Andrade.
quinta-feira, outubro 07, 2004
640. Excitação (II)
Mas eu hoje não paro de me excitar? Então não é que o PS de Marco se quer demitir, porque o Presidente da Câmara anda a dormir com uma porca? E esses senhores nunca leram aquela passagem bíblica que diz, “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”? Será que nunca nenhum deles teve uma porca à cabeceira? Santa ignorância. Ainda vamos ter, à semelhança das mães de Bragança, um abaixo-assinado dos pais do Marco.
(hoje estou virado para as juras; juro e torno a jurar, que se me dessem a escolher entre dormir com uma porca e andar atrás de um árbitro, escolheria a primeira; sei lá o que iam pensar de mim por andar atrás de um gajo…)
Mas eu hoje não paro de me excitar? Então não é que o PS de Marco se quer demitir, porque o Presidente da Câmara anda a dormir com uma porca? E esses senhores nunca leram aquela passagem bíblica que diz, “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”? Será que nunca nenhum deles teve uma porca à cabeceira? Santa ignorância. Ainda vamos ter, à semelhança das mães de Bragança, um abaixo-assinado dos pais do Marco.
(hoje estou virado para as juras; juro e torno a jurar, que se me dessem a escolher entre dormir com uma porca e andar atrás de um árbitro, escolheria a primeira; sei lá o que iam pensar de mim por andar atrás de um gajo…)
639. Excitação (I)
Aimeusdeuses, estou tão excitado. Acabei de ouvir, na SIC Notícias, que o Sr. Presidente da República recebeu o professor Marcelo Rebelo de Sousa, durante uma hora e cinco minutos. Confesso que se tivesse sido durante uma hora e dez minutos eu não ficaria mais excitado.
(eu ainda sou do tempo em que o Sr. Presidente da República consultou 853 personalidades e 28 partidos políticos, para chegar à conclusão que a nomeação do Dr. Pedro Santana Lopes, para Primeiro-Ministro, não era anti-constitucional. Juro – grito eu batendo três vezes com a mão direita no peito – que nessa época também fiquei muito excitado)
Aimeusdeuses, estou tão excitado. Acabei de ouvir, na SIC Notícias, que o Sr. Presidente da República recebeu o professor Marcelo Rebelo de Sousa, durante uma hora e cinco minutos. Confesso que se tivesse sido durante uma hora e dez minutos eu não ficaria mais excitado.
(eu ainda sou do tempo em que o Sr. Presidente da República consultou 853 personalidades e 28 partidos políticos, para chegar à conclusão que a nomeação do Dr. Pedro Santana Lopes, para Primeiro-Ministro, não era anti-constitucional. Juro – grito eu batendo três vezes com a mão direita no peito – que nessa época também fiquei muito excitado)
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