sábado, agosto 05, 2006

1016. Listas
(é pedir muito?)

Grandes insurgências contra o Governo pela publicação da lista de devedores ao fisco. Logo vozes se levantaram que também deveria ser publicada a lista (com certeza muito maior) das dívidas do Estado às pessoas e às empresas.

Ontem a revista Exame trazia a lista dos 100 mais ricos de Portugal e o valor das suas fortunas e, abreviando, informava que eles estão 13% mais ricos do que no ano passado. Claro está que nenhuma revista publica a lista dos 2 milhões mais pobres em Portugal, do seu rendimento mensal e de quanto aumentou a sua pobreza em relação ao mesmo período.

E já agora, à pala do que Vital Moreira escreveu no seu blog, onde sugeria que também fosse colocada a morada nas listas de devedores, eu sugeriria que, na lista dos pobres, fosse escrito para qual daqueles 100 mais ricos eles trabalham.

É pedir muito?
1015. Adivinha
(ou como o Pre embora não tenha, como disse anteriormente, capacidade para escrever sobre a guerra Israelo-palestiniano-libanesa, vai seguuindo os acontecimentos)

Sabem qual a diferença entre uma folha de plátano, um cedro e uma estrela de David?
A resposta encontra-se nesta página.

quinta-feira, agosto 03, 2006

1014. Digam-me para onde foge a vossa voz
(Aceitei o desafio da Hipatia lá no seu blog Voz em Fuga)


Talvez a intenção não fosse bem esta. Mas eu tenho por minha mania, e cada maluco tem a sua, como é vox populit, de assumir o meu próprio entendimento das coisas em detrimento do senso comum. Aliás, este personagem que desde sempre me perseguiu e que de vez em quando entra em diálogo comigo, ao qual (diálogo) só não o adjectivarei de acintoso ou bélico porque sou uma pessoa bem educada, mau grado muitas vezes o ter pensado, sem nunca o fazer, de o mandar bardamerda ou de lhe dar dois pares de estalos, dizia eu, o senso comum é um chato. Quando eu penso em fazer algo do qual ele não está de acordo, lá vem vele chamar-me a atenção do tipo, se eu fosse a ti não faria isso e se eu caio na asneira de lhe perguntar porquê, já sei que tenho sermão e missa cantada e, depois com uma réstia de paciência, que confesso de vez em quando já me vai faltando, lá entro em troca de galhardetes. O meu principal problema é dar a mão à palmatória e mesmo que embirrando com ele e assumindo que vou levar a minha avante, acabo por, às escondidas, conceder-lhe o benefício da dúvida que é como quem diz, ceder ao desgraçado e intrometido senso comum. Tenho a certeza, que ele, de quem não duvido ter pertencido a alguma daquelas organizações de espiões duplos ou a uma agência de detectives particulares, volto atrás de novo, dizia eu tenho a certeza que o tipo se fica a rir baixinho por saber que eu dei o braço a torcer. É assim um pensamento do tipo, o gajo fala, fala, está sempre com a garganta de que se assume contra o senso comum e no frigir dos ovos, que é como quem diz, no final da contas ou por outras palavras ao fim e ao cabo sempre vai aceitando o que o senso comum tem para lhe dizer. É por isso que não sei se deva aqui escrever o que no princípio eu tinha pensado ou se por obra do senso comum (por favor não te importas de me deixar em paz só por uns minutos?) eu deva seguir uma linha de texto que possa interessar aos leitores quer deste blog, quer do blog desafiador. Assim como assim, vou ainda pensar no assunto, mas deixo-vos já a informação que a minha voz foge mais para o lado da cana rachada. E se eu fosse um entendido em música talvez a pudesse caracterizar como uma Fá sustenido ou quiçá um Si bemol. Mas isso é só para quem percebe, não te metas nisso, está aqui a dizer-me ao ouvido, o senso comum. Bolas!

quarta-feira, agosto 02, 2006

1013. Deambulando
(um capítulo onde o Pré se perde em sub-capítulos e onde se insinua que neste país e não só, há cobardes, mas só se insinua, não esperem coisas muito assertivas)














Eu tinha tanta coisa para falar, ou melhor do que falar mesmo escrevendo. Podia estar agora aqui a dissertar sobre a lista das dívidas ao fisco, se a montanha pariu um rato porque os vampiros que durante semanas, senão meses, estiveram à espera de sangue e depois saíram meia dúzia de nados-mortos, sem nada para chupar, nem cabeleiras loiras pelos ombros algures de Cascais ou da Quinta da Marinha, nem dirigentes ou clubes de futebol, nem políticos de renome ou se calhar sim mas os vampiros perderam o olfacto. Poderia falar do losango e que me perdoem Décartes, Gaspard Monge e Mandelbrodt mas não podiam ter baseado os vossos estudos noutra coisa que não fosse a geometria, porque para rapazinhos cuja maior parte não sabe mais do que somar dois com dois, mesmo assim, por vezes errando, coisas com losangos é, sei lá como dizer, muita areia para a camioneta deles o que vai obrigar o senhor engenheiro do penta a ter que mudar de sistema, quem sabe começando com a cartilha de João de Deus? Podia falar da nossa justiça, sem me meter em apitos dourados nem em casas pias, mas tão somente tentar ensinar certos juízes a nadar em poços de 10 metros de profundidade, depois de uma carga de porrada e inconscientes, ou será que inconscientes já o são, podia falar do Alberto João Jardim, outro poço, mas desta vez de bom senso, de educação, de cultura democrática, mas um poço tão fundo no qual nada disso se vislumbra e do medo que os do “contenente” têm dele, vamos lá a saber porquê. Podia também falar do festival de fogos que estão para vir e daqueles que já foram, mesmo dos que, à luz de uma sensata política editorial dos média não tenham sido transformados em espectáculo televisivo, nos foi sendo mitigada a informação. Podia falar da última sondagem TSF/Marktest em que é dado como crescente a popularidade do nosso governo e a confiança depositada no mesmo, mau grado a Ministra da Educação a puxar para baixo (como se diz em linguagem bolsista), versus o pulso que dia a dia a gente vai sentindo nas gentes simples que não fazem parte do painel escolhido pelas iluminadas agências. Podia falar da nossa cultura, da troca que Maria João Pires, farta dos “Morangos com Açúcar”, fez das telenovelas da TVI pelas telenovelas da Globo, quiçá com passagem paga por alguns trocos sobrantes dos muitos milhões de euros que Belgais já recebeu de apoio, ou falar da colecção Berardo e do sr. Joe que o Professor decidiu afrontar, sei lá eu do que poderia e do que deveria falar aqui. Mas do que eu gostava mesmo de falar era dessa loucura que grassa no Oriente Médio. Só que não tenho nem estofo, nem coragem. Acho que estou a ficar parecido com a União Europeia.

terça-feira, agosto 01, 2006

1012. Praias de Portugal - Oásis no interior alentejano
(O Pre também publicou este post no Ante et Post onde os seus companheiros e companheiras de blog têm primado pelo bom gosto das suas, dele e delas, fotos. Vai daí ele que não se quis deixar ficar para trás, pimba!. Sem dopping.)


Esta é a Tapada Grande na Mina de S. Domingos.
Tem muitos prós: É uma praia fluvial sem correntes, a bandeira está sempre verde, não há motas de água, as sombras são naturais (dispensam-se chapéus de Sol) e tem um bar a menos de 20 metros da praia onde a lista ainda é em português.

Tem alguns contras: A água é doce e, como não podia deixar de ser por se encontrar bem no interior do país, os sons que nos rodeiam em Agosto são muito do tipo "arrête Jacques-Marie si non levas une bofetada qui je te fodo".

Mas em contrapartida: Cantam os passarinhos pela manhã. E também tem Evas (vá lá, condescendendo para a audiência feminina, alguns Adões). E assim não sei se lhe hei-de chamar Oásis se Paraíso.

1011. Até se me pegaram as entranhas
(Onde o Pré, atento ao que o rodeia glosa com as instruções de utilização de uma embalagem de cola e fala de Fernando Pessoa)

“A minha Pátria é a língua portuguesa” escreveu-o Fernando Pessoa no seu Livro do Desassossego. Não sei se inspirado nesta frase criou-se a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, inaugurou-se o Museu da Língua Portuguesa, Organizam-se campeonatos nacionais de língua portuguesa nos jornais e na televisão, a mesma televisão que todos os dias nos ensina pelo menos uma palavra em português. Fazem-se sketchs (como será que se diz em português?) teatrais onde se caricatura e ironiza com as calinadas e não é com rara frequência que se diz que a nossa língua é muito traiçoeira, por permitir duplos sentidos onde proliferam homófonas e homónimas e onde as cacofonias assumem, até, sons com alguma piada. Ouve-se a todo o instante alguém defender a nossa língua, aliás a sexta língua mais falada no mundo, mesmo nas suas diferenças regionais e na utilização de vocábulos não universais para toda a comunidade. Assim pensamos nós e também assim pensarão o s outros, os estrangeiros, na defesa da sua própria língua. Não sei se por uma questão de defesa da língua nacional, se apenas para cabal esclarecimento e protecção dos consumidores, tenha a União Europeia dado o passo com a normativa que obriga que os produtos vendidos em cada país, contivessem textos (instruções, composição, recomendações, etc.) na língua oficial (ou oficiais, quando mais do que uma). Ora eu, que até sou poliglota, aplaudo a directiva, mas gostaria de exigir que ela fosse cumprida. É que uma coisa é os textos serem escritos em português, outra coisa é isto:

Super pegamento instantâneo
Serve para colar: Plásticos, cerâmicas, cauchos, gomas, porcelana, madeiras duras, mármore, metais, nácar, marfim, vídrio, etc.
Modo de uso:
As superfícies a colar deberão estar limpas, secas e sem polvo nem estar grassentas. Aplicar um pouco de pegamento. Só com uma gota é bastante. Se pôr demasiado, a efectividade e a rapidez não é tão grande. Unir as peças entre si, evitando o contacto com os dedos. Pressionar durante uns 15-30 segundos, o tempo necessário para a união, alcançando a máxima resistência em umas 12 horas. Sacar a punta depois da usagem e enrroscar a capucha até quedar perfeitamente fechado. Extraer os resíduos com acetona. Conservar em um lugar fresco e seco, pretigido da luz.


Notas: 1. instruções numa embalagem de cola importada; 2. realces no texto da minha responsabilidade.

segunda-feira, julho 31, 2006

1010. O Apagão
(onde se fala de telejornais, vinho tinto e se fica a saber que o gato fedorento está a ser plagiado)


O Ricardo Araújo Pereira e os seus colegas do Gato Fedorento que se cuidem. As nossas televisões andam numa frenética concorrência aos Meireles, aos Barbosas e aos Lopes da Silva. Está um gajo a almoçar calmamente uma sardinhada assada com salada de pimentos, tomate, alface, pepino e muita cebola, acompanhado de um Herdade do Pinheiro, tinto (sim que eu gosto de beber bom) e de repente fica a saber que nessa noite faltou a luz em Santarém. Bolas, fiquei logo com uma espinha entalada na garganta, Bebe um golinho de vinho disseram-me, Não respondi eu, tanto quanto consegui responder com uma espinha na garganta, que o vinho para mim não é um desembuchador de comidas, mas sim um néctar em constante degustação. É que sempre que há um caso destes eu fico logo a imaginar grandes tragédias, do tipo o metro parou e ficaram quatrocentos passageiros retidos durante 6 horas debaixo de um calor de 30 graus, mas não podia ser, porque em Santarém não há metro, ou do tipo foi um apagão provocado por uma cegonha, fico logo a imaginar aquelas bebé-cegonhas desamparadas de mãe, no alto dos postes, capazes de caírem dali a baixo. Foi por isso que me engasguei e não despreguei mais os olhos da televisão para ouvir a notícia e principalmente ouvir os testemunhos.
E o senhor sofreu muitos prejuízos, perguntava a repórter, ao que o dono do café dizia, Sim nem imagina quando cheguei estavam as cervejas quentes, mas desenrasquei-me de outra maneira, E a senhora? Olhe nem dei por isso porque quando me deitei ainda havia e quando acordei já havia luz, E você deu conta do apagão, Se dei, levantei-me de noite para fazer xixi e fiquei admirada de não haver luz quando liguei o interruptor.
Pronto, foi esta a reportagem que a TV (nem me lembro em qual canal), passou no noticiário da hora de almoço. Os pimentos estavam espectaculares. Ah, é verdade, esqueci-me de falar do melão à sobremesa, mas fica para depois.

1009. Artes e Sabores
(coisas gostosas, coisas de artistas)

A Ana Valente é um poço de simpatia (não desfazendo, como soi dizer-se, da D. Isabel, sua mãe). Há pouco mais de um mês, abriu uma pequena loja, a Artes e Sabores, onde se mistura o artesanato aos bons produtos da região. Mas se a loja é pequena o gosto é grande. Comecemos pelo pão, mas comecemos mesmo. Porque se o deixarmos para o fim corremos o risco de lá chegar e já não haver. Quem não gosta de pão alentejano, cozido em forno de lenha, passe adiante e vá direito ao queijo. (Relembro aqui uma pequena história de outras épocas, em que quando com o meu pai fomos a uma tasquinha, por acaso também no Alentejo, a senhora chegou com o pão quando já nós tínhamos comido queijo. Ao ar incrédulo da senhora que nos servia o meu pai ripostou: - Pois é, minha senhora, andei tantos anos a comer pão sem queijo que hoje me dei a liberdade de comer o queijo sem pão). Os queijos são da região de Serpa e têm-nos frescos, secos, curados, em azeite, amanteigados e de entorna. Têm chouriços ainda meio verdes para assar e já curadinhos para o pão. E paios… de porco preto. O presunto é imbatível, as azeitonas obrigam-nos a pecar, fechem os olhos à dieta só por uns minutos e não desdenhem os bolos regionais, as compotas caseiras e provem o hidromel. O artesanato é de várias regiões alentejanas com destaque para os barros pintados e, acreditem, não é caro. Quando passarem na Mina de S. Domingos não hesitem e façam-lhe uma visitinha.

PS. PUB completamente grátis e merecida porque aos prazeres da mesa e dos olhares não há nada que os pague.


1008. CPLP
(onde o Pré fala de férias e de pobres e isso)

Estava o PreDatado com os pés nas férias mas com a cabeça ainda no mundo real, em herética postura face aos que o acompanhavam (as férias são férias, tal como os que dizem a guerra é a guerra). E foi assim que se lhe deu conta das conclusões da cimeira da CPLP do passado dia 16 – vejam como tempo passa, parece que foi no século passado e quase já ninguém se lembra. Que agente vá de férias tudo bem, mas para que a memória colectiva não entre em letárgico repouso deixem-me cá voltar ao tema.

Nos dias que a antecederam a referida cimeira, ouvi muitas perguntas, muitos comentários e muitas análises sobre para que servia a CPLP. Infelizmente, não ouvi muitas opiniões coincidentes pelo que me parece que andam todos à nora com a questão. Mas se para outra coisa não servisse, esta cimeira tomou uma deliberação que considero demasiado importante para não ser levada à letra. Comprometeram-se a acabar com a fome e a pobreza até 2015. Ou pelo menos erradicar metade (diga-se de passagem que um desvio de 50% não deveria deixar muito alegres os políticos). E Aníbal Cavaco Silva e José Sócrates subscreveram. O que se subentende que não é apenas na África, em Timor ou no Brasil que essa acção deva ser levada a cabo. Também aqui em Portugal. E, atendendo às estimativas da União Europeia que diz que temos 2 milhões de pobres, isso significa que em cada ano, dos nove que faltam, 222 mil portugueses (ou pelo menos 111 mil) deixarão de ser pobres. Eu estou aqui para cobrar, porque eu sou uma das pessoas que não se esqueceu dos 150 mil novos empregos prometidos por Sócrates. E esses estão muito longe de estar conseguidos. Eu estarei atento porque as férias não são eternas.

sábado, julho 15, 2006

1007. E agora, férias!




Durante uns tempinhos o PreDatado vai a banhos. Férias são férias e por isso, não escreverei (aqui), não lerei (por aqui e por acolá com uma pantalha à frente), não comentarei. Mas depois voltarei em força. Esperem-me.

terça-feira, julho 11, 2006

1006. Confuso?

Anedotas
Há uns anos atrás contaram-me uma anedota de um taxista que passava todos os sinais vermelhos dos semáforos e parava nos verdes. Interrogado pelo cliente respondeu-lhe: “É evidente porque paro nos verdes. Imagine que vem aí outro maluco como eu”. Então não é que hoje vi um tipo, em pleno centro de Almada, a fazer o mesmo? Isto é mesmo um país de anedotas.

Confusão
Na repartição de finanças o sistema informático estava “em baixo”. Cada um, munido da sua senha, aguardava a sua vez e, por sua vez, que o sistema resolvesse dar sinal de si. Até que veio. A funcionária ao balcão perguntava “quem está primeiro?”. Nós, algumas dezenas, olhávamos para a senha e, com cara de parvos, um para os outros, sem que ninguém soubesse responder. Até que alguém lembrou à senhora que bastava ir carregando no botão que muda o número da vez, que cada um responderia na sua ordem. Confuso ou simplex?

Produtividade 1
Há dias em que me dão pancadas na cabeça. Hoje decidi sair de casa munido de cronómetro. Cheguei ao posto médico às 08h10m, tirei a senha e fui inscrito às 8h50m. 40 minutos de espera. A consulta tinha início previsto para as 09h00. Fui o número três, atendido às 9h45m. Mais 45 minutos de espera. A consulta, incluindo prescrição médica durou 6 minutos. Mais 47 minutos de espera para a colocação da vinheta e marcação de nova consulta. Vá lá, vá lá, na repartição de finanças apenas esperei 52 minutos pelo sistema informático. E apesar de que, entre o último chamado, antes da avaria, e a minha senha, houvessem 42 números de diferença, nem todos tiveram paciência para esperar e lá me safei. Ao todo perdi 185 minutos. Praticamente dois jogos de futebol já com os descontos. Mas sem prolongamento. Produtividade?

Produtividade 2
À saída do posto médico um casal chamou um táxi. O taxista tomou os passageiros e arrancou de imediato. Antes que tivessem tempo de colocar os cintos, mas pior, antes que a passageira que se sentou no banco de trás tivesse fechado a porta do carro. Este taxista sabe o que é produtividade. Não sabe é o que é segurança. Não me admiro que a seguir passasse o semáforo vermelho. Valha-nos ao menos que parará no próximo verde. País de anedotas? Não, nem por isso.

segunda-feira, julho 10, 2006

1005. Pagar duas vezes

Esta notícia não me surpreende. Desde há muito tempo que vem sendo assim. As empresas utilizam o dinheiro que descontam aos trabalhadores para se auto-financiarem. Não entregam as respectivas contribuições nem à Segurança Social nem ao fisco e mais tarde abrem falência. Ninguém é responsabilizado, os empresários continuam com os seus brutos automóveis de topo de gama, as suas mansões, as suas casas de férias nos melhores locais de Portugal e do estrangeiro, as mulheres e as filhas nas vernissages e nas capas de revista, os filhos nos melhores colégios. Vêm depois os governos, aqui del-rei que a segurança social está falida, que é preciso aumentar a idade da reforma, que é preciso que os trabalhadores financiem, uma vez mais, a mesma Segurança Social. Aquela que já financiaram à partida para encherem os bolsos a uma dúzia de gulosos. Tudo com a conivência dos vários governos que temos tido desde o 25 de Abril e que como é óbvio iremos continuar a ter. É por isso que a minha bandeira portuguesa só se desfralda por causa da selecção nacional de futebol. Não alinho com esta promiscuidade.

sábado, julho 08, 2006

1004. Ao Sábado alguem lê blogs?

Eu não devia ser assim, mas… Porque é que depois de termos perdido com a França num jogo de futebol eu perdi a pica pelo Tour de France?

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Não me admira nada que a plataforma logística, ontem apresentada com pompa e circunstância pelo Governo, seja um investimento espanhol. Há mais de 10 anos que tenho um jogo de setas que quando acertamos no centro nos responde “bien apuntado!”.

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Por falar em pompa e circunstância, porque é que sempre que o Governo faz este show-off (recorde-se também a refinaria de Sines), da apresentação de um grande investimento, com a criação de uma data de postos de trabalho, poucas semanas depois fecha mais uma fábrica e vão mais de mil trabalhadores para o olho da rua?

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Simplex não é? Para pagar a contribuição para a segurança social da minha filha e da minha empregada não me foi autorizado a passar um cheque pela totalidade. Dirigido à mesma entidade e pago na mesma hora foram necessários dois cheques em separado. É muito simplex para a minha cabeça.

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O Sr. Ministro das Finanças anunciou ontem que Portugal vai poupar 955 milhões de euros em dois anos, na Administração Pública. Sem dizer bem como, sempre foi adiantando que será à custa do congelamento de salários e de carreiras bem como um rigoroso controlo de admissões. Reiterou o princípio de que para cada nova entrada serão necessárias duas saídas. Tendo em conta o meu post de ontem, ainda gostaria de saber quais foram os dois adjuntos do ministro Silva Pereira que tiveram de sair para a admissão da Drª Vera Sampaio. Mas isto talvez seja querer saber de mais.

quinta-feira, julho 06, 2006




















1003. Felicidades no seu novo emprego

Eu não tenho nada contra. Na realidade apenas me entretive a consultar o Diário da República. Mas faz-me muita espécie como certas pessoas não têm nenhuma dificuldade em arranjar emprego e outras passam anos para o conseguir. Muitas felicidades à Vera de todo o meu coração. Por algum lado se tem de começar não é?

segunda-feira, julho 03, 2006

1002 . Futebolândia

O príncipe Felipe de Bourbon assistiu, com sua esposa Letícia Ortiz, ao jogo França x Espanha. Também Giscard d’Estaing assistiu ao jogo França x Brasil. Angela Merk não perde um jogo da sua Alemanha e até José Sócrates esteve presente no Portugal x Angola. Não tenho a certeza, porque não vi todos os jogos, se Prodi já esteve nas bancadas e não posso garantir, mas quase aposto que sim, que Cavaco Silva estará presente se Portugal for à Final da Taça do Mundo (ou talvez até já na meia-final). Para José Pacheco Pereira devem tratar-se de alienados. Com tanto problema no mundo e estes gajos e gajas a verem futebol. Ora se fossem mas é resolver o problema da Bolívia.

Ainda Pacheco Pereira, na sua crítica à futebolândia e ao tratamento jornalístico, refere no Abrupto o que tem passado ao lado dos portugueses. Transcrevo “…deu-se uma importante remodelação governamental, em que foi embora o único ministro com autonomia política, parece que as férias dos portugueses começam a revelar a crise (meio caminho andado para a Revolução), os agricultores vão poder construir casas de primeira habitação em áreas classificadas como Reserva Ecológica Nacional (vão ver o número de agricultores a aumentar...) na Bolívia continua o plano inclinado para a desgraça da América Latina, na Palestina as coisas estão como se sabe, etc.”
Eu não sou de intrigas, mas acredito que no “etc.” que lá colocou ele também gostaria de ver discutida publicamente a questão das fragatas e dos F-16, comprados e nunca usados, entretanto postos à venda, na perspectiva das responsabilidades de quem comprou, dos interesses que estiveram por detrás (se é que houve interesses) e no julgamento dos responsáveis por este devaneio de lesa-cofres que é como quem diz, também a mim me vieram ao bolso. Ou então estou a exigir demais ao Pacheco Pereira e ele não queria nada disso.

Ainda no campo do futebol quero reiterar a minha convicção de que aos sapateiros deveria ser interdito tocar rabecão. Quer dizer eu não sou pela supressão da liberdade de expressão, sou apenas contra a impunidade do disparate. Ao cineasta António-Pedro de Vasconcelos, concedo-lhe a dúvida, que crítico não sou, de fazer bons filmes. Já afirmar que o modelo do Campeonato do Mundo de Futebol deveria ser revisto, pois vemos selecções serem afastadas quando praticam “futebol de sonho como o Gana e Argentina” (sic), em favor de equipas das quais nada se viu (como Portugal, lido nas entrelinhas ou escutado nos silêncios, como queiram), é de sapateiro mesmo. Ou António-Pedro de Vasconcelos acha que o Mundial é o Festival da Eurovisão ou o Festival de Cinema de Cannes? Vamos a votos e acabamos com os golos, é?

Queria já acabar com isto, porque um post grande ninguém lê, mas não me posso calar ante a fúria anti bandeiras nas janelas, que tenho ouvido e lido a todos aqueles que se querem aproximar das opiniões intelectualizadas da nossa praça. Se as vitórias alcançadas pela selecção nacional, não são motivo para aumentar a auto-estima dos portugueses nos últimos meses, que os (nos) façam erguer uma bandeira nacional, dêem-me um só, mas um só, exemplo de um outro feito no último semestre que me faça levantar uma bandeira, que a levantarei de bom grado. Posso até dar uma ajudinha, por exemplo, uma medida governamental, (não vale a banda larga e a sua equiparação à electricidade no século XVIII porque o Benjamim Franklin, o Edison, o Foucault, o Faraday, e mais uns quantos, desatam-se já a rir).

sexta-feira, junho 30, 2006

1001. Olhem lá, ele se há putas é para todos os gostos, ouviram?

(Prostituta, Georges Rouault, 1871-1958)

Há coisas que eu sei.
Por exemplo:
- Sei que o estilo PreDatado não agrada (nem tem de agradar) a toda a gente e por isso,
- Sei que abordar temas como a deslocação de empresas, a corrupção, os pressupostos interesses de alguns, nos e dos municípios, as presidências abertas, hoje roteiros ou os interesses americanos nas petrolíferas do Sudão versus Darfur, deveriam ser tratados em exclusivo nos blogs políticos e (principalmente) nos de figuras públicas, em vez de o ser em blogs generalistas como este e como tal não dá muitas visitas;
- Sei que se o PreDatado escrevesse contos eróticos, apelativos, com fotos de gajos e gajas a dar valentes quecas, talvez hoje fosse um blog de sucesso;
- Sei que se o PreDatado publicasse receitas de pratos exóticos comidos com dois pauzinhos, ou à beira mar tropical ou, ainda, receitas de bolos conventuais portugueses hoje tinha aqui uma troupe de fans, cozinheiras e cozinheiros amadores a copiar e a experimentar;
- Sei que se o PreDatado linkasse os 4876 blogs portugueses, mais os talvez 2.430.000, aproximadamente, blogs internacionais, teria por cada um deles, pelo menos uma visita de retribuição, assim S. Technorati o ajudasse.

Mas meus amigos tenham lá a santa paciência. Virem aqui todos os dias à procura de “putas pretas”, não vale. Se Maomé não vai à montanha terá, forçosamente, a montanha que se desmoronar e cair-lhe em cima? Quantas vezes terei aqui que dizer que o PreDatado não é um blog racista?

quinta-feira, junho 29, 2006

1000. Mil

Este é o post número 1000 publicado aqui no PreDatado. Poderiam ter sido dois mil ou apenas quinhentos. Mas não foram, foram mil. E como o PreDatado é feito de originais, esta é a milésima vez que o Pré teve que inventar um texto para aqui publicar. É claro que ao PreDatado, quando começou a publicar, jamais lhe passaria pela cabeça ser capaz de se aguentar assim à bronca. E uma vez que o PreDatado nunca ganhou um único prémio daqueles que sistematicamente a blogosfera teima a atribuir a uns e a outros por esta ou aquela razão, o Pré decidiu atribuir hoje um prémio ao PreDatado ou seja, a ele próprio. E como quando se recebem prémios é usual fazer um discurso de agradecimento, aqui vai: Quero agradecer este prémio a todos vós meus fieis leitores, sem os quais o PreDatado não teria razão de existir.

terça-feira, junho 27, 2006

999. Darfur

Na frente dos amigos ele sempre se apresentava como um indivíduo muito culto. A sua boa memória levava-o a discutir pormenores da História de Portugal tais como o casamento de Maria Francisca Isabel de Sabóia com D. Afonso VI e com D. Pedro II ou a detalhes da História Universal como a biografia de Emiliano Zapata. Tão depressa se mostrava um defensor da teoria da moral de Immanuel Kant como em outros fóruns se deliciava a bisturiar a obra de Marquês de Sade. Sabia tudo sobre armas convencionais e nucleares, tinha opinião formada sobre o ensino, a educação e a justiça. Não era raro vê-lo dissertar sobre o papel das instituições, da câmara Municipal ao Presidente da República e, aqui e ali, deixava recados que, dizem as más-línguas, eram muito tidos em consideração. Quando, em frente de um televisor, assistia com a família e amigos aos concursos televisivos tinha sempre uma resposta na ponta da língua para as mais rebuscadas perguntas ou mesmo, quando errava, sabia desenvolver uma teoria sobre a falha que cometera onde em larga prosa, que poucos entendiam, explicava o motivo da sua confusão. Era também um colunista de jornais, usava a Internet com frequência e tinha até um blog de referência. A sua vocação política obrigava-o a aceitar fazer prelecções públicas, fosse para assistências de 50 pessoas, em pequenos espaços de sociedades recreativas ou estúdios de cine-teatro, fosse em Universidades ou em debates televisivos, onde era visto por muitos milhares de telespectadores. Defendeu a intervenção dos Estados Unidos da América no Afeganistão e no Iraque e é um defensor também da teoria do eixo do mal. Quando lhe perguntaram uma opinião sobre Omar-Al-Bashir e a situação em Darfur, recusou fazê-lo. Parece que não quer misturar a sua aura de humanista com os interesses americanos nas companhias petrolíferas do Sudão. Ainda há pessoas com pudor, digo eu.

segunda-feira, junho 26, 2006

998. Adoptem-me




Toda a noite miou debaixo do capot de um carro. Alguém que descobriu de onde o som vinha, colocou um aviso: “Por favor, não ligue o motor antes de abrir o capot”. E lá estava esta bigodinhas linda. Depois de a salvarmos, lavarmos e desparasitarmos, a bonequita da foto ficou à nossa guarda. O Schubert, a Yasmim e a Flora estão a tentar convencer-nos a ficar com a Charline (já notaram aquele bigode à Charlie Chaplin?). Mas nós não podemos porque nos arriscamos a que cada bicharoco que salvemos entre para a família e a nossa missão de Família de Acompanhamento Temporário não será bem cumprida. Assim e porque a Charline quer viver 15 anos, com mimos, bem tratada e compromissada com uns donos que nunca a abandonem, nem mesmo nas férias, ela está disposta a ser adoptada. Se você que me lê reúne os atributos necessários para cuidar de uma doçura destas não hesite em me mandar um e-mail (vmaf@netcabo.pt). A Charline ficará grata, nós e os potenciais candidatos a novo salvamento também. Ah, é verdade, eu moro na região Almada / Corroios.
997. O dia seguinte

Ele parou ali o carro porque ali havia um quiosque. E ao lado, um pequeno café com três mesas na esplanada. Tudo junto perfazia as suas necessidades de espaço, de tempo e também de um café e de um cigarro. Não poderia demorar mais do que meia hora já que não era seu hábito chegar atrasado a nenhum compromisso. Estava numa pequena vila, num subúrbio da grande cidade.
Isto foi hoje, nos arredores de Lisboa.
Nos subúrbios podem-se encontrar pequenos cafés com só três mesas na esplanada. E podemo-nos sentar, com o jornal comprado, mas ficar a olhar o garoto que sozinho dá uns pontapés na bola em cima do passeio onde uma senhora, que aparenta não ter mais de 40 anos, passeia um caniche. Podemos ver as duas vizinhas que se encontram e não se cumprimentam apenas, mas que ficam ali uns minutos na conversa. Talvez a dissertar sobre o custo de vida, atendendo à alcofa de onde saía uma rama de nabos. Na porta da padaria em frente, talvez reformado, um idoso suporta numa mão uma bengala e na outra um saquinho plástico com quatro papo-secos. Também passou o carteiro que cumprimentou cada um sem nunca abrandar o passo, excepto na porta de cada prédio. Puxou de um segundo cigarro, olhou furtivamente a capa do jornal acabado de comprar, levantou a cabeça e interrogou-se porque é que toda aquela gente, inclusive o fulano que estava a aspirar o carro, junto á janela de onde saía um cabo eléctrico por baixo da persiana, assobiava, interrogou-se, continuo narrando, porque é que haveria tantos sorrisos nos rostos daquelas pessoas. Apagou a beata no cinzeiro improvisado com uma taça de gelado, dobrou o jornal, olhou o relógio e levantou-se. Ergueu a cabeça e deu uma olhada em redor. E viu em cada varanda uma bandeira portuguesa.
Não queria nem deveria chegar atrasado. Ligou a ignição do carro e o rádio onde falavam de futebol.

domingo, junho 25, 2006

996. Roteiro

O galo cantou quatro vezes, mas nem teria sido preciso. Ela estava atenta e pulou da cama ao primeiro có-có-ró-có. Na véspera tinha-se deitado cedo, mais ou menos quando o noticiário da TVI começava a dar uma reportagem de futebol. A bola não lhe interessava para nada e, o mais importante já ela tinha visto.
Isto foi no Alentejo, no ano de 2006.
Abriu a porta do galinheiro e ao mesmo tempo que, entre cacarejos, as galinhas saíam para a rua, ela recolhia os primeiros ovos da manhã, quase todos eles ainda quentes. Eram bem mais de duas dúzias. Depois foi ela quem saiu, ligou a bomba do poço e começou a regar a horta. As alfaces, a couve-galega, os tomateiros, os pepinos e as várias leiras de nabiças não podiam deixar de beber logo pela manhã. Eram o seu sustento, mas hoje não haveria colheita. Amanhã, bem cedo, logo ela iria acartar mais umas cestas de legumes onde os venderia na vila e recolheria os magros cobres da sua subsistência. Hoje era um dia especial e por isso também não se importava de ter de gastar mais água. Hoje iria tomar banho completo. E vestiria o mesmo vestido preto e cuidaria melhor do lenço da cabeça e até as meias e os sapatos seriam os mesmos com que vai à missa. Hoje era um dia especial e ela também (lá no seu íntimo não sabia bem o que isso queria dizer) achava que era uma excluída. E o Senhor Presidente iria vê-la lá no meio da multidão, talvez até lhe acenasse e, com sorte, coisa que ela nunca teve na vida, vinha-lhe sempre à memória o ter ficado viúva com 30 anos de idade e já três filhos, um dois quais ainda de colo, talvez, com sorte pensava ela, quem sabe lhe desse um beijo.

sábado, junho 24, 2006

995. Os intelectuais e o rei na barriga

Talvez eu tenha alguma raivinha de estimação por políticos, jornalistas, intelectuais e outros fazedores de opinião. Talvez seja algum recalcamento, um trauma de infância, alguma dor de corno. É um bom tema a explorar nas minhas próximas consultas com a minha psicóloga. O que eu não tenho é a má-criação que muitos deles aparentam sob a intelectualoide capa com que se revestem. E se há coisa que não tenho é o rei na barriga.
Vem isto a propósito de um comentário que deixei, num dos raros blogs, que leio, escritos pelas classes que mencionei.
Eu conto a história.
Um famoso senhor Fernando Venâncio, ao que sei (saberei?) ligado aos meios universitários, intelectuais e de opinião da nossa praça, publicou uma tradução portuguesa, a partir de uma versão holandesa de um poema de um poeta que ele (Fernando Venâncio) considera (ou pelo menos faz eco), "…Han Dong, representante - assim foi dito - de certa nova corrente, que preza a linguagem comum". Porque eu não gostei do poema, não achei nada de interessante nessa linguagem comum, mas os intelectuais lá sabem, serão porventura mais avalizados para achar o que é bom do que eu, resolvi fazer uma pequena charge num comentário. Um comentário ao estilo do PreDatado, blogger, mas não desligado do Alves Fernandes, pessoa, pois tudo o que aqui escrevo não só o assumo, mas é também, obviamente, um reflexo do seu autor.
Ora o Senhor Fernando Venâncio não gostou nada da brincadeira o que eu, mesmo sem ser um intelectual do seu nível, reconheço ser um direito dele. O que não lhe reconheço é o direito de me ter apelidado de estúpido. Por isso lhe dei uma resposta imediata na caixa dos comentários e agora à posteriori aqui no meu blog, para que se posterize. É que ser intelectual não é forçosamente sinónimo de ser bem formado ou de ser bem educado. Pode apenas ter sido consequência do berço que tiveram. Pode não ser o caso do senhor Fernando Venâncio. Mas eu conheço vários assim. E quando alguém me quiser chamar estúpido que me chame, mas que o demonstre primeiro.


PS. Senhor Fernando Venâncio fique também a saber o seguinte, já que fez o favor de me referir as suas competências. 1- Não sei chinês; 2 – Falo razoavelmente português, espanhol e francês; 3 – Antes dos seus “há 37 aninhos” a falar holandês, já eu falava inglês. 4 – Gosto de bolacha Maria a acompanhar o café com leite.

sexta-feira, junho 23, 2006

994. Tiramissus e pasteis de nata

Ricardo tinha terminado um curso superior. Via negro o seu futuro. Não negro como um carvoeiro vê os seus dias, porque essa é a cor do seu futuro. Nem negro como o fato do gato-pingado pois essa é a cor do seu presente. Vê negro como quem espreita aquele túnel do comboio, sem comboio. Sem nenhuma luz lá no fundo.
Isto foi em Portugal, na cidade de Lisboa, em 2006.
Ricardo pegou no Correio da Manhã que estava em cima da mesa do café para ler os classificados. É um café de bairro, do bairro onde vive, onde conhece toda a gente e toda a gente o conhece desde miúdo. Foi por isso que teve de perder uns minutos a conversar sobre as prestações da selecção no Mundial com o Sr. Joaquim, o dono do talho onde a D. Henriqueta, a mãe, lhe compra o inevitável bife diário do almoço Também é porque conhece toda a gente lá da zona que a Fernandinha, uma solteirona militante, se senta sempre na mesa dele para beber o galão e comer a tacinha de tiramissu (*) diária. E para ouvir o humor sempre brejeiro de Ricardo. A Fernandinha fica corada com a malandrice sub-reptícia de Ricardo, mas pela-se por ouvi-lo. Depois deve sair dali a pensar num casamento que nunca conseguiu ou que nunca quis e quiçá a tentar desvendar se a culpa é dela ou do tiramissu. É que na mente de Fernandinha tem sempre de haver um culpado. O Ricardo acha que não, que nem sempre tem de haver um culpado. E hoje foi com Fernandinha que dissertou sobre o tema, ainda com o Correio da Manhã na mão. Deu-lhe a ler (enfatizando algumas passagens com leitura simultânea em voz alta), aqueles artigos que falavam de uma suspeita venda de terrenos ao Metro do Porto, numa história mal contada, lá para os lados de Gondomar, uma outra que falava de um tipo que outrora foi secretário pessoal de um conhecido apresentador de televisão e que dizia que este tinha fontes privilegiadas no processo Casa Pia, outra ainda que dizia que o processo Apito Dourado estava mais uma vez suspenso. A Fernandinha, decepcionada por não descortinar culpados, pagou a sua despesa e gentilmente a bica de Ricardo. Saiu, como sempre, pensando que se calhar culpados só mesmo os tiramissus (malditos homens que não gostam de gordas), pois no meio daquelas notícias havia outra que dava conta de uma intensa actividade da justiça italiana sobre a corrupção no futebol transalpino. Ricardo, devorava agora um pastel de nata enquanto voltava aos classificados. Pelo olhar distante, supõe-se que estaria a culpabilizar-se por não se ter licenciado em Engenharia da Corrupção.


(*) para quem estiver interessado, encontram-se na Internet várias receitas de tiramissu.
993. Fecharam 195 parques infantis

O dia nasceu azul quando o Sol lhe beijou as roseiras do quintal.
Isto foi em Portugal em 2006. Era Sábado.
Na televisão, acesa desde que o pequeno Carlos, sorrateiro, saiu da cama, passavam os desenhos animados mais estúpidos que as crianças podem assistir. Isto dizia o avô Luís que ainda era do tempo do Bip-Bip e do Coyote, do Pernalonga e do Gaguinhas, do Silvestre e Piu-Piu, do Tom e do Jerry, do Poppey e até do Super Rato e também do Gato Félix. A mãe colocou-lhe à frente um prato de cereais com leite que ele devorou sem levantar os olhos da tela. Depois de o obrigar a lavar os dentes, vestiu-lhe aquela blusa branca e o calção azul às riscas, com alças e peitilho de jardineiro, que a tia Ivone lhe tinha oferecido quando fez quatro anos. Ajudou-o a apertar as sandálias e passou-lhe os dedos pelos cabelos encaracolados.
Saíram de mão dada, cumprimentaram a D. Gertrudes que chegava do supermercado (o que faz correr esta senhora, viúva, mais de 70 anos, bicos de papagaio, a chegar do supermercado às dez da manhã, terá pensado). Carlos ainda perguntou à mãe porque é que a D. Gertrudes andava assim meio agachada, mas a resposta não lhe deve ter interessado muito, pois não fez mais nenhuma pergunta. Continuaram o passeio em silêncio, com o Carlos de olhos muito abertos a observar tudo quanto o rodeava, duas raparigas que corriam para o autocarro com os braços levantados a acenar, o cego que tocava acordeão na esquina da Rua 25 de Abril com a Rua de Angola, dois polícias com as mãos agarrada aos sacos de plástico pretos (com roupa contrafeita, mas isso só a mãe o sabia) e a algazarra que rodeava a acção, um senhor a ler A Bola encostado ao semáforo.
Pararam e esperaram o sinal verde. Só atravessavam no sinal verde, de pequenino é que se torce o pepino. Iriam repetir a travessia tantas vezes quantas as passadeiras que circundavam a rotunda. Deram duas voltas à rotunda, depois voltaram para casa. A vila tem muitas rotundas, mas aquela tem relva e flores. Só não tem baloiços.
Carlos sentou-se à frente da televisão e continuou a ver os desenhos animados. Aqueles desenhos estúpidos, como dizia o avô Luís.

quinta-feira, junho 22, 2006

992. Deslocação

Uma nuvem de cheiros atravessou a casa e penetrou-o no estremunhado sono que ainda lhe restava. Um agradável odor, misto de café e torradas, anunciava-lhe a presença de alguém na cozinha, onde um tiritar de colher beijando a chávena confirmava um, agora, leve receio. Estendeu o braço esquerdo perpendicularmente ao corpo e obteve a certeza da primeira desconfiança. Ela já lá não estava, apenas um quase vazio preenchido por uma almofada. Do outro lado com uma ligeira apalpadela descobriu os óculos e colocou-os. Depois abriu os olhos e pestanejou várias vezes como que a dar os bons dias ao raio de luz que atravessava a frincha da janela mal fechada. Desceu cuidadosamente da cama (a malvada dor de coluna acompanhava-o há largos anos), mal acordado, olhou em volta e descobriu na cadeira onde tinha deixado de véspera o roupão em cetim azul-escuro que ela lhe tinha oferecido no início deste verão. Por uns momentos ficou a pensar na importância que tem uma cadeira de quarto, no seu papel de fiel depositária e da tranquilidade de um objecto que durante anos não sai do mesmo local. Palermices, pensou, será a idade… De repente alteraram-se-lhe os humores (terá descoberto que dia era hoje?). Arrastou os pés até estes se enfiarem nos chinelos, quase com uma precisão matemática. Pudera. Durante mais de quarenta anos colocava os chinelos de quarto sempre no mesmo sítio e sempre que se levantava era a segunda coisa que procurava. A primeira eram os óculos depositados sobre o livro da noite na mesa de cabeceira. Pegou no roupão, seguiu a trilha dos cheiros e observou-lhe a nuca prateada na entrada da porta da cozinha. – Bom dia!, disse-lhe ela, mal o pressentiu. - Bom dia, respondeu-lhe acariciando-lhe o cabelo e debruçando-se para lhe beijar o pescoço. - Acho que adormeci, como que a desculpar-se. Porque não me acordaste? Hoje vou chegar atrasado. Maldito vício o de adormecer agarrado aos livros. Esta noite, juro, apagarei a luz mais cedo e serei eu quem fará o pequeno-almoço. Ela rodou a cabeça, olhou-o com ternura nos olhos, pediu-lhe que se sentasse no lugar em frente e respondeu-lhe. – Agora já não precisas. Uma pequena lágrima correu-lhe, inevitável, pelo rosto. Pela primeira vez, desde os seus vinte anos que não tinha de ir trabalhar à segunda-feira. E vieram-lhe à memória, numa catadupa de imagens, os anos da fábrica que acabara de fechar. Um macaréu subiu-lhe corpo acima num curso percurso do estômago ao peito. Baixou a cabeça, e começou a barrar o pão com doce de cereja. Uma segunda lágrima caiu-lhe na chávena de café.

terça-feira, junho 20, 2006

domingo, junho 18, 2006


990. Eu estive de férias

I - As férias e o tempo

Um gajo sai de casa depois de um trinta e seizão de calor e ruma aos algarves de D. Sancho II. Chegado que foi, o tempo parece dar razão ao investimento ferial e vai daí aproveita o primeiro dia, que é Domingo, para dar uma vista e olhos à terra dos seus antepassados com o argumento de que terá uma semana inteirinha para trabalhar para o bronze. E se bem o disse, bem o fez e na segunda-feira lá estava ele a banhos na Rocha. Parece que o S. Pedro não gostou deste abuso de confiança e vai daí mandou chuva e vento que foi um fartote. Não tive outro remédio senão virar-me para

II – As férias e a gastronomia

E em vez de um bronze daqueles, acompanhado de umas sandochas, acabei caído em restaurantes e em petiscadas em casa de amigos. Resultado, mais três quilos e um furo diferente no cinto. Mas se a morada dos amigos não forneço, há dois restaurantes, dos que frequentei, que tenho de recomendar. Como estive centrado em Silves, não percam a marisqueira Rui. Ostras de primeira, da Ria Formosa, as amêijoas muito bem cozinhadas, as sapateiras e santolas cheias e temperadas quanto baste e um serviço muito simpático a merecer uma boa gorjeta. Não me aproximei da lagosta porque o médico (€h! €h! €h!) me disse que me fazia mal. O outro, o Caçador, na estrada Silves – Monchique, vale pelo prato especial da casa. Todo à base de carne de porco preto criado na serra, vale a pena experimentar. E não é caro… por falar nisso lembrei-me de

III – As férias e os preços

Estou totalmente de acordo que museus, exposições, parques naturais, etc., sejam de entrada paga. Mas 8€ de entrada no Parque da Mina, é um perfeito exagero. Talvez por isso, no que respeita a visitantes, estivesse praticamente às moscas. Mas as moscas que me preocupam não são essas, são as da política. Como alguém disse um dia, só mudam as moscas… e

IV – As férias e a política

Mesmo de férias lá fui arranjando um tempinho para ouvir os telejornais. E ouvir o discurso da Ministra da Educação. Devo ter andado muito distraído para nunca ter percebido porque é que quase toda a direita, tem aplaudido as suas medidas e a consideram um dos melhores ministro deste governo. Que o Diga, Luís Delgado, Pacheco Pereira, Marcelo Rebelo de Sousa e muitos outros. O seu discurso sobre a greve dos professores e o papel dos sindicatos, deve ter deixado o deputado Nuno Melo e o deputado Telmo Correia a roerem as unhas de inveja por nunca terem ido tão longe. Quanto a si, Sr. Primeiro-Ministro em plena crise da Ford-Azambuja e dos previsíveis mais 1500 desempregados, responder aos jornalistas que só “quer falar da Europa”…(não, não, não era da Auto-Europa), fico sem comentários. Talvez seja melhor eu comentar o futebol.

V – As férias e o futebol

Como não sou um intelectual não sei comentar as opções de Scolari. Mas no dia que eles tiverem que morder a língua, eu direi mais qualquer coisa. Força Selecção! Força Figo, Deco, Petit, Ricardo, Costinha… Força Felipão!

sexta-feira, junho 09, 2006



989. Até logo, fiéis

1. O Supremo Bispo está quase a abdicar. Vai tirar uma semanita de férias, para terras algarvias e não quer regressar com o rosto coberto de vergonha pela obra que Criou lá em baixo. Haja Deus!

2. Foi bom ter sido o Supremo da Igreja da Pré-Concepção. Poderia ter sido melhor se os meus fiéis tivessem pago o dízimo. São uns forretas do caraças.

3. Os Bispos e Bispetas desta igreja e que hoje entram para os supra-numerários tirem o cavalinho da chuva que não lhes pagarei 5/6 do ordenado. Pensam que a Igreja é a casa do Sócrates ou quê?

4. Os textos que emanaram deste exercício, foram distribuídos por aqui e pelo Ante & Post, por questões de gestão do espaço e do tempo. Não são nada de especial, que o diga o número de comentários que obteve. Mas eu gostei de os escrever e isso é que é importante. Se eu não tivesse escrito o 1º ponto deste texto, agora estaria a dizer que vocês, figurinhas da minha diversão, não comentaram porque Eu não quis.

5. Então, até para a semana, quer dizer para a outra, se Eu quiser!

quinta-feira, junho 08, 2006

988. Eu sei que sou chato, mas a Deus tudo se permite

Eu não sei se a vós, figurinhas da minha diversão, já vos tinha posto na cabeça que sou Eu que ando a minar o processo Casa Pia. Mas se não acreditam leiam mais uma que Eu engendrei para PROVAR que todos os arguidos são inocentes: “A PJ transportou crianças, nas suas viaturas, sem usar a respectiva e OBRIGATÓRIA cadeirinha”. Assim, entre aspas porque esta notícia saiu, por Minha determinação, previamente em jornais. Ora sem cadeirinha não vale, é ilegal, portanto a investigação está mal feita. E claro, os coitados dos arguidos não podem ser condenados num processo assim. Mas fiz mais coisas destas, atenção. Ou já se esqueceram do envelope 9, sobre o qual eu tinha prometido um rápido e urgente inquérito, pela voz do antigo PR, e ainda ninguém sabe de nada? Acham que Eu vou deixar vocês, hologramas, gente sem alma nem coração, apenas projecções da minha imaginação, saberem tanto quanto eu?
987. Eu, Supremo Bispo, e as contas certas

Eu decidi quem seria o próximo Campeão do Mundo de Futebol. E como estamos na véspera do seu início vou já revelar o meu veredicto. Será o Brasil!

A Itália ao ganhar em 1934 e 1938 quebrou a regra dos 3964. Por isso tive de lhe aplicar o castigo (ainda hesitei entre a Itália e o Uruguai) de não voltar a vencer até 1982. É que 1982 + 1982 = 3964.

A Alemanha ganhou em 1954, 1974 e 1990. Ora 1974 + 1990 = 3964. Portanto terá de esperar mais quatro anos para voltar a vencer: 1954 + 2010 = 3964.

A Argentina ganhou em 1978 e 1986. Porque 1978 + 1986 = 3964.

O Brasil ganhou em 1970 e 1994; 1970 + 1994 = 3964.

O Brasil ganhou em 1962 e 2002, porque 1962 + 2002 = 3964.

O Brasil ganhou em 1958: Ora 3964 – 1958 = 2006.

Está decidido o vencedor.

PS. Já quebrei uma vez esta regra. A Inglaterra ganhou em 1966 e deveria ter voltado a ganhar em 1998, porque 1966 + 1998 = 3964. Mas Eu, Supremo Bispo, dei a vitória à França. Não foi um erro, foi uma vingançazinha por aquilo que eles fizeram aos magriços em 1996. Se há Deus, e como é óbvio Eu existo, então Ele é Português!

986. Ser Deus, dá muito trabalho

De facto ser Deus, ou se preferirem ser o Bispo Supremo, dá uma trabalheira danada.

Vós figurinhas de diversão, hologramas projectados no tempo e no espaço, não fazem a mínima ideia do que isso é, excepto quando me dá vontade de distribuir problemas por cada um de vós.

Ontem lembrei-me de:

* Mandar prender um líder nazi, mas depois dar poder a outro holograma para o mandar libertar;
* Convocar uma manifestação de polícias e baralhar aquelas cabeças todas que ficaram sem saber se haveriam de desfilar pela Avenida abaixo. Depois lá me decidi em mandar alguns até ao Terreiro do Paço;
* Lesionar o Cissé, só porque vocês, portugueses, aqui nesta quase jangada que construí, têm uma malapata com os franceses que desde os tempos de Soult, Junot e Massena, nunca mais vos deixei derrotá-los;
* Pôr as tropas australianas em confronto com os pacíficos GNR que mandei até àquele crocodilo de pedra flutuante chamada Timor;
* Atear mais uns quantos fogos e fazer o mundo pensar que queimar o vosso país, aos poucos e poucos, é um desígnio nacional.
* Fazer o Nuno Gomes dizer na conferência de imprensa que se os angolanos levassem uns quantos cartões vermelhos seria mais fácil aos portugueses vencer o jogo. Agora estou aqui numa trabalheira do caraças a meter na cabeça do Cristiano Ronaldo de que ele não é angolano. Esta noite o rapazinho vai se ver negro para dormir;
* Mandar uns 70 hologramas lerem o PreDatado e não conseguir que nenhum deles me pedisse a bênção, na caixa de comentários, a Mim, que sou o seu (deles) Bispo Supremo.

quarta-feira, junho 07, 2006

985. Eu, Supremo Bispo, gosto de espalhar a confusão



Tenho-me divertido à brava não só a pensar em coisas que fiz, como também em polémicas que crio e em medidas que tomo.

Em relação às coisas que fiz, falo-vos agora nos deputados que elegi o ano passado para a Assembleia de República. Quando manipulei os resultados, para que fosse aquela a distribuição parlamentar, eu já sabia da mescla que iria lá meter. Uns com convicções políticas, aos quais lhes incuti o espírito da defesa dos interesses do país acima de qualquer outra coisa (digo-vos de passagem que era essa a minha intenção quando um dia criei o conceito de política e de democracia) e outros, para que isto tudo não fosse uma monotonia sedativa, que eu lá colocaria para defesa de interesses particulares, inclusive os deles próprios. Por isso, não se admirem de que as incompatibilidades entre política e interesses seja aquilo que é, pois é assim mesmo que eu quero para continuar a alimentar a confusão. Aliás se assim não fosse, eu não teria escrito aquele poema que imortalizei na voz de outro Génio da minha Criação, que a todos vós apresentei como Zeca Afonso. É que eu não tenho por hábito, a não ser quando ando extremamente deprimido com as minhas figurinhas de diversão, de criar coisas efémeras, tais como o “pimba, pimba” e o “chama o antónio”. Por essa razão, Eu escrevo canções que não perdem a actualidade.

“…A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios, poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos,
Mas nada os prende às vidas acabadas.

São os mordomos do universo todo
Senhores à força. mandadores sem lei
Enchem as tulhas, bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei.

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada…”





No que respeito ás medidas que tomo, fiquem com esta sobre os fumadores, a proibição em certos locais e a afixação de caveiras e pulmões dilacerados nos maços de tabaco. E para que não abusem, mando-vos a polícia. Afinal sou o Supremo Bispo, para quê?

terça-feira, junho 06, 2006

984. Eu, Supremo Bispo, me confesso: eu também criei o futebol

Não, Scolari não é um deus, porque Deus só há um, Eu. E infelizmente ainda não consegui criar ninguém à minha imagem e semelhança. Criei um ser que gosta de futebol e a quem confiei a missão de ser seleccionador de Portugal e que, desde que chegou, tem exaltado as populações a aderirem, quase fanaticamente, ao fenómeno futebolístico a ponto de esquecerem que Eu também criei condições miseráveis para o povo, o qual, em tempo de euforia do pontapé na bola, se esquece de tudo isso. Mas há outros que eu criei a quem lhes incuti um demasiado espírito anti-futebol. São alguns intelectuais, ou reconhecidos como tal, ou pior, que se arvoraram em tal, sem que Eu lhes tivesse conseguido segurar o pulso. Hoje, algumas dessas criaturas, bajuladas por uns, naquele conceito que um dia Eu tive a infelicidade de denominar “politicamente correcto”, ou honestamente seguidos por outros que perfilham a mesma opinião, escrevem e debitam as maiores aleivosias sobre o desporto-rei (rei terreno, entenda-se) esconjurando-o ou diabolizando-o. Claro que nenhuns deles existem, uns e outros são apenas hologramas da minha diversão pessoal e vós que ledes este texto, não mais estais aqui que não por minha própria vontade, por mim mascarados de seres reais que alimentam as figurinhas da minha colecção pessoal. Mas sois, para todos os efeitos, aqueles com quem falo todos os dias e para quem inventei esta linguagem interactiva que denominei de blogosfera. Por isso, em verdade vos digo, que também criei outros seres superiores, esses sim capazes de meter no fátuo bolso das calças, que urdi para vos cobrir podengas partes, os tais intelectuais lusos, que não sei se lhes preservarei “obra valerosa” para que da lei da morte se libertem. E permiti que vos traga aqui, uma dessas superiores mentes que de vez em quando a minha veia criadora trás ao mundo e que nos deixou coisas assim:

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líqüido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.

Ademir da Guia - João Cabral de Melo Neto








PS. Para saberem mais de João Cabral de Melo Neto, de Ademir da Guia, de Ascenso Ferreira e de muitas outras obras-primas da minha Criação, leiam o blogue que Eu inspiro – e respiro - sob a pena de Manoel Carlos Pinheiro, (outro) génio da cultura Pernambucana.
Para o indispensável Manoel Carlos, daqui deste lado do Atlântico, aquele abraço.

segunda-feira, junho 05, 2006

983. Diverti-vos figurantes

Ouvi contar esta história há algum tempo atrás. Em cura de toxicodependência, Maradona foi internado num hospital psiquiátrico. Alguns pacientes começaram-se a apresentar-se. Um dizia ser Napoleão, outro dizia ser Fidel Castro e por aí fora. Perguntaram a el pibe quem ele era. Quando respondeu que era o Maradona, os outros voltaram-lhe as costas, dizendo: “Este gajo deve ser maluco”.

Conheço uma pessoa que pensa que é Deus. Não o Deus dos católicos, ou dos islâmicos, nem o dos budistas ou hindus, também não é nenhum dos antigos deuses romanos, nem gregos, nem vikings, nem celtas. Ele é apenas Deus, o criador de tudo e de todos. É um Deus vivo, presente e tudo o que existe é porque ele quer que assim seja. Na verdade não há guerra, nem paz no mundo. Não há riqueza, nem fome. Não há estrelas no céu, nem magma incandescente no ventre da Terra. Vós próprios não existis. Todos sois frutos da imaginação criativa dele. No dia que Ele morrer, o mundo acaba. Todos morrereis com a sua morte cerebral. Não vos poderá mais dar vida. Não passará o carro vermelho que ele vê da janela dele, o filme que estiver em produção não terá um epílogo, o quadro não se acabará de pintar. Ele inventou as maravilhas tecnológicas que vós pensais conhecer apenas para se divertir, fazendo-vos crer que elas existem mesmo. Ele um dia explicará melhor quando lhe apetecer interagir com cada um de vós, figurantes da sua imaginação. E podereis perguntar. Se não existo como posso estar a ler este texto? E Ele responderá: porque eu quero.


Foto de José Muñoz Reales, fotógrafo espanhol, criado por Ele para trazer aos outros figurantes (e a Ele próprio), a ilusão de que o Sol materialmente existe.

sexta-feira, junho 02, 2006

982. Party Time Blog



Reunir-se-á, amanhã, em Beja o grupo dos ante-et-postadores. É o segundo convívio colectivo desde o seu nascimento, desta vez em território alentejano, não muito longe de onde eu costumo passar muitos dos meus fins-de-semana. Não sendo eu um alentejano de nascimento sou-o por afinidade já que a minha cara-metade nasceu por essas paragens e logo que a vida nos proporcionou re-adoptamos a sua terra natal como o nosso segundo lar. O Alentejo interior exerce sobre mim vários fascínios. O primeiro é a aproximação à Paz. Na “minha” zona não sou agredido pelo constante ruído dos carros, pela poluição citadina, pela má cara de quem já acorda em stress e de quem chega a casa mais ainda stressado. Eu não dou a saudação apenas às gentes da minha rua nem recebo os bons dias apenas dos vizinhos da porta do lado. Na “minha” terra todos somos vizinhos, todos nos saudamos e até os forasteiros que àquelas paragens rumam, mesmo que por horas, se cumprimentam. O segundo é a gastronomia. Ficarei por estes dois, mas se me apetecer, voltarei ao tema noutra ocasião. Mas a gastronomia de um povo, que durante anos e anos, não soube, na sua maioria, o que era comer mais de um naco de pão com toucinho salgado ou uma sopa de acelgas é na verdade espantosa. Atrevo-me a dizer que ninguém cozinha borrego como os alentejanos, que ninguém lida o porco como eles nas suas mais variadas utilizações, da banha aos torresmos, do entrecosto ao presunto, das febras aos enchidos. Comer um cozido de grão à alentejana ou uma feijoada em púcara de barro, uma sopa de cação, umas migas, uma carne de porco com amêijoas, umas ovas de saboga, um javali estufado, uma açorda de coentros, um arroz de fressura, um ensopado de borrego, um grelhado de achegas, uma lebre com feijão branco, um coelho guizado à caçador, uns pezinhos de coentrada ou um cabrito no forno é sempre um momento solene, naquelas paragens. E há o gaspacho! Ah... o gaspacho fresquinho, comido em tardes abrasadoras. Nada pode ser mais prazenteiro. E se eu começasse a discorrer pelas sobremesas… Pela sericaia, pela encharcada, pelo arroz doce, pelo pão de rala, pelo bolo de requeijão, nunca mais parava. E o post sairia longo, longo, longo que ninguém seria capaz de ler. Por isso, neste convívio que vai ser de gentes, de amigos, de familiares, vai também, pelo que temos vindo por aqui a escrever, um convívio de sabores. Alentejanos, pois claro! E regado, bem regado com vinho tinto que é como quem diz, com o néctar de todos os Deuses. E que Eles estejam connosco.

quinta-feira, junho 01, 2006

981. Começo a gostar deste Governo














A partir de hoje, quem desrespeitar a bandeira vermelha lixa-se!

quarta-feira, maio 31, 2006

980. Dia Mundial do Não Fumador





Definitivamente hoje não estou no meu dia...
979. E eu a dar-lhe

Já estou a ver a crónica no periódico argentino “El Balon” em que o Señor Miguel Souza Tavarez dá porrada no seleccionador José Pakerman por ter escolhido a fraquinha selecção de Angola para jogo de preparação.

*
Já estou a ver a crónica do zeitung alemão “Die Kugel” em que Herr Michael Schulz Tavarren dá porrada no seleccionador Jürgen Klinsmann por ter escolhido a recém promovida à primeira liga Suiça, equipa do Servette e a selecção do Luxemburgo para os jogos de preparação.
*
Já estou a ver a crónica no jornal brasileiro “A Redondinha” em que Seu Miguel de Souza e Tavares dá porrada no seleccionador Parreira por ter escolhido o Lucerna da 2ª divisão da Suiça como adversário para o jogo de preparação e ir jogar o último com a “fortíssima” Nova Zelândia.


PS. Além dos três comentadores referidos, muitos outros têm metido o bedelho na escolha dos jogos de preparação. De cabeça lembro-me de Antonich-Peter von Vasconselik, Ruy Santos, Jurgën Gabrielish.

terça-feira, maio 30, 2006

978. Força malta, todos a bater no Scolari

Tudo serve para criticar Scolari. É o todo-poderoso e intocável presidente do FCP, a dizer que ele goza com os clubes (leia-se FCP). Este personagem, que recusou a ida de Vitor Baía ao Mundial de 1989 na Arábia Saudita, é o mesmo que liderou a campanha pela convocação de Vitor Baía para este mundial, ao contrário não se tendo pronunciado sobre as opções do seu próprio treinador ao preteri-lo da sua própria equipa. Obviamente que existe muita dor de corno na não convocação de mais jogadores do FCP sendo este campeão nacional. Mas convocar quem? Helton, Marek Cech, o angolano (?) Pedro Emanuel, Lucho, Alan, Adriano, Lisandro, Macarthy? Ou seria Quaresma que, como se viu nos sub-21, demonstrou uma falta de maturidade para este tipo de competições? Acho que Pinto da Costa só chuta de trivela.
*
Se não me admiram as provocações de Pinto da Costa, também não me surpreendem os dislates de Miguel Sousa Tavares. Hoje para embirrar com Scolari, abordou em A Bola, as bandeiras nacionais, o estágio em Évora e as equipas contra quem jogamos na preparação. É óbvio que o Sousa Tavares é livre de escolher como seus heróis quem ele muito bem entenda. Não contesto a sua opção por Maria João Pires ou António Damásio em vez de Luís Figo ou Cristiano Ronaldo. Mas quem quiser ler com atenção o seu artigo esta sua revelação de patriotismo tem apenas que ver com o facto de ter sido um tipo da bola a ter apelado para o espírito patriótico dos portugueses. Um tipo da bola, mas pior que isso, “um brasileiro”. É ele que o refere, não eu. Fico no entanto sem perceber se ele acha o desfraldar de bandeiras uma saloiice, só possível num país de pacóvios como o nosso, ou se ele acha que a Ministra da Cultura, essa sim uma Portuguesa, deveria também apelar ao desfraldar de bandeiras pelo reconhecimento internacional da obra de Damásio e de Maria João Pires.
Quanto ao estágio em Évora e não nos Alpes Suíços, como referiu sobre a opção de outra selecção, só pode ser má-língua ou então distracção. Aquando da marcação do estágio para aquelas paragens (não esquecer que Beja lutou até ao fim para ganhar a presença da Selecção), não era possível prever temperaturas anormais, sublinho anormais, para a época. Estas são temperaturas habituais em Julho e Agosto, mas extraordinárias para Maio. O que aliás parece apenas ter-se verificado durante 3 dias. Já na Alemanha, o habitual é no mês de Junho se terem temperaturas na ordem dos 20 graus. Mas isso agora não interessa para nada. Ao longo de toda a caminhada das Selecções nacionais sob o comando de Scolari, nunca Miguel Sousa Tavares se coibiu de o criticar. Portanto levaria porrada na mesma, se estivesse agora a treinar debaixo de chuva e com temperaturas de 5 graus centígrados, lá nos tão deliciosos Alpes.
Já agora, sobre as selecções escolhidas para a preparação, Miguel Sousa Tavares encarrega-se apenas de mostrar uma parte da questão. Aliás como advogado que é, poderá ser deformação profissional. É normal aos advogados apenas estarem de um só lado, o da defesa ou o da acusação. E portanto a análise bilateral é irrelevante. Elogia ele os nossos adversários por terem escolhido antagonistas manifestamente mais fortes para se preparem, ao contrário de nós que escolhemos Cabo Verde e o Luxemburgo. E o que dizer dos tais antagonistas que pelo outro lado do prisma escolheram adversários manifestamente mais fracos? No entanto é sabido que as fases finais destas competições Europeias ou Mundiais são sempre competições de fim de época, onde os jogadores se apresentam quase sempre deficitários em frescura física, devido á carga de jogos efectuados. Quem iria depois responsabilizar Scolari se os jogadores, face a exigências físicas suplementares, tivessem defrontado, nesta fase, uma França, uma Holanda, uma Alemanha, um Inglaterra e se se viessem a apresentar muito mais cansados do que já é normal nesta altura do ano? Seria obviamente Miguel Sousa Tavares. Está à vista.
*
Já me admiro mais que aquele que foi durante muito tempo referido por Pinto da Costa como o sobrinho de Vitor Santos, alinhe pelo mesmo diapasão do presidente portista. Para Rui Santos além de uma outra data de considerações de ocasião, critica a selecção pela sua descontracção, tendo chegado ao cúmulo de no último Domingo, na SIC notícias, ter criticado os jogadores, os técnicos e a Federação por estes terem dado uns chutes na bola junto ao Templo de Diana. Não consegue ver, Rui Santos, quão ridículas são estas considerações? Os jogadores concentram-se, treinam, jogam e descontraem-se. Todas as selecções fazem o mesmo. Todos dão os seus passeios e convivem com as populações. Afinal, ao contrário de Miguel Sousa Tavares ainda há muitas dezenas de milhões de pessoas que têm nos seus ídolos, os jogadores de futebol. Ou será que o senhor, não gosta particularmente do Templo de Diana e fui eu que confundi com uma malapata contra Scolari?
*
Finalmente António-Pedro de Vasconcelos, tenho muito respeito pela sua obra cinematográfica da qual, confesso, gosto particularmente. Mas não seria já hora de regressar ao cinema? Nem por Scolari ter convocado Deco, elemento preponderante do seu clube, o Barcelona, você está feliz? Ah, é verdade, Deco também é brasileiro. Que chatice!

PS. Até á hora que publico este post, o meu post anterior não teve um único comentário. Mas vocês não gostam da fruta, ou quê? Olhem bem que os morangos lá descritos são ali da nossa região saloia e não morangos do nordeste brasileiro. Nem tudo é culpa do Scolari, caraças.

segunda-feira, maio 29, 2006

977. Frutas V












Não é do sangue, encarnado,
Do luso estandarte imitado,
Nem do licor de Baco, rubi.
Quando os como ao pé de ti
Sinto-me inflamado.
Teus lábios fazem lembrar
Desejos de boca, beijar
Misturá-lo com baton
E não é tudo o que de bom
O morango tem p’ra dar.
*
Quando em calda, já batido
Ou no sorvete servido,
Lembram-me coisas então…
E não é menor tesão
Pensar sobre ti vertido:
Um morango no umbigo
E eu juntinho contigo
Encostado até esmagar
E no seu soro navegar
Numa rota de vertigo.
*
Voltando à cor, afinal
Que era o tema principal,
Do diabo foi herdada.
E a rima desviada,
Creiam que não foi por mal.
Mas não paro de pensar
Nos teus lábios eu poisar
Um morango bem maduro,
Cortar a luz e no escuro
Ficarmos a namorar.

O PreDatado, in Frutas e outros comeres

foto de Lyubomir Bukov deliciosamente encontrada na net pela Karla

domingo, maio 28, 2006

976. Frutas IV


Tenho com ela uma atitude nobre.
Suavemente, a rugosa veste retirando
Retribui-me essa nobreza, me mostrando
O véu sedoso que seu corpo cobre.

Espera de mim um pouco mais de aprumo.
Não a defraudo e, como se fora mestre
Dispo-a então dos restos que se veste
E já nua, chupo seu delicioso sumo.

Mas nem sempre esta atitude tomo
Gosto de a comer de feição diversa,
Por isso, a abro muitas vezes em flor.

E, egoísta, a seus gomos eu assomo.
- vou ser directo, basta de conversa -
Sou louco por laranja, (não pl’a cor).

O PreDatado, in Frutas e outros comeres

foto de Roberto Roseano deliciosamente encontrada pela Karla

sexta-feira, maio 26, 2006

975. Frutas III















Coloco-te nas orelhas só por graça,
Dentro de água gelada ou sobre gelo.
Faço de ti licor e p’ra bebê-lo
Te verto em copo ou cristalina taça.

No meio de chocolate licoroso
Te chupo e faço, por isso, derramar,
Correndo no queixo sem queixar,
Um liquido suave e bem viscoso.

De todo o jeito, para te comer eu sou capaz
Saltar veredas e te colher na árvore
Sejas tu vermelhinha ou como mármore,

Na praça adquirir mais de um cabaz
Tal como as conversas, é assim:
Cereja puxa cereja até ao fim!

O Predatado, in Frutas e outros comeres

Foto deliciosamente obtida com a colaboração da Karla, mas não sei de onde é que ela a sacou.

quinta-feira, maio 25, 2006

974. Treinador de bancada, eu?

Apesar dos arautos da opinião desportiva, escrita e falada, esta Selecção de Sub-21 se mais não fez, pelo menos veio dar uma prévia razão a Luis Felipe Scolari. Ricardo Quaresma, João Moutinho e Manuel Fernandes não têm nem maturidade, nem qualidade para representarem uma selecção A de Portugal. Devem estar por aí, muitos a morder a língua.
973. Frutas II



Coloquei-te na mesa, e tu te abriste
Em racha de onde a pevide já espreita,
Tarda o tempo em que te vou comer.









Num ritual de preliminares feito,
Apalpo-te o bojo e oiço sons
Que de dentro emites, como queixa;
- e olhas-me o instrumento já em riste.
Mas antes que te prepare o fino leito
Admiro-te a pele (de vários tons)
E como que à espera de uma deixa
Coloquei-te na mesa, e tu te abriste.

Não estás intacta, dá para ver
Teu interior vermelho, reluzente.
A água que me escorre já da boca
Que de pecaminosa gula se deleita
Quer que avance sem mais tempo perder.
E prestes chegarei com ar demente
E mordo e chupo e lambo, à louca,
Em racha onde a pevide já espreita.

É agora. Meu desejo mais não espera,
Que de esperas poderá desesperar.
E apareces-me assim feita talhada,
E no centro um castelo de prazer
Da arte de cortar a linda esfera.
Melancia, que a sede faz matar
Como se fora sede saciada.
Tarda o tempo em que te vou comer.

O PreDatado, in Frutas e outros comeres



foto deliciosamente gamada no Google Images

quarta-feira, maio 24, 2006

972. Frutas I



Vejo-te erecta suspensa no teu cacho
Seduzindo quem de ti se alimenta
E quem da sedução não se aguenta
Te agarra e colhe em poiso baixo.

Depois, suavemente ou sem demora
Baixando a cobertura em teu redor
Num impulso de vontade e com fervor,
Leva-te inteira à boca e te devora.

Mas, se por desleixo ou acaso ser,
Te desdenha, te despreza e te abandona,
Embora quase sempre doutras à tona,

Não te resta mais que amolecer.
Banana. Fruta, filha da tropicalidade,
Eterno símbolo da nossa virilidade.

O PreDatado, in Frutas e outros comeres

foto deliciosamente gamada no Google Images

terça-feira, maio 23, 2006

domingo, maio 21, 2006

970. No Alentejo...

Mais um fim-de-semana que passou. Desta vez aproveitei para voltar ao Alentejo. Mas volto sempre do Alentejo com nostalgia e com mais riqueza. Desta vez é a nostalgia dos sabores. No Alentejo, comem-se ovas de saboga, come-se javali estufado e come-se cozido de grão. Com cheirinho a hortelã. Experimentem, quando forem para aquelas bandas, o restaurante “A Paragem”, nos Corvos ou o “Café Alentejo” na Moreanes. Ah, não sabem onde fica? Pois eu dou-vos a morada. Não tem nada que enganar. Quando chegam a Mértola, em vez de seguirem direitinhos que nem um fuso para as praias quentes do Algarve, façam um desvio assim como quem vai directo à Mina de S. Domingos. Cerca de 3 kms depois de deixarem Mértola encontram uma placa a indicar Corvos para a esquerda. Não custa nada. Mas se quiserem seguir em frente, sem fazer desvio, vão passar à Moreanes. Aí procurem o Café Alentejo. Quer num sítio, quer noutro, não se vão arrepender. Depois de almoço, aproveitem e dêem um pulinho à Mina de S. Domingos. Vejam a belíssima praia fluvial da Tapada que lá temos e não esqueçam de visitar o Museu da Mina. Viver e aprender. E por falar em aprender, eu disse que voltei mais rico e voltei mesmo. Lá na Moreanes conheci o filho do ti Rosa. O Chico Rosa sabe de cor quase todos os poemas do seu falecido pai. Poemas de grande valor cultural e que não estão escritos em lado nenhum. Feitos pelo ti Rosa, um homem que nem ler sabia. E assim, um dia mais tarde, se vão perder as memorias que o tempo se encarregará de apagar.

PS. Fiquei a saber que o Benfica já tem novo treinador. Não desgosto da opção, mas também não fiquei entusiasmado. No entanto, a partir de hoje, este é o meu treinador, que é como quem diz, o melhor treinador do mundo. Força Fernando Santos. Viva o Glorioso SLB!

terça-feira, maio 16, 2006

969. Um espectáculo espectacular ou a sem vergonhice quarto-mundista. Avé Caesar!

Inaugura-se a nova Praça de Touros do Campo Pequeno. Apesar do Coliseu, apesar do Pavilhão Atlântico e apesar do Parque da Bela Vista e talvez também apesar do Centro Comercial Colombo ou do Centro Comercial Vasco da Gama, acredito que Lisboa precisasse de um espaço assim. Um espaço de espectáculos ao ar livre e um espaço comercial mesmo no coração da cidade. Mas (há sempre um mas) este recinto vai também e pior, principalmente, ser palco de um dos mais brutais espectáculos dos nossos tempos: a Tourada.

E se tourada é considerada um espectáculo é porque ela é espectacular. E eu não nego que o seja. Já vi mais de um milhar de fotos de tourada, da espectacularidade das fintas de um bem tratado e ornamentado cavalo, da não menos espectacular chicuelina ou da meia verónica. Dos espectaculares picadores e da espectacular estocada final. Um espectáculo. Mas não deixa de ser espectacular (literalmente) uma foto das torres gémeas de Nova York a arder, das imagens espectaculares de um incêndio na serra da Estrela, do espectacular cogumelo de Hiroshima. Alguém duvida? E quem defende?

Amar os touros! Este é um argumento usado pelos defensores da tourada. Amar os touros torturando-os e, agravadamente, em público! Amar os touros! Tal como foi amar a paz atacar as torres de NY! Os argumentos não são muito diferentes. São de pessoas que amam.

Claro está que no campo, são bem tratados, são acarinhados, são alimentados; é preciso apresentá-los em bom porte na arena. Ninguém ligaria a uma tourada em que um touro esquelético, quase moribundo, entrasse na lide. Não teria público, não seria lidado. Como os antigos gladiadores. Sofrer e morrer na arena. Mas eram sempre os mais fortes e os mais bem alimentados. Um espectáculo.

Publicado anteriormente no ante-et-post

segunda-feira, maio 15, 2006

968. Eu não tenho dúvidas

A partir de hoje a escolha de Luís Felipe Scolari é a minha escolha. Independentemente de que num lugar ou noutro eu tenha tido até ás 20horas uma opinião não coincidente, desde o momento que foram anunciados os 23, estes são os que apoiarei.

domingo, maio 14, 2006

967. Épocas

Com o jogo da Taça, terminou hoje a época de futebol. Amanhã começará a época de incêndios. O treinador nacional, também conhecido como ministro, António Costa, convocou, bombeiros, GNRs e meios aéreos nunca vistos. Há quem acredite que vamos dar uma abada aos incêndios que estes até vão andar de banda. A ver vamos. Prognósticos só os faço no fim, como se tornou costume em Portugal.

Esta semana foi uma semana muito rica em eventos. O professor Carrilho ensaiou uma rábula em forma de livro, chamado a “Vingança serve-se fria”. Fiquei lavado em lágrimas enquanto li o livro. Não se podem fazer coisas destas ao homem, caraças. É bem feita que para a próxima ele não dê mais apertos de mão a ninguém.

A marcha contra o fecho das maternidades ensaiou pelas ruas da capital. Ao contrário das tradicionais marchas de Lisboa os balões não vinham içados no alto dos arquinhos pois algumas mulheres apareceram com o balão escondido debaixo do vestido, junto ao ventre. Reivindicam o direito de rebentar o balão lá na terra e não na terra do vizinho. Consta que o ministro, sensível ao argumento, ao contrário do fecho anunciado de várias maternidades, vai mandar construir uma em cada freguesia do país. Com esta medida, acredita-se que Canas de Senhorim não volte a querer ser Concelho. Jorge Sampaio até respirará de alívio.

Por falar em Jorge Sampaio, o antigo presidente da república, foi esta semana nomeado enviado especial da ONU na luta contra a tuberculose. Envio-lhe daqui os parabéns e um pacote de lenços Cleenex. Aliás, eu gosto muito de oferecer lenços de papel às pessoas, mas a remessa que enviei para Belém a semana passada veio-me devolvida com a mensagem “Agradecemos a lembrança, mas somos a informá-lo que apesar da afirmação do Sr. Presidente de que os portugueses têm de levantar a sua autoestima, ser igual a uma afirmação semelhante do anterior presidente, esta foi dita sem o derrame de uma única lágrima, pelo que o seu bem intencionado presente não será de grande utilidade neste Palácio”.

Havia mais para escrever mas agora estou cheio de fome e vou jantar. Não vou comer lebre, nem tão pouco gato por lebre. Vou comer uma refinada posta de bacalhau. Sem sabor a petróleo. Quero ver se durante a semana o PreDatado não anda tão preguiçoso como andou na pretérita. Ficará atento ao desenrolar dos acontecimentos, principalmente a quem substituirá Ronald Koeman. Beijinhos e abraços.

domingo, maio 07, 2006

966. Porque há outros momentos para chorar...

porque não aceitar a sugestão da Ana?

"todas as manhãs ao acordar, antes de abrires os olhos, espreguiça-te como um gato. estica todas as fibras do teu corpo. após três ou quatro minutos, ainda com os olhos fechados, começa a rir. durante uns minutos não pares de rir. a princípio é apenas riso mas em pouco tempo o som da tua tentativa dará lugar a riso genuíno. deixa-te levar pelo riso. pode demorar vários dias a acontecer, uma vez que não estamos minimamente acostumados ao fenómeno. mas a qualquer momento será espontâneo e alterará toda a natureza dos teus dias"

sábado, maio 06, 2006

965. Muitos segundos tem meia-hora!

- Tenho uns amigos muito chatos, disse eu em tom de desabafo, enquanto olhava para a borra no fundo da chávena de café.
O Malaquias que estava embrenhado a ler “Anjos e Demónios” – mais uma vítima da publicidade – pensei eu, que não sou fã de Dan Brown, nem levantou os olhos, mas interrogou-me:
- Chatos porquê?
- Só falam de bola, pá!
O Malaquias deve ter acabado de ler a frase ou o paragrafo, colocou o marcador, fechou o livro, levantou a cabeça e,
- Isso interessa-me, pá!
- Olha outro… de repente deu-me um arrependimento por ter levantado a lebre. Primeiro porque tinha a certeza que ele iria pedir-me para clarificar e a última coisa que me apetecia era falar de bola. Segundo, porque tinha de aturar um “pá” em cada duas palavras. Juro que só por vergonha é que ainda tomo café com o Malaquias. Toca-me à campainha todos os sábados de manhãs, “Então Pré, vamos ao Aguiar?”. De vez em quando arranjo uma desculpa, mas como não posso evitar sempre, lá acedo. Se não trás um livro “da moda” na mão, chega à mesa, procura ávido e ansioso ou o Correio ou 24 Horas e passa amanhã toda “é pá, já leste esta, pá?, o gajo matou a própria mãe, pá, um tiros nos cornos, pá, é o que estes gajos merecem, pá, se fosse na América ias ver, pá”. Eu já finjo que nem oiço, normalmente tento dar uma volta ao texto e lá vem o gajo, “caralho, ao fim destes anos todos ainda és comuna, pá?, qual integração social, qual merda, isto vai lá é com a pena de morte”. Finjo que não o oiço.
- Desembucha, pá, o que é que esses gajos te andam a chatear a cabeça com bola, pá?
- Coisas, sem importância, Malacas (que é como eu o trato), de novo a treta de um tal Apito Dourado, digo eu para ver se arrepio caminho e se ele volta ao Dan Brown.
- Sem importância, pá? Sem importância, insistiu, e eu cada vez mais arrependido de ter feito o comentário.
- Deixa lá, Malacas, estás a gostar do livro? – tentei disfarçar.
- Caga no livro, pá – riposta-me o Malaquias, como se fosse eu que não tivesse levantado os olhos do livro durante os quase 15 minutos, desde que entrou no café. – Os gajos têm muita razão, pá, lembras-te do caso da corrupção na arbitragem no Brasil?
- Lembro-me mais ou menos, mas o que é que isso vem para o caso.
- Isso foi descoberto muito tempo depois do Apito Dourado e já está resolvido, pá.
Eu juro que ele me está a mentir. No Brasil? Ainda se isso fosse na Alemanha, vá lá, vá lá.
- E na Alemanha, pá?
Caiu-me o queixo no chão. O Malaquias, além de saber tudo de bola, ainda sabe ler pensamentos.
- O que é houve na Alemanha? Perguntei eu, na minha ingénua ignorância sobre futebol.
- Na Alemanha, o mesmo, pá. Foram de cana, pagaram multas, foram expulso da arbitragem, pá. Foda-se pá, andas a leste ou quê? Ou só vês telenovelas?
Rebentei. Eu não só não gosto de telenovelas, mas também não sou tão desinformado assim. Falei-lhe num artigo do Miguel Sousa Tavares que me tinha chegado por e-mail, em que ele se regozijava pelo facto de o Apito Dourado estar a ser arquivado. Falava num tal Pinto da Costa e num tal Valentim, que não imagino quem sejam, mas ao que parece, o Sousa Tavares gosta muita muito e por isso estava tão contente.
- Não me fodas pá!, Tu não me fodas com o esse gajo, pá. Olha que eu perco a calma. Tu não vês que esse gajo manda às urtigas tudo o que é ética, quando lhe tocam nos padrinhos? – Eu estava cada vez mais estupefacto – esse gajo se não fosse filho de quem foi, pá, esse gajo nem advogado, nem escritor, nem merda nenhuma. Quanto muito era um caçador de perdizes. Tu não me fodas com esse gajo.
Tenho aqui eu fazer um parêntesis para vos dizer que me senti acabrunhado. À nossa volta já se tinha juntado um magote de malta, uns conhecidos, outros não. Havia até apostas de que o Malaquias me iria às trombas se eu voltasse a falar do Miguel Sousa Tavares. Eu tentei acalmei as coisas.
- Nisso tens razão, Malacas, parece que esse gajo, usando a expressão dele, mas que parecia nova para o Malaquias...
- Gajo! Dizes bem pá, pior que gajo, pá, - interrompeu-me. E vais ver um dia deste ele a defender que o caso em Itália tem de ir ao até ao fim., pá. Até envolve o Micoli e tudo!
- Chamei o Aguiar e pedi a conta. Olha o Micoli também metido nisto. Quem será o tal Micoli? – levantei-me e disse-lhe que amanhã não ía fazer joging ao Parque da Paz.
- E não te esqueças disto que te vou dizer, pá. Em Itália só começou agora e vai ser mais rápido que o Apito Dourado!
Eu, é que saí rápido. Estas merdas da bola não me interessam nada. Mas mesmo assim vim pelo caminho a pensar quem seriam os Anjos e os Demónios nesta conversa. Meia hora da minha vida dedicada à bola. Foda-se! Meia hora! Muitos segundos tem meia-hora!

terça-feira, maio 02, 2006

964. Atentado

Não foi nem no Iraque nem no Afeganistão. Também não foi no Sudão nem no Egipto. Parece que desta vez a Al-Qaeda não esteve envolvida. Pelo menos não houve nenhum comunicado lido ou gravado que tenha sido transmitido pela Al-Jazhira. No entanto resultaram 15 mortos e algumas dezenas de feridos. Aconteceu nas estradas portuguesas neste fim de semana. Não foi reinvidicado.

quinta-feira, abril 27, 2006

963. Eu não acredito e vocês?

Tudo bem, justiça é justiça e faça-se justiça num estado de direito. Os políticos quando instados a pronunciar-se dizem sempre “não comento decisões judiciais”. Estão no direito deles. De não comentarem. De não se comprometerem. Aliás é normal não se comprometerem. Os votos contam muito e é à conta dos votos que eles lá estão. Mas eu não sou da política e acredito naquilo que eu quiser. O S. Tomé agia de um modo semelhante. Gostava de ver primeiro. O que me distingue de S. Tomé é que vejo demais para os meus míopes olhos. Por isso, nem vendo eu acredito. Não sou obrigado a acreditar. Não acredito na Justiça em Portugal e pronto! C’est finit. Aliás, a propósito do francesismo utilizado, alguém se lembra ainda da condenação do todo-poderoso Bernard Tappie em França? “Mas,” dizem vocês, “França não é propriamente um país do terceiro mundo”. “Pois!” digo eu que sou parco em palavras. Vamos vendo, paulatinamente, sendo arquivados processos associados ao Apito Dourado. Ontem um, hoje outro, até ao arquivo final. E já agora, há algum poderoso no processo Casa Pia? “Pois!” digo eu que sou parco em palavras.

(Colocado previamente no ante-et-post)

terça-feira, abril 25, 2006

962. Hoje é dia 25 de Abril

Antes. Manifestação em Lisboa de Apoio a Salazar. Camionetas vindas de todo o país invadem a capital numa grande manifestação de apoio a Salazar. A Emissora Nacional faz a reportagem da chegada dos manifestantes.
EN – Minha senhora de onde vem?
Popular – De Carrajeda de Anshiães.
EN – Porque é que veio a esta manifestação?
Popular – Bim ber o Baltajar.

Depois. Sócrates ganha as eleições. Manifestação popular em frente à sede da candidatura. A população eufórica exige a presença de Sócrates na varanda. A RTP faz a reportagem.
RTP – Minha senhora de onde veio?
Popular – De Lisboa. Sócras! Sócras! Sócras!
RTP – Está muito feliz com a vitória do Partido Socialista?
Popular – Sempre apoiei o Sócras. Viva o Sócras! Sócras! Sócras! Sócras!

Ainda está muito Abril por realizar!

segunda-feira, abril 24, 2006

961. Solidariedade (com um reparo)


A maria_árvore convidou-me a expressar a minha solidariedade com uma organização à minha escolha. Vou escolher a PORTA ABERTA e a campanha Sorrisinho, juntando gratuitamente a minha voz (neste caso o meu texto) à campanha que está a decorrer de recolha de fundos para a construção do novo Centro de Acolhimento para crianças em risco.



Faço-o a título gratuíto como penso que, embora figuras públicas, o tenham feito as pessoas que aparecem no prospecto de divulgação. Nem outra coisa seria de esperar tratando-se de uma campanha de solidariedade.



Fica aqui mais informação nomeadamente o NIB para quem quiser contribuir.



Finalmente fica aqui, também, o tal reparo a que faço referência no título. Hoje mesmo comprei um dos objectos, uma pequena boneca em pano, que a campanha está a vender em troco dos 5€ de solidariedade. Provavelmente o "Sorrisinho" já estará esgotado, mas isso não é o busilis da questão. Essa bonequinha tinha uma etiqueta, com as recomendações obrigatórias para crianças e a origem do produto: Made in China. Tendo em conta que a PORTA ABERTA acolhe crianças vítimas de maus tratos, não teria sido de bom tom, advertir o comprador do Sorrisinho de que o mesmo não tinha sido fabricado com recurso a trabalho infantil ou semi-escravo? Ou será que foi?
960. AhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAh

Não consigo parar de rir...AhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAh...acabei de ouvir que...AhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAh...um dos processos a Pinto da Costa, no Apito Dou...AhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAh...rado, foi arquivado. AhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAhAh. Ajudem-me a parar de rir.