quarta-feira, agosto 26, 2009

1475. Se alguém souber quem queira, mande-me um e-mail

O meu sogro era uma pessoa humilde de cuja vida não faziam partes grandes manifestações sociais. Casamentos, baptizados, festas de aniversário, um ou outro convívio entre amigos e funerais, quase que poderia resumir assim a sua participação na vida colectiva. Ah, é verdade, o meu sogro votava e não dispensava de se apresentar de fato e gravata no cumprimento do seu dever cívico. Poderíamos assim pensar que, para tão resumidas necessidades, não lhe fosse necessário ter um guarda-roupa por aí além, mas na verdade a coisa não era bem assim. Só dos genros e filho “herdava” em cada estação uma substancial quantidade de camisas que, ora porque tinham passado de moda, ora porque um colarinho menos apropriado não lhes assentava bem a gravata, ou ainda porque genros e filho decidiam engodar mais do que os botões das ditas camisas suportariam. Mas calças e fatos tinham o mesmo destino pelas mesmas razões ou até outras. Se acrescentarmos as pouco originais prendas de aniversário e Natal com que a família o brindava, ele era pulôveres, ele era camisas, ele era peúgas, ele era ceroulas, quando o meu sogro faleceu deixou algumas dezenas destas peças em roupeiro. Pois minhas queridas leitoras e meus queridos leitores, vocês nem imaginam a dificuldade que nós cá em casa temos tido para doar este, modesto mas asseado, espólio. Nem lares, nem asilos, nem igrejas, nem mesmo particulares necessitam de nada disto. Tenho mais medo de que seja presunção do que pobreza envergonhada. Esta última, eu compreendo, a primeira entristece-me.

Esta foto publicou o LFM há mais de dois anos no blog dele. Fui lá e pifei-a mas não sei quem é o autor.

segunda-feira, agosto 24, 2009

1474. Fado - uma das minhas paixões

Na verdade não quero que pensem que estou aqui a dar graxa, a donner de la graxe, giving graxation, geben graxichen ou a rasgar seda (mania de complicar né mesmo, mermão?). Eu sei e já tenho afirmado que O PreDatado é o blog que tem os melhores leitores do mundo e, por certo ninguém me desmentirá, também os mais cultos. Obviamente que nem todos terão o mesmo grau de conhecimento em todas as matérias mas é esse ecletismo de cognição, atrever-me-ia mesmo a designar por esse boião de cultura e, se não considerarem exagero meu, até me referiria a esse mix de experiências civilizacionais que honra e prestigia este humilde blog que foi criado no intuito, único e exclusivo, de ser pasto para alguns dos vossos momentos de ócio, ou quando já não houver mais livros do tio Patinhas para ler na prateleira do móvel livreiro da casa de banho, ou ainda para quando acaba o programa da Marta Croft no TVI24.

Posta que foi a brevíssima introdução supra, eu sei que vós merecíeis muito mais, vamos lá ao que interessa mesmo e sobre o qual eu quero a vossa ajuda. Lucília do Carmo foi uma tremenda fadista que malogradamente faleceu há já 10 anos atrás. Dentro da sua vasta discografia consta o fado Loucura. Neste fado, de letra lindíssima, Lucília do Carmo cantava o seguinte refrão:

Chorai, Chorai

Guitarras da minha terra

O vosso pranto encerra

Minha vida amargurada.

E se é loucura amar-te desta maneira

Quer eu queira quer não queira

Não posso amar-te calada.

Ora ontem assisti a um espectáculo da linda Ana Moura (vide PS) onde esta cantou Loucura que eu conheço como Loucura (sou do Fado) cuja primeira vez que o ouvi foi na voz de Carlos do Carmo, filho de Lucília do Carmo e que, no entanto, Ana Moura atribuiu a Lucília do Carmo. Embora utilizando o mesmo arranjo musical, a letra é completamente diferente sendo que o refrão é:

Chorai, Chorai

Poetas do meu país

Troncos da mesma raiz

Da vida que nos juntou.

E se vocês não estivessem ao meu lado

Então não havia fado,

Nem fadistas como eu sou.

E agora pergunto eu: entre os meus leitores e as minhas leitoras há alguém que me consiga informar se o fado Loucura (Sou do Fado), este último, é mesmo da autoria de Lucília do Carmo, ou então, conhecem alguma gravação de Lucília do Carmo cantado esta versão de Loucura? Porque da primeira versão tenho eu e se ficar em branco nesta resposta até as minhas guitarras vão chorar.

PS. Ontem assisti ao concerto de Ana Moura nas festas de Corroios. Eu chamei-lhe linda porque de facto o é. É-o como mulher mas isso não vem ou caso ou se calhar até vem. Deixemos assim. Linda como fadista, pela qualidade da sua voz, pela qualidade do seu repertório, pela qualidade dos músicos que a acompanham, pelo rigor do traje, pela atitude em palco. Linda como pessoa, pela sua humildade. E é este ponto que hoje trago à colação, mesmo correndo o risco deste post scriptum poder ficar mais ou menos chato. O Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Corroios e a Comissão das Festas de Corroios (não sei se é assim que se chama) que tão boa conta costumam dar (e têm dado), do recado com uma “feira” bem organizada, variada na oferta e divertida, diga-se em abono da verdade, com espectáculos de qualidade todos os anos, a qual os do presente ano confirmam e culminam, não poderia criar uma prerrogativa entre os feirante para que, quando um espectáculo do nível e do âmbito do da Ana Moura, todas as outras barracas e locais de diversão desligassem a música? Não custava nada, pois seria pouco mais de 1h30m e escusava de se ter misturado Búzios com Quim Barreiros, Loucura com Emanuel, Aconteceu com Rute Marlene e o meu amigo João com Nelson Ned. Não fosse a humildade que enobrece os grandes e estou convencido que Ana Moura se teria recusado a cantar. Para rever. Se alguém lhe puder chegar este recadinho (ao presidente da Junta, claro), agradecia.

Foto de Lucília do Carmo retirada da net, onde consta em vários blogs e artigos a seu respeito.

sábado, agosto 22, 2009

1473. Andamos por lá perto

Vou-vos contar uma coisa mas não digam a ninguém. Aqui o Pre é um gajo de números, não fosse o tipo ligado às engenharias e às matemáticas, mas há números para os quais não está, definitivamente, talhado. Dou-vos dois exemplos simples com os quais podereis constactar essa sua não afinidade para certas conjugações algaritométicas (nem a palavra existe). Esta semana estava ele, o Pre, aqui confiante que lhe iriam sair os 74 milhões do Euroditos, os quais diga-se de passagem já pouco lhe pertenciam dada a distribuição que, previamente, fez dos mesmos e, tufas, nada de nada que é como quem diz niente. Estais já todas e todos vós leitoras e leitores, respectivamente, a pensar, os números não querem nada, mesmo nada, com o Prezinho, sem mesmo saberem que nem os números nem as estrelas pois o zerão também se aplica a esses dois algaritmozitos suplementares. O segundo exemplo tem a ver com o número de visitas de “O PreDatado”, obviamente coisa muito mais séria do que o Euromilhões, de tal forma que é preciso cuidado para dizer isto. Os outros blogs, os famosos, os dos pilantras como aqueles que andam por aí a trocar bandeiras, os dos gajos amigos dos amigos daqueles que vocês sabem e, finalmente, até os bons blogs, é num ápice. De um momento para outro pimba, tufas (outra vez) e plim, e lá estão eles, nas 10, nas 50, nas 100 mil visitas e, horrores dos horrores, a ultrapassar um milhão de visitantes em pouco mais de um ano. Cá o nosso Pre está nos seus 99.932 (número que não variou desde o início da escrita deste post até à sua publicação), que é como quem diz quase nos 100 mil em cerca uns míseros quase 6 anitos nestas andanças. E isto quer dizer muito. Quer dizer que não é qualquer merdas que vem aqui ler este blog. Os poucos que cá vêm são os melhores leitores de blogs do mundo. São poucos? Ah pois são, mas são os melhores. E mainada!

Pic from Copyright 2009 Kellene Bishop at http://womenofcaliber.wordpress.com/2009/07/20/my-wish-100000-women-strong/

sexta-feira, agosto 21, 2009

1472. Benfica TV

Inenarrável este rapazinho. Não é a primeira vez que vejo um jogo do meu Glorioso S. L. Benfica na Benfica TV e de cada vez que o faço farto-me de rir. A Benfica TV não é uma televisão privada embora seja uma televisão privada. Parece um contra-senso mas não é. Eu explico. Embora seja uma televisão privada de estatuto não é um canal de TV para ser visto à porta fechada, entre confrades que se riem muito das próprias piadas. Está inserida num pacote de oferta de um operador, com licença atribuída por Entidade Pública. Como tal deve ter, independentemente da linha editorial com a qual digo de passagem que embora não a conheça subscrevo-a porque será com certeza em defesa do meu clube, dizia eu deve ter sobriedade mas, essencialmente qualidade. Ter um relator/comentador dos jogos de futebol que não só identifica o nosso treinador como Jota Jota (eu vou assumir para mim a dor e pedir desculpa ao grande Jacinto João, ex-jogador do Vitória de Setúbal, esse sim universalmente conhecido nos meios futebolísticos como Jota Jota), como para ele faz parte da nossa equipa o Angelito (anrrelito), o Pablito, o Fabinho, o El Conejito (el conerrito), o Tacuara e para já fico-me por aqui porque daqui a pouco está a chamar Luisinho ao Luisão. Não se pode melhorar Sr. Luís Filipe Vieira? Pode-se ser Benfiquista sem ser ridículo ou não?

PS. Os ucranianos não têm nome conhecido mas ainda sou do tempo em que o Benfica foi eliminado por um tal Ajax e que toda a imprensa achincalhava o Glorioso por ter sido posto fora da Europa por uma marca de detergente. Pois bem, o Benfica deu quatro aos ucranianos do Poltrava, outros quatro poderiam ter sido marcados e o jogo foi muito bem jogado.

terça-feira, agosto 18, 2009

1471. Bem-ditismos

Quando estou de férias a última coisa que gosto é de ser perturbado com sons que vão para além do dos passarinhos, do balido das ovelhas, do rolar das ondas na areia ou dos verdadeiros sons do silêncio, propícios à reflexão, que as calmas noites alentejanas me proporcionam, enquanto refastelado em faustas cadeiras espaldares ou espreguiçadamente deitado na rede a olhar o céu e a chuva de meteoritos. No entanto, condescendo, de vez em quando, alguns minutos do meu quieto direito à paz, ao barulho e ruído que os jornais e telejornais a transtornam. Quando ouvi na televisão que Isaltino de Morais foi condenado a sete anos de prisão por uma série de crimes (roubos?) que terá perpetrado, a notícia não me aqueceu nem me arrefeceu. Retirei-me e voltei aos meus longos períodos de reflexão. Eu não sei se o tal indivíduo é culpado ou não é. Não sou juiz e além disso o Dr. Isaltino recorreu pelo que, até que transite em julgado, não sou eu quem fará coro com os justiceiros da praça pública. Mas se ele pertence à canalha então que seja condenado. Porque a canalha existe e isto não é resultado de qualquer julgamento popular. Todos sabemos (são os mais importantes e relevantes Magistrados e Procuradores que o dizem) que existe uma canalha, um bando de vampiros que nos suga o sangue a cada minuto que passa. E choque a quem chocar terão um dia de o pagar. Seja em Oeiras, em Felgueiras, em Gondomar, em Alcochete, em Lisboa ou no Porto. Um dia, quem sabe, alguém possa ter umas mãos tão castas e tão limpas que nunca se sujarão a limpar o nosso país da canalhice. Benditas sejam.

PS. Um tal brasileiro Adhemar de Barros, em tempos que já lá vão, candidatava-se com o slogan “Adhemar rouba mas faz”. Infelizmente em Portugal também existe muita gente que apoia este tipo de políticos. Que façam algo e tudo lhes será perdoado. Mesmo que o façam à conta do nosso suor, quiçá do nosso sangue e quantas vezes das nossas lágrimas. Malditos sejam.

segunda-feira, agosto 17, 2009

1470. Menininho


Eu sou exactamente como as crianças. Hoje a família ofereceu-me um leitor MP4 assim com umas funções meio complicadas para mim, mas eu tenho uns amores de filhos para quem não há botão ou tecla que não conheçam e que não saibam para que é que servem. Pois como ia dizendo, ainda não tirei os auscultadores dos ouvidos. O brinquedo é meu e pronto! O pior é se não oiço a rolha da garrafa do champanhe a saltar e o esparramo todo pela mesa. Que se lixe, haja alegria.

domingo, agosto 16, 2009

1469. Regresso auspicioso

De repente a minha mãe escorrega na banheira, dá uma queda, as dores são horríveis, o hospital é logo ali ao lado. A assistência não é rápida nem é lenta, está dentro dos tempos previstos pelo chamado Critério de Triagem de Manchester, as coisas parecem estar a correr bem. Atendida no banco de urgências foi radiografada e como tal teve de esperar o tempo razoável para que a “chapa” estivesse pronta. Não tendo sido detectada nenhuma fractura foi no entanto considerado prudente, pelos clínicos de serviço, que a mesma radiografia fosse observada pelo neurocirurgião. 13 horas e 30 minutos depois, leram bem, treze horas e trinta minutos depois foi dada alta à minha mãe com receituário de ben-u-ron (o que nem sequer se questiona). É esta a qualidade de serviço que temos, é este o SNS que nos legam os partidos do poder. E nós, lá vamos cantando e rindo…

PS. Parece que no Hospital Garcia de Orta em Almada também ainda são conhecedores do Dec. Lei 33/2009 publicado no DR no passado dia 14 de Julho. Nomeada e principalmente os serviços de segurança. Acho que a região de Almada / Seixal / Sesimbra merecia uma melhor gestão hospitalar.

quinta-feira, julho 30, 2009

1468. Vacanças

E pronto, chegamos ao fim de mais um ciclo. Bem sei que não é para todos mas a maioria dos portugueses vai de férias em Agosto fechando, portanto, nesta altura mais um ciclo. Durante um mês não há mais embirrações do chefe. Durante um mês as filas para a ponte na ida e na volta são só para aqueles que não sabem fechar o ciclo no dia exacto. Durante um mês não se vai para a caixa do Continente com o carrinho de compras a transbordar aos Domingos de manhã. É verdade, também, que durante um mês não se tem o prazer de conversar com a boazona que trabalha na secretária ao lado e esta é a época de ela ir de mini-saia até à cintura, mas algum tributo se terá de pagar. Durante um mês não é preciso ir buscar os putos todos os dias ao colégio porque as educadoras também estão a fechar o ciclo delas. Durante um mês não vou pensar se tenho moedas para um dia inteiro de estacionamento. Claro que não vou ter o Destak, o Global, o Metro de borla todas as manhãs mas quem é que precisa de ler jornais no mês fora-de-ciclo? Durante um mês não vou fazer jantar nem lavar a loiça, os outros, os que não fecham o ciclo vão poder fazer o jantar para mim. Durante um mês não há Sócrates nem Ferreiras. Mas vou andar atento ao meu redor e a tomar notas no meu moleskine. Se alguma for interessante depois eu publicarei por aqui. Oh amigo não se importa de desviar um bocadito a sua toalhinha para eu estender a minha? Obrigadinho.

PS. Apesar do Pre ir entrar em férias de Agosto não se esqueçam de vir aqui no próximo dia 17 saudar o seu aniversário e tomar uma tacinha de champanhe, ok?

PPS. Ando muito feliz com as eleições autárquicas. Aqui o meu Concelho anda todo cheio de arranjos e arranjinhos, montes de equipamento prometido e outro a inaugurar e tal. Assim é que é. Eu por mim não me importo de ir todos os anos ali à EB votar. Eleições Autárquicas anuais, já!

Foto: PreDatado©2009

terça-feira, julho 28, 2009

1467. Narzędzia


Nagenda, era assim que nos soava a palavra polaca narzędzia. Ainda hoje quando falamos desse tempo e nos referimos ao assunto é nagenda que dizemos. Já lá vão mais de 3 dezenas de anos em que nos aventuramos a trabalhar na montagem e desmontagem de pavilhões nas antigas instalações da FIL quando ali se realizava a grande exposição anual. A nós calhou-nos o pavilhão da Polónia e logo cedo, antes das 8 da manhã pegávamos na nagenda e íamos trabalhar. Narzędzia é como se diz ferramenta em polaco e eram o martelo na montagem e o arranca pregos na desmontagem as nossas principais ferramentas. Hoje em dia as minhas ferramentas são outras e n’agenda só se for (e é) na electrónica. Utilizar a internet desde antes das oito da manhã e até muito depois do sol se pôr passou a ser para mim quase tão imprescindível como comer. E se bem que em férias me costumo desligar do mundo nem sempre isso é possível para não dizer inconveniente. Vejo agora anunciar por aí, tipo “ora aqui está uma pechincha que nunca lhes passou pela cabeça” banda larga apenas a 10 Euros por 10 horas. Não tenho dúvidas que vai muita gente aderir mas eu gostava de os mandar ir roubar para a estrada porque não estou disposto a pagar 1 euro por hora para aceder à internet, quando em casa pago cerca de 50 cêntimos por dia. Eu não sou nada violento mas quando oiço este tipo de anúncios só me apetece dar-lhes com a nagenda.

sexta-feira, julho 24, 2009

1466. Ensaio sobre a beleza (interior) ou como ficar bonito para este Verão

Às vezes eu finjo que não entendo. Aliás, não é às vezes. Eu sempre finjo que não entendo. Palavra puxa palavra, conversa puxa conversa tipo pezinhos de cereja, ainda a procissão vai no adro e já se ouve o habitual, “o que importa é ser bonito por dentro”. Ah é? E isso também vale para bonita? E se vale como é que vão ser depois os piropos? Parece-me já estar a ouvir o gajo das obras na minha rua debruçar-se na plataforma, onde uns dias depois há-de ser uma varanda, gritar, Ai filha, tens um fígado tão lindo que te comia toda em iscas, ou o camionista à beira da estrada, Se os teus pulmões fossem mais sobressaídos um bocadinho quem te dava uma maré viva era eu, oh Pamela de Alfarim! O que eu gostava mesmo era de assistir às conversas nos consultórios dos cirurgiões plásticos. Doutor nem sabe o que me passou hoje pela cabeça, (…) venho trocar de pâncreas (…) já viu que lindo este no catálogo? (…) Pena é que a modelo é meio anoréctica, mas (…). Acho que quem vai ficar a perder é o governo. É que estas novas cirurgias plásticas com recibo de operação ao pâncreas devem dar para descontar no IRS. Quanto é que abaterá, por exemplo, retirar umas gordurinhas aos pulmões ou fazer uma lipo-aspiração à bexiga? A mim não me enganam, não, com essa converseta do bonito por dentro. Porque é que não dizem logo que um gajo é feio ou vá lá, para não chocar tanto, que é barrigudo? Mas não, ai Pre o que importa mesmo é ser bonito por dentro e tal, mas mesmo assim devias mandar colocar um pouco de botox nos bronquíolos.

PS. Na verdade eu sou lindo por dentro. Já fiz alguns exames, não digo quais porque isto aqui não é confessionário do padre Miguel, em que algumas micro-câmeras me percorreram as entranhas quase todas. É um espectáculo. Ah minha coisinha fofa, pareceu-me ouvir, uma ocasião, da boca de uma enfermeira.

A belíssima foto que se mostra, por dentro e por fora, é do PreDatado.

quinta-feira, julho 23, 2009

1465. Penso rápido

Não há ninguém que eu tenha conhecido que escreva tanto como o Luís. Uma vez, em casa dele, estive uma tarde inteira a contar manuscritos. Daria para dobrar a obra do José Saramago mas assim em formato Guerra e Paz. E isso eram só as chamadas obras acabadas. Contos, romances, ficção, poesia, ensaios, pesquisas e sei lá mais quantos géneros que eu, meus queridos e minhas queridas, sei pouco de literatura para distinguir. Uma vez, por graça, perguntei ao Luís porque é que ele nunca tinha apresentado uma única obra a uma editora. Respondeu-me, com muito mais graça do que a da minha pergunta, que já lhe faltava a paciência para traduzir. É o raio daquela letra com que ele escreve que, na verdade digo isto porque tenho esperanças que ele não me leia e ninguém lhe vá contar, ninguém consegue entender. Diz que começou quando estava na tropa, mas sei eu e sabem alguns outros colegas dele, que era assim mesmo que ele tomava apontamentos nas aulas (assim como que em jeito de parêntesis confessou-me que só tirava apontamentos para exercitar os músculos dos dedos e das mãos pois nunca lia nada do que anotava). Só podia ter-se formado em medicina já que na verdade tinha letra de médico e há que começar por algum lado. Já na tropa foi enviado para a Guiné e, homem do caraças, diz que foi o único período da vida dele em que esteve à beira do paraíso. Quase que foste para os anjinhos? – indagámos – Nada disso, ripostou, foi a época em que escrevia 5 aerogramas por dia. Por falar em aerogramas, foi nesse tempo que Luís conheceu a Esmeralda, sua única, que saibamos, namorada e hoje em dia sua fiel esposa. Uma mulher que lhe dedica tanto ou tão pouco carinho que todos os dias lhe arruma a papelada toda no escritório enquanto no hospital ele se entretém a passar receitas. Mas eu ia falar dos aerogramas. Um dia, quando no início se começou a corresponder com o Luís, entrou-me pela farmácia dentro, passe o pleonasmo mas é só para dar ênfase, a Esmeralda aflita porque não percebia patavina do que estava escrito no aerograma. Aviei-lhe então um xarope para a tosse, uma caixinha de Saridons e duas embalagens de compressas.

Eu sei, amigas leitoras e amigos leitores que do Pre ou Sir Pre, título incluído que tanto custou a adquirir, se espera sempre algo sério, erudito e muito bem elaborado, mas eu hoje estava danadinho para contar uma anedota.

Foto daqui

terça-feira, julho 21, 2009

1464. Redondinhas

Algumas bolas fizeram e fazem, fizeram e já não fazem, não fizeram e agora fazem parte da minha vida e algumas delas da vida de todos nós. Hoje não me debruçarei exaustivamente por um tema tão aliciante sob pena de tornar a escrita redonda e seja por via de um paralelo ou quiçá de um meridiano esta ir sempre parar ao mesmo sítio. Aliás uma bola é o único objecto que faz jus ao velho e popular dito “não tem ponta por onde se lhe pegue”. Da bola e bolas que chutei desde garoto uma delas engoli. A minha médica diz-me que eu devo tentar reduzir o perímetro abdominal que é uma forma eufemística de me dizer que nem o basquetebol se joga com uma bola assim. Outras há, as de Berlim (abro aqui um parêntesis para vos dizer que nunca comi bolas de Berlim tão boas como as que comi em Berlim – eu não vos avisei que este tipo de escrita é redondo?) que se vendem na praia. Este ano tive já oportunidade de estar em praias algarvias e o som agora é quase exclusivamente Bolinha de Bérrlim, com os mais variados sotaques dos nossos irmãos brasileiros (e irmãs que aqui não mora nenhum preconceito). Por acaso também se vendem nas pastelarias, mas não é a mesma coisa (agora fiquei zon). Uma vez vi vender bolas numeradas em Tóquio. Explico. Havia umas casinhas onde se formavam longas filas – saudade de escrever bichas, mas sou lido por muito pessoal do lado de lá que não iria entender – para vender bolas de cortiça de diferentes tamanhos e numeração. Estranho negócio este, pensei eu, só pode ser coisa de orientais, voltei a pensar porque às vezes eu penso mais do que uma vez. Como o jogo a dinheiro era, talvez ainda seja, proibido no Japão fora dos casinos, o fruto do jogo clandestino era pago em bolas numeradas. Alguém nessas casinhas exercia um negócio, perfeitamente legal, de comprar bolas numeradas. E dizem que os portugueses é que são desenrascados. Por acaso eu acho que somos é uns pacóvios de primeira. Está bem que foi no século passado mas a coisa tem uns 20 a 25 anos. Andou a D. Branca a comer as papas nas cabeças de muitos portugueses com uma das maiores vigarices do século em Portugal que até deu direito a uma telenovela em horário nobre e tudo e parece que se esqueceram depressa continuando a cair no conto do vigário agora com uma D. Aurora. Ainda se fosse uma aurora boreal. Bolas que são burros. Ou serão apenas uns cabeças de abóbora muito redondinhas?

Foto daqui

domingo, julho 19, 2009

1463. Ponto de ordem

Tenho uma vaga ideia de que o primeiro ponto que conheci foi o Ponto Azul. A minha tia Felismina tinha um rádio Ponto Azul e a minha prima Helena, a primeira pessoa a ter televisão na família, se a memória não me falha, tinha uma Ponto Azul também. A partir daí os pontos passaram a fazer parte da minha vida quotidiana tão inevitáveis que alguns ainda me causam pontos de interrogação. Um tio meu foi ponto num teatro de revista em Lisboa, a minha mãe fazia doces onde era presença frequente o ponto caramelo, o ponto pérola ou o ponto estrada e mais tarde, era eu assim já espigadote e com pontos negros no nariz e nas bochechas, além do acne juvenil, a minha namorada, quando eu lhe punha sorrateiramente uma mão na perna, picava-me com a agulha com que se entretinha a fazer ponto cruz. Entretanto já eu me acostumara a ir espreitar o livro de ponto entre duas aulas a ver se a professora de História me tinha marcado falta de atraso na única aula que começava antes do meu autocarro chegar, a estudar que nem um marrão para o ponto de química, ou a não perceber nada dos códigos nos cartões de ponto quando comecei a trabalhar na Lisnave. Ficaram aqui muitos pontos por referir como é, por exemplo, o caso das sextas-feiras, dia da semana feito de propósito para os nossos deputados irem lá picar o ponto e pirarem-se para as suas santas terrinhas ou então para Paris ou Nova Iorque que são pontos de encontro muito mais chiques. Mas eles podem porque de quatro em quatro anos lá estamos nós a votar que é como quem diz a marcar o ponto para os legitimarmos. Não sei porque é que falei nisto tudo se a minha intenção era apenas falar nos ecopontos. Os ecopontos são aquelas caixas de plástico grandalhonas que povoam os nossos bairros residenciais e que vieram resolver todo o problema do consumo e exaustão de recursos do planeta. Basta reciclar. Há-os para quase todos os gostos, para embalagens de muitas espécies sendo que, algumas embalagens têm mesmo pontos especiais para elas, que o digam as de vidro e as de cartão. Mas tal como os nossos relvados, sejam os de ao pé da porta que apenas tentam mitigar os efeitos dos aglomerados de betão onde vivemos, sejam os de jardins e parques públicos, se tornaram ponto obrigatório onde madames e cavalheiros levam os seus canitos a defecar (eu por acaso até ia escrever cagar mas, no ponto em que vou, achei feio), também os ecopontos rapidamente se tornaram depósitos dos mais variados lixos. Está-se mesmo a ver qualquer dia as ruas cheias de sofaponto, vesturióponto, movelóponto, frigorificoponto, televisãoóponto e outros objectópontos até chegarmos ao ponto em que um engraçadinho se lembre de intalar o sograóponto. O que nós somos todos é uns grandes pontos e ponto final! (ponto final, ponto e vírgula, que isto é um ponto de exclamação).

Foto: Predatado

sexta-feira, julho 17, 2009

1462. Brilhos


Já não são de sorriso castanho-escuros e maiores que azeitonas como quando antigamente faziam a delicia das moças da região, Só namoradas teve mais de vinte, diz a mulher quando disso se fala, mas continuam a brilhar como antes quando de uma boa brejeirice ou quando nos relembramos, em contos ao serão, do tempo em que as jovens vizinhas, já ele homem casado, o iam fazer levantar da cama para as acompanhar ao chafariz. Hoje é com alguns “papinhos” e outras rugas que sorriem os olhos do Ti Augusto quando de antigamente falamos também das pescarias, não a pesca às namoradas, mas as pescas no rio, à linha e quando relembra que o pai dele, às vezes já chegado a casa com o grão na asa em noite de sexta-feira, lhe dizia, Augusto amanhã vamos aos polvos, Sim pai, que respondia só para o não contrariar. E é com o mesmo brilho nos olhos, talvez de uma lágrima sentida ao recordar o velhote que o Ti Augusto conta que às seis da manhã em ponto o pai o ia acordar, parecendo mais são do que um pêro, Então vens ou ficas? E lá iam eles aos polvos e recordávamos também as vezes que ali no rio, onde há muitos anos namorou uma moça nas rochas sentados a verem passar os barcos (diz que ainda se lembra dos primeiros vapores do Terreiro do Paço) e a roubar beijos que depois nunca os devolveu, relembrávamos, contava eu, que xarroco, pata-roxa, safio e cação, abrótea que na gíria dos pescadores dali chamavam governo-da-casa, tudo ali se pescava, se possível fosse, numa só manhã. De conversa de pescadores, disse-lhe eu, só faltava o Ti Augusto dizer que pescava também os pimentos, os tomates e as cebolas para completar a caldeirada. Isso não, isso havia com fartura por essas quintas a fora e os olhos voltaram a brilhar enquanto se deliciava com mais uma garfada do ensopado de enguias.

Foto PreDatado©2008

quinta-feira, julho 16, 2009

1461. Dominó!


Mestre Jorge, é assim o nome por que ainda o conhecem. Há muitos anos que encostou a fragata mas nunca saiu da beira do rio. Hoje entretém-se a tomar uma cervejinha na Taberna da Lota, onde o Chico já não tem mais rol para assentar os fiados, e a jogar ao dominó. Como o mestre Jorge, muitos outros abandonaram as fragatas e as faluas há já muitos anos. O Josué mantém a dele mas apenas para passeios turísticos no Tejo e o Ti Garoupa, que costumava alugar a muleta aos fins-de-semana para pescarias junto ao pilar, tem-no a doença emagrecido e a vontade de olhar o rio esmorecido, por mor daquela pontada que não lhe sai do meio das costas. Foi Lídia, a filha, quem nos confidenciou, tá acabado o velhote, na sexta à noite quando foi comprar os três decilitros de tinto que lhe durarão toda a semana. Um dia ele se irá primeiro do que a pinga. Meta no rol se faz favor, sô Chico, que no fim do mês fazemos contas. A fábrica de componentes, primeiro alemã e agora dos japoneses, fechou há quase duas semanas e Lídia ainda não tinha arranjado nada. Mestre Jorge, no seu tempo de rapaz ainda chegou a andar embeiçado por Lídia, que era um bom par de anos mais nova. Consta até que fizeram amor no “Lagameças” e se ouviram os gemidos, alguns dizem os ais, de Lídia, numa noite de quarto minguante e calmaria. O Ti Garoupa é que não gostava nada da história, racho o primeiro a quem ouvir dizer isso, mas a sua cumplicidade com Jorge a quem tratava quase como filho não dava margens para muitas dúvidas. Mestre Jorge continua solteiro porque a vida do transporte do sal e de atravessar pessoas para a outra banda nunca lhe deu muito tempo para saias. Dizia ele, porque as más-línguas do cais diziam que o “Lagameças” gemia muitas noites e não era só em quarto minguante. Jogou a última pedra do dominó e puxou uma baforada do cigarro sem filtro. A cerveja estava no fim.

Foto: PreDatado©2009

quarta-feira, julho 15, 2009

1460. Bichos

Enquanto as tartarugas
devoram os camarões,
o meu gato observa-as, atento.

terça-feira, julho 14, 2009

1459. Barracos


Era longe e tinha som. A música celta (ou seria galega?) ecoava vinda das bandas do rio. Pela manhã os sons que se ouvem são outros, são os das gaivotas. Mas aquela manhã nasceu diferente. Tinham feito amor pela madrugada mas os raios de sol através das velhas persianas não fechadas não os deixou dormir mais. Bocejou e foi à janela, acendeu um cigarro e ouviu um ligeiro murmúrio das ondas a fugirem na vazante da maré. Uma nuvem tentava agora encobrir os raios de luz que lhe perturbaram o sono. Outra e mais outra, as nuvens surgiam ameaçadoras. E não sabia o que fazer. Se descer, como todos os dias à beira-rio e aparelhar o barco para mais um dia de pesca e de recados, se voltar para a cama onde se espalhavam os cabelos dela na alvura dos lençóis remendados que outrora foram de cambraia e de outros. Talvez de um príncipe. Ou de um ministro, sorriu. Iria fazer amor, de novo, sob a cobertura de cirros, estava decidido, e contemplou-lhe os lábios. Ao longe ecoava, agora, uma música celta (galega?). Vestiu a calça de sarja com elástico e as sandálias. Na porta do barraco que lhes servia de casa e arrecadação, de refeitório e de ninho de amor, abotoou os últimos botões da camisa. Veloz, chegou à margem do rio e sentou-se a ouvir o velho tocador da gaita-de-foles. Seria com certeza uma música galega. Lá longe, no barraco, ela espalhava os cabelos sobre os lençóis brancos.
Foto: PreDatado©2009

segunda-feira, julho 13, 2009

1458. Luares


Ele tinha, talvez, uns cinco anos, seis no máximo. Era o mais pequenito do grupo que pelas ruas e travessas escuras, como convêm, jogava as escondidas. Devo rectificar porque as ruas, nesse dia, não estariam assim tão escuras. A Lua-cheia tinha já dois dias passados mas o seu brilho ainda prateava as orelhas dos putos. Cabelo curto, esquivo por entre os carros, olhar inteligente. O pai que, entretanto, na esplanada tomava um whisky seguia-lhe os movimentos. O atravessar das ruas em correria desenfreada, mesmo em hora de escasso tráfego, não o deixava sossegado. As silhuetas ou as sombras longas de luar denunciavam-lhe os percursos. E quando de viés olhava o pai, denunciava-se-lhe a inquietude. O pai chamou-o, sentou-o na cadeira e manietou-o. Se continuasse, feito doido, a atravessar as ruas sem olhar para os lados ou a esconder-se fora do campo de observação dele, o pai, o vigilante, o protector, iria para casa. Por enquanto ficaria ali na cadeira. Para aprender!
Os outros detectaram-lhe a falta e indagaram-no:
- Estás de castigo?
- Não. Estou só a descansar. - Olhou para a assistência e respirou ofegante. Nós, discretamente, sorrimos. No céu, uma pequena nuvem cobriu a Lua. E fez-se sentir uma brisa.

Foto: PreDatado©2009

segunda-feira, julho 06, 2009

1457. Luso, brasileño, español, madeirense... se calhar é por isso (?)

Tirando os canais Panda e Disney que são mais dados a coisas de criancinhas e que parece estarem já nos preparativos para transmitir as festas funerárias do Michael Jackson e também o canal Odisseia que se presta muito a ficção (no momento em que fiz o zapping estava a dar o julgamento do caso Casa Pia), não há canal de TV que não esteja em paranóia Ronaldiana. Não se vê nem se ouve outra coisa que não seja falar de Cristiano Ronaldo. No entanto, se D. Nuno de Santa Maria não tivesse sido santificado e, portanto, impedido de se meter nestas andanças, seria de chamá-lo imediatamente para invadir a Espanha. Então é lá possível que o ÀS um jornal desportivo espanhol, tenha escrito na versão on-line (vide foto) um texto em que chama “astro brasileño” ao nosso madeirense? Será que o Alberto João anda a fazer coisas nas costas da gente, como vender o seu arquipélago às Canárias? Bom mas não era nada disto que eu queria falar. Era de uma coisa séria. Fiquei a saber por um desses 7896 canais que não param de falar no Ronaldo de que este cobra 150 milhões em contratos com a Nike, o BES, a Castrol, a Soccerade, a CR7 e outras. Cobra? E paga os impostos aonde? Não podem dizer à gente? É que o país que parece que está todo vergado e babadinho com o craque precisa, né?

domingo, julho 05, 2009

1456. Novas referências, ao domingo...

Talvez porque aos fins-de-semana fico com mais tempo livre para visitar os blogs dos outros vou descobrindo coisas bonitas que merecem referência. Por isso, o domingo acaba sendo o dia que mais dá jeito para fazer referência a este ou aquele local. Esta semana encontrei o blog do Alex que fala de plantas de interior. Se o Alex vier a tratar o blog com o mesmo carinho com que trata as plantas, vamos ter obra. Eu estou simultaneamente confiante e expectante. Força, Alexandre avança com isso.

Quem já tem trabalho avançado é a JET. Nos Olhares a sua galeria é um sítio por onde vale a pena passar e ficar. O trabalho não é só fotografia, o que de per si já seria suficiente para lhe chamar artista, mas a autora junta-lhe outras artes por cima. É melhor irem lá ver porque mais de 100 fotos falam muito mais do que 100 000 palavras. Entretanto a Paula Carvalho, é assim que se chama, tem um sítio num projecto de BJS. É um local colectivo com o Hélder e com a Silvana, a quem endereço também os meus parabéns. É aqui!

Imagem de JET retirada de uma das suas galerias em Olhares.