sábado, outubro 24, 2009

1502. Não fiquei chateado

Eu gostava de conseguir fazer-me entender pelas minhas amigas leitoras e pelos meus amigos leitores quando tento justificar ausências tão prolongadas da blogosfera e sei que nem sempre o consigo. Na realidade, quem vai fazer dentro de uma semana seis anos de escritos bloguísticos predatados deveria ter outras obrigações, sei lá, mais responsabilidade perante quem se sacrifica tanto, quem chega mesmo a trocar um dia de praia, umas horas no SPA, vá lá, uma sandes de presunto ou até mesmo dois rissóis de camarão para vir aqui ler O PreDatado e, nada. Mas hoje competia-me no mínimo dar esta satisfação pública. Eu não tenho vindo aqui escrever por outras razões e não, como já alguém insinuou, por ter ficado chateado por não ter sido convidado para ministro do novo governo. Não estou chateado por não ter sido convidado para ministro, repito, pronto! Não estou chateado, bolas! Até porque se o tivesse sido não teria aceitado. E perguntam-me nesta altura da leitura as minhas amigas leitoras e os meus amigos leitores porque é que não fiquei chateado assim tipo: Pre, Prezinho (isto eram as amigas), porque é que não ficaste chateado? E aí eu respondo, porque na semana passada casou a minha sobrinha Sara e eu comprei uma gravata nova para ir ao casamento dela, daqui a pouco está a casar a minha Anita e eu também já comprei uma gravata nova para ir ao casamento dela. E vós achais que eu sou rico, sou? Pareceria bem eu tomar posse como ministro de gravata nova, não é verdade? E eu ganho lá para isso, hein? É que nem com a venda dos porcos, das vacas cor-de-rosa e das pomegranate trees, da minha famville lá no facebook se consegue auferir para tanta gravata.

terça-feira, outubro 20, 2009

1501. Gravata verde

Eu não sei e, confesso, nunca investiguei porque é que quando alguém pensa que poderá passar por uma grande vergonha utiliza a expressão “eu pintaria a minha cara de preto se…”. É natural que esta frase tenha conotações racistas, é também natural que não tenha, alguém que estude as frases populares que mo diga, que eu agradeço. O saber não ocupa lugar, ou ocupa mas eu acho que ainda tenho uns Gb livres. Posto isto, quem me conhece seja ao vivo e a cores seja através deste blog sabe que eu poderia utilizar esta frase e / ou outras política e socialmente menos correctas, não veria em mim qualquer preconceito racial.

Perguntais vós, amigas e amigos leitores deste blog, porque é que o PreDatado vem com esta conversa toda sobre preconceito, sendo ele um Sir, como todos o sabem. Pois meus amigos eu vou fazer a segunda confissão do dia: eu, PreDatado, Pre para os amigos e Prezinho para as amigas (já para não referir Sir Pre nos casos em que noblesse oblige) sou de facto um preconceituoso. Por mariquices que só as mulheres (quero dizer, a minha, não generalizemos) sabem a razão, devo ir a condizer com qualquer coisa, não só quando levar a minha filha na presença do representante da Lei, no dia do seu casamento, mas também e principalmente quando, em plena cerimónia, estiver lado a lado com vestido cor de esperança com que a minha cara-metade se irá apresentar. E vai daí, ontem, comprei uma gravata verde. Não vomitei na altura porque sou mais ou menos de bom estômago, mas se algum correligionário do nosso Glorioso Sport Lisboa e Benfica me fizer alguma observação jocosa lá terei de pintar a minha cara de preto. Pelo sim pelo não, vou levar, no bolsinho do colete, uma pequena bisnaga de tinta.

Imagem tirada daqui

segunda-feira, outubro 19, 2009

1500. Help me ou como quem diz dêem-me aí uma mãozinha

Um gajo passa um fim-de-semana descansado, logo iniciado na sexta-feira à tarde e senta-se à espera que lhe saia o euro-milhões que, como é mais de 76 milhões de vezes improvável, obviamente não lhe vai sair e, descansadamente também, assiste no dia seguinte a uma goleada das antigas, do seu Benfica, numa Taça de Portugal a que chamam de festa do futebol, vendo cada golo do Glorioso entre umas amêijoas à Bolhão Pato, umas gambas ao natural e um berbigãozinho da Trafaria, um paio de porco preto daqueles com 60% de desconto imediato no jumbo e um camembert com vinho tinto e, claro, sempre descansado, fica a saber que não lhe saiu, mais uma vez lhe não saiu o prémio acumulado há montes de semanas do totoloto que já vai em 7 milhões de aérios que lhe davam cá um jeito do caraças. Mas não deixa de se ir deitar descansado mesmo assim hesitando se devia de pôr um filme no leitor de DVD, ao calhas, daqueles mais de trinta a que nem sequer lhe tirou o celofane e que, sendo do ano passado já parecem ter mais barbas do que o pai natal, ou se deve ir ao corpo dar descanso para mais um domingo descansado, do qual tirando ter de fazer o almoço mexicano de fajitas e tacos, fora as entradas, se limitará a semear abóboras, a colher arroz, a plantar morangos e framboesas num novo vício chamado farmville, não é que para quebrar todo este descanso vem de lá um trojan qualquer se instala na página inicial do facebook, o avast não o deixa meter o pé em ramo verde e lá fica um gajo amputado de um membro cibernético que é o seu facebookzinho onde ele não produz grande coisa mas se entretém a espreitar e a seguir sugestões dos seus friends. Mas o pior, o pior é que este tipo que aqui escreve já lançou uma data de SOS no twitter mas parece que os seus followers ainda estão todos a dormir. E esta excitação toda à roda de um Cavalo de Tróia fê-lo sair do seu merecido descanso. Agora só lhe faltava sair a Lotaria para a desgraça ser total.

sexta-feira, outubro 16, 2009

1499. É só para facilitar a malta


Eu sei que me aburguesei (já faz uns anitos) e que um dos sinais exteriores de aburguesamento é o facto de ter passado a correr a coxia montado nos cento e tal cavalos do meu semoventezinho a quatro rodas. De vez em quando dá-me uma recaída e desato a utilizar transportes públicos onde, rara a vez em que não acontece, vou sempre tendo uma ou duas surpresinhas que dão para contar. Esta que tive hoje, naturalmente que só para um ser mal habituado é que pode ser surpresa, foi o preço do bilhete de barco para a travessia do Tejo entre o Cais do Sodré e Cacilhas. Custa 0,81€, sim, oitenta e um cêntimos. Fiquei mesmo a pensar que aquele cêntimozinho ali metido, como não dá para facilitar os trocos deve ser para o pessoal ter onde gastar o troco da carcacita que custa 13 cêntimos. Assim as duas pretinhas de sobra, dão para o bilhete de ida e volta. Está tudo pensado neste país maravilhoso.

PS. A utilização dos diminutivos anitos, semoventezinho, surpresinhas, cêntimozinho, carcacita, pretinhas não foi propositada. Eu é que sou muito meiguinho. Outro.
PPS. Sempre que vou ao Cais do Sodré (e cada vez são menos vezes) não resisto a ir ao British Bar beber um Alto-Douro. Não sei como é feita a mistura mas fresquinho sabe tão bem. Nostalgias.

Foto de jmcrosa encontrada aqui

terça-feira, outubro 13, 2009

1498. Trocas

Bem sei que não escrevo neste blog há uma data de dias e que para escrever isto mais valia estar quieto. Mas depois de ter estado mais de duas horas a ouvir um patético debate com 3 directores dos mais prestigiados jornais nacionais e um director de uma rádio especializada em jornalismo, onde não só não se esclareceu nada sobre os temas em debate como ainda mais me (nos?) deixou baralhado(s) e que terminou com a uma ainda mais patética acusação (sim acusação!), à laia de remate, do director do Expresso ao director do DN de que este teria sido jornalista desportivo (?????) acabo a noite a rir a gosto. E porquê?

Porque acabei de ler uma notícia, para mim benfiquista, saudavelmente fanático – o saudavelmente é da minha autoria e esperando que o director da blogosfera não me ache indigno de escrever num blog só porque eu gosto de desporto – que me deixou muito alegre. Então não é que José Eduardo Bettencourt vai apresentar hoje, no final da tarde, onze novos sócios do Sporting, entre eles o atleta Marco Fortes, campeão nacional do lançamento do peso, atleta este que hoje acabou de assinar contrato com o rival Sport Lisboa e Benfica? E não dá vontade de rir à gargalhada?

quarta-feira, outubro 07, 2009

1497. Tiros para o ar

- Que cara é essa? – Perguntei-lhe, pois não o costumo ver assim logo pela manhã.

- Não sei a que te referes… diferente de ontem? – Perguntou-me como se me respondesse.

- Não estás acostumado a que te interroguem, é o que é – disse-lhe eu tentando perceber o seu rosto estupefacto; definitivamente ele não estava a compreender nada.

- Olha lá – força de expressão, pensei, pois eu sempre estive a olhar – acordaste hoje com vontade de me chatear? É alguma vingança? – Voltou a interrogar-me.

(Abro aqui um parêntesis para vos relembrar que de facto é sempre ele que costuma fazer as perguntas ou, quando não, a atirar a primeira frase).

- Bom, eu vou directo ao assunto. Pareces um urso. Além dessa barba vergonhosa tens os cabelinhos todos em pé. – Agora sim, ele perdeu na antecipação. Quem me deveria estar a acusar era ele e não eu. Mas estou cansado de que em noites mal dormidas ou de estranhas condições seja eu o encostado à parede.

(deu uma gargalhada sonora e reflexiva de tal forma que o acompanhei na risota)

- Foi o vento caramba! Deves ter dormido que nem uma pedra, rapaz, não deste por nada e agora vens-me acusar de eu estar com os cabelinhos todos eriçados. – E dito isto o meu espelho tremeu, bateu ligeiramente contra a parede e por milagre não se fez em fanicos diante dos meus olhos.

(eu corri a fechar a janela).

Foto PreDatado©2009 – Vento

sexta-feira, outubro 02, 2009

1496. Olhares

O barracão pintado de castanho-escuro, feio por sinal, é o clube. Afixados os avisos, fiquei a saber que se podem tomar os pequenos-almoços ao Domingo e que em breve haverá assembleia extraordinária. Numa mesa da esplanada dois homens jogam dominó. Infeliz aquele que em três mãos consecutivas consegue tirar cinco doblas. O outro usa chapéu e tem um cigarro no canto da boca. A moça do carrinho de bebé ainda está bronzeada. Desempregada, acabou por aproveitar os últimos raios de sol de um Verão quente. A que a acompanha, também desempregada, vai fazer uma plástica às mamas e o puto é a cara chapada do pai. Isto, ouvi dizer porque o pai não estava lá. Um casal, de provável mais baixa condição chega, toma a bica e vai. Cada um que chega se cumprimenta pelo que todos conhecem todos. O homem do casal de mais baixa condição é cumprimentado por todos e acabou por ganhar um biscate de pintura. Já ganhou mais do que o das cinco doblas. O gordo tem piada e o que lê o jornal levanta os olhos e ri-se cada vez que o gordo fala. O que vê a partida de dominó toma um whisky Cutty Sark com 2 pedras de gelo preenchido com uma garrafa de Água das Pedras. Vai durar-lhe quase toda a tarde. O gordo vê o canal Entretainment e conhece a vida dos famosos de Hollywood. Continua a dizer piadas e os outros riem. A que chegou também quer fazer uma plástica às mamas. Beijam-se todos e cumprimentam-se todos mas há beijares que trazem água no bico. O da t-shirt fashion sabe-a toda e fica atento. Olha para a que tem aparelho nos dentes e de vez em quando segreda-lhe qualquer coisa. O que esteve internado, está melhor e já toma o lanche no clube. Usa blusa Lacoste que não parece ser de contrafacção. O do rabicho apanhado à Manolete (será que ele sabe quem foi, Manolete?) veste um fato cinza, de corte moderno. Aliás, os próprios sapatos são daqueles que lhe fazem um pé maior do que o do Cristiano Ronaldo. Pode ser um executivo, mas pode ser o gerente de uma loja âncora no Shopping. Bebe uma cerveja Super Bock e senta-se numa cadeira, isolado dos outros. Observa a roda de assistentes que se formou no jogo do dominó. O gordo continua a dizer piadas e até sabe o custo das viagens às clínicas de estética do Brasil. O outro arreou o Correio da manhã. Eu terminei a água do Luso e fui.

Infelizmente não sei o nome do autor da imagem que encontrei na net. I’m sorry. Nenhuma das marcas ou nomes referidos pagou pela publicidade. Mas já era tempo, hein?

domingo, setembro 27, 2009

1495. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - X

Ponto Final. O PS ganhou inequivocamente as eleições e o único partido que perdeu foi o PSD. Não pelo número de votos ou percentagem (não era difícil fazer melhor do que Santana Lopes) mas pela campanha cretina que fez. O partido em que eu votei cumpriu, tendo mais que duplicado a sua representação parlamentar, o que me deixa confortável. No entanto quero vos dizer que o entusiasmo no País, por estes resultados, não é assim por aí além. Quando o meu Benfica ganhou o campeonato, há 4 anos atrás, a festa foi muito maior.

1494. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - IX

Ainda não sabemos os resultados finais mas até agora, embora não dê para champanhe, dá pelo menos para um whisky. Quando acabar eu venho fechar isto.

1493. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - VIII

Bom, agora que já se sabe o valor da abstenção e uma vez que só falta meia hora para se saberem as projecções finais dos resultados eleitorais, eu vou explicar o resto. Primeiro, cozi os ovos de codorniz e já lhes tirei a casca. Depois, piquei finamente as ervas. Cá em casa havia salsa, coentro, alho francês e cebolinho. Pois sim, foram as que utilizei, e cozinhei-as em margarina vegetal. Depois de cozidas juntei natas e, voilá, os ovinhos dentro e tudo dentro (de novo) do frigorífico para irem para a mesa mais fresquinhos.

Uma vez que os camarões foram cozinhados há algumas horas antes e já estão na temperatura ideal, vão ornamentar a travessa.

Está tudo preparaducho (os alhos, o piri-piri, o azeite e os coentros) para as amêijoas à Bolhão Pato (a Anita prefere amêijoas com esparguete à moda de Olhão, mas gostos não se discutem).

O vinho é Alvarinho. Uma vez que não tive tempo ($$$) para comprar Palácio da Brejoeira, vai mesmo Deu-la-Deu que é muito jeitosinho.

As uvas, de sobremesa, são moscatéis. E também há queijo de Idanha-a-Nova. São servidos?

Bom apetite e vamos todos torcer para que os nosso partidos tenham bons resultados. Eu por mim acho que o Benfica vai ganhar a Atenas na 5ª feira. É cá uma fé.

1492. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - VII

Aaaaahhhhh!, é verdade, vou cozer os ovos de codorniz. Já volto.

1491. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - VI

O doce está pronto e, dizem cá em casa, delicioso. Ontem fizemos um jogo de prognósticos. Ele era o pêésse com tantos, o pêpêdê não sei quê, a cdu talvez, o portas não sei quantos e o bloco de esquerda coiso e tal. Eu sempre disse que o Benfica ia dar cinco e não me enganei.

(Às vezes ponho-me a pensar porque é que as eleições, vá lá pelo menos o dia de fazer doces não é às terças-feiras)

Sentas-te me ao colo e eu te afago

Os castanhos cabelos, cor de mel,

E beijas-me a boca doce, és o meu lago

Onde navega lento o meu batel.

E nesta viagem de doce calmaria,

Numa tarde de açúcares e vapores:

Embriago-me em teus supremo-odores

E amar-te é mais doença que mania.

E se um dia o destino nos desunir

(numa atitude que adjectivo, ordinária)

Não te esqueças que na hora de partir

Há lugar pró meu livro de culinária.

1490. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - V

Acabei de chegar da Assembleia de Voto. Papelinho na urna, missão cumprida. O dia está quente e a tarde ainda mais. Regressei a casa, pus-me à vontade e, já na casa de banho depois de umas chapadas de água no rosto ouvi uma voz:

- Cara feliz hein?
- A quem o dizes.
- Acabaste de fazer amor não?
- Hein? Não te estou a perceber.
- Não te faças de novas. Estás mesmo com aquela carinha de quando a coisa te corre bem...

Vê-se mesmo que este meu espelho nunca votou.

1489. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - IV

Eu sei que é chato vir aqui em dia de eleições escrever um Lunch Time Blog. No entanto, não posso perder a oportunidade de vos dizer que quando convidei o Schubert para ir connosco ao restaurante, ele me respondeu que não trocava um dos seus pratos de ração por uma dourada de aquacultura a saber a soja. Olha quem fala!

1488. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - III

A minha cunhada trouxe-nos bué de abóbora. Mais logo, ao som da informação sobre a afluência às urnas, vou fazer doce. Fui ao supermercado comprar nozes mas aquilo estava cheio que nem um ovo. Fiquei aqui a pensar se hoje será dia de todos fazerem doce de abóbora com nozes.

1487. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - II

Resolvi fazer a barba. Assim vou mais limpinho votar e nem pareço um perigoso esquerdista nem um Rão Kyao ou Dr. House com a barba de três dias. Pesei-me e continuo tão gordo como ontem. Já tomei café e a Igreja Evangélica que fica mesmo por debaixo do meu prédio (não vos tinha dito que tinha aberto mais uma, mas já são 5 na minha rua) já iniciou os cânticos. Desta vez não me acordaram. Bem feito!

1486. As minhas eleições, minuto a minuto (ou quase) - I

Acabei de me levantar e já lavei os dentes. Não sei se faça a barba ou não.

quinta-feira, setembro 24, 2009

1485. On the rocks

Entrei no quarto e vi-a com aquele sorriso lindo que me fazia sempre quando eu chegava. Bem sei que naquele dia regressei um pouco mais tarde mas, de facto, tive um dia muito agitado. Tão diferente e tão estranho que, ao contrário do que era habitual, resolvi relatá-lo, enquanto me despia. Tirei primeiro os sapatos e arrumei-os como habitualmente. As rotinas estão-me no corpo. Depois abri o botão da camisa, junto ao pescoço e saí para preparar um whisky. Se ela não estivesse deitada era ela quem mo prepararia. Gostava de ganhar um beijo de lábios frios de gelo, doce e prolongado, derretendo o cubo, num abraço apertado e terno. Depois pendurei o casaco nas costas da cadeira do quarto. Normalmente é ela que o pendura enquanto eu a aperto por detrás, dificultando-lhe a tarefa e ela me olha com um olhar cúmplice por cima do ombro ao mesmo tempo que dou uma gargalhada e desaperto o nó da gravata. Continuei a contar-lhe o meu dia, mas ela nada me respondia. Com aquele sorriso não poderia estar amuada com certeza. Estaria no mínimo a ser sarcástica, mas não era esse o tipo de expressão que fazia. Tirei as calças, foi à casa de banho e molhei abundantemente o rosto. Lembrei-me, entretanto de lhe dizer que encontrei esta manhã a descer no elevador, o António, o filho da D. Gina de quem ela gosta tanto e lhe oferece rebuçados e cromos. Tirei a gravata e arremessei a camisa para o cesto da roupa. Bebi de um gole o resto do whisky, bochechei e gargarejei com o eterno elixir de menta e enfiei-me nos lençóis. Já nem lhe iria falar do almoço que tive com o Dr. Gregório quando um estranho arrepio me percorreu o corpo. Toquei-lhe de novo. Não havia dúvidas, estava gelada. Olhei-lhe o rosto e apercebi-me de que estava morta. E no entanto continuava a sorrir-me.

Foto de David Le Beck via Imagens

sábado, setembro 19, 2009

1484. Lunch Time Blog

Não me pareceria descabido se hoje vos viesse falar da óptima feijoada de choco de com camarão, que comi no café da minha sobrinha Sofia e do arroz doce feito pela minha cunhada. No entanto, e embora o repasto estivesse de estalos, não é exactamente isso que me leva a fazer este post. Há quem ocupe o tempo de almoço a comer e há quem, de vez em quando, tire uns minutos ao dito cujo para tratar de alguns assuntos pessoais. Vejam bem que o meu filho pensou, ontem, em ir renovar a carta de condução. E se o pensou assim o fez. Teve de calcorrear 3 locais diferentes da cidade, usou os transportes públicos e para obter a carta de condução, de permeio, teve ainda uma consulta de optometria para certificar da sua capacidade em termos de visão. Isto tudo demorou-lhe cerca de uma hora e meia que incluiu também a burocracia e a execução física da carta. Ainda assim esteve cerca de 5 minutos à espera da entrega da dita. SIMPLEX!!! Pois, mas isto foi na Suiça, em Lausanne e não propriamente aqui. Aqui seria cerca de dois anos, perdão dois meses, também não exageremos.

PS. O Schubert, hoje na brincadeira com a dona deu-lhe uma dentada. Ficou de castigo e não foi connosco aos chocos. Ficou a ração e é bem feito!

Foto retirada daqui do blog saboroso

sexta-feira, setembro 18, 2009

1483. Escadas


Fetiche, prazer, ilusão, vertigem. E quanto mais altas mais atractivas. Era o abismo? Era o desejo? Chegou a fazer amor nas escadinhas da Madalena, no último degrau, numa noite de Verão sem brisa, pelas quatro da manhã. E também no escadote lá de casa enquanto trocava as roupas de primavera/verão com as da estação anterior. Na praia, nas escadinha de acesso ao areal, quando o sol se acaba de pôr e os últimos veraneantes do dia ainda restam na paragem do autocarro. E os seus olhos riam, não sei se depravação ou cumplicidade quando me contou que fez amor com um peregrino nas escadarias do Bom Jesus. Fui visitá-la à clínica psiquiátrica onde foi internada e levar-lhe algumas fotos de escadarias, que recolhi aqui e além, depois de ter sido apanhada em flagrante a fazer amor com um bombeiro no alto de uma escada Magirus.

Foto PreDatado©, 2008