sexta-feira, dezembro 03, 2010

1562. Fumos

Tirou o último cigarro do maço e deve ter exclamado, bolas. Provavelmente por não ter mais cigarros ou, talvez, zangado com ele próprio por estar já a esvaziar o segundo maço do dia. Mas era noite e não tinha onde comprar mais. Iria fumar apenas metade e deixar o resto para quando lhe fizesse mais falta. De resto o livro estava à beira do fim, este seria um best-seller, ele já o imaginava nos escaparates com o um dístico redondo com o número 1. Foram mais de dois meses de escrita e de algumas pesquisas, poucas porque, a verdade seja dita, era rapaz de muita cultura e, se a uma personagem lhe queria dar um corpo de um Modigliani ele sabia exactamente como o descrever ou se outro tocava trombone então era um potencial Glenn Miller. Para não falar que era quase formado em botânica. Daria umas boas 350 páginas em Sabon/12 A5, a editora iria ficar satisfeita. A Rosália sorriu, um pobre e desmaiado sorriso quando a imagem de Jaime lhe veio à memória. E de tantos anos de mágoa apenas uma a fustigava naquele momento. Nunca ter dormido em lençois de linho. Levantou-se e foi espevitar o lume que, àquela hora, já morria na lareira. Ponto final, estava pronto. Retirou a folha da máquina, ajeitou a resma e foi para a janela olhar a estrelas. Deu duas baforadas na outra metade do cigarro.

Foto e texto PreDatado 2010

quarta-feira, dezembro 01, 2010

1561. Ciúme






Por razões editoriais o poema foi retirado do blog e figurará na coletânea Palavras Nossas, Esfera do Caos, a editar em Novembro de 2012.
Vítor Fernandes (aka PreDatado)


segunda-feira, novembro 29, 2010

1560. Como eu gostaria de ser poeta

Ritmo e som. Ah sim, ritmo e som. Sobe Luísa, Luísa sobe, sobe que sobe sobe a calçada. Ritmo e som. Teu nome antes mesmo do caderno teu nome na negra lousa eu escrevi eu o escrevi e apaguei e se perdeu e renasceu. Ritmo e som, sonoridade e fonética, alma e coração, faísca que se acende ou água que se espelha entre os corpos. Ai Gedeão, Ai Alegre, ai Urbano, ai Pessoa como eu gostaria de ter este ritmo, como eu gostaria de acender a faísca, como simularia a dor que deveras sinto, como eu subiria a calçada. E escreveria, por toda a parte eu escreveria o nome dela.

Foto e texto PreDatado 2010

sexta-feira, novembro 26, 2010

1559. Outonos

Era matemático! Àquela hora, lá estava ele, de livro debaixo do braço, sobretudo e chapéu se fosse inverno, mangas de camisa, usava sempre camisas de manga comprida e boné, pois claro, se fosse verão. Conheciam-no como o homém dos mil chapéus. Era coisa que não dispensava fosse por moda, por cultura ou por habituação. E também não falhava nenhum dia da semana, a sua chegada era pontual. De um rigor matemático. Tinha até um chapéu especial para os domingos, não lhe sei dizer o nome mas era assim a modos como que uma cartola. A garotada gostava de se sentar ao lado dele e disfrutar dos caramelos espanhois que sempre trazia no bolso. A senhora que passava a empurrar o carrinho de bebé (devem ter sido muitas, pois uma delas lembro-me de a ter visto, mais tarde, passar com o pequenote pela mão e, mais tarde ainda, ter visto o garoto aos pontapés numa bola e, se a memória me não falha, vi-o mesmo passar com a sacola da escola), em troca de um sorriso recebia uma vénia de chapéu na mão e de corpo, alguns anos depois, já curvado. A moça do vestido às flores sentava-se ao lado dele e passavam largos minutos a conversarem. Não eram poucas as vezes em que se ouviam sonoras gargalhadas. A moça deixou de vestir vestidos com flores e os cabelos começaram a ficar mais curtos mas, ainda assim, se sentava ao lado do velho fazendo reluzir uma aliança de ouro. Já não soltava tão grandes gargalhadas mas ainda se ouvia rir. Os miúdos cresceram, não lhe pediam mais rebuçados. Àquela hora, todos os dias, o homem dos mil chapéus, o último que se lhe viu era um chapéu de coco que não lhe assentava particularmente bem com a gabardinha beje, chegava com um livro na mão e sentava-ve à espera de alguém a quem tirar o chapéu. Quando deixou de apararecer soube-se que todos os dias, rigorosamente à mesma hora, recebia sobre a campa uma flor. Flores de mil cores, como os seus mil chapéus chegavam-lhe à mesma hora. Era matemático.

Foto e texto PreDatado 2010

quarta-feira, novembro 24, 2010

1558. Introspecção



Coloco os auscultadores nos ouvidos. Hoje não estou cá. Estou longe de tudo e de todos mas pior do que isso sou eu que quero estar longe de tudo e de todos. Tenho dias assim, quero ficar comigo só, mas não é mau, não é mau ficarmos só conosco nem que seja por umas horas, por uns minutos, por ligeiros momentos. Nestes momentos passam-nos tantos anos pela cabeça, passam-nos tantos minutos pela cabeça, passam-nos até alguns instantes pela cabeça. Um encontrão aqui, outro ali e, de repente, abro os olhos entretanto semi-cerrados e fico a pensar que um valium me ajudará a passar esta pancada. E depois digo eih meu, vai dar uma voltinha, vai. Retiro os ascultadores dos ouvidos e desligo o Lou Reed da minha cabeça.

Foto e texto PreDatado 2010

segunda-feira, novembro 22, 2010

1557. Doces e outras iguarias

Hoje foi dia de saborear. Bem sei que te empenhaste, puseste tudo o que é teu de sabedoria culinária só para me agradares e eu fico feliz quando estás com a colher de pau em riste e com um sorriso nos lábios. Sei que algo de muito delicioso me vai ser presenteado, sei que os sabores dos nosso avós, mesmo se já não nos lembramos deles, nos vão ser servidos à mesa. Sabes como sou bom de mesa, um bom garfo como me costumas dizer. Tiveste até o cuidado de ires à minha garrafeira particular e escolher o vinho, Não é que sejas uma enófila nata mas, provavelmente, porque confias na minha garrafeira particular. Mas sabes também que eu, por mais maravilhosos que sejam os teus cozinhados, por mais cheirosos que sejam os teus temperos e por mais subtileza que tenhas em escolher um dos meus tintos preferidos só fico feliz quando te tenho por sobremesa. Tu, sim, és a minha verdadeira mousse de chocolate.

Foto e texto PreDatado 2010

sábado, novembro 20, 2010

1556. Estados de alma

Estou alegre hoje. Quando estou alegre gosto de escrever. Mas tenho de ter cuidado pois se começo para aqui a debitar frases atrás de frases ou nunca mais paro ou quem me veja escrever acha que estou numa de digito-suicidio. Por isso vou-me conter, vou dar uma sonora gargalhada, vou tomar um abafadinho, vou ver um desenho animado do bip-bip e do coyote, vou ler um bocadinho do Mário Zambujal, vou ouvir cantar uma desgarrada brejeira, depois vejo um tube (ou dois) dos Monty Phyton. Saio para a varanda, respiro uma lufada deste ar fresco que o outono manda e dou, sim dou, ofereço, partilho, sem querer nada em troca, uma sonora gargalhada.

Foto e texto PreDatado 2010

sexta-feira, novembro 19, 2010

1555. A minha cimeira

Um a um fui-os alinhando à minha frente. Fiz um risco no chão, o mais direito que fui capaz com a ponta de uma cana apanhada ali mesmo, no valado. Depois joguei fora a cana (não me lembro bem desta parte, se a joguei fora ou se a pus de lado). Continuei a alinhá-los, todos da mesma cor, camisa azul e calça cinzenta. Peguei na cana de novo (já sei, não a tinha jogado fora pois voltei a usá-la) e fiz um risco em frente ao outro. Mais tarde aprendi que se chamava paralelo. E alinhei os outros. As camisas eram vermelhas, tinham umas correias cruzadas em diagonal, brancas, sobre as camisas vermelhas. Alinhei-os em frente aos azuis. Todos tinham uma arma, alguns em riste, outros alinhada paralelamente, cá está, paralelamente, ao corpo. Mentira, não eram todos, um deles tinha um tamborzinho e outro, com umas bochechas gordas, tocava uma corneta. Atrás de cada fila alinhei os que montavam a cavalo. Também tinha cavaleiros com camisas vermelhas e outros com camisas azuis. Só que os que andavam a cavalo tinham espadas, não eram como os que andavam a pé. Da outra caixa tirei os canhões. Eram quatro e pu-los em cada uma das pontas das filas da frente. Não sei se eram aqueles os lugares deles mas também não me importei. Deixei ali mesmo os soldadinhos de chumbo e fui jogar à bola. Não gosto de guerra.

Foto e texto PreDatado 2010

quinta-feira, novembro 18, 2010

1554. Outono






Por razões editoriais o poema foi retirado do blog e figurará na coletânea Palavras Nossas, Esfera do Caos, a editar em Novembro de 2012.
Vítor Fernandes (aka PreDatado)

quarta-feira, novembro 17, 2010

1553. Propriedade

Pediste-me para te fazer um poema e eu respondi-te que não se faz um poema sem acreditar no que o Eugéneo disse uma vez. A mão certeira, a intimidade, o coração. Pareceu-me, quando me viraste as costas, ter visto uma lágrima correr no teu rosto. Não te menti apenas acho que não me entendeste. Não posso escrever um poema se não estou certo que o que escrevo é o que é quero escrever, se a mão me treme. Não posso escrever se não te vejo cúmplice dele, se não és a terra que a água precisa de regar e muito menos se não és o coração em que me empenho. Os meus poemas são propriedade privada e ela sabe-o.

Foto e texto PreDatado 2010

terça-feira, novembro 16, 2010

1552. Vagueando nos teus sonhos

Sorris, vejo-te sorrir e tu nem imaginas que te estou a ver sorrir. Ou talvez imagines pois, mesmo sem esperar que nos vigiam, ficamos de alerta. E tu mais do que eu. És mulher, dizem que tens um sexto sentido. E sorris. Gosto de te ver sorrir. E eu sorrio também. E sem sairmos deste poema de sorrisos, viras-me as costas e eu abraço-te. Oiço-te murmurar mas não quero perturbar-te o sono. Nem o sonho. Continua a sorrir.

Texto e Foto de PreDatado - 2010

segunda-feira, novembro 15, 2010

1551. Liberdades


Sobre a almofada, entre o sono e o madrugar oiço uma música de fundo que me perturba e que ao mesmo tempo me comove. Sons de outros tempos e de outros lugares e sons que me soam tão actuais. Quero ficar assim no limbo apesar do sol teimar em invadir-me pela frincha da janela. Os partigiani estão lá longe, e as pálpebras essas continuam teimosamente a não se querer abrir. Não, não há invasores é só o Sol. Bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Cobri o rosto com os rubros lençois de cambraia. E abracei-te como se fosses a minha bandiera rossa, a minha liberdade.

Foto e Texto PreDatado 2010

sábado, novembro 13, 2010

1550. Nú

E ali estava eu, nu, sem muito bem saber o que fazer, sem muito bem saber se ir se ficar. Mas é assim que eu gosto de estar, despido de obrigações e à margem dos mandamentos da vida e da sociedade. Sozinho com os meus pensamentos e nem com os botões para partilhar. E ali sim, monto no cavalo da fantasia, o meu pégaso mais-que-tgv e deixo o pensamento tomar as rédeas da liberdade. Não sei se divago se me afago em deliciosos momentos. Que são meus.

Foto e texto de Vítor Fernandes a.k.a. PreDatado

quarta-feira, novembro 10, 2010

1549. Viagem dos Sentidos









Por razões editoriais o poema foi retirado do blog e figurará na coletânea Palavras Nossas, Esfera do Caos, a editar em Novembro de 2012.
Vítor Fernandes (aka PreDatado)

sexta-feira, novembro 05, 2010

1548. Este país não é para quem?

Era uma festa. Contavam-se quase os dias e os minutos, anunciava-se antes, avisavam-se os amigos. Preparava-se a data com um texto, uma foto, um poema. Tudo era especial nesse dia. O blog fazia anos, xiribitátátá, urra, urra, urra. Foi assim durante vários anos em muitos blogs, alguns chamados de culto e outros de gente famosa e de intervenção pública mediática. Foi assim também neste modesto blog e noutros blogs que se quiseram projectar como simples e modestos mas que, tinham ou têm por detrás gente de elevada estatura intelectual, moral e sobretudo humana alguns dos quais, autores, me concerderam o previlégio de vir a ser seu amigo. Escrevo isto porque se foi questionando sempre, ao longo da já mediana vida da blogosfera, para que serve um blog. E entre as mais vastas discussões de todos os carizes o blog, não digo que por unanimidade mas até imagino que alguns dos que não o faziam tinham uma pontinha de ciúme, dizia eu, o blog servia também para festejar o seu próprio aniversário. Com muitos parabéns a você e muitos beijinhos nas caixas de comentários. Bem sei que já não tenho 150 leitores diários, mas pelo menos os 10 que religiosamente vêm cá espreitar se tenho novidades, teriam merecido que eu fizesse referência ao 7º aniversário do PreDatado. Foi no passado dia 29 e mando eu agora ósculos e amplexos para todas e todos vós amigas e amigos leitores.

Mas afinal para que serve um blog, principalmente um blog como este que não é actualizado mais do que uma ou duas vezes por mês, deixou de contar piadas, de publicar as fotografias que o seu autor tira pror aqui e ali, que há quase um ano não publica um poema inédito do prezinho (ainda se lembram que eu sou o prezinho, não lembram?), que não fala mal do Sócrates, que não festejas vitórias ou chora as derrotas do seu Benfica, que não emite opinião político-financeira sobre os mercados, que não deixa aqui receitas das belas comezainas que se entretem a fazer ou a inventar na cozinha, que não conta as peripécias do gato Schubert, que não escreve episódios de contos com palavras que até o Aurélio lhe custa enunciar, que deixou mesmo de ser bispo da sua própria igreja?

Eu não sei a resposta completa a tão vasta pergunta e, mesmo que a soubesse, seria complicado detalhar tin-tin por tin-tin. Mas uma coisa é certa e essa eu sei. Seve para dizer que escrevi um e-mail à EDP na passada segunda feira e ainda não recebi resposta. Este país está na mesma e portanto... o blog ressente-se.


Foto: PreDatado, tirada no Pulo do Lobo

quinta-feira, outubro 21, 2010

1547. Egas Moniz

No próximo mês de Novembro terá lugar uma greve geral que se prevê venha a ter uma adesão nunca vista neste canto da Europa. O IVA subiu para 23% e o leite enriquecido com cálcio passou a ser considerado um produto dispensável passando, por isso, dos antigos 6% de IVA para 23% (pelo menos, quem tem osteoporose pode gabar-se de ter uma doença de luxo). Nunca a palavra responsabilidade foi tão bastas vezes dita e redita pelos nossos políticos. Por acaso eu acho uma patetice e diria mais que isso, um logro. Não acredito que nenhum deles alguma vez coloque a corda no pescoço como o fez o velho Egas Moniz, para pagar os erros de governação. Isso sim seria assumir as responsabilidades e o resto é treta. Os salários dos funcionários públicos vão ser cortados em valores que chegam a atingir os 10%, numa medida inédita e que, dizem os economistas sérios, terá graves consequências na nossa economia, enquanto qualquer secretariozeco de estado se passeia em automóvel topo de gama. Estão todos muito empenhados em salvar Portugal, destruindo os portugueses. Provavelmente transformar isto num baldio que não serve para nada. Portugal não é um conceito, Portugal são os portugueses.

Quero eu dizer na minha que com tudo isto e mais algumas coisas o futebol não é tudo na vida, nem tão pouco o mais importante. Mas o Benfica é o meu clube e eu tenho também o direito de saber o que se passa por aquelas bandas. Apenas saíram dois jogadores da época passada e a equipa desmoronou-se. E não é só por culpa dos olegários benquerenças. Ontem em Lyon, como antes em Gelsenkirchen e em mais outra mão cheia de estádios não se encontram o Javi, o Maxi, o David Luiz, o Saviola, o Cardozo que brilhavam no ano passado, nem os novos Jara ou Sálvio parecem ter estofo para se aguentar à bronca, para já não falar nos sempre lesionados Fábio Faria e Ruben Amorim. Nem, tão pouco, já Jesus salta no banco. Está na hora do presidente do Benfica começar a olhar para o futebol tout court e deixar os pintos da costa em paz. É que a nós benfiquistas, apesar da crise, apesar dos sócrates e dos teixeiras dos santos do nosso descontentamento, ainda gostamos de ganhar. E se este estado de coisas continua, senhor presidente, alguém lhe vai pedir, também, as suas responsabilidades, quem sabe exigindo-lhe que se comporte como o velhinho Egas Moniz.

domingo, outubro 03, 2010

1546. Como é que se faz para explicar a um tipo que a PIDE já acabou?

De repente, na net e sem darmos por isso arranjamos um inimigo de estimação. Estava eu muito descansadinho no Facebook, que tenho ultimamente como passatempo, quando achando engraçada uma foto que alguém na minha lista de “amigos” lá colocou, a comentei com todo o prazer. Eis senão quando, passados alguns minutos, sob a mesma foto existia um comentário, entretanto apagado pelo autor da foto, que dizia mais ou menos assim (cito de cor) “mais uma vez tive de apagar um comentário de uma pessoa que é cúmplice de uma mentira a qual eu estou farto de denunciar, bla bla bla,” e cocluia no comentário que eu o teria desmentido. Ora o comentário apagado na foto do gato e da garrafa de vinho era o meu. Entrei depois em diálogo com esse “amigo”, em primeiro lugar para saber de que página eu era cúmplice e em segundo afirmando-lhe que fosse qual fosse o assunto eu, que apenas o conhecia da blogosfera, não me sentia com autoridade para desmenti-lo publicamente.

Sem mais delongas vou concluir. O senhor Vitorino censura-me porque eu aderi (na altura da adesão, convictamente) a uma página que apelava ao não pagamento pela utilização do Facebook. Depois dos desmentidos sucessivos no próprio Facebook feitos pelo senhor Vitorino (a quem eu deveria, publicamente, dar créditos ou elogiar) como eu não anulei a adesão á respectiva página tornei-me um proscrito e alvo de censura. Felizmente que o senhor Vitorino não é coronel de lápis azul, nem governante, nem agente da autoridade. Tenho em crer que se o fosse, provavelmente mandar-me-ia prender. Ou então talvez eu tivesse tempo de me exilar, sem, claro está, poder levar comigo o meu notebook, o FB e a tal página a que estou coladinho com uma grude que não se desfaz nem com a prosápia do senhor Vitorino. Sabe o que eu tenho para lhe dizer? Passe muito bem senhor Vitorino e olhe que a PIDE já foi fechada há mais de 30 anos e que o muro de Berlim também já caiu. Ou não deu por isso?

PS. Aqui poderá comentar à vontade que pode ter a certeza, seja qual for conteúdo, não será censurado. Mas acredito que apesar de tudo seja elevado..

quarta-feira, setembro 15, 2010

1545. Um post com setes

Já lá vai o tempo em que eu fazia um passeio à arrentela, via um caniche a fazer o pino, tirava meia dúzia de fotografias à beira da baía do seixal e ao caniche também, chegava a casa, dava-me um “vaipe” e escrevia um tratado sobre pinos de caniches, um livro de visitas guiadas às ruas da arrentela e ainda elaborava um álbum de fotografias do rio Tejo com caniches e vinha a correr para o blog publicar isto tudo. Ora agora que há matéria para escrever à fartazana tipo, começaram as aulas para crianças que têm a escola primária mais próxima a 30 kms de distância, que o Benfica tem andado escandalosamente a ser roubado pelos árbitros, que o governo aumentou em cinquenta cêntimos o apoio social para manuais escolares, que já estamos bem lançados em setembro e apesar disso a temperatura do ar ainda se manda acima dos 35 graus, que comemorei o meu trigésimo aniversário de casamento no passado dia sete do corrente (corrente não, reserva ou garrafeira que fica mais a condizer), tinha eu tantos motivos para escrever, sei lá coisas como termos novas sete maravilhas naturais ainda não totalmente destruídas pelos incêndios, que já tivemos o orçamento com um queijo limiano saído da cartola e que agora vamos ter o orçamento com passos de magia ou seja passos de coelho sem cartola, isto é, troco um orçamento por uma razão legalmente atendível, ou se a inspiração fosse escassa podia até escrever sobre o despedimento do carlos queiroz ou da sentença casa pia, tanta coisa, tanta coisa e eu aqui paradinho, num blog que até me dá vergonha de dizer que falta pouco mais de mês e meio para fazer sete anos de existência, uma das sete maravilhas da blogosferas, digo eu, tal tem sido o desprezo a que, coitadinho, tem sido votado.

Pois hoje teria uma matéria muito mais interessante que, como já referi, daria para fazer um livro de visitas guiadas, não é que não existam outros mas este seria à moda do PreDatado assim tipo um musical da Broadway mas com cantores convidados porque o Pre não sabe cantar. Na realidade o Pre não foi à arrentela, desviou-se um bocadinho e esteve a passar uns sete maravilhosos dias de férias em nova Iorque, mas anda com tão pouca vontade de escrever ou então com falta de imaginação que para compensar os seus amigos leitores e as suas não menos amigas leitoras, que estão sempre ávidos e ávidas de novidades de tal modo que ainda aqui vêm uns sete visitantes por dia, para compensar dizia eu e não me alongo mais para não maçar as leitoras e as leitoras ficam aqui umas fotozitas. E bye bye que eu agora falo muito bem americano.

segunda-feira, agosto 23, 2010

1544. Remexendo no baú



Ninguém é perfeito, tenho a certeza que será o comentário, quiçá paternalista de muitos vós amigos leitores, quiçá de afecto com que vós costumais me brindar, queridas e amigas leitoras. Pois mesmo assim, sabendo que ninguém é perfeito, custa-me aceitar que da minha pobre garganta não saia um dó que não pareça um mi, um fá que não se assemelhe a um ré. Pronto, resumindo e concluindo entre algumas outras coisas (poucas, passe a imodéstia) para as quais não fui talhado está a arte de imitar canários e rouxinóis. Não sei cantar, é pena mas é verdade. Eu bem tento, quando alguém num grupo de amigos puxa de uma guitarra, eu bem tento, dizia, acompanhá-los mas, ou a corda se parte ou o músico perde a palheta, ou tem de ir comprar cigarros, a verdade é que não sou boa companhia canora. No carro os meus filhos pedem-me encarecidamente para que lhes proporcione uma viagem tranquila, sem poluição de qualidade nenhuma, sei eu porque sou perspicaz que eles se referem a poluição sonora e não poucas as vezes em que quando tento os primeiros acordes vocais logo oiço por perto uma sonora gargalhada e um assobiar para o ar tipo não fui eu que me comecei a rir (isto na vida há sempre engraçadinhos em todo o lado). A pior que já me aconteceu, acreditem ou não, eu se fosse a vós acreditava, foi eu ter ensaiado cantar um fado em pleno duche e acto contínuo ter faltado a água.
Mas nem sempre foi assim. As luzes apagavam-se na plateia e acendiam-se no palco. Seis aves canoras de tenra idade disputavam entre si, sacos de rebuçados, livros de pintar, caixas de lápis de cor. As claques, já que ainda não tinha sido inventado o televoto de valor acrescentado, encarregavam-se de escolher o melhor. O cronometrista contava os segundos, às vezes minutos em que os aplausos troavam pela sala e eis senão quando, este que vos escreve aqui com as pontinhas dos dedos que o chão há-de comer, verdade verdadinha ganhou o primeiro prémio. Uma fotografia dezoito por vinte e quatro e um bolo-rei. Não era o que ele mais queria, mas enfim, não se pode ser primeiro e ainda ter o direito a escolher uma caixa de 6 lápis de cor da Viarco.
A foto, está aí no post, o bolo-rei foi comido há uns 45 anos atrás e a letra era assim. “o ratinho foi ao baile / de cartola e jaquetão / sapato de bico fino / e um par de luvas na mão”. Bom, quem souber o resto da letra que cante que eu não tenho jeitinho nenhum. Antes que o computador crash, o melhor é ficarmos por aqui.

segunda-feira, julho 12, 2010

1543. Lunch Time Blog - Camarão à PreDatado (onde o Pre retoma o caminho da cozinha e inventa coisas que outros já inventaram antes)





Vocês sabem aqueles dias em que o que nos apetece mesmo são pimentos? Não sabem? Bom eu conto-vos, de repente, passam na loja das hortaliças e outros legumes e também de frutas, porque uma loja nunca é só especializada numa única coisa, passe o pleonasmo, por exemplo, eu já tenho ido a garrafeiras, escolher qual o tinto que vou levar para aquele convite para jantar, onde nunca chego a provar o vinho que levei, diga-se de passagem nem isso era pressuposto e, no entanto, essa loja que deveria ser especializada em vinhos, onde não é difícil encontrar os grands crus de Bordéus, lado a lado os Saint-Émilion, os Côtes du Rhon, os Chateau Lafite, mas também as melhores Reservas da Granja da Amareleja, o Syrah das Cortes de Cima, o Pêra Manca da Cartuxa ou um Artadi Pegos Viejos, o Calvario ou o Sierra Cantabria, estes últimos de la Rioja, bom eu acho que me estou a perder, porque o que eu queria dizer é que encontrei à venda nessas lojas, saca-rolhas e termómetros. Vêm agora vocês caríssimas leitoras e não menos caros leitores dizerem-me que faz parte. Pois faz, mas também faz parte venderem coentros onde se vendem melões, tomates e pimentos onde se vendem cerejas, rabanetes onde se vendem azeitonas, paios, chouriços caseiros e alheiras de caça. Faz parte, pois faz parte. Foi assim que me vi com três pimentos na mão, verde, vermelho e amarelo, assim num misto da bandeira portuguesa com a espanhola, em justa homenagem aos nuestros hermanos, um limão um raminho de coentros e uma cebola e, não na mão mas por baixo do boné, o meu subconsciente a incitar-me a misturar aquilo tudo, depois de cortar às rodelas a cebola e às tirinhas os pimentos, dizia eu misturar tudo aquilo numa frigideira onde picadinhos os coentros e raspado meio limão, lhe juntei 3 dentes de alhos esmagados, umas pitadas de sal e também um piri-piri. Refoguei aquele misto em azeite puro de oliveira juntei-lhe umas gotas do meio limão raspado anteriormente e, helas, o que dará nome a este prato, ou seja camarão à moda do Predatado, os camarões já descascados e sem cabeça nem rabo. Acompanhei com um branquinho da adega Cooperativa de Pegões porque o Sr. Engº Sócrates fez-me o favor de me levar no IRS deste mês os trocos que eu tinha reservado para comprar uma garrafinha de Grande Reserva Branco da Adega de Vila Real. E digo-vos que o pitéu que preparei bem o merecia.

PS. Vocês ainda se lembram do Schubert? Pois, esse mesmo, o meu gato. Sempre me acompanhou nos meus LTB só que desta vez, antes de eu me sentar à mesa, retirou-se de mansinho, não sem antes de me olhar olhos nos olhos como quem diz, olha lá rapaz, há gente que não gosta de comida picante. Esse piri-piri pode ser dispensado.