quinta-feira, maio 27, 2010

1536. Parabéns

Ainda ontem eu escrevia aqui sobre o tempo e como ele passa por nós, sem aparentemente nos darmos conta, mas deixando-nos inabaláveis marcas e já hoje volto, de novo, para dizer que parece que foi ontem. Pois é amigas leitoras e amigos leitores do PreDatado, ainda parece que foi ontem que passei intermináveis horas (minutos) agarrado aos cigarros, a minha horrível muleta de outros tempos, andando de um lado para o outro na sala de espera, roendo ao mesmo tempo as unhas até ao sabugo quando me foi anunciado que tinha nascido uma menina. Parece que foi ontem e a minha menina faz hoje 29 anos. Parabéns filhota. Adoro-te.

quarta-feira, maio 26, 2010

1535. Tempo

Parei no lugar reservado a residentes, não estacionei porque não sou residente e fiquei à janela do carro enquanto o meu amigo Paulo comprou o autoclismo. Fiquei parado o mesmo tempo do que se estacionasse, evitei a multa e vi passar o Franquelim. Há muito tempo que o não via e nem sei se ele me conhece ou se ainda se lembra de mim. Outras gerações, malta de Almada e do Almada. Passaram uma mãe e três filhos comendo gelados, pareciam ser de pistáchio pela cor ou talvez de menta. Mas não, se fossem de menta ter-me-ia cheirado. Um dos putos percorria a estrada junto aos carros em vez de seguir pela calçada. Vi também a Maria. A Maria é uma bacana, era uma bacana, ganda maluca, mas no bom sentido. A Maria é preta mas não é uma preta assim sem mais nem menos. A Maria já é preta há muitos anos, desde aquele tempo em que eu a conheci. Ou até antes. Gosta de todos não por ser preta e gostamos dela não por ser preta mas por ser Ela. Já não sei se ainda exala aquela maluquice de antigamente quando ria a bom rir por tudo e por nada, achei-a velha. O tempo não perdoa. Se calhar também foi por causa do tempo que o Franquelim não me reconheceu, ele que era um dos companheiros do meu finado tio Fernando. A quem o tempo parece não querer perdoar é à idosa que seguia o percurso do garoto do gelado de pistáchio (ou seria de menta?). Avózinha, deveria ir pelo passeio, aqui é perigoso. Sabia disso mas não podia caminhar “pelas pedras”. O autoclismo custou o mesmo preço comprado no comércio tradicional. E se tiver sorte ainda me sai o automóvel da rifa. Antes do pisca-pisca, olhei o retrovisor para tirar um pequeno grão de areia que se me introduziu numa vista. Tenho mais cabelos brancos. Será que é por isso que nos deixamos de reconhecer?

Foto PreDatado©, Almada 2009

terça-feira, maio 18, 2010

1534. Sempre que eu achar que tenho razão, reclamo






Nem sempre o cliente tem razão mesmo quando julga que a tem. Foi exactamente o que eu aprendi e mais nada há a dizer. Mas eu por acaso ainda vos vou contar, já que hoje não tinha mais nada para escrever. Normalmente uso na minha impressora tinteiros originais, mas um dia, levado pela promoção da funcionária de uma loja de electrónica/electrodomésticos de uma grande superfície comercial, decidi comprar tinteiros da marca deles. Logo de início tive problemas no sentido de que a impressora detectava tinteiros não originais e passava o tempo a chatear-me com warnings. Mas veio um dia, não sei se por actualização do software da impressora, se por alguma não codificação no chip dos tinteiros, a impressora passou a recusar-se a imprimir com tinteiros não originais. Vou eu daí, armado em espertinho e pensando que tinha razão, falar com um funcionário da dita loja de electrónica/electrodomésticos da tal grande superfície comercial, a quem perguntei se percebia alguma coisa da cena e que depois de se confirmar um conhecedor me disse que era natural pois os tinteiros não originais podem danificar a impressora. Como é que é? Perguntei eu, assim como que a modos de estupefacto com a resposta, mas ele confirmou que era isso mesmo. Ora foi aqui que eu pensei erradamente que tinha razão. Se uma funcionária, vestindo a camisola da tal loja de electrónica/electrodomésticos da mencionada grande superfície comercial me aconselha uns tinteiros que a minha impressora não reconhece e outro funcionário da mesma loja de electrónica/electrodomésticos da mesma grande superfície comercial me diz que a impressora está no seu direito de não querer lá intrusos, sob pena de ir parar ao hospital com uma intoxicação alimentar qualquer, julguei eu, na minha, que deveria estar lá no expositor um aviso tipo “Esta loja de electrónica/electrodomésticos desta grande superfície comercial avisa que os seus tinteiros podem ser recusados pelas impressoras e mesmo que o não sejam pode lhes causar maleita, sei lá, uma urticária desconhecida”. Não havendo este aviso, este que vos escreve dirigiu-se ao balcão do pós-venda da loja de electrónica/electrodomésticos da mais que referida grande superfície comercial, pediu o livro de reclamações e escreveu em resumo isto que vos conta acima. E como não tinha nada que o fazer, pois como é óbvio não tinha nenhuma razão, recebeu ontem mesmo uma carta da ASAE que lhe informa que não existindo da parte da tal loja de electrónica/electrodomésticos da grande superfície comercial em causa, prática contrária à da lei, a reclamação seria arquivada. Pronto, assim estou mais descansado.

domingo, maio 16, 2010

1533. Uma dica turística


Decidimos fazer um passeio de dois dias, mais coisa, menos coisa pelo Alto Alentejo, principalmente visitando vilas e lugares que não conhecíamos ainda. Daí que, como bom benfiquista não tenha ficado indiferente ao Sport Cabeção e Benfica (foto) filial nº 15 do Glorioso. Muito interessante foi ver a exposição na casa-museu de Manuel Ribeiro de Pavia, na vila de Pavia da qual, o artista, retirou o nome (foto de uma rua de Pavia). Ao olharmos os desenhos de Manuel Ribeiro ficamos com a sensação de já ter visto aquele traço em qualquer lado e rapidamente nos vêm à memória os desenhos na prisão de Álvaro Cunhal. Pois foi no traço de Manuel Ribeiro que Cunhal bebeu a inspiração. Uma obra de se lhe tirar o chapéu. E porque o objectivo principal tinha sido a visita ao Fluviário de Mora digo-vos que vale a pena. O aquário não é muito grande, percorre-se com satisfação e dá tempo, até, para se lerem as explicações. É excelente para quem tem filhos em idade escolar e, claro, para quem gosta da vida animal, neste caso aquática e piscícola. Infelizmente as lontras deviam estar a dormir e não as conseguimos ver. Suas lontras! Quando se começou a fazer tarde rumamos ao Solar dos Lilases. Não tinha referências anteriores mas em boa hora o elegi. Um solar novecentista, totalmente recuperado e restaurado pelos actuais proprietários – daqui saúdo o sr. Jaime Pires, esposa e filha que foram de uma simpatia indescritível para connosco. As salas com frescos muito doces de cores e excelentemente pintados a criarem alguns equívocos a quem olha, mas mais não conto porque é quase obrigatório lá ir. Fica em Mora e deixo-vos uma foto do salão. O dia seguinte foi dedicado a um passeio urbano em Mora, na compra dos bolos caseiros da D. Otília, para almoçar e, principalmente, para visitar o Monte Selvagem, que fica na estrada entre Lavre e Ciborro e que, mais uma vez, aconselho a quem tem crianças ou a quem gosta particularmente da vida animal. Duas palavras ainda para este roteiro turístico. Uma para a Igreja de Nossa Senhora das Brotas. Farei um post a seu tempo sobre a igreja, as lendas e como fomos acompanhados pela D. Catarina. A outra para os gourmets. Ir a Mora e não almoçar ou jantar no Afonso é um crime de lesa gastronomia. E mais não digo.

Fotos de Vítor Fernandes, aka PreDatado ©, 2010

quarta-feira, maio 12, 2010

1532. 23, 24, 30

Uma das coisas que os meus amigos leitores e as minhas amigas leitoras já sabem é que eu sou um grande adepto de futebol. Nunca segui a carreira de futebolista mas tinha jeito. Só que a ter jeito como eu tinha havia pelo menos mais 10 na minha rua, mais 20 no meu bairro, mais 100 na minha Freguesia, mais 1000 no meu Concelho, mais 10000 no meu Distrito e pelo menos mais 300 mil no país inteiro. Por isso fiquei-me por jogador popular, jogava na rua, no bairro, na escola e no trabalho. Mas isso nunca me retirou a aficcion. Por isso sou também um observador atento das coisas que se vão passando no mundo do futebol, com muitas falhas, é óbvio, porque não sou, nem quero ser, um especialista. E também eu, parece que à semelhança de pelo menos 90% de outros portugueses, não concordo com a lista dos 24 de Carlos Queiroz para o Mundial. Eu escrevi 24 e não 30, propositadamente. Já me confrontei com as listas de convocados da Argentina, do Brasil, do Uruguai, da Austrália (31), da Espanha, da Alemanha (27), do Gana (29), da Inglaterra, da França e da Holanda e nenhuma destas selecções tem uma lista de 23 ou 24 jogadores mas sim de 30 (entre parêntesis as diferentes). Aliás, a FIFA é isso que pede. Uma lista de 30 jogadores e a confirmação dos 23 finais até 10 de Junho. Podia Carlos Queiroz ter evitado toda esta confusão se, na primeira hora, tivesse de imediato listado os 30 escolhidos, o que veio a fazer horas depois. Depois logo se via, porque na véspera do início do campeonato todas as opções são mais facilmente aceites.

quinta-feira, maio 06, 2010

1531. Declaração de amor

Gosto do cheiro da relva acabada de cortar e de d. rodrigos.

Gosto de cerveja fresca tomada numa esplanada à beira-mar e de t-shirts pretas.

Gosto de sericaia adornada com ameixas de Elvas e do cheiro da terra depois da chuva.

Gosto da brisa do fim das tardes de Verão e de andar descalço numa batemilha.

Gosto de fotografar flores molhadas e viajar em primeira classe.

Gosto do anticiclone dos Açores e de navegar na internet.

Gosto de fazer amor à luz do dia e de banda desenhada.

Gosto de dançar foxtrot e de pássaros fora das gaiolas.

Gosto de rimar inconsistente com dor de dente.

Gosto de ler Saramago, de ver Woody Allen e de ouvir Pat Metheny .

Gosto do cheiro que emana das lojas que moem café.

Gosto de TV HD, de cinema 3D, e do velho LP.

Gosto de mulheres nuas, de guarda-chuvas às riscas e de amendoeiras em flor.

Gosto de laranjas, de amoras, de ameixas e de sapatos de atacadores.

Gosto do Benfica, de fecho-éclair, de camisas aos quadrados e de alho francês.

Gosto de meias pretas, de mexilhão à marinheira e de vinho tinto.

Gosto de matemática e de azulejos do século XVII.

Gosto do som da balalaica, gosto de bicicletas e de canivetes suíços.

Gosto de pintar a acrílico e de filetes de pescada com abacaxi.

Gosto de pimentos, de orelha de porco, de canja de galinha e de polvo à lagareiro.

Gosto de esferográficas azuis, de rosas amarelas e de vinho verde branco.

Gosto de livres directos, de gin tónico e de espetadas de lulas.

Gosto de havaianas, de jeans, de gravatas Dior, de lenços Hermès e de sopa de agrião.

Gosto de expressões latinas e dar os bons dias no elevador.

Gosto de futebol, de rendas de bilros, de cabelos curtos e de óculos graduados.

Gosto de gatos, gosto de queijo de ovelha e gosto de dormir no sofá.

Gosto de rock and roll, de badmington, de lápis de cor e de cortinas translúcidas.

Gosto de ti! Gosto muito de ti!

Foto: PreDatado©, 2010 – Menir dos Almendres

terça-feira, maio 04, 2010

1530. Passeios


Vós, amigos leitores e amigas leitoras sabeis da minha (nossa, cá da casa) paixão pelos gatos. Não só temos quatro, mais os dois que a Anita tem desde que casou e, tantos outros de que fizemos de FAT e depois “distribuímos”. Mas também lá na terra, para quem levamos montes de comida e afecto se faz a festa, numa reunião que chega a atingir mais de uma dúzia de convivas. Já aqui vos falei do Pessoa e de outros. Desta vez o Pessoa não veio. Nem o Ronaldo, nem a Katua, nem o Mantorras. Temo que lhes tenha acontecido o pior.



Fui, pela primeira vez à Ovibeja. Não sou um entendido em gado, embora goste de apreciar os seus melhores exemplares. De alfaias agrícolas, nem das virtuais que uso na Farmville eu entendo, quanto mais de toda aquela maquinaria que por lá havia. Quanto aos espectáculos, cujo cartaz me parecia tentador, acabei por não assistir grande coisa pois tinha já o compromisso de assistir aos festejos da Santa Cruz na Vila Nova de S. Bento. Perguntais-me vós e com toda a propriedade o que fui para uma feira destas fazer? Sabores, meus amigos. Prazeres, minhas amigas. Mas ele há melhores sabores do que os alentejanos? Ainda o ar me cheira a poejos e já estou com saudades do presunto do porco preto, do queijo de Serpa e do pão de rala. E mais não digo, para não sujar o texto com a água que me sai da boca.



Não conhecia as festas da Santa Cruz de Vila Nova de S. Bento. São quatro dias com procissões, cantos e bailaricos. São ruas cobertas de rosmaninho e ranchos cantando pelas ruas. Só assisti a um pouco destes festejos e do que vi gostei. Fomos também muito bem recebidos por uma nossa amiga, aldeense (ex-Aldeia Nova) que nos falou das tradições e nos mostrou o essencial.


Ando numa de visitar os castelos de Portugal. Desta vez “fui” a quatro dos quais três
pela primeira vez. Gostei e voltei a gostar, respectivamente, do Castelo de Montemor-o-Novo e do Castelo de Mértola. O castelo do Alvito foi transformado em Pousada pelo que já não é visitável ao público e o de Viana do Alentejo estava fechado mas não entendi bem se era facto normal ou se era apenas devido a obras. No entanto, vistos de fora são muito bonitos. Tenho de explorar melhor.



Fotos PreDatado 2010

quarta-feira, abril 28, 2010

1529. Adiante, que o gajo fundiu os filamentos

Não sei se as minha amigas leitoras e se os meus amigos leitores ainda estão recordados do tamagotchi. O tamagotchi era um “bichinho” virtual , inventado pelos japoneses, assim em estilo de porta-chaves, que precisava de comida, de banho, de carinhos e de outras coisas a horas certas e que amuava se não lhe fizessem as vontades.

Hoje em dia viciei-me, como muitos milhões de outros cretinos como eu, numa quinta virtual, através do facebook (se somarem os que são viciados em quintas / fazendas via Orkut, Hi5 e outros espaços de perda de tempo cibernético, os cretinos são muitos milhões mais, mas adiante…). É ver-me a cultivar uvas que crescem em um só dia, morangos em quatro horas e arroz em dez. Se uma propriedade destas, por mais pequena que fosse, pudesse ser real, não haveria fome no mundo, mas adiante, que hoje não estou virado para a salvação da humanidade.

Tenho quatro gatos lindos. O Schubert, a Yasmin, a Florinha e a Charline. Na verdade tenho três gatas e um gato e ainda o Donatello e o Michelangelo que são duas tartarugas que receberam os nomes antes de lhe conhecermos os sexos. Na verdade tenho uma tartaruga e um tartarugo. A tartaruga põe ovos e o tartarugo põe-se na tartaruga. Mas adiante que hoje não vos vou falar nas posições kamasutricas dos meus bichos. Só sei que alimento estes meninos e meninas, os felinos a Royal Canin e as tartarugas a camarão, as finórias, custam-me os olhos da cara (só esses, claro), dou mimos aos gatos, levo-os até à varanda para me comerem os malmequeres, falo com as tartarugas. Quando vou para fora, se por acaso incluir um fim-de-semana, ou a D. Fátima, nossa empregada, ou a minha filha fazem-me o favorzinho de ir lá a casa dar de comida à malta, conversar com eles, dar-lhes carinho e levá-los à varanda para comer malmequeres.

Ontem, peguei no telefone e disse à minha filhota que era provável que no próximo fim-de-semana me ausentasse. Quis saber das disponibilidades que ela teria para ir lá dar o respectivo alimento, os carinhos, bom já disse isto várias vezes não foi? Adiante que vós amigas e amigos leitores já sabeis tudo sobre cuidados primários. E, uma vez que para onde vou não tenho acesso à internet, nem estou disposto a pagar os balúrdios que custam a banda larga em Portugal (10 euros / 10 horas, não é?), adiante que este não é o tema de hoje, dizia eu telefonei à minha filha se me fazia o favor de dar a ração ao Bobbymanuel e ao Zacarias os meus dois cachorrinhos virtuais que pululam (e pulam) lá pela minha Farmville que é como quem diz a minha propriedade rústica na WWW. Mas o gajo não está pirado da mona? Voltamos ao tamagotchi ou quê?

Foto PreDatdo©2010 “Schubert e os malmequeres”

segunda-feira, abril 26, 2010

1528. E você, continua a escrever?

Ele diz que é perito naval e eu acho que é. Pelo menos essa é a sua profissão e, segundo consta, exerce-a bem. Mas quando o conheci não foi medindo calados e calculando deslocamentos, aplicando aqui e ali o princípio de Arquimedes, mas apenas como amigo de um amigo meu. Não tivemos o tempo suficiente para nos conhecermos bem, mas deu para entender o personagem, o humanista, até o artista de muita artes que ali se me apresentava e, também o homem solidário que acorreu em nosso auxílio à primeira dificuldade. Mas quando ainda não se conhecem bem as pessoas atentam-se aos pormenores. E um desses foi um profundo conhecimento de um país que ele desconhecia e que, curiosamente, era (é) o seu. Um português que não conhecia Portugal mas que sabia muito da sua história. Para o Alexandrino, lá por terras de Vera Cruz o meu abraço consubstanciado numas quadras suas que descobri aqui nos meus arquivos.

(porque Eh!Poh!peia é um texto longo, apenas umas quadras tiradas ao acaso)

“. . .

Trocavam-se coisas boas

Como um paninho de chita

Pelas de nenhum valor:

Ouro, ferro, dolomita.

E coisas melhores chegavam

Numa permuta constante,

O espelho da vaidade

Pelo marfim do elefante.

Vinha vinho abençoado

Vinha azeite, que escaldante,

Temperava a nova comida

Trocado por diamante.

. . .”

Espero que o Alexandrino, um português de Angola que vive no Brasil continue a escrever. Ainda hoje, me parto a rir quando leio a resenha histórica da descoberta do Brasil que ele me ofertou. Agora é mais fácil. Ele tem o meu e-mail pode me escrever sempre. Saravah!

quinta-feira, abril 01, 2010

1527. Não te cures não

Estive hoje a assistir na RTP2 a um interessantíssimo documentário sobre o corpo humano. De entre as várias coisas que retive, desde o número de espermatozóides que consigo produzir por hora até às proteínas constituintes do meu organismo, uma ficou-me aqui a dar voltas na cabeça. Dizia-se às tantas no referido filme, sobre a capacidade do nosso organismo em transformar em gorduras os nossos excessos, que se ingerirmos por dia 15 calorias a mais, ou seja, o equivalente a 4 pistáchios, engordaremos cerca de 670 g por ano. Ora pus-me aqui a fazer as contas de cabeça e cheguei à conclusão que nos últimos trinta anos comi 65.373 pistáchios a mais do que devia. Estava eu nestas cogitações quando se me fez luz. Eu nunca comi pistáchios sem ser acompanhado de uma fresquinha. Sendo que toda a minha gordura se deve aos pistáchios excedentários, cheguei à maravilhosa conclusão que a cerveja não engorda. Abri o frigorífico e foi um ver se te avias. Hic.

segunda-feira, março 29, 2010

O que conta é a intenção


Hoje recebi. de uma amiga minha paulistana de gema, um convite para esta sessão de camerata aberta. Eu gostava de de dizer que seria uma óptima (ótima) ideia para viajarmos ao Brasil. Mas, assim como assim, o mais longe que normalmente me desloco para um espectáculo, é quando vou ao Alentejo aos fados. E mesmo assim só se acompanhado de um grande vinho tinto e de um queijo de Serpa amanteigado (vá lá, se for curado também vou) e umas azeitonas novas. Por falar em queijos, este fim de semana estive em Cabanas de Palmela no festival do Queijo do Vinho e do Pão, parei em todos os pontos de venda, provei vinhos e queijos, mandei o orçamento mensal a baixo e engordei mais um bocadinho. Mirian, vamos lá aos finalmentes. O que é que se come de bom em S. Paulo?

segunda-feira, março 22, 2010

1525. Crónica de um gajo phodido



Umas vezes sinto-me perplexo, outras estupefacto e outras, ainda, fico mesmo fodido. Foi assim que me senti, anteontem, no parque de estacionamento do Leroy Merlin em Almada. Uma fulana bate no carro de outra num dos cruzamentos do parque de estacionamento. Porque não oferece qualquer dúvida de interpretação tomo a liberdade de afirmar que a jovem que bateu no carro da outra pessoa foi efectivamente a culpada. Não só eu o achei, como a própria, pois acto contínuo quis pirar-se. Corajosamente, a outra senhora, já não tão jovem quanto a batente, impediu-a mesmo quando esta, depois de ter sida pedida a intervenção das autoridades pelo 112, alegou estar muito mal disposta e que portanto se ia embora. Eu já vi este filme antes e não gostei nada da fita. Ainda mais que tive de engolir as pipocas todas. Mas isso conto-vos noutra ocasião.

E porquê fodido, perguntais vós e com toda a propriedade amigas leitoras e amigos leitores do PreDatado uma vez que esta situação se passa em cada dia num país, em que a educação cívica sofre de males tão grandes quanto outras educações cá no burgo. Pois eu, se não vos maçar muito que estas coisas, nós sabemos que cansam de facto, passar-vos-ia a dizer o porquê do meu estado de espírito (não leveis o fodido à letra pois que, por muito respeito que eu tenha aos homossexuais, eu pertenço à outra equipa). E aqui vai. Dirigi-me a um dos seguranças da entrada do Leroy solicitando-lhe que ajudasse a vítima, chamemos-lhe assim, a impedir que a outra desse de frosque enquanto as autoridades chegassem. Que não, que não faziam segurança ao parque, que só actuavam lá em cima, que não havia ninguém para estas situações etc., etc. e tal, ou seja, o parque de estacionamento do Leroy Merlin, em Almada, segundo o segurança de serviço na entrada da loja, não é vigiado. Na verdade, nem eu me deveria de admirar, a segurança nestas lojas serve para evitar alguns gamanços à loja e ponto final. O cliente que se lixe com f ou com ph que tanto faz.

Oh Pre, mas isso deixou-te assim tão lixado que venhas para aqui escrever um post de caca como este, voltais vós a perguntar amigas leitoras e não menos amigos leitores. Não, não foi isso, isso apenas me fará pensar duas vezes antes de voltar ao Leroy. Não, não foi por isso. É que quando eu voltei ao local do incidente e informei a senhora de que não deveria contar com os seguranças do Leroy e me quis inteirar se a polícia já vinha a caminho, fui informado que a resposta da PSP era de que se tratava de um parque privado e que não iriam intervir. Como é que é? Hein? Como é que é? Bom, na verdade não podemos acreditar em tudo o que ouvimos, no entanto, pelo menos na primeira hora após a ocorrência ainda não tinha aparecido polícia nenhum. Se calhar o parque do Leroy não pertence a Portugal, ou aliás, se calhar pertence. Eu é que sou de fora e vim só cá ver a bola. Muito prazer em conhecê-la Sr.ª D. República das Bananas.

Foto descoberta aqui

terça-feira, março 16, 2010

1524. Foi o que se pode arranjar.



Não se pode dizer que tenha sido uma grande resposta mas foi a que recebi. Só que não sou de me ficar e retorqui. Por mim dou o caso por encerrado e vou esperar pela box no início de Abril. Tenho mais que fazer e não vos quero maçar com questões pessoais.

- Eles:

Estimado Cliente,

Na sequência do seu contacto, que desde já agradecemos, informa-mos, devido à elevada adesão aos nossos serviços, a ZON BOX está temporariamente indisponível por ruptura de stock. Contudo, prevemos retomar as entregas a partir do dia 04 de Abril, pelo que entraremos em contacto a partir desta data para agendarmos a entrega do equipamento.

Apresentamos desde já as nossas desculpas por qualquer incómodo que lhe possamos ter causado.

O contacto telefónico preferencial que consta nos nossos registos é o 9145xxxxx. Caso o mesmo tenha sofrido alterações, solicitamos, por favor, que nos reenvie o presente e-mail com o seu número de contacto preferencial.

blá, blá, blá cumprimentos (assinada)


- Eu:

Caro Senhor,

Em primeiro quero informar que esse número de telefone que têm como meu telefone de contacto preferencial, não me pertence, nunca me pertenceu e como tal nunca vos foi, por mim, fornecido. Só pode tratar-se de um lapso dos vossos serviços. Eu poderei ser contactado pelo 9172yyyyy. Aliás, muito estranho que me diga que esse é o número de telefone que consta no vosso ficheiro porque hoje mesmo recebi uma chamada telefónica da ZON no meu telefone celular, vulgo telemóvel.

Em segundo lugar a vossa resposta ao meu e-mail é similar à informação que eu tinha obtido na vossa loja e que, por isso, motivou o meu e-mail. Assim, considero que não respondem no fundamental ao meu protesto mas também entendo que não têm outra forma de o fazer. Tire deste meu entendimento as ilações que quiser.

Finalmente, na primeira linha da sua resposta escreveu "informa-mos" quando deveria ter escrito "informamos". Mas não se preocupe, eu já estou acostumado.

Cumprimentos,

Vítor Fernandes


E ponto final!

segunda-feira, março 08, 2010

1523. O fado é um gajo porreiro



Primeiro, o jantar. O arroz de coentros fez uma excelente companhia à batatinha assada e à salada de alface, no adorno ao (tenríssimo) lombo de porco no forno. As entradas com pequenos pastéis de bacalhau, queijo de cabra e de ovelha, paio da região, a macedónia de cenouras com molho vinagrete, as azeitonas com orégãos já nos tinham deixado de água na boca. A simpatia e, porque não, o profissionalismo da Ana Rita, da Sandra e das outras pequenas que nos serviram não deixaram por mãos alheias os créditos que lhes são devidos. Quanta à rega, ela foi feita com João Pires branco, um terras do Sado escorreito e claro com um alentejano de estalar os lábios, um tinto da Herdade de Lagos no Vale de Açor, Mértola.

Segundo, o fado. Eu gosto de fado de todas as qualidades. Quero dizer eu gosto de ouvir cantar o fado, seja em vinil ou em cedê de plástico, seja no carro ou na hi-fi, seja na TV ou na telefonia. Se eu tiver à minha frente um prato de bacalhau assado, temperado com o belo azeite português, alho, pimenta e coentros picados e também um jarro de vinho tinto e um copo de vidro grosso, ponho a rodar um disco dos saudosos Manuel de Almeida ou Fernando Maurício já que é impossível voltar a tê-los em cartaz. Quem esteve em cartaz foram os, por mim até à data não conhecidos, Ana Tareco e Carlos Filipe. Se o Carlos é de Santarém, cidade com largas tradições fadistas já a Ana é uma fadista de Beja, cidade onde normal e naturalmente pontifica o Cante. Mas esta voz rendeu-se, e muito bem digo eu, à sedução do Menor, do Corrido e do Mouraria e desatou a cantar o fado. Ambos mereceram um fortíssimo BRAVO da assistência que enchia por completo as mesas.




Finalmente, mas não menos importante, a mesa. O Zé Augusto e a Cristina, A Paula e o Fernando, O Álvaro e a São e a Maria José e eu comemos, rimos, acompanhamos com larilolé, com certeza, e batemos palminhas. Alguns mais bêbados do que outros mas todos colhemos a rosa branca, estivemos numa casa portuguesa, perguntamos à comadre Maria Benta pelo seu filho e terminamos (sem dó) na maior.

E agora é que é finalmente mesmo, para deixar registado que tudo isto se passou na Casa do Guizo, Monte do Guizo, Mértola. Parabéns Ana Rita pela organização do evento, pela qualidade e como já se disse pela simpatia.

sábado, fevereiro 27, 2010

1522. Mas não era a mesma coisa


Caro Senhor,

Escrevo para lhe pedir um conselho. Sou cliente de um número substancial de prestadores e/ou fornecedores de serviços. Ele é comunicações fixas, comunicações móveis, gás, água e electricidade, empregada doméstica, correios e respectivo carteiro, bancos e cartões de crédito, internet , radiodifusão, televisão por cabo, serviços de recolha de recicláveis, eu sei lá, um sem número de pessoas e empresas para quem eu pago por não poder ou não saber ser auto-suficiente. Nos últimos tempos passei a andar muito satisfeito com um destes fornecedores, a saber, a ZON, a quem tirei do último lugar na qualidade da prestação de serviços, na minha homemade lista classificativa, desde que a internet passou a estar mais tempo operacional do que inactiva e também, valha a verdade, desde que os operadores do call center de apoio ao cliente passaram a saber responder a duas perguntas consecutivas sem me pedirem para que eu desligasse e ligasse o modem e o meu número de contribuinte. De tão satisfeito eu andava com a ZON que recebo os outros vendedores da concorrência, com crucifixo numa mão e uma cabeça de alhos na outra, para que não caísse em tentações, vade retro, enquanto que, com os vendedores da ZON apenas me benzo quando me batem à porta, dia-sim-dia-não (agora foi exagero, algumas semanas são só 2 vezes) e me perguntam quais os serviços da ZON que eu possuo. Mas não me benzo por eles não o saberem, benzo-me para pedir a todos os santinhos que munem a ZON de uma base de dados que permita aos seus colaboradores saberem quem é quem no que respeita à relação de um cliente com o seu fornecedor. Sabe, caro senhor, eu sou daqueles que ainda acreditam em milagres. Mas adiante que já me estou a alongar e pensará o senhor, com alguma razão, que não estou a ir directo ao assunto. Pois eu vou, rogo-lhe apenas que me conceda mais alguns segundos, muito menos do que aqueles vastíssimos minutos que eu espero nas vossas lojas de atendimento ou “pendurado” no telefone. Vejo com frequência a vossa publicidade na TV e não me leve a mal eu utilizar um dos vossos ex-libris publicitários, para vos dizer que também vejo a publicidade da concorrência, mas não é a mesma coisa. E até me mordo de inveja por em minha casa não poder ter um televisor em cada divisão como aquelas famílias felizes que vão tirando élecedês uns aos outros e colocam um na sala, outro no quarto, outro na cozinha, outro na casa de banho, outro na barraquinha do cão. Mordo-me de inveja mas para lá caminho, não julgue o meu caro senhor que sou algum pelintra. E para provar o que lhe digo, já tenho duas boxes digitais HD em minha casa, pelas quais pago à ZON, pois claro, nem de outro modo eu acho que deveria ser, não sou nenhum borlista. E tal é a minha inveja que decidi comprar um novo televisor, desta vez full HD, veja bem que luxo e, à semelhança das famílias felizes a que já me referi há pouco, assim tipo Nicolau Breyner, está a ver o que eu quero dizer?, fui à vossa loja do Almada Forum para solicitar uma nova box para poder tirar proveito do dito cujo televisor. Ora, qual foi o meu espanto constatar que, afinal, vocês não têm para vender/alugar o produto sobre o qual tanto investem em publicidade, diga-se de passagem de muito bom gosto, com famílias felizes e tudo como o João Pinto e a Marisa Cruz. A vossa colaboradora informou-me que há rotura de stocks e quanto muito haverá boxes para novos clientes, que o técnico levará consigo no momento da instalação e ponto final. Ora é aqui que o seu conselho me vai ser precioso e, posto que já deve ter ficado ciente da problemática pela clara, digo eu, introdução feita, o conselho que se me apraz pedir-lhe é o seguinte: devo eu devolver na loja o televisor, full HD (repito), que comprei na semana passada ou, pelo contrário, devo antes voltar a guardar na gaveta o crucifixo e na caixinha dos ditas, as cabeças de alho e procurar, na vossa concorrência, uma solução à minha medida? Eu tenho a certeza que me saberá responder pois, quem é ZON está ON e o senhor director com certeza também estará. É que já me perguntaram se eu poderia viver sem estas gracinhas da ZON. Poder eu até podia, mas não seria a mesma coisa, não acha?

Nota: Este é o texto completo de um e-mail que enviei ao Director de Clientes da ZON ao qual, entretanto, aguardo resposta.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

1521. Al bejes bejo, al bejes num bejo

Vi o Anti-Cristo de Lars von Trier e ainda não sei se gostei. O filme tem algo de perturbante e também algo de superficial. Não gostei do Anti-Nagisa, isto é, há uma inspiração perversa no Império dos Sentidos. Acho que um dia destes vou voltar a ver em vídeo para me questionar de novo se gostei ou não.

Do que vi e gostei mesmo, juro que é verdade, foi dos quatro a um que o meu Benfica aplicou aos lagartos no seu próprio recinto. Mas, obviamente, o Sporting perdeu por causa do árbitro. Aliás, nem me lembro de nos meus últimos 54 anos de vida ter visto o Sporting perder um jogo que não fosse por culpa do árbitro.

Vi hoje o debate do orçamento na AR, pela TV e, às tantas, adormeci. Já não sei se estava mesmo com sono, se cansado ou se este país não é para velhos.

Vi também a entrevista da Judite de Sousa ao presidente do Supremo e, espanto meu, gostei dos dois. Acho que me enganei na época e ainda não percebi que estamos do Carnaval. Em vez de criticar tudo e todos, estou bonzinho. Acho que é das barbas e ainda me situo no Natal.

Faço hidroginástica e natação e ainda não vi o perímetro abdominal diminuir. Mas também não será neste fim-de-semana de quatro dias. Eu e o meu mano, ou talvez mesmo, os meus manos, não deixaremos os créditos das nossas barriguinhas em paios, queijos e vinhos tintos alheios. Como eu dou graças a Deus ter casado com uma alentejana.

Gosto de amoras silvestres (1).

PS. Vi Nelson Mandela ser libertado, há 20 anos atrás e, como disse num comentário, foi para mim um dia de grande felicidade!

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

1520. Allô, allô!

A publicação no youtube das escutas telefónicas a Pinto da Costa e à sua entourage e a publicação no semanário Sol das escutas telefónicas no processo de aquisição da TVI pela PT e não só, parecem constituir uma violação ao Direito e à liberdade individual porque, se no primeiro caso o segredo de justiça não estava em causa, mas sim outros valores da liberdade, no segundo é a justiça que fica em cheque, não só pela violação do segredo, mas também pela desconfiança que isso causa sobre os próprios promotores e aplicadores dessa mesma justiça. É portanto uma imoralidade que merece ser denunciada e que merece ser investigada, quiçá, mesmo, condenada.

Comparar as escutas telefónicas que se fazem em Regime Democrático como meio de aquisição de elementos e eventualmente de provas nos processo policiais/judicias no combate ao crime, seja ele o de colarinho branco seja o de viciação de resultados desportivos, com as escutas feitas pelas polícias políticas dos regimes totalitários, nomeadamente da PIDE ao serviço dos regimes fascistas de Salazar e Caetano no combate aos seus opositores políticos confere-me, a meu ver, a liberdade de achar quem o faz de ter sido acometido de uma estranha cegueira que provavelmente terá tratamento mais fácil em certos hospitais psiquiátricos do que em oftalmologistas de renome internacional. E há por aí, alguns jornalistas e opinistas que o fazem com o maior despudor.

O que me parece também é que, provavelmente, muito maior do que a imoralidade (ou ilegalidade) que se comete ao divulgar tais escutas são as próprias conversas em si mesmo. Ficarmos a saber de viva voz, ou por transcrição das mesmas que tudo aquilo se passou e que os protagonistas disseram mesmo aquilo que depois disseram que não disseram e que, com isso, tenho “abatotado” os resultados finais, sejam eles desportivos ou políticos, não é ilegal. Ilegal não é efectivamente sabermo-lo, mas sim o que foi feito. E se a justiça não o considera ilegal, no mínimo todos consideramos imoral. Não é por não valer, juridicamente a gravação da conversas de Pinto da Costa a encomendar aos árbitros que ele os deixou de encomendar. Está gravado e está escrito. Essa é que é essa!

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

1519. Horas douradas

Hoje vou pintar-vos um conto. A lata de tinta já está pronta e a velhinha sentada num corte de tronco de azinho ajeita o lenço. Vê-se que está impaciente pois atou e desatou o nó por mais de uma vez, tirou o chapéu e voltou a pô-lo, colocou o lenço sobre o chapéu e apertou o lenço de novo. Esta forma graciosa de usar um lenço sobre o chapéu preto é muito típica aqui da região. Víamo-las assim quando em “bandos” ceifavam o trigo ou quando, à tardinha, sentadas no mocho acariciavam o bezerrito que Bonita, a ovelha, acabara de parir. Uma ave, esclareceu-me numa voz meiga, com a ternura do costume, que era um rabilongo, posou na figueira em frente à porta. Comia os restos de um figo maduro que desta vez não teria tempo de passar. Depois aparentando um ar sério e fingindo-se zangada, disse-me, são uns bandidos, comem tudo. Rimos os dois e ficamos ali um pouco à conversa explicando-lhe que a luz do sol ainda não era aquela que eu queria para iniciar a pintura. Teria ainda tempo para atender o telefone e trazer-me uma chávena de chá bem quente que por este tempo, no inverno, faz frio por estas bandas. Um cheiro a lúcia-lima invadiu o espaço. Voltou a sentar-se, esperou que eu terminasse a bebida, enxotou o gato e disse-me, estou pronta. Eu também, avó, esta é a hora de ouro para um pintor. Peguei no pincel mas acabei por terminar o trabalho já sob a luz de uma fraca lâmpada de tungsténio. Vai ali para o lado do meu Joaquim. Nunca mais vais dormir só. Retirou um velho calendário já manchado pela humidade dos anos e no seu lugar pendurou o quadro.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

1518. Erecções

Vamos lá a ver se isto se levanta. Longe vão os tempos em que mais de 150 amigas e amigos passavam aqui pelo PreDatado e, se não liam tudinho (hipótese que até me custa a colocar, mas enfim, modéstia oblige), pelo menos vinham deixar uma palavrinha de apoio, de incentivo, de amizade ou, simplesmente, um olá bem fresquinho. Mas pergunto eu para quê essa assistência hoje em dia se não há por aqui nada, ou quase nada, que os faça aproximar? Pois então, há que pôr de novo a coisa em pé. Vamos lá a ver se é desta. Na verdade, vontade não me falta, tempo também não, a inspiração é coisa de momento e o tempo é feito de momentos, pelo que quando há tempo há momentos e por aí fora. E se os viagras que são as vivências do dia a dia, os desvarios dos nossos governantes, o e-mail mesmo que povoado de anjinhos, as delícias da batota do nosso futebol, a eficácia da nossa justiça, as extravagâncias do patrão da Virgin, a leitura dos blogues dos outros, os meus gatos próprios e os afilhados, um restaurante de raros sabores, uma garrafa de vinho tinto de uma excelente colheita, o crescimento e decrescimento da minha barriguinha apesar da ginástica e das caminhadas entres outros, se nenhum destes viagras resultar, então usa-se o guincho. Ele há-de voltar a ser aquilo que foi. Ele há-de voltar a pôr-se de pé. Longa vida ao PreDatado.

Foto PreDatado©, 2010 – San Lucar del Guadiana

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

1517. Att: Junta de Andalucia

Hoje vou falar mal dos espanhóis. Sei que vou chocar alguns e a outros nem tanto, porque me conhecem bem, ao escrever aqui que não sou fã de Portugal. Bem sei que “fizemos” os descobrimentos, mas desde aí até hoje não fizemos nada mais de que eu me orgulhe. Pode ser uma questão de exigência pessoal e pode encerrar alguma injustiça, mas nada mais me toca. Nada não, mentira. Estou a mentir com os poucos dentes que me restam na boca. Também me orgulho do 3º lugar no mundial de futebol de 1966 e dos golos do Eusébio. Costumo dizer às pessoas que fazem parte do meu círculo de amigos que de Portugal gosto da língua e do clima. Concedo ainda o benefício da dúvida ao cozido à portuguesa, à caldeirada à fragateiro e às amêijoas à Bulhão Pato. Mas eu disse que ía falar mal dos espanhóis e ainda só falei de Portugal. É que eu gosto mesmo de olhar primeiro para dentro de casa antes de olhar para o tapete da porta do vizinho. E dentro de casa… bom, isso fica para depois. O que eu queria dizer era que, se tivéssemos visto isto junto ao castelo do Alandroal, nas piscinas naturais de Porto Moniz ou nas imediações da Citânia de Briteiros, haveria logo quem dissesse que isto só podia ser coisa de portugueses. Que nos outros países, e tal e coiso, nada disto se passaria. Talvez quisessem dizer que o processo Casa Pia não demoraria mais de sete anos a se resolver se fosse nos Estados Unidos da América mas, aqui mesmo ao lado, ninguém acreditaria que numa pacata povoação, um pequenito pueblo de España de apenas 98 km2 e 616 habitantes - El Granado - todos os holofotes, que dão vida ao seu ex-libris, tenham sido barbaramente vandalizados como a foto documenta. (Deixo também uma foto do molino, ele mesmo, para não ter de colocar as fotos de todos os outros holofotes, que o deveriam iluminar, completamente destruídos).


Fotos PreDatado, 2010/02

terça-feira, janeiro 12, 2010

1516. Ponto de interrogação

Por vezes quedo-me a interrogar-me porque é que passo tantos minutos, tantas horas, tantos dias sem escrever.

Por vezes quedo-me a perguntar-me onde guardei aquele bendito lápis que mal sentia o cheiro de uma folha branca logo tratava de a rabiscar.

Por vezes quedo-me a questionar-me se as pontas dos dedos que afagam as teclas já não lhes sentem receptividade às carícias.

Por vezes quedo-me a indagar-me se o poder da mente que levanta o lápis, que acaricia o papel, que movimenta os dedos, que rabiscam na branca folha do processador, se afectou por uma qualquer barreira anti-magnética.

Por vezes quedo-me a tentar descobrir se foram os dias os meus anti-magnéticos minutos que me impediram de acariciar o lápis, de processar os dedos, de rabiscar a mente.

E por isso, porque não encontro respostas a um não sei quê de benditas horas, quedo-me sentado a cheirar o mar e ver as ondas quebrarem barreiras e pousarem como brancas folhas.

Versos e foto PreDatado©2010

segunda-feira, janeiro 11, 2010

1515. Uma ajudinha

Preciso de ajuda. Quase sempre me deito tarde. Deitar tarde e tarde erguer, não parece ser ditado popular que se costume utilizar por não encerrar nele nenhuma virtude ou ensinamento visível. Se bem que não me queixe de falta de saúde a verdade é que pelo menos não me fez crescer. E é neste meu vício de não me deitar cedo que acabo por ver coisas que nunca me passaram pela cabeça ver. Por exemplo, assistir a um palermíssimo programa de TV onde as pessoas por 0,60 € + IVA, se tiverem a sorte da sua chamada ser seleccionada, têm direito a tentar a sorte de adivinhar a palavra de quatro letras escondida dentro de um envelope e que constitui a chave vertical. Entretanto, vão preenchendo cada uma das quatro quadrículas da chave, decifrando na horizontal, palavras, também, de quatro letras. Preciso, portanto, de ajuda. Não exactamente para que me indiquem qualquer coisa que me ajude a dormir, nem tão pouco para me aconselharem qual o canal que eu deva estar a ver a altas horas da noite, se é que deva mesmo estar a ver televisão. A ajuda que eu necessito é a de saber onde posso encontrar o significado da palavra CAXO. Procurei já em muitos dicionários e nunca encontrei. Será que existe ou aquilo é mesmo só para enganar quem telefona?

sábado, janeiro 09, 2010

1514. Bom português

O acordo ortográfico deveria ser para começar a cumprir já a partir deste Janeiro. Há quem insista em não o fazer, outros já o fazem há mais tempo. Agora inventar um novo acordo é que não vale. O Jornal O JOGO online publicava hoje às 12:34h uma notícia sobre o ataque HÁ selecção do Togo. HÁ???????? Que é isto Sr. Jornalista?

domingo, janeiro 03, 2010

1513. Obrigadinho

Podem pensar que sou um chato, que gosto de falar mal de tudo e de todos mas não é verdade. Aliás, quem me conhece e quem foi , digamos que, “comandado” por mim nas minhas várias funções directivas sabe que, antes pelo contrário, sempre fui muito mais de elogiar do que de criticar, pelo menos em público, sempre incentivei os meus colaboradores e se era para “dar na cabeça” , como soy dizer-se, privilegiava o privado e em público isso só acontecia quando era obrigatório fazer crítica construtiva.

O facto de aqui no meu blog eu estar um bocado conotado com o inverso, isto é, com a crítica pública e mordaz, não me impede de vir aqui mandar um ramo de flores a quem o merece. Poderão alguns argumentar que não fizeram mais do que a sua obrigação. Mas, tendo em conta que há tanta gente que não faz a mínima ideia do que é a sua obrigação, não acho nada por demais dar a César o que é de César. Vem isto a propósito do meu post de ontem, mas não só.

No passado dia 11 fui de passeio à Ilha de S. Miguel, Açores. Chegado ao aeroporto dirigi-me ao posto de turismo para recolher alguns folhetos informativos e mapas. Não só obtive a papelada que pretendia, como também fui atendido por uma funcionária excepcional que me inteirou de praticamente tudo o que era passível de visitar no espaço de tempo pretendido, bem como informação, razoavelmente detalhada, sobre cada local. Mas não foi só trinta e um de boca, fez o favor de o assinalar no mapa, legendando-o. Estupidamente não fixei o nome da funcionária que merecia que eu a mencionasse pela sua Graça. Mas aqui fica o meu agradecimento público. Afinal temos lindas paisagens mesmo. Nem que para isso tenhamos de ir aos Açores.

Foto PreDatado©, 2009, Ponta Delgada, S. Miguel, Açores

sábado, janeiro 02, 2010

1512. É só paisagem

Ou este país não existe, ou é só paisagem. Eu sou da velha guarda, do tempo em que se fotografava, pegava-se no rolo, mandava-se revelar (nunca fui profissional e nunca revelei as minhas próprias fotos) e depois mandava-se imprimir em papel. Ainda gosto de tocar as fotografias, neste tempo do digital e, por isso, vai-não-vai, mando fazer algumas em papel para as tocar, "ver" com as mãos, arquivar em álbuns, juntar-lhes outros elementos relacionados, como por exemplo bilhetes de avião ou recibos de portagem, facturas de hotel ou de almoços mais significativos e tal e nem era por nada disto o post que eu ia escrever e que já vai longo e chato, deixem-me interrompê-lo a meio.

Fui anteontem à FNAC no Almada Forum mandar fazer algumas fotografias. Uma empregada da loja de fotografia atendeu-me, enquanto “dava à língua” com um, ao que me pareceu, colega mas não da mesma área. Apesar da dispersão cliente/conversa privada, fez o que lhe competia, transferiu-me as fotos para o sistema da FNAC, ajudou-me a escolher o tamanho das ditas, fez sair o talão de encomenda, e, espanto meu, OOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHH, mandou-me esperar um pouco que uma colega já acabaria de me atender porque tinha de ir almoçar. O que faltava fazer era preencher um formulário com o meu nome, dar-me o canhoto para levantamento e dar-me as boas tardes. Coisa de menos de dois minutos. Neste entretanto, fiquei na seca durante mais de dez minutos à espera que a colega acabasse de atender outro cliente, que chegou depois de mim e que não tinha, obviamente, culpa nenhuma disto.

Só num país da treta como este é que um funcionário de uma loja deixa um cliente a meio para ir almoçar, independentemente dos justos direitos que lhe assistem. Num país da treta como este restam as bonitas paisagens.

Foto PreDatado©2009, Lagoa do Fogo, S. Miguel, Açores

sexta-feira, janeiro 01, 2010

1511. Feliz Ano Novo

Iniciamos mais um ano. Assim o obriga o calendário gregoriano que tem esta coisa mágica de fazer parecer que apenas num dia a seguir ao outro, que por acaso foi o último do ano anterior, torna logo tudo tão diferente, tudo tão cheio de esperança, tudo num tomara que desta vez é que seja. Para muitos é isso, uma renovação de esperanças; para outros, tempo de reflexão e balanços e para outros, os mais pragmáticos, tempo de ficar na cama a curar a senhora bebedeira da véspera. Não escapo ao conjunto daqueles que balanceiam espaços temporais, mas já não me revejo no grupo dos esperançosos. Quanto à curtição, se as palavras escritas não me atraiçoarem, parece que não houve nada de especial apesar de, para espanto meu (oh my God!), ter descoberto em cima da mesa do jantar / reveillon de ontem muitas mais garrafas vazias do que as que esperava.

O ano que findou foi um ano de emoções mistas, um ano de grandes alegrias e de outras tristezas que, infelizmente, não são passíveis de evitar. Ou talvez sim, mas seriam contas de outro rosário que não vou aqui desfiar. Além de outros tive o especial amargo de coração de ver partir o meu sogro, pessoa de quem gostava muito, mas também tive muitas comemorações que, tudo indica, se prolongarão por este ano. Vi o meu filho terminar a sua formação académica, hoje já arquitecto a trabalhar num atelier na Suiça por sua própria opção, vi a minha filha casar-se e vi-a terminar a sua tese de doutoramento, faltando “apenas” a sua defesa em sede de dissertação, o que poderá ocorrer já no início deste ano. No que respeita a coisas da minha própria intimidade está dito o essencial.

Foi também um ano em que se confirmou o que todos já sabiam que iria acontecer mas que era preciso legitimar pelo voto do nosso povo. Os ataques desmedidos aos funcionários públicos, com especial ênfase nos professores, o sistema de ensino que ninguém consegue reformar, o sistema de saúde que ou não funciona ou funciona mal, a justiça que não anda nem desanda com processos a arrastarem-se penosamente nos procuradores e nos tribunais, as situações dúbias relativas a putativos actos de corrupção sem esclarecimento cabal, tudo isso acabou premiado, ao manterem-se os mesmos e as mesmas políticas em frente da governação. Os milhares de desempregados que em cada dia engrossam fileiras, as empresas que teimam em fechar ou a “deslocalizarem-se”, os subsídios escassos a quem efectivamente precisa e que nos vai mostrando uma fileira de pobres a puxar-nos, hora a hora, cada vez mais para a cauda do pelotão do desenvolvimento obriga-me a que, como disse atrás, me exclua do grupo daqueles que ainda mantêm viva alguma esperança.

Por mim, vou bebendo uns copos e deixando que a água corra por debaixo das pontes. Se for vivo, amanhã, brindarei de novo ao Deus Sol.

Feliz Ano de 2010 é o meu voto para vocês, minhas amigas e meus amigos leitores.

Foto, PreDatado©2009, S. Miguel, Açores

quinta-feira, dezembro 24, 2009

1510. Feliz Natal

De arco-íris e negros céus

Se fazem tempestades,

E os gatos ronronam

Em tapetes persas.

As tonalidades e murmúrios de Hossanas

No teu céu, são mundo meu e

Eu te amo.

Cerraste janelas e a noite

Invadiu o teu corpo de desejos.

Era frio e Natal.

E nós envoltos

Num presépio de afectos.


Foto PreDatado©, Dez 2009, Achada, Açores


O vosso amigo Pre vem por este meio comunicar, a todas as interessadas e a todos os interessados nesta quadra festiva, que lhes deseja um Feliz Natal de muito amor e de Paz. E para aqueles e aquelas que são cristãos como o Pre e para aqueles e aquelas que o não são, que Deus vos abençoe.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

1509. Conforto

Ainda não está muito frio, embora lá no interior do Alentejo as noites já comecem a ser fresquinhas. Mas que dá cá um conforto ter o lume aceso, ah isso dá. E até se assam castanhas. Vai um tintinho?

terça-feira, novembro 24, 2009

1508. Mestria e champanhe

Nem eu, nem a minha mulher fomos ou somos pessoas de nos imiscuirmos nas grandes opções dos nossos filhos. Contudo, sendo nós mais velhos, o que aliás, geneticamente falando, não poderia ser de outro modo, teve a experiência a gentileza de nos dotar de instrumentos, que poderemos chamar de úteis, para que, de alerta em alerta, os pudéssemos utilizar, não no sentido do proteccionismo, mas sim no da orientação em momentos de alguma fragilidade (deles) e também no do ensinamento na destrinça do que poderia ter ou não efeitos perniciosos no seu desenvolvimento. Posto isto, não fica difícil de perceber porque é que cá em casa há adeptos de diferentes clubes de futebol, porque é que a opção político-partidária não goza de unanimidade, porque é que temos visões diferentes das religiões ou porque é que uns preferem Radiohead e outros Caetano Veloso e por aí a fora, fico-me por aqui para poupar-vos à, sempre difícil, digestão dos textos corridos do PreDatado. Mas se por um lado tudo acima é verdade (juro mesmo, absoluta), também é verdade que nem só de pragmatismos vive o homem (tomem lá esta) e nunca lhes faltou um colo, um ombro, um abraço, um mimo, um carinho, uma ternura em todos os momentos que não só os necessários. Foi neste misto de afectividade e de céu estrelado, com algumas nuvens a vislumbrarem-se no horizonte (poeta!) que foram calcorreando as ruas do futuro, o qual lhes foi também ensinado que cada dia é o primeiro dia do mesmo. E hoje começa um novo futuro para o meu João Pedro. O meu filho, o meu menino, fez hoje a apresentação e dissertação da sua tese de Mestrado em Arquitectura. É um Mestre nesta arte, que a de gerir todas estas emoções mesmo que com a ajuda de um lenço para lhe afagar aquela teimosa lágrima que não para no canto do olho, mestre mesmo é o pai dele. Para ti meu filho, é hoje a taça de champanhe que eu levanto e, quando tomares a próxima decisão avisa-me que eu sou todo ouvidos.

sexta-feira, novembro 13, 2009

1507. Molhar a minhoca, diz ele

Jaquinzinhos com arroz de tomate, bacalhau à lagareiro, arroz de tamboril com gambas, sardinha assada na brasa, salmonetes na grelha, caldeirada à fragateiro, sopa rica de peixe, salmão fumado com cebolinho, gambas à la planche, amêijoas à bolha pato, salmão marinado com gengibre, pargo no forno à moda da avó maria, mexilhões à marinheiro, fataça na telha à moda do ribatejo, cachuchos fritos com arroz de grelo, pregado frito com açorda, peixe assado no forno com tomate, cebola e salsa, bacalhau à brás, pescada cozida com feijão verde, tímbalo de polvo, chocos assados com e sem tinta, caldeirada de lulas à moda da nazaré, espetada mista de tamboril com camarão e pimentos, lulas recheadas, bacalhau à moda de lafões, sopa de peixe à moda da costa verde, filetes de polvo com arroz do dito, pescada à florentina, vieirinhas recheadas, lagosta suada, lavagante na chapa, ostras frescas abertas ao natural com sumo de limão, açorda de sável à ribatejana, sopa de cação, achegãs de caldeirada em forno de lenha, bacalhau espiritual, espetada de lulas com chouriço, rissóis de camarão, safio com ervilhas à moda da póvoa, fritada mista de peixinhos do rio, carapaus alimados, escabeche de carapaus fritos de um dia para o outro, arroz de sardinhas à algarvia e não me venhas cá tu, grande rafeiro, dizeres que passavas bem com uma sandocha de couratos. Dedica-te mas é à pesca. E podes levar a tua jove contigo que ela ajuda-te a pôr a minhoca no piercing.

quinta-feira, novembro 12, 2009

1506. Rotinas

Vão chegando, entre as seis e as sete, juntam-se no muro com uma mini na mão. Como se fossem um bando de estorninhos que atacam a oliveira. Depois de um largo linguajar, os apertos de mão, dão meia volta e regressam ao lar. No muro fica a fila de garrafas que o tasqueiro, solicito, deita num balde. Amanhã sairá nova rodada. Até que o inverno chegue.

Fico na varanda a vê-los chegar, agora mais cedo porque a hora mudou. Para nós, não para eles, para eles o que muda é o tamanho do dia, o menor intervalo entre a manhã e a noite. Regressam em bandos às árvores, num estranho linguajar feito de chilreios. Não sei se me parecem estorninhos ou se o são.

Agasalhados, porque o vento ribeirinho corta, saímos todos como se fossemos um bando (de estorninhos?) do vapor – já ninguém lhe chama vapor, gente de outras gerações que têm catamarans de usufruto - na outra margem. Acenam em linguajares de até amanhã, de espere aí, de que chatisse, perdeu-se o autocarro, perdeu-se o metro, numa correria de horários. Aconchega-se o cachecol ao nariz, porque o vento ribeirinho corta. Amanhã, pela manhã, quer a luz do alvorecer raie ou não, abandonaremos a árvore e sairemos para os nossos campos (como estorninhos?) à espera de vindouros invernos.

Corta!

(gostaria de conhecer o autor da foto para lhe prestar os devidos créditos, mas infelizmente encontrei-a na net sem referência ao autor)

domingo, novembro 08, 2009

1505. Felicidade


Dizem que não se podem, ou melhor, que não se devem começar textos por determinadas palavras mas apetecia-me começar este por, Até S. Pedro se quis associar à tua festa, pois, na verdade, após os dias invernosos que se fizeram sentir desde meados da semana passada, continuado neste chuvoso dia de hoje, ontem o Sol resplandeceu maravilhoso para te ver sair, deslumbrante, de casa dos teus pais, a caminho de uma nova vida que te auguro risonha, por quem és e porque o mereces e, quem assistiu e testemunhou ajudou-me a encher o ego de pai (estou que nem posso) ao me fazerem saber que foi linda a festa, Anita.

Sabes minha filha, ontem, quando te conduzia na passadeira para “te entregar” ao teu noivo, mordi várias vezes o lábio inferior para que não me viessem aos olhos as pieguíssimas lágrimas, que conheces bem, mas que hoje, ao lembrar-me que vais sair deste ninho para fazeres o teu próprio não as consegui segurar, mas não te preocupes, porque se nisto há um não sei quanto de nostalgia ele há, e aí posso te garantir, um trilião de vezes mais de alegria e sabes porquê, Anita? porque eu te amo.


sexta-feira, novembro 06, 2009

1504. Ye Monks. Champanhe é amanhã

Em 1979, era eu um embarcadiço, assim como que armado em marinheiro (não gostava de whisky) pensava e repensava onde é que havia de gastar o dinheiro que ganhava, não muito diga-se de passagem, não havia centros comercias, o Colombo mais próximo que conhecíamos era um antepassado nosso, também marinheiro e, em Gaia, só passeavam rabelos, que petroleiros daquela envergadura só até ao Mar da Palha, mas isso já é Tejo, são outras águas (põe-se água no whisky, não é?), pois shoppings não havia desses, dos que há agora e então gastava-se o dinheiro na cantina (oh Felix abre ali a tasca que preciso de cervejas) mas era só a partir das quatro e picos quando o tasqueiro largava o quarto do meio-dia, também se encomendavam, através da cantina, ao ship chandler, alguns artigos de luxo (um dia levei uma rabecada por misturar coca-cola num Chivas Regal) entre eles uns sabonetes que só muitos anos mais tarde se começaram a vender por cá e até whiskies (uma queixa crime de quem não o beber puro) de maior prestígio.

Um certo dia (não me atrevo a fazer qualquer mistura) ainda eu não bebia whisky e a minha bolsa não dava para comprar o Royal Salut em bolsa de veludo azul gravada a dourado, comprei uma Ye Monks em garrafa de porcelana, whisky de 12 anos que hoje, passados que são (nem pensar em deitar-lhe água castelo, quanto mais coca-cola) todos estes 30 anos, já estará com os seus 42, já as vi à venda na net por 200,00€, portanto um bocadinho mais velho que alguns dos meus leitores e das minhas leitoras, mas tu nem gostas de whisky e isto custa um balúrdio, portanto vai ser aberta quando se casar o meu primeiro filho e vai daí foi preciso casar entretanto, ir aprendendo a gostar de whisky (uma pedrinha só), esperar os nove mesitos que essa coisa do pré-natal demora e toma lá que é uma menina linda, linda, linda.

Hoje, mais logo pela tardinha, vou abrir a Ye Monks. A Anita casa amanhã, Sábado, e Sábado é mais dia para champanhe do que para (o quê, água lisa, gelo? nem pensar) whiskies. E cá estarão alguns amigos para me acompanhar num brinde à minha filha, ao seu marido e ao seu novo futuro.

No Sábado jorrará champanhe!

(coca-cola, tás mas é maluco)

quinta-feira, outubro 29, 2009

1503. Reflexos de mim mesmo




- Seis anos depois e estás na mesma,

disse-me logo pela manhãzinha, mal me aproximei

- Na mesma como?

indaguei-o, pois não sabia (se calhar sabia, mas não me inteirei de imediato) do que estava a falar

- O mesmo rosto, o mesmo estilo, não mudaste nada

pensei que me estivesse a chamar conservador, no seu jeito meio sarcástico que às vezes chega a ofender, mas desta vez acabei por o perceber mais rápido do que o habitual

- É imagem de marca

disse-lhe com um sorriso

- Então, parabéns!

pareceu-me sincero, tenho de confessar

- Obrigado

respondi-lhe enquanto o via voltar-me as costas com uma flute na mão

(o meu espelho, quando se trata de comemorar o aniversário de O PreDatado, nem repara que não é costume, cá em casa, beber-se champanhe logo pela manhã)

sábado, outubro 24, 2009

1502. Não fiquei chateado

Eu gostava de conseguir fazer-me entender pelas minhas amigas leitoras e pelos meus amigos leitores quando tento justificar ausências tão prolongadas da blogosfera e sei que nem sempre o consigo. Na realidade, quem vai fazer dentro de uma semana seis anos de escritos bloguísticos predatados deveria ter outras obrigações, sei lá, mais responsabilidade perante quem se sacrifica tanto, quem chega mesmo a trocar um dia de praia, umas horas no SPA, vá lá, uma sandes de presunto ou até mesmo dois rissóis de camarão para vir aqui ler O PreDatado e, nada. Mas hoje competia-me no mínimo dar esta satisfação pública. Eu não tenho vindo aqui escrever por outras razões e não, como já alguém insinuou, por ter ficado chateado por não ter sido convidado para ministro do novo governo. Não estou chateado por não ter sido convidado para ministro, repito, pronto! Não estou chateado, bolas! Até porque se o tivesse sido não teria aceitado. E perguntam-me nesta altura da leitura as minhas amigas leitoras e os meus amigos leitores porque é que não fiquei chateado assim tipo: Pre, Prezinho (isto eram as amigas), porque é que não ficaste chateado? E aí eu respondo, porque na semana passada casou a minha sobrinha Sara e eu comprei uma gravata nova para ir ao casamento dela, daqui a pouco está a casar a minha Anita e eu também já comprei uma gravata nova para ir ao casamento dela. E vós achais que eu sou rico, sou? Pareceria bem eu tomar posse como ministro de gravata nova, não é verdade? E eu ganho lá para isso, hein? É que nem com a venda dos porcos, das vacas cor-de-rosa e das pomegranate trees, da minha famville lá no facebook se consegue auferir para tanta gravata.

terça-feira, outubro 20, 2009

1501. Gravata verde

Eu não sei e, confesso, nunca investiguei porque é que quando alguém pensa que poderá passar por uma grande vergonha utiliza a expressão “eu pintaria a minha cara de preto se…”. É natural que esta frase tenha conotações racistas, é também natural que não tenha, alguém que estude as frases populares que mo diga, que eu agradeço. O saber não ocupa lugar, ou ocupa mas eu acho que ainda tenho uns Gb livres. Posto isto, quem me conhece seja ao vivo e a cores seja através deste blog sabe que eu poderia utilizar esta frase e / ou outras política e socialmente menos correctas, não veria em mim qualquer preconceito racial.

Perguntais vós, amigas e amigos leitores deste blog, porque é que o PreDatado vem com esta conversa toda sobre preconceito, sendo ele um Sir, como todos o sabem. Pois meus amigos eu vou fazer a segunda confissão do dia: eu, PreDatado, Pre para os amigos e Prezinho para as amigas (já para não referir Sir Pre nos casos em que noblesse oblige) sou de facto um preconceituoso. Por mariquices que só as mulheres (quero dizer, a minha, não generalizemos) sabem a razão, devo ir a condizer com qualquer coisa, não só quando levar a minha filha na presença do representante da Lei, no dia do seu casamento, mas também e principalmente quando, em plena cerimónia, estiver lado a lado com vestido cor de esperança com que a minha cara-metade se irá apresentar. E vai daí, ontem, comprei uma gravata verde. Não vomitei na altura porque sou mais ou menos de bom estômago, mas se algum correligionário do nosso Glorioso Sport Lisboa e Benfica me fizer alguma observação jocosa lá terei de pintar a minha cara de preto. Pelo sim pelo não, vou levar, no bolsinho do colete, uma pequena bisnaga de tinta.

Imagem tirada daqui

segunda-feira, outubro 19, 2009

1500. Help me ou como quem diz dêem-me aí uma mãozinha

Um gajo passa um fim-de-semana descansado, logo iniciado na sexta-feira à tarde e senta-se à espera que lhe saia o euro-milhões que, como é mais de 76 milhões de vezes improvável, obviamente não lhe vai sair e, descansadamente também, assiste no dia seguinte a uma goleada das antigas, do seu Benfica, numa Taça de Portugal a que chamam de festa do futebol, vendo cada golo do Glorioso entre umas amêijoas à Bolhão Pato, umas gambas ao natural e um berbigãozinho da Trafaria, um paio de porco preto daqueles com 60% de desconto imediato no jumbo e um camembert com vinho tinto e, claro, sempre descansado, fica a saber que não lhe saiu, mais uma vez lhe não saiu o prémio acumulado há montes de semanas do totoloto que já vai em 7 milhões de aérios que lhe davam cá um jeito do caraças. Mas não deixa de se ir deitar descansado mesmo assim hesitando se devia de pôr um filme no leitor de DVD, ao calhas, daqueles mais de trinta a que nem sequer lhe tirou o celofane e que, sendo do ano passado já parecem ter mais barbas do que o pai natal, ou se deve ir ao corpo dar descanso para mais um domingo descansado, do qual tirando ter de fazer o almoço mexicano de fajitas e tacos, fora as entradas, se limitará a semear abóboras, a colher arroz, a plantar morangos e framboesas num novo vício chamado farmville, não é que para quebrar todo este descanso vem de lá um trojan qualquer se instala na página inicial do facebook, o avast não o deixa meter o pé em ramo verde e lá fica um gajo amputado de um membro cibernético que é o seu facebookzinho onde ele não produz grande coisa mas se entretém a espreitar e a seguir sugestões dos seus friends. Mas o pior, o pior é que este tipo que aqui escreve já lançou uma data de SOS no twitter mas parece que os seus followers ainda estão todos a dormir. E esta excitação toda à roda de um Cavalo de Tróia fê-lo sair do seu merecido descanso. Agora só lhe faltava sair a Lotaria para a desgraça ser total.

sexta-feira, outubro 16, 2009

1499. É só para facilitar a malta


Eu sei que me aburguesei (já faz uns anitos) e que um dos sinais exteriores de aburguesamento é o facto de ter passado a correr a coxia montado nos cento e tal cavalos do meu semoventezinho a quatro rodas. De vez em quando dá-me uma recaída e desato a utilizar transportes públicos onde, rara a vez em que não acontece, vou sempre tendo uma ou duas surpresinhas que dão para contar. Esta que tive hoje, naturalmente que só para um ser mal habituado é que pode ser surpresa, foi o preço do bilhete de barco para a travessia do Tejo entre o Cais do Sodré e Cacilhas. Custa 0,81€, sim, oitenta e um cêntimos. Fiquei mesmo a pensar que aquele cêntimozinho ali metido, como não dá para facilitar os trocos deve ser para o pessoal ter onde gastar o troco da carcacita que custa 13 cêntimos. Assim as duas pretinhas de sobra, dão para o bilhete de ida e volta. Está tudo pensado neste país maravilhoso.

PS. A utilização dos diminutivos anitos, semoventezinho, surpresinhas, cêntimozinho, carcacita, pretinhas não foi propositada. Eu é que sou muito meiguinho. Outro.
PPS. Sempre que vou ao Cais do Sodré (e cada vez são menos vezes) não resisto a ir ao British Bar beber um Alto-Douro. Não sei como é feita a mistura mas fresquinho sabe tão bem. Nostalgias.

Foto de jmcrosa encontrada aqui

terça-feira, outubro 13, 2009

1498. Trocas

Bem sei que não escrevo neste blog há uma data de dias e que para escrever isto mais valia estar quieto. Mas depois de ter estado mais de duas horas a ouvir um patético debate com 3 directores dos mais prestigiados jornais nacionais e um director de uma rádio especializada em jornalismo, onde não só não se esclareceu nada sobre os temas em debate como ainda mais me (nos?) deixou baralhado(s) e que terminou com a uma ainda mais patética acusação (sim acusação!), à laia de remate, do director do Expresso ao director do DN de que este teria sido jornalista desportivo (?????) acabo a noite a rir a gosto. E porquê?

Porque acabei de ler uma notícia, para mim benfiquista, saudavelmente fanático – o saudavelmente é da minha autoria e esperando que o director da blogosfera não me ache indigno de escrever num blog só porque eu gosto de desporto – que me deixou muito alegre. Então não é que José Eduardo Bettencourt vai apresentar hoje, no final da tarde, onze novos sócios do Sporting, entre eles o atleta Marco Fortes, campeão nacional do lançamento do peso, atleta este que hoje acabou de assinar contrato com o rival Sport Lisboa e Benfica? E não dá vontade de rir à gargalhada?

quarta-feira, outubro 07, 2009

1497. Tiros para o ar

- Que cara é essa? – Perguntei-lhe, pois não o costumo ver assim logo pela manhã.

- Não sei a que te referes… diferente de ontem? – Perguntou-me como se me respondesse.

- Não estás acostumado a que te interroguem, é o que é – disse-lhe eu tentando perceber o seu rosto estupefacto; definitivamente ele não estava a compreender nada.

- Olha lá – força de expressão, pensei, pois eu sempre estive a olhar – acordaste hoje com vontade de me chatear? É alguma vingança? – Voltou a interrogar-me.

(Abro aqui um parêntesis para vos relembrar que de facto é sempre ele que costuma fazer as perguntas ou, quando não, a atirar a primeira frase).

- Bom, eu vou directo ao assunto. Pareces um urso. Além dessa barba vergonhosa tens os cabelinhos todos em pé. – Agora sim, ele perdeu na antecipação. Quem me deveria estar a acusar era ele e não eu. Mas estou cansado de que em noites mal dormidas ou de estranhas condições seja eu o encostado à parede.

(deu uma gargalhada sonora e reflexiva de tal forma que o acompanhei na risota)

- Foi o vento caramba! Deves ter dormido que nem uma pedra, rapaz, não deste por nada e agora vens-me acusar de eu estar com os cabelinhos todos eriçados. – E dito isto o meu espelho tremeu, bateu ligeiramente contra a parede e por milagre não se fez em fanicos diante dos meus olhos.

(eu corri a fechar a janela).

Foto PreDatado©2009 – Vento