segunda-feira, março 19, 2012

1602. Canto o fado

Mais uma vez, a gentil e sempre simpática Ana Rita, promoveu na sua Casa do Guizo, mais uma noite de fados. Como é “minha” tradição, não podia deixar de estar presente, pois normalmente não dispenso as entradas. Este ano faltou o queijo fresco de ovelha, mas em compensação houve cabeça de porco desfiada e temperada à maneira. O vinho era da Herdade dos Lagos, a condizer com o repasto que depois do creme de legumes fez brilhar o arroz de pato com passas. Tenho uma pequena crítica à sobremesa que este ano não fez jus ao local onde estávamos, isto é no Alentejo mais profundo, embora não se possa dizer que o crepe com chocolate quente fosse algo que não se pudesse comer. O caldo verde com que fomos brindados num dos intervalos da fadistada estava divinal, mas houve quem preferisse um chá com bolo de canela e garantiram-me que estava muito bom. Parabéns portanto à Ana Rita.

E os fados, perguntam vocês que já estão de água na boca com tanta comida. Pois este ano o elenco era constituído pela Ana Valadas e pelo Miguel Camões Martins, com o Toi Rui na guitarra e o Henrique Gabriel à viola. Da Ana eu ainda não tinha tido oportunidade de ter ouvido gravação, nem de ver ao vivo. Do Miguel já tinha cuscado uns tubos e tinha uma ideia. Ao vivo são ambos duas agradáveis presenças, e duas vozes muito bonitas, jovens, bem colocadas, não desafinam, estilam à sua maneira alguns fados tradicionais e não só, animam a assistência com fados mais populares e revisteiros, proporcionam uma noite que só para quem estivesse muito cansado de um dia inteiro na “aceifa” se deixaria cair nos braços de Morfeu. Mas como não estamos em tempo de colheita, toda a gente ouviu, o silêncio foi rei quando era do silêncio o trono e as vozes eram de coro quando era para acompanhar o que os fadistas pediam.

Não foi em Lisboa, a menina e moça, não foi na Mouraria onde um rufia canta ou as guitarras trinam, não fomos à segunda sessão de uma revista, mas já era madrugada quando finalmente adormecemos. E neste momento em que a esperança, apesar de tudo ainda não está perdida, nem tenho vontade de ter ciúme, mas onde a tristeza me invade pois a saudade já me atormenta, canto o fado!


PS. A Casa do Guizo, fica no Concelho de Mértola, a um pulinho de Moreanes, em Pleno Parque Natural do Vale do Guadiana, tem uma estalagem de turismo rural e organiza vários tipos de eventos, incluindo festas de aniversário, casamentos e batizados. Para que a pub fique completa sem que a Ana Rita me tenha pedido nada, aqui fica o número de telefone:  286 655 171 Se forem para aqueles lados, entre Mértola e a Mina de S. Domingos, experimentem porque vale a pena. O site está aqui http://www.casadoguizo.pt/

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

1601. Com SCUTs e sem humor negro, ou vice-versa


Ontem à noite, Domingo, ouvi nas notícias que tinham sido contabilizados nas estradas portuguesas sete mortos na operação Carnaval, mais cinco do que no ano anterior, isto desde sexta à noite. Quer dizer, em dois dias. Ninguém, não sei se convém ou não, fez ainda uma comparação, uma analogia, sequer uma especulação, se estes acidentes estão ou não relacionados com um maior afluxo às estradas “alternativas” às antigas SCUTs, hoje em dia autoestradas com portagem. A muita gente estes dados não interessam para nada até porque viriam logo alguns daqueles comentadores das rádios, TVs e jornais, sempre os mesmos, que até ganham para dizer palermices, do género das que eu aqui digo mas que o faço de borla, que a medida do Governo de taxar as SCUTs é perfeitamente adequada porque não só faz entrar dinheiro nos cofres do Estado por via direta, as portagens, mas também por via indireta já que alguns dos mortos são funcionários públicos a quem deixará de pagar ordenados ou pensionistas e reformados a quem se deixarão de pagar pensões. Esquecem-se os comentadores oficiais do regime que também o Governo a alguns deles vai deixar de poder roubar os 13º e 14º meses e, pior ainda, vai ter de pagar alguns subsídios de funeral e pensões de viuvez. E se calha, algumas horas extras a coveiros e outros funcionários dos cemitérios. Numa visão economicista, que tanto agrada a este governo, há ou não que repensar as SCUTs?

terça-feira, janeiro 10, 2012

1600. Cruzadas



À primeira vista são duas cadeiras uma mesa e um cinzeiro. Junto à porta, o que parece ser uma lanterna é um pequeno aquecedor a gás. Sobre as cadeiras, a forrarem-nas peles sintéticas. Sobre as peles dois cobertores de lã. Uma esplanada (das várias que vi) em Berna, Suiça. Foi no mês de fevereiro do ano passado, estava frio, as fontes estavam geladas e os ursos ainda em hibernação, mas os clientes fumadores deste café que quisessem fumar poderiam fazê-lo no exterior com todo o conforto. Lá dentro, os que não fumam têm o seu espaço. Aqui está-se em vias de aprovação uma lei que proíba que se fume nas imediações dos cafés e restaurantes. O país, ou está a ficar louco ou os governantes criam fait-divers atrás de fait-divers para nos desviarem a atenção da forma desastrosa e impiedosa como que nos estão a afundar. Eu estou a cair na esparrela e a dar importância a todos estes loucos. Deve ser para compensar não ter perdido tempo com a casa dos segredos.

PS. Declaração de interesses. Fui fumador durante 34 anos e deixei de fumar há 5. Sou tudo menos um radical contra os fumadores e não alinharei em cruzadas, antes as denunciando enquanto mo deixarem fazer.

terça-feira, dezembro 20, 2011

1599. Padre Ricardo Gameiro


(1929 – 2011)

Não tive a oportunidade de privar com o Senhor padre Ricardo Gameiro o suficiente para o conhecer como homem. Dizem os que o conheceram que deve ser escrito Homem. Assim mesmo com H grande. Mas se morreu o Homem, quem fez obra deixa herança. Lamentando profundamente a sua morte e com a esperança na Ressurreição a minha mulher, Maria José e eu  deixamos aqui a lembrança da pessoa e da sua obra. Basta acederem ao link da sua Obra Social.

PS.:
As cerimónias fúnebres terão lugar na Igreja Nossa Senhora de Fátima (Cova da Piedade / Av. 23 de Julho)

Dia 20 – 21.00horas missa de corpo presente
Dia 21 – 10.00horas exéquias seguido do funeral para a terra natal em Torres Novas

sábado, dezembro 10, 2011

1598. Yasmin


Minha linda gatinha, viajaste hoje para o céu dos gatos e deixaste-nos a todos mais pobres. Temos a certeza que nesse céu se acendeu a mais doce e a mais terna das estrelas. Estamos tristes, muito tristes.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

1597. Obra Social do Padre Ricardo Gameiro - Cultura Aberta




Na vasta obra social do padre Ricardo Gameiro há lugar para a cultura. Cultura Aberta é o nome do conjunto de atividades que ali são levadas a cabo, digamos como extra objetivo principal da instituição. Hoje, um grupo de pessoas, na generalidade já reformados mas não só, juntam-se em aulas de Restauro, Cerâmica, Informática, aprendem a cantar o Fado, a tocar cavaquinho, formaram um grupo coral chamado “Tertúlia da Esperança”, tricotam e fazem tapetes de Arraiolos, organizam passeios, fazem caminhadas entre outras atividades. Acima, nas fotos, mostro-vos a árvore de Natal decorada com enfeites tricotados, uma foto da Tertúlia e outra do último local visitado, as minas do Lousal. A Tertúlia da Esperança, que ainda hoje esteve a atuar para os/as residentes do lar da Santa Casa da Misericórdia de Almada estará de novo no Mercado da Terra, à semelhança do ano passado, desta vez no Fórum Romeu Correia, às 20h30 do próximo dia 17. Quem quiser aparecer, escutar e aplaudir, está desde já convidado.

domingo, novembro 27, 2011

1596. Fado


Fátima, fados e futebol é o que mais tenho lido nos blogs desde que há poucas horas foi anunciado Fado como Património Imaterial da Humanidade (seja lá o que isso for). Bem sei que os governos se aproveitam de factos colaterais para nos desviar a atenção do fundamental, mas acho que não é por aí, pelo aproveitamento dos blogs de esquerda desta nomeação do fado que se faz a luta política, alguns mesmo invocando a satisfação que Salazar deve estar a ter no túmulo neste dia de hoje. Não sou dos que viraram ou vão virar abstémios só porque Salazar considerava que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, nem a coca-cola faz ou vai fazer parte da minha dieta só porque Salazar a proibia. Sou católico, devoto de Fátima, benfiquista até mais não e um grande amante de fado, frequentando casas de fado, comprando discos e privilegiando as rádios que o passam. Isso nunca me impediu de ser um combatente anti-fascista, de ser militante de esquerda, de lutar pelos direitos de quem trabalha, de lutar pela liberdade. Como diria o poeta, meu caros bloguistas (que hoje são até mais de esquerda, apesar de terem apoiado a assinatura do MoU com a troika), não, não vou por aí.

sexta-feira, novembro 25, 2011

1595. Trapo azul




Mais uma vez no Trapo Azul. A noite foi de fados como é praticamente sempre na última quinta-feira de cada mês (em dezembro será excecionalmente no dia 22). Come-se bem neste restaurante da Capitão Leitão em Almada e o José Raposo, sabe da coisa, desde há 17 anos no Trapo.






Vários foram os fadistas que por lá passaram onde entre outro pontificaram o António Cruz, o José Bolinhas, o Zeferino António, o Carlos Cruz. Dos “educandos” do António Cruz, brilharam a Anabela Jerónimo, a Ofélia Silva, o José Inácio, o Teófilo Araújo e a Maria José Capote. Todos acompanhados à guitarra e à viola, pelo Manel e pelo Fernando. Eu, que comi uma belíssima costeleta de novilho no carvão acompanhada do tintinho da ordem, fui tirando umas fotos. As fotos não cantam o fado mas vão mostrando o estilo. Para mais tarde recordar.




terça-feira, novembro 22, 2011

1594. Dupla fraude. E ninguém tem vergonha?

Há alguns dias atrás o meu pai foi a uma consulta à sua médica de família no Posto Médico da sua área. Entre outros exames que é normal pedir a uma pessoa com a idade do meu pai foi também requerido um conjunto de exames à função respiratória, estes a serem realizados no Hospital Garcia de Orta (HGO). Até aqui tudo normal, o meu pai pagou a consulta no posto médico e à medida que foi fazendo exames e análises, aqui e ali, foi pagando os respetivos exames. No HGO foi diferente. Não que não tenha pago os exames. Claro que pagou. Só que a secretaria do HGO obrigou a que se pagasse uma consulta mais. Isto é, para que os exames sejam feitos no hospital é preciso que tenha havido uma consulta no hospital. Ora essa! Então o meu pai não vem como uma requisição do SNS? Vem! E o HGO não presta serviços para o SNS? Presta. E a requisição de exames iria ser mudada? Não! E já tinha pago a consulta no Posto Médico? Tinha. Ok está bem, vamos lá fazer nova consulta. Qual consulta? A que acabei de pagar. Não, só tem de pagar, não é preciso ter a consulta. Ah! Já percebi, tenho de pagar 2 consultas e só ter direito a uma, não é? É!

Como se isto não bastasse, um dia destes será reportado a Portugal e ao mundo o número de consultas que se fazem nos hospitais portugueses. E estas apenas pagas mas não feitas estão lá. Uma segunda fraude. E ninguém tem vergonha disto?

terça-feira, novembro 15, 2011

1593. O meu reparo de hoje

O meu reparo de hoje vai para a nossa investigação / justiça (fico sem saber a quem fazer o reparo, porque não sou jurista). Para julgar um ex-administrador do Supremo Tribunal de Justiça há um mega-processo com 12 réus. Doze advogados. Doze vezes mais recursos. Doze vezes mais possibilidades de faits-divers que conduzam ao alongamento do prazos. Doze vezes coisas a que já estamos habituados. Com certeza este também prescreverá. Ou será arquivado. Ou serão todos ilibados. Ou...

segunda-feira, novembro 14, 2011

1592. O meu reparo de hoje

O meu reparo de hoje vai para Rui Jorge, treinador da seleção nacional de futebol sub-21. Então o menino, quando a fraquíssima seleção da Albânia empatou, num jogo em precisavamos ganhar resolveu tirar o ponta de lança? Ai, ai, que merece umas palmadinhas no rabo, merece, merece.

domingo, novembro 13, 2011

1591. O meu reparo de hoje

O meu reparo de hoje vai para a quantidade de automóveis que circulam nas estradas portuguesas sem pisca-pisca ou com estes avariados. Este número sobe substancialmente nos fins de semana, mas o aumento exponencial de avarias destes sinalizadores de mudança de direção verifica-se mal o automóvel entra numa rotunda. Aí é que não funcionam mesmo. Deve ser bruxedo.

sexta-feira, novembro 11, 2011

1590. No centro

Quando aquela ameixa caiu da sua árvore um ayatollah rezava em Teerão e um jogador de rugby treinava placagens num campo da Nova Zelândia.

Mas o mundo não roda apenas em torno de ameixas, ayatollahs e jogadores de rugby. Há presidentes da república, corretores de bolsa, acordeões, sapatos de verniz, primeiros ministros, princesas, carapaus, baldes de lixo, futebolistas, atacadores, sacerdotes, restauradores, guitarras campaniças, computadores, bailarinas, águias reais, deputados, funileiros, atores e atrizes, conspiradores, barqueiros, loucos, bêbados, terroristas, médicos, pilotos, sapateiros, máquinas de calcular, sanitas, chinelos de quarto, soldadores, senadores, cálices de licor, castanhas assadas, mandioca, telemóveis, hidroaviões, crocodilos, bandeiras, chefes, lápis, auscultadores, máquinas fotográficas, estetoscópios, lâminas de barbear, cervejas, cavalos, enfermeiros, telenovelas, rabiscos, apara-lápis, sucata.

O tordo, sentindo-se excluído da lista, picou em voo rasante e comeu a ameixa.

sábado, outubro 29, 2011

1589. Oito anos



De repente, um esquecimento. Passou um melro e comeu-o.
Depois uma lembrança. Passou um maracujá e espremeu-a.
A seguir um pedido. Passou um bife da vazia e esqueceu-o.
Mais tarde sentou-se no banco de um café um pequeno grão de milho.
Passou um pombo e ignorou-o.
Já a tarde tinha entrado havia horas. Entrou um relojoeiro e parou-as.
A pedra de gelo, sentiu-se com calor. Veio um unicórnio e lambeu-a.
Lambeu também uma cabeça de carapau, duas baratas sem pernas e um tiranossauro rex.
Um velho, sem chapéu a cobri-lo, trauteava uma velha canção dos Açores.
Passou por nós, sem sentido, um flato de uma garota, que descuidada pôs a mão na boca e corou.
E assim, ia passando o tempo que acabava de começar. E quando o pano caiu tinha-se acabado o primeiro ato.

Quando ele escreve, torna-se perigoso. Anda há oito anos a falar para as paredes e para o seu gato de estimação. Agora toca cavaquinho.

Quando o seu blog, triplicando a idade de hoje, fizer vinte e quatro anos, ele não sabe se estará cá para o escrever. Cantem-lhe um fado Mouraria estilizado se ele deixar saudades.

domingo, outubro 23, 2011

1588. Lunch Time Blog



Um dia destes perguntava uma amiga minha no Facebook se alguém conhecia um método verdadeiramente eficaz de descascar cebola sem chorar. Eu não sou propriamente um chef mas se há hobbies que me satisfazem, um deles é o de me enfrentar com a bancada da cozinha. Não saem pratos gourmet, não há cozinha molecular nem mariquices supérfluas de empratamento mas, dizem os que comem, que saem dali petiscos de truz. Pois minhas queridas leitoras e meus queridos leitores eu passo um tormento indiscritível com a cebola. Passo não, passava. E não pensem que foi com as respostas que colocaram no Face ao pedido da minha amiga. Não foi porque na verdade não resultam, já que já as experimentei todas. Não resultam para mim, claro. Mas eu próprio, numa de momentânea inspiração sugeri que ela usasse óculos de natação. Então não é que hoje, experimentei a minha dica e tenho aqui os olhos limpinhos como se as cebolas não tivessem ácido? Temos é que depois deixar assentar um pouquinho a poeira. E pelo sim pelo não, lavar os óculos e as mãos em abundante água corrente.

PS. O meu gato Schubert não aprecia muito estes petiscos. Ele é mais ração da Royal Canin e latinhas da Gourmet. No entanto ao ver-me assim, de óculos de natação a cozinhar pediu-me para lhe comprar uns para ele. Diz que também quer parecer um extra-terrestre.

terça-feira, outubro 11, 2011

1587. À atenção de Nuno Crato.

Oh Crato, organiza-te meu! Bem sei que nestes últimos anos tivemos como primeiros ministros Cavaco, Guterres, Durão, Santana e Sócrates e se queres que te diga, para mim isso não abona nada a nosso favor. E também não abonam nada a nosso favor, os ministros e secretários de estado da educação que tivemos. Agora com Passos meu, e principalmente contigo Nuno, estamos todos muito esperançados. Por isso, organiza-te. Ainda há pouco, quando vinha da papelaria onde fui meter o boletim do euromilhões (bem sabes que sem um bocadinho de sorte ninguém sabe onde vai parar) estavam dois cachorrinhos na brincadeira. Os canitos, como se diz lá na minha terra, teriam 3 a 4 meses de idade, pareciam gémeos e brincavam desalmadamente. Coitaditos, ao contrário da maioria dos portugueses, nem fazem ideia, com aquela idade, do que vai ser uma vida de cão. E cabriolavam, rebolavam-se, saltavam um por cima do outro. Na assistência, onde pontificavam os donos dos bicharocos, apenas crianças, cujas carinhas não me indiciavam ter mais de 13 anos, incluindo os proprietários dos bichinhos. Pois meu caro Nuno, do meio deles veio a frase que me chocou e que me mandou fazer este post. Uma menina disse em voz alta, olha ele está a querer ir ao cu ao outro. Pelo amor de Deus, Nuno. Não me defraudes. Põe mão nisto. Organiza-te, meu, deixa lá os museus em paz.

PS. Acho que os museus é mais coisa do Viegas, mas Crato, desde o Arnaldo Matos que não temos um grande educador. Faz-me lá o favorzinho de educar também o Francisco.

quinta-feira, setembro 29, 2011

1586. Lembranças

Lembro-me de muitas coisas. Mesmo muitas. Umas mais interessantes que outras, outras menos. Lembro-me de uma vez ele ter faltado à aula que tinha de dar numa certa quarta-feira. Ficamos com pena, pois gostávamos muito das aulas dele. Na semana seguinte pediu-nos desculpa e disse-nos que tinha estado constipado. Nas bocas de alguns de nós havia um pequeno sorriso amarelo. Tínhamos sabido, durante a semana que tinha decorrido, que ele tinha passado algumas noites nos calabouços da PIDE. Lembro-me de uma ocasião ele, na sua missão de sacerdote, ter casado um primo meu. Na fila por detrás da minha, quase junto à porta da igreja, estava uma senhora, que não me recordo se foi convidada ou se seria uma daquelas senhoras que costumam passar o seu tempo na igreja, a que o vulgo designa por beata. A frase da senhora que retive foi coitadinho, tão bom rapazinho, que pena ser casado pelo padre comunista. Não acredito que o fossem. Nem o meu primo coitadinho, nem o padre comunista. E mesmo que o segundo o fosse, isso não teve influência nenhuma no casamento. O meu primo está casado há mais de quarenta anos. Finalmente, quando um grupo do meu liceu decidiu começar um processo de alfabetização num bairro de barracas que existia em Almada, fui um dos designados para ser recebido pelo então Presidente da Câmara Municipal. Estavamos em 1971 e o regime em vigor no país era a ditadura do Estado Novo, continuando Marcelo Caetano a obra de Salazar mas que, por algumas tentativas de reforma liberal, alguns ainda ousaram chamar de primavera marcelista e que nesse ano já se esfumava. O Dr. Serafim Silveira Júnior, Presidente da Câmara, pessoa de boa educação e trato cordial, não sem o seu quê de demagogia, mas parece que não há cão nem gato que não a faça, colocava várias reticências em nos fornecer o equipamento necessário para a concretização de uma sala de aulas no meio das barracas. Quando eu lhe disse que se o Sr. Presidente o não fizesse tínhamos alternativa, pois o Sr. Padre António Augusto Sobral já se teria disponibilizado para o fazer, a conversa mudou de rumo e, poucos dias depois, a nossa barraca/sala de alfabetização estava equipada e a funcionar. Isto é ilustrativo do respeito que o padre Sobral merecia.

Sem qualquer motivo aparente, nem eu sei explicar porquê, hoje lembrei-me do padre Sobral. Que seria feito do meu professor de Religião e Moral dos meus tempos de Liceu? Procurei na Internet e constatei que o padre António Augusto Sobral falecera em Julho de 2008. Senti uma certa comoção e arrepiaram-se-me os pelos do corpo. Que esteja em paz, aquele que foi um grande humanista e um dos meus primeiros mentores pela causa da liberdade.

segunda-feira, setembro 26, 2011

1586. A frente ribeirinha de Almada


Calcorreio, vezes sem conta, o passadiço do Ginjal, de Cacilhas ao jardim do miradouro, do miradouro a Cacilhas. Desço do Cristo-Rei à Arealva, da Arealva ao Olho-de-Boi e faço o percurso inverso, todas as vezes com uma esperança. Uma esperança vã de um dia encontrar uma zona ribeirinha de Almada digna desse nome. Bonita, atraente, amiga dos almadenses e de quem nos visita. É chocante a degradação em que, dia após dia, encontramos aquele que poderia ser o ex-líbris da cidade: o seu confronto com o rio, a irmã do sul da capital. Não o posso garantir, mas quase que juraria, que a recuperação da frente ribeirinha desde o Caramujo ao Forno do Tijolo já deve ter sido prometida pelo menos umas trinta vezes em campanhas eleitorais. Quase que juro.









Ontem uma vez mais desci à Arealva, assim é o nome da quinta onde até há pouco menos de cinco anos eram as instalações da Sociedade Vinícola do Sul de Portugal, propriedade de J. Serra e Irmãos (a propósito, tenho ainda alguns Dãos e Douros de coleção, além de uma aguardente vinícola de estalo desta firma). Quando esta sociedade decidiu encerrar a atividade, centenária naquela zona, consta-se que vendeu a quinta não se sabe bem a quem. Pronto, poderia por aqui um ponto final. É propriedade privada, fique-se por aqui. Mas não, não acho que deva terminar. Não sei a quem pertence a jurisdição daquele território, se à Câmara Municipal de Almada ou se à APL. Seja a uma ou a outra, a única coisa que vos digo é que tenham vergonha na cara. Não sabem como se faz, mesmo sendo propriedade privada? Não sabem? Gastam tanto dinheiro em tanta porcaria, metam-se no carro e dêem uma voltinha por essa Europa fora. Comecem já aqui pelo país ao lado, por Espanha, vão à França, à Suíça, à Áustria e até à Croácia. Não sabem? Aprendam! Não sejam cúmplices do atentado que se faz ao nosso património urbano ou natural, tanto faz. Vejam as fotos e tenham vergonha na cara. Olhe, para si especialmente Srª Presidente da Câmara, parafraseando não me lembro quem. A História não se faz só com glórias. Faz-se também com misérias.









sábado, setembro 24, 2011

1585. Acertei

Aos urinóis dos centros comerciais que eu mais gosto de ir é àqueles que têm uma bolinha de naftalina. Enquanto faço o meu xixizinho entretenho-me a fazer apontaria à bola.

segunda-feira, setembro 12, 2011

1583. Lunch Time Blog - o polvo


Muito justamente tenho sido acusado de preguiçoso pelos poucos e poucas, estas mais do que eles, mas muito bons e muito boas, passe a brejeirice do termo, queridos e queridas amigas leitores e barra ou leitoras do PreDatado. E se é bem verdade que estas minhas ausências do PreDatado, o blog, que o PreDatado, a pessoa, ainda não tem ausências (bati três vezes na madeira para que o sr. Alzheimer não leia este post) se devem fundamentalmente a esse desviante pecado mortal, não muito grave por ser o sexto da hierarquia, a verdade é que também não encontro muito para dizer. Por exemplo, e vocês sabem que não gosto nada destes trocadilhos, tipo a semana passada fui passear a Castelo de Vide e, depois, chegar aqui e dizer-vos que foi por cauda de uma promessa que fiz à minha mulher. Claro que não poderia olvidar-me de rematar com um inesperado e muito original, o que é prometido é de Vide. Pronto! Estava a parvoíce instalada. Pior, pior, era eu vos dizer que visitei um castelo em Estremoz, outro em Veiros, ainda em Castelo de Vide e, para mim, o mais bonito, em Marvão. E concluir que apesar de ter lá encontrado o meu amigo Apolinário não o vi com a sua estimada esposa, a Clara. Definitivamente, ainda não estava a clara em castelo. Outra parvoíce. Ou, por exemplo, virar-me para o campo político e dizer que fui ao Alentejo profundo para ver se via o Álvaro, já que se não deixa ver pelo Terreiro do Paço. Mas perguntar por onde anda o Ministro da Economia não teria nada de original pois até o António José Seguro, que eu ouvi atentamente este fim de semana no congresso cor de rosa, e que não nos trouxe nada de novo, já fez essa pergunta. Então a minha interrogação seria muito menos ajustada do que a dele e não traria nada de novo ao blog. Agora uma coisa é certa. Ainda vou aprender a fazer aquela alhada de cação que comi na Varanda do Alentejo em Marvão, que estava pura e simplesmente divinal ou as burras no forno que nos foram servidas na Adega do Isaías em Estremoz. E neste LTB não podia deixar de dar uma palavra de simpatia ao David que o país fez o favor de transformar de um licenciado em gestão de empresas em empregado de mesa. Força David! E uma outra para a Patrícia que com uma tremenda simpatia nos serviu no restaurante do Sever em Portagem e que com os seus 19 anos ainda tem esperança que o curso de comunicação social que frequenta a possa levar a outras paragens e com outras portagens. Muitas felicidades para ambos.

PS. O Schubert ficou estes três dias, em que estive de lua de mel, em casa. Quando cheguei, foi o primeiro a quem contei as peripécias da viagem. Quando lhe falei do projeto de post que estava a pensar escrever, no seu pensar de gato ficou na dúvida se eu deveria referir que no restaurante Adega, no Crato estive 1h e 08 m à espera que me servissem um polvo à lagareiro. No miar dele quis-me dizer, coitados, e tu sabes quanto tempo demora a pescar um polvo?