quinta-feira, setembro 13, 2018

1642. Lunch Time Blog - Em ponto lula


A Maria José fez lulas de tomatada com arroz ao almoço e eu fiz uma omelete de frango para o jantar. As enormes e lindas lulas que ela esteve a arranjar ficaram bem pequenas no tacho e eu aproveitei o frango de churrasco que sobrou do almoço de ontem para desfiar e preparar a omelete. Não são pratos de extrema laboração, não poderiam concorrer no Master Chefe sob pena de termos de ir à prova de eliminação, mas o que conta é que estavam saborosos. Na omelete juntei um pouco de pimenta preta moída na altura, já que no churrasco de véspera não tinha sido usado nenhum picante. As lulas estavam no ponto, nem elásticas, nem a desfazerem-se, estavam num ponto, a que poderíamos designar por, não sei se existe ou não, ponto lula. A Charline, que é a nossa gata preta e branca com um bigode à Charlot, miou à nossa volta à hora do almoço, mas esteve sossegada ao jantar pelo que se pode deduzir que o prato confecionado pela Maria José estaria mais apelativo. Eu gosto mais de lulas recheadas, mas se a minha mulher o tivesse feito hoje corria o risco de no fim do cozinhado termos ingredientes recheados com lula, a não ser que tudo encolhesse na mesma proporção. O arroz estava soltinho como devia estar o que, com aquele molho da tomatada, ficou ainda mais gostoso. A omelete foi acompanhada por meia dúzia, poucas por causa do sal, de batatas fritas de pacote Lays gourmet compradas em promoção por metade do preço e uma salada de tomate coração de boi temperada com orégãos. Ah, é verdade, enquanto estive a descrever o que descrevi esqueci-me de dizer que o ministro Cabrita apresentou os sete pontos do governo para a descentralização, que o Putin anda a brincar aos espiões com os ingleses, que o tufão Florence se aproxima da costa sul dos Estados Unidos e que o vice presidente do Benfica deu uma conferência de imprensa por causa do roubo de correio eletrónico privado. Como não percebo nada de meteorologia um dia destes escreverei sobre trabalho precário, o que, não vem nada a propósito nestes LTB, pois é de ir à náusea. Entretanto, porque preciso de fazer umas análises ao fígado daqui a um mês e porque os meus diabetes andam um bocado malandrinhos, acompanhei as referidas refeições com água fresca e assim o farei às vindouras. Quando puder voltar a comer caviar logo voltarei ao champanhe. Mas para falar verdade, verdade, gosto mais de ameijoas à Bulhão Pato. Com champanhe, claro!

PS.  Aqui atrasado, farto de comer sopa, pedi à minha mulher que me fizesse faisão para o almoço. Estava delicioso. Comi três tigelinhas, com umas sopinhas de pão.

terça-feira, agosto 28, 2018

1641. Ser ou não ser Inácio

A indecência dos canais premium de desporto. Quando a Benfica TV (BTV) reduziu o número de canais de 2 para 1 deixando de transmitir jogos de campeonatos internacionais, nomeadamente de uma das mais competivas ligas da Europa, a Premiership, esperei que a BTV fosse oferecida aos seus espectadores por um preço mais baixo. Não o foi e eu não achei bem. Mas ainda assim dei de barato. Quem subscreve a BTV é maioritariamente benfiquista e se o continua a fazer, aliás como eu, é porque se lhe aplica o pensamento de Blaise Pascal de que o coração tem razões que a própria razão desconhece. 

Já à SportTV não me parece que lhe seja aplicável a mesma máxima. A SportTV, por principio, tem como clientes aqueles que querem ver vários desportos e modalidades, independentemente da sua cor clubista. Por isso, oferece um pacote, para mim e até há pouco, mas já lá vamos, a um preço razoável de menos de 30,00€ mensais, ou seja 1,00 euro por dia, que é o preço de um jornal diário desportivo, salvo erro ou omissão, pois que já há muito tempo não os compro, e que sob o meu ponto de vista, a tv, embora não não sejam diretamente comparáveis oferece um produto de melhor qualidade. Acontece que este ano a SportTV perdeu para a Elevens, mais um operador cabo para desporto, os direitos de transmissão dos jogos da Champions League e os jogos da La Liga, a liga espanhola de futebol. E não é coisa pouca atendendo a que, se calhar, La Liga é a melhor Liga Europeia e que a Champions League, também designada por Liga Milionária, é a que cobra aos operadores os mais elevados valores de direitos. Sendo assim, este ano, a SportTV poupará largos milhões de euros nos seus custos o que poderia/deveria ter uma correspondência no valor da oferta ao consumidor. Mas não teve. 

E isso faz-me pensar se não deverei telefonar ao Inácio a perguntar-lhe quais os sites da internet é que ele usava para ver os canais premium de desporto. Pode ser uma opção, ou não?

sábado, julho 28, 2018

1640. Fobias e almoços ou mais um LTB


V tem algumas fobias, é ele que o diz e eu não tenho como duvidar. Sei que a sua terapeuta e amiga MH conhece algumas, mas as que fazem parte do foro clínico privado, nem ela nem eu as divulgaremos. Dei-lhe a minha palavra. Mas há uma que me dá uma certa graça contá-la, espero que esta o V não a tenha como privada, pois falamos nisso abertamente e fora do âmbito clínico. E lembrei-me disto à hora do almoço, por isso incluí-la no meu LTB. Entrei num snack bar, (ainda se usa esta expressão?) com vontade de comer uma bifaninha e tomar uma bejeca, pedi ao balcão e o senhor solícito e amável, mandou-me sentar que já me atendia. Pelo caminho reconsiderei e achei que iria comer um prego no prato. E, depois da mesa posta, o senhor que há pouco estava ao balcão perguntou-me só para confirmar: É então uma bifaninha no pão e uma imperial, não é? E eu ripostei, Olhe traga-me antes um prego no prato com umas batatinhas fritas, não são das congeladas, pois não?, e uns pickles. E sim traga-me uma imperial. Isso vai demorar um bocadinho mais, informou-me. Não faz mal, respondi. E ali fiquei no bar praticamente vazio, o tipo do balcão que devia ser o patrão e que era também quem atendia às mesas e quem fritava as bifanas, grelhava os pregos e picava os pickles, uma boa meia dúzia de mesas à espera de clientes, um cão deitado no chão junto a uma das mesas, com ar de poucos amigos, assim de uma raça que não conheço, focinho achatado a parecer um tanque de guerra, pelo branco com manchas cinzentas, meio com ar adormecido mas que, na verdade, nunca tirou os olhos de mim. Pacientemente comi o meu prego, sempre, também eu, sem tirar os olhos do cão, num perfeito tête-à-tête,
 mas já com uma saída de emergência fisgada, não fosse o diabo tecê-las e eu à rasca, mas onde é que andará o dono do cão? E foi aí que me lembrei do V.

O V tinha a mania de mudar de emprego, como quem muda de camisa. Não que não se sentisse bem onde trabalhava, presumo que de algumas delas sente ainda hoje saudade, pela forma como fala das mesmas, mas achava sempre que podia não só aprender mais, mas também ser mais valorizado pelo trabalho e pela influência que tinha nas empresas onde trabalhou. Talvez nisto houvesse uma certa dose de narcisismo, mas ele era assim mesmo e a verdade é que, tanto quanto sei, foi sempre bem-sucedido nesta sua pretensão, ou melhor, nesta sua perspetiva de melhoria pessoal no mundo do trabalho. E dai que passava o tempo a responder a anúncios.

Entrou num prédio que, pressupostamente, deveria ter porteiro. O átrio era amplo, tinha um sofá em couro preto, sobre um pavimento de mármore branco, impecavelmente limpo. No balcão, em meia lua imperfeita, deveria existir um porteiro, mas ninguém estava para o atender. Um prédio que parecia deserto, silencioso, quase fantasma. E isso começou de imediato a incomodar V. Subiu ao quarto andar. Carregou no botão do elevador, esperou apenas alguns segundos, as portas abriram-se de par em par, V entrou num elevador todo em aço inoxidável, mais parecendo um elevador de hospital, vazio como era de se esperar, um painel de botões que ia até ao 12º, um subir absolutamente silencioso, num ápice no quarto andar. Tocou a campainha do 4º esquerdo, mas não ouviu o toque. Quase em simultâneo, um subtil click de abertura do trinco, a porta começou a abrir-se paulatinamente sem que ninguém lhe tocasse, V entrou, pediu licença sem obter qualquer resposta e só um novo click de trinco lhe fez notar que a porta se havia fechado nas suas costas. Levantou um pouco a voz, Boa tarde, onde me devo dirigir, mas aquele corredor frio e vazio, não lhe respondeu. Esperou, pelas suas contas duas horas, pela passagem real do tempo não mais de vinte segundos. Uma eternidade! Um senhor, alto, muito mais alto do que o 1m63 de V, trazia pela trela um imponente pastor alemão, de ar ameaçador, de dentes aguçados que fez o favor de mostrar num imenso bocejo. Falando um francês com sotaque de Bruxelas, o senhor que recebeu V, fê-lo entrar numa ampla sala, talvez uns quarenta a sessenta metros quadrados bem medidos, de decoração austera, dois sofás, um aparador, na parede dois quadros, uma pintura de Paula Rego e uma gravura quinhentista de um mapa-mundo de grande qualidade gráfica e riqueza de cores, com uma rosa dos ventos que só por si não deixaria ninguém indiferente à presença daquele quadro e escrito, se não em castelhano, em português arcaico daquele que só vê nos fac-simile das obras de Luís de Camões ou do padre António Vieira. V foi convidado a sentar-se, mas antes que a entrevista para o novo emprego começasse, o eventualmente belga e possível dono do pastor alemão deixou-o só com o seu portentoso animal em guarda. Passaram-se um, dois, três minutos, três anos? Para V, um século, as pernas tremiam-lhe, a serenidade abandonava-o, na rua não passava um carro, não passava uma senhora com o seu saco de compras no Corte Inglès ou na Loja das Meias, um executivo de gabardina e pasta na mão, um homem estátua que regressasse de um dia de estático mister, ninguém de quem se pudesse socorrer, ninguém a quem soltar um grito de socorro, se a sua fobia a cães e ao vazio o fizesse entrar em desespero. Ninguém. Só, numa sala com um cão.

Paguei a conta e saí. Seria igual se em vez de um prego, tivesse sido um bacalhau à Brás, uma económica em tijela de alumínio, dois rissóis e uma carcaça. Desde que a imperial estivesse fresquinha.

quinta-feira, julho 26, 2018

1639. O tipo que não para de escrever ou tragam uma camisa de forças, por favor



A propósito do nome de uma telenovela, VIDAS OPOSTAS, que vi anunciada na SIC e que confesso não ser um espectador do género, não que não goste, mas porque me custa ficar preso meses a fio a uma história, lembrei-me de que também eu estou envolvido como autor e como coautor em alguns projetos de ficção dos quais vos dou agora conhecimento, se é que isso possa contribuir para o vosso bem estar geral e consolidação de conhecimentos, a saber:  VIDA EM APOSTAS, a história de um jogador inveterado; VIDA EM TOSTAS, a história de uma empregada de lanchonete; VIDAS ÀS COSTAS, ficção à volta de um estivador, pai de família e meu amigo pessoal e de outro estivador, primo do primeiro; VIDA ÀS POSTAS, a dura vida de uma peixeira, por sinal carregada de fios de ouro; VIDAS EM BOSTA, uma novela sobre uma família numerosa, pai, mãe e oito filhos dos quais 3 menores, ele, o pai e chefe de família, por resignação da mãe, limpador de cavalariças e também da vacaria do senhor Olegário; VIDA EM POSTS, a inenarrável história de um blogger; VIDA NOS POSTES, uma abordagem ao drama do guarda-redes, a que alguns chamam angústia, quando vê um tipo como o Eusébio a marcar-lhe um penalty ou pior quando vê tochas; VIDA EM COSTAS, a vida de um utente de um lar em Costas de Cão; VIDA EM RESPOSTAS, a história inverosímil de uma freira que decidiu reescrever as cartas de soror Mariana, mas com mais picante; VIDAS LAGOSTAS, a história de duas rapariguinhas nórdicas, por acaso jeitosas, uma delas com olhos azuis e a outra ruiva e com sardas, que costumam passar o verão na Costa de Caparica. E pronto, não posso escrever mais aqui porque estou sem tempo. 

PS. SE GOSTAS, a história de um dedo apontador de likes, comenta também.

segunda-feira, julho 23, 2018

1638. L'Histoire d'O ou um LTB um bocadinho diferente


Os caminhos da memória. A propósito do comentário da minha amiga e seguidora antiga, Boop , no post anterior.

Ontem aconteceu-me uma coisa extraordinária. A minha mãe vive connosco e, à mesa, gosta de conversar de coisas antigas. Às vezes as conversas tornam-se repetitivas, mas são os seus arquivos de memória e eu não me importo.  Conversa puxa conversa e lembrei-me que uma amiga e vizinha dela, lá do Bairro, lhe tinha mandado recomendações. E disse-me: - Eu acho que ela se lembra de mim, mas se não se lembrar diga que sou a prima da O que ela lembra-se logo. E assim fiz. Dei-lhe os cumprimentos e o beijinho que a outra senhora me tinha recomendado. Perguntou-me então a minha mãe se eu sabia quem era a O. Eu não fazia ideia nenhuma mas, entretanto, comecei a construir a imagem de uma pessoa que para mim poderia ser a O. E descrevi a imagem que fiz à minha mãe. Ela disse-me que não, que a O não era nada como eu estava a dizer, que a O frequentava a casa de uma tia minha (irmã da minha mãe) quando a minha tia morava ainda em tal sítio assim, assim. E que até se admirava de eu não me lembrar dela, já que a minha mãe reconhece que eu, por acaso, tenho uma boa memória. Pois não consegui imaginar a tal O. Aliás, não seria fácil porque a O, de quem a minha fala, terá por esta altura mais de 70 anos, talvez uns 10 a mais do que eu, a ser visita da minha tia na tal morada que a minha mãe refere será pessoa que eu não vejo há mais de 50 anos, ou seja, desde que a O era uma teenager e eu nem teria buço ainda. E, por isso, uma descrição fisionómica de agora, como a minha estava a fazer ou a tentar, seria sempre diferente da construção que a minha memória estivesse a fazer. E pronto, ficamos por aqui, eu acabei o meu parguinho grelhado, que estava delicioso, o vinho branco também estava a condizer, na verdade um Tavedo Doc Douro 2017 da casa Burmester e a Charline, que é a minha gata preta e branca, nem andou à minha roda a chatear muito pois, mal a  ouvi miar, reforcei-lhe a ração e dei-lhe um pouco de uma musse de peixe do oceano e, assim, não só me pude concentrar nos aromas exalados pela malvasia fina, pela gouveio e pela cerceal, mas também a rebuscar na minha intrigada memória quem seria a O.

E, de repente, já com uma taça de cerejas frescas e reluzentes na mão perguntei à minha mãe se também queria e sem acabar a frase, atirei: Como é que se chamava a mãe da O? E ela: Era a M. E quem é que era assim tal qual como eu estava a descrever, mãe? Ah! Era a M. A mãe da O é que era como tu estás a dizer. E pronto, Sherlock Holmes não faria melhor. Ou faria? Se calhar sim, mas teria que ser com um bom vinho do Porto. Tão elementar meu caro Watson!

PS. Acho que se um dia encontrar a O vou reconhecê-la.

sexta-feira, julho 20, 2018

1637. Óckey


Ontem até uma lagrimazinha me veio aos olhos. Lembrei-me do meu avô Augusto. Bom, o meu avô Augusto já morreu há 40 anos, não é que a gente se esqueça dos seus, mas também não é todos os dias que nos lembramos. Principalmente quando já lá vão quarenta anos de saudade.

Entrei no carro e tinha o aparelho de rádio, a gente antigamente dizia a telefonia, sintonizada na TSF. Estava a dar uma música, não me lembro qual e eu trauteando quase automaticamente, olhei para o relógio e vi que eram 9 e 12 da noite. E de repente, mas assim mesmo de repente, lembrei-me que Portugal estava a jogar com a França para o Europeu de Hóquei em Patins. E claro liguei para a Emissora Nacional. Quero dizer, isto até parece revivalismo, logo eu que não nada saudosista no sentido em que antigamente é que era bom, nada disso, graças a Deus que agora não tem nada a ver com o antigamente. Mas ele há impulsos e na verdade o que sintonizei foi a Antena 1. Que deceção. O jogo não estava a dar em direto. Um jogo de hóquei para o europeu, pura e simplesmente ignorado. Só me apetecia mandar o futebol para o ca*** (acabado em alho). É a única coisa que interessa. São horas e horas de debates sobre os Brunos de Carvalho, os Alcochetes, os e-mails, os vouchers, a cor dos apitos, já para não falar dos jogos de futebol em direto e não estou só a falar da televisão. Estou a falar da rádio. Sim e da rádio pública também. A RTP estava a transmiti-lo, mas para quem nem usa televisão ou tem aquele TDT que quando funciona não funciona sempre, ou para quem viaja de carro, era o mínimo, não?

E foi então que me lembrei do meu avô Augusto com o seu transístor (modernices) quase junto ao ouvido porque ouvia pouco. Diga-me lá a linha avô. Dos nomes não me lembro de todos, mas ainda ouvi falar do Vítor Domingos, do Leonel, do Adrião, do Vaz Guedes, do Velasco, do Ramalhete, do Jorge Vicente, do Livramento, do Cristiano, do Garrancho, do Solipa, do Chana, do Salema, do Sobrinho e de tantos outros craques. E só me lembro deles porque o já falecido Nuno Brás, acho que nunca ouvi nenhum relator de jogos de hóquei como ele, da Emissora Nacional, nunca mais me vai deixar esquecê-los.

PS. Eu sou Benfiquista. Isso não é novidade, mas não me impede de que com o post de hoje e associe à homenagem ao um grande hoquista do Sporting que partiu ontem, com 67 anos de idade, o João Sobrinho, que eu gostava de ver brilhar, obviamente com a camisola da seleção Nacional.

quinta-feira, julho 19, 2018

1636. Escrito à hora do almoço tem de ser Lunch Time Blog


Está um excelente dia para o blog. Só dias com coisas para contar alimentam o conto. Sem coisas para contar não há contos. Ou então que se inventem. Não é o caso. Ao toc toc da bengala, junta-se o restolhar dos chinelos, a receita perfeita para que V não durma. Mas V está vacinado e se sabe que aqueles são os sons, é porque os aprendeu antes. Apenas não conta que hajam sons diferentes e esses são alertas. V lembra-se do dia em que às quatro da manhã o navio que conduzia perdera som. Toda a gente a bordo acordou com aquele repentino abaixamento de ruído. Esse foi um dia de caos. Hoje a mãe de V produziu mais som do que aquele que o que o ajuda a dormir. Caiu, bateu com a cabeça num móvel, gritou por ajuda e V foi mais rápido a chegar ao pé da mãe do que o chefe ao pé da caldeira a que se apagara um queimador. Aparentemente foi só o susto e a ansiedade. Um tremendo galo, um saco de gelo. Pelas frestas semicerradas da persiana a luz mostra o rosto de M, pálido. Também se levantou repentinamente para ajudar a mãe de V mas sem que V se tivesse apercebido tinha a seu lado uma mulher doente. Corajosa, de nada se queixa, mas está debilitada. V que tinha ido levar o filho ao aeroporto acaba por tomar conhecimento de que o avião na escala, não voará para Itália. Vai ficar apeado no Porto, não sabe até quando. Na boa, o navio andou à deriva por uns dias e nunca perdeu o rumo. O queimador foi substituído e não houve danos colaterais. V não dormiu por setenta e duas horas, hoje só dormiu três e o filho de V vai encontrar uma diversão alternativa. A mãe de V já tomou os comprimidos, já desjejuou, parece bem. V terá alternativas. Um livro, a máquina fotográfica, a neta. Olhou novamente o rosto de M e, sem lhe tocar, ajeitou-lhe o lençol. Deixou-a ficar deitada, com a neta ao lado, ambas dormindo. A pequena está bem e recomenda-se. Pousou o livro de poemas de Saramago, aberto em Rainer Maria Rilke. Ou a ele. “Homem me digo homem, poemas faço”. V fez-lhe uma canja de galinha.

PS. Fiz, é como quem diz. Tenho a galinha ao lume. Eu que gosto de elaborar receitas devo ter optado pela coisa mais fácil que conheço na cozinha. Só estou em dúvida se hei de deitar o ovo cozido picadinho sobre o prato dela ou se fique pela folha de hortelã. Se fosse comigo já estaria a gritar: ai que morro!

quarta-feira, julho 18, 2018

1635. Lunch Time Blog

No tempo em que criei a minha série Lunch Time Blog tinha um gato e escrevia um post à hora do almoço. Escrevia-o depois de almoço, depois de me repastar com a comida que a Fátima, que era a minha empregada, me preparava, de ter visto as notícias da hora do almoço, mas antes da sonolência a que a barriguinha cheia convida. O meu gato era o Schubert que partilhava comigo as histórias e tinha muitos comentários, não eu, nem o post, mas sim o Schubert. Era no tempo em que púnhamos no blog, se calhar ainda agora poem, pois parece que quem tem muitos acessos passa a ter revenue por isso, publicidade paga, patrocinadores, que enfastiam os leitores que aos poucos também acabam abandonando as leituras. Hoje em dia, há pessoas que profissionalmente são bloggers (e youtubers e facebookers e twiteiros e tal), outros saltaram dos blogs para a política (do que eu me livrei) e alguns para belos tachos como comentadores em jornais, revistas e televisões (a massa que eu tenho andado a perder). Mas enfim, nunca fui dos mais lidos, também nunca fui dos mais assíduos na arte de publicar, coisas boas ou banalidades, nunca vos mostrei as fotos, nem publicitei, os meus ténis cor-de-rosa choque que comprei para condizer com uma camisa que uma prima minha me trouxe da América (antigamente o pai dela trazia-me gravatas floridas), nem vos dei a receita de pastelinhos de chicharro com queijo de azeitão, receita minha, fazendo assim jus à nossa península de Setúbal, nem sequer fui muito cáustico com o Sócrates, quer dizer fui, mas como o coitado agora, apesar de ser uns bons milhões mais rico, anda um bocado pelas ruas da amargura, eu digo que não fui porque nunca bato em ninguém caído no chão. E pronto, como já leram, estou cheio de inveja das Pipocas e dos Mexias e dos RAPs e de outros, claro, já não falo do Pacheco porque ele era maoísta e portanto nunca precisou de ter um blog para poder um dia vir a ser alguém na política, e pior ainda nunca me inscrevi num partido político, ou vá lá, num daqueles partidos que distribuem jobs, então nunca tive assim tantas visitas por aí além. Mas o pior de tudo foi ter morrido o meu Schubert, o meu querido e saudoso gato siamês. O Lunch Time blog devia-lhe tanto a ele. Vamos a ver se consigo voltar aonde já fui feliz.

PS. A minha mulher, entretanto, aposentou-se e a Fátima já cá não trabalha. Agora os almoços são feitos a meias entre mim e a Maria José, mas não é bem cinquenta-cinquenta. É de toda a justiça dar a César o que é de César. E ela fez cá uns croquetes para o almoço de deixar invejoso qualquer presidente 

quarta-feira, novembro 22, 2017

1634. Encarecido (para memória futura)

Sr. Filipe, hoje vou falar-lhe ao coração, para bem do meu e de alguns outros que provavelmente estejam sangrando tanto como o meu.  Sr. Filipe eu até não o acho má pessoa ou assim, vá lá.  Como sabe, a canção mais emblemática do nosso clube diz que o Glorioso nunca encontrou rival neste nosso Portugal e eu estou com o Piçarra. Quer dizer, tirando o passivo que vai continuando a crescer apesar dos milhões que o senhor faz a vender as joias da nossa coroa, já começamos a rivalizar com aqueles que nem jogadores podem comprar. E hoje, até aposto que se ler os jornais e as redes sociais vai ver que começamos a rivalizar no anedotário desportivo com aqueles que para se lembrarem do ano em que foram campeões têm de sintonizar a RTP Memória.  Esta teve graça. Amei, amei, amei!  Mas pronto, não acho que a culpa seja toda sua, se bem que ter tido seis anos um treinador e mais dois outro que não ganharam um único campeonato (sim, sim, não é gafe; quem ganhou foram os vouchers e os e-mails; na verdade ainda não percebo porque é que aquele líder ex-gordo foi contratar o homem se bastava mandar fazer umas caixinhas, meter lá dentro uma camisola de um violino e um ticket-restaurant e já estava: campeonato no papo!), mas pronto você é que sabe se o Mr Magoo tem razão em dizer que os e-mails ganharam campeonatos. Você e o rapazito da Amadora que apesar de tudo e de ser quase sempre corrido da Champions sempre nos conseguia levar às finais da Taça UEFA, ele que nunca se defendeu do seu, dele, atual presidente que lhe retirou o mérito das vitórias trocando-as por um voucher e que também nunca se insurgiu contra o velhinho lá de cima que amoroso que não há alternante que lhe resista e lhe troca os títulos por e-mails. Mas pronto esse já só faz parte da história pois é a si presidente, meu presidente, capitão, meu capitão, em quem votei e não no prof Marcelo que, diga-se de passagem, é muito mais amoroso, mas então o que é que se há de fazer se só você presidente pode fazer algo pelo meu coração. E vou já direito ao assunto que eu não tenho jeito nenhum para rodeios. Eu amo o Benfica e nunca fui sócio de mais nenhum clube! Não deixe que este meu amor, este meu coração, ande assim tão dilacerado. Mas se eu recorro a si é porque não sei mais a quem recorrer, a não ser a Deus Nosso Senhor e Esse eu reservo para coisas fora das quatro linhas. Vá ao prego, ou seja, lá onde for e recupere as joias. Ah e pelo caminho veja também se encontra um treinador para a nossa equipa. É que este que lá temos é amoroso, mas não serve. Acho que ele ainda percebe menos de bola do que eu, mas eu não estou contratável. Um xi-coração presidente Filipe.

sábado, maio 06, 2017

1633. Gigantismo Vasconceliano

Joana Vasconcelos, é só um pequeno pedido: vá até ao meu banco e mexa na minha conta bancária. Se me prometer que a agiganta eu serei mais generoso do que os clubes de futebol com o Jorge Mendes. Pode ser? 



PS.: Ah! Não vale fazer uns rendilhados e pronto,ok?
Segue em mensagem privada o meu NIB.

sexta-feira, maio 05, 2017

1632. Falar autarquês

Lembro-me de, nos meus tempos de Liceu, ter morrido o filho de uma contínua, por sinal muito querida dos alunos. No mesmo dia soube-se, pelos jornais,  de uma grande catástrofe no Paquistão Oriental  (hoje Bangladesh) que ninguém, ou quase ninguém, na população estudantil do meu 4º ano de Liceu sabia onde ficava, incidente recorrente em tempo de monção, que matou um número muito elevado de autóctones, nas cheias pela intempérie causadas.  Foi até proposto na aula de Português que fizéssemos uma redação cujo tema seria "O acontecimento e a distância". Está visto o sentido da proposta da professora. De facto não só nos tocou muito mais fundo a morte prematura do jovem filho da empregada, com quem, por vezes brincávamos, do que os milhares de mortos, feridos e desaparecidos numa região que, face aos media da altura, ainda estava mais longe do que a distância geograficamente medida.

Mal comparadas (como se diz na minha terra) as distâncias, em termos autárquicos, o Porto, cidade muito nobre, leal e invicta, está para mim tão longe como o Bangladesh. Eu vivo nos arredores de Lisboa, Lisboa implica com a minha vida tanto como Almada e o Seixal e "brinca" comigo como brincava, em termos de afetos, o filho da nossa contínua. Assim, as eleições para a C M do Porto, não me aquecem, nem me arrefecem, estão longe, no Paquistão Oriental e se não fosse a rádio, a televisão, a internet e as 30 mil autoestradas paralelas que a ligam o Porto ao sul, se calhar eu só saberia onde ficava pelo Século, pelo Diário de Notícias ou pelos comícios futo-incendiários de um presidente de clube.

Perguntam vocês, com muita propriedade, porque é, que sendo assim, eu aqui me refiro ao facto. E eu respondo, porque estou farto de cagões. Isso mesmo. É que se em termos geográficos o Porto não se vê daqui (atenção portuenses, amigos e não só, eu adoro a vossa cidade, mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa), eu estou ainda mais longe do Rui Moreira do que do Bangladesh. E se o senhor não quer o apoio do Partido Socialista é lá consigo. É que quem sabe não seria o PS a boia de salvação para a monção que o ameaça. E já não estamos tão longe do acontecimento como parece...


PS (post scriptum e não o outro): Ana Catarina Mendes, porque no te callas?

quinta-feira, novembro 03, 2016

1631. Falar "disciplinês"

No futebol inglês não há cá funfuns nem gaitinhas. O treinador José Mourinho contestou as decisões do árbitro no último encontro e foi expulso. Por isso levou um jogo de suspensão como castigo. Por ter feito o mesmo num jogo anterior com o Liverpool foi condenado a uma multa de 55 mil (cinquenta e cinco mil) euros. Mourinho aceitou as penas, sem contestar. Em Portugal, em Agosto deste ano, um treinador de um clube de futebol, onde consta aufere um salário próximo dos 8 milhões de euros anuais (assim tipo umas 16 vezes mais do que o presidente da CGD por quem barafustamos tanto), foi condenado a 765,00 euros (setecentos e sessenta e cinco euros), ou seja, trocos, pela Federação Portuguesa de Futebol num caso idêntico ao de José Mourinho e não foi suspenso, apesar de ter sido expulso como aconteceu a Mourinho. Ainda assim caiu o Carmo e a Trindade e ou muito me engano mas este post vai ser lido com raiva pelos "amigos" (circunstanciais, é certo) do tal treinador e se calhar merecedor de algum comentário de reprovação. Entretanto siga a bagunça, vamos lá todos para a rua ajudar a GNR a procurar um tal presumível homicida de Aguiar da Beira e a contestar o salário do gestor António Domingos porque a CGD, em relação ao futebol, não tem a mínima importância económico-financeira para o país.
PS. Por falar no homicida de Aguiar da Beira, ninguém se apercebeu de que a polícia norte-americana deteve em menos de 24h o homicida de dois polícias num tiroteio ocorrido anteontem no estado do Oiho?

segunda-feira, outubro 31, 2016

1630. Falar o halloweenês de fevereiro

Quem inventou o carnaval que se dane! Inventar um carnaval num dia normalmente frio como o caneco e, raramente não chuvoso, com os carros alegóricos de Ovar a Loulé, da Bairrada a Torres Vedras, de Sines a Sesimbra, de Elvas ao Funchal, a desfilarem encharcadinhos, com aquelas meninas de rabinho ao léu a tremerem de frio, com as matrafonas encharcadas até aos culotes e mesmo assim a atirarem balões de água como se a que S. Pedro manda lá de cima não fosse suficiente, os comerciantes a queixarem-se que "este tempo é um desastre para o negócio", com os carnavais a serem adiados para o domingo magro seguinte, quando na quarta feira anterior já se tinha feito enterro do bacalhau e a malta toda a tirar fotografias entre cabeças nas multidões e a ficarem  nas fotos mais cabeças apanhadas por detrás, algumas já carecas e tudo do que palhaços, matrafonas e cabeçudos com as caricaturas do Passos, do Cavaco, do Pinto da Costa e de outras celebridades, quem foi o inventor dessa treta que se dane, se bem que aqueles rabinhos ao léu, mesmo molhados e tudo, não seja coisa para desprezar ainda que a bota não bata com a perdigota, isto é, aqui não é o Brasil, não faz 40º em fevereiro como no Rio de Janeiro onde, mesmo com chuva, nenhuma mulata tem frio no bumbum. Então que se dane o inventor dessa  coisa chamada Carnaval, pois quem sabe da poda são os americanos e não fossem eles umas doçuras que sairia logo aqui um post cheio de travessuras. Eles é que sabem, Inventaram um carnaval em outubro e os tugas, ou seja, cá a malta, à falta de um carnaval com calor em fevereiro, celebramos o halloween como se fosse nosso, com 27º à sombra e viva o aquecimento global e vivam os states, já agora com a Hilária em vez daquele Donald  que cheira a Trampa e uma foto no FB com uma abóbora na cabeça é bem mais gira do que as traseiras das cabeças da multidão a olhar para cima e a atirar serpentinas e papelinhos, encharcados, está bem de ver, às meninas dos carros alegóricos, vai não vai, empanados no meio das avenidas, se não andas deixa os outros passarem, caraças, mas com a grafia do norte. Pois bem, venham de lá essas selfies vestidas com fatinhos de esqueleto, chapéus de bruxa e que engraçado, ninguém se lembra de substituir a abóbora por um cartão moldado com as fuças do Costa, da Catarina ou Jerónimo que isso é no carnaval, aqui não há bruxas para fazer mover a geringonça. Quem continua a tentar embruxar isto tudo é o Passos, mas eu nem digo lagarto, lagarto, lagarto que depois me chamam faccioso. Lá lá lá lá era eu a cantar, mas ainda bem que aqui não se ouve e escapo de uma vassourada bem assente. Adeus e até ao próximo halloween.

terça-feira, outubro 18, 2016

1629. Lunch Time Blog

É a Justiça, estúpido!

Uma mania, provavelmente parva, que tenho quando almoço em casa é assistir a noticiários na televisão. Misturar uma posta de cherne grelhada com uma salada mista ainda vá que não vá. Agora misturar um branquinho da região de Palmela com pensões de alimentos, ou não me sabe bem o vinho ou tenho uma náusea inesperada. Mas como eu gosto de cada coisa no seu lugar, vamos lá por partes.

Senhor António Costa, senhor Jerónimo de Sousa, senhora Catarina Martins, vamos lá ver se nos entendemos. Quando eu voto num partido político para que só, ou em coligação, mesmo que parlamentar e geringonciamente tática, venham a formar governo, não transporto para a urna de voto nenhuma paranoia "deficitária". Isto é, o orçamento e o déficit não são as minha metas, se bem que não deixe de lhes dar o relevo que devem merecer. Como diria Jorge Sampaio, nosso PR  já ex, «há mais vida para lá do déficit». E é por isso, meus caros condutores de uma geringonça, que eu estimo e apelo para que se não desmantele, que vos digo que o vinho do almoço, não me caiu nada bem. Nem a bela manga, de avião, dizem eles, esta agora dos aviões darem mangas é que me deixa perplexo, que comi de sobremesa, me impediu que tivesse tido ido à náusea. Felizmente que as minhas gatas estavam de barriga cheia, quando não teriam vindo a miar em meu socorro.

E então, para que o "vamos lá por partes" se complete, eu sou todo olhos, ouvidos, nariz e tatos, pontas dos dedos incluídos, para as políticas de saúde, de educação, de planeamento territorial, de economia, de finanças, de justiça e isso, está bom de ver, para além de outras. E se a porca torce o rabo em algumas destas matérias, na Justiça, coitadinha da porca, torce-se toda como se estivesse tomada pelo demo. Se calhar até é por isso que nem judeus, nem muçulmanos partilham do gosto pelo belo toucinho, como eu partilho, se calhar é mesmo porque a porca da justiça, ai perdão, porque a porca torce muito mais do que o rabo no que diz respeito à Justiça. Ia o meu garfo no ar com uma bela lasca do cherne, aloirado pelo calor da chapa, e que nem proveitinho me fez, porque se estava de boca aberta para a receber, assim fiquei, largos segundos, como que possuído. Então não é que passava na televisão a notícia de que uma mãe estava há 20 anos (eu vou repetir, por extenso, para que não fiquem dúvidas), há vinte (!!!) anos à espera da pensão de alimentos para um filho? Bom isto já seria motivo para que o cherne não mais entrasse na boca. Mas como os nossos gestos são reflexivos, o Pavlov explicará isso melhor do que eu, a garfada invadiu-me o palato, depois a faringe e em vez de se dirigir ao esófago, caiu-me no goto. Tossi, tossi, tossi e estava eu neste meu tossir engasgado, quando ouvi o jornalista dizer que o Tribunal de Menores de Torres Vedras informou o canal de televisão de que o processo estava a decorrer nos prazos normais. Normais (!), leram bem? Noutras circunstâncias teria desatado a rir, mas nesta apenas vos posso dizer que passei da tosse convulsiva à náusea.

Vá lá senhora Ministra da Justiça, faça coisas bonitas, vá lá. Se não, é tudo a dizer mal da geringonça e ainda vamos ouvir esta gente a dizer que os donos dos patrimónios imobiliários de luxo, apesar das cristas levantadas, pagam agora menos com este novo IMI da Mortágua do que com o imposto de selo do Sócrates/Coelho. E se calhar é verdade, não é? Desvie-lhes a atenção e ajude a que a nossa Justiça passe a funcionar. Era cá uma finta, que qual Messi, qual Ronaldo...

PS. Obviamente que a Florinha e a Charline, as minhas gatas de estimação, me disseram que isso passava melhor com um copinho de água, mas eu teimei no branco de Palmela. São gostos...

1628. Lunch Time Blog

É a Justiça, estúpido!

Uma mania, provavelmente parva, que tenho quando almoço em casa é assistir a noticiários na televisão. Misturar uma posta de cherne grelhada com uma salada mista ainda vá que não vá. Agora misturar um branquinho da região de Palmela com pensões de alimentos, ou não me sabe bem o vinho ou tenho uma náusea inesperada. Mas como eu gosto de cada coisa no seu lugar, vamos lá por partes.

Senhor António Costa, senhor Jerónimo de Sousa senhora Catarina Martins, vamos lá ver se nos entendemos. Quando eu voto num partido político para que só, ou em coligação, mesmo que parlamentar e geringonciamente tática, venham a formar governo, não transporto para a urna de voto nenhuma paranoia "deficitária". isto é, o orçamento e o déficit não são as minha metas, se bem que não deixe de lhes dar o relevo que devem merecer. Como diria Jorge Sampaio, nosso PR  já ex, «há mais vida para lá do déficit». E é por isso, meus caros condutores de uma geringonça, que eu estimo e apelo para que se não desmantele, que vos digo que o vinho do almoço, não me caiu nada bem. Nem a bela manga, de avião, dizem eles, esta agora dos aviões darem mangas é que me deixa perplexo, que comi de sobremesa, me impediu que tivesse tido ido à náusea. Felizmente que as minhas gatas estavam de barriga cheia, quando não teriam vindo a miar em meu socorro.

E então, para que o "vamos lá por partes" se complete, eu sou todo olhos, ouvidos, nariz e tatos, pontas dos dedos incluídos, para as políticas de saúde, de educação, de planeamento territorial, de economia, de finanças, de justiça e isso, está bom de ver, para além de outras. E se a porca torce o rabo em algumas destas matérias, na justiça, coitadinha da porca, torce-se toda como se estivesse tomada pelo demo. Se calhar até é por isso que nem judeus, nem muçulmanos partilham do gosto pelo belo toucinho, como eu partilho, se calhar é mesmo porque a porca da justiça, ai perdão, porque a porca torce muito mais do que o rabo no que diz respeito à justiça. Ia o meu garfo no ar com uma bela lasca do cherne, aloirado pelo calor da chapa, e que nem proveitinho me fez, porque se estava de boca aberta para a receber, assim fiquei, largos segundos, como que possuído. Então não é que passava na televisão a notícia de que uma mãe estava há 20 anos (eu vou repetir, por extenso, para que não fiquem dúvidas), há vinte (!!!) anos da pensão de alimentos para um filho? Bom isto já seria motivo para que o cherne não mais entrasse na boca. Mas como os nossos gestos são reflexivos, o Pavlov explicará isso melhor do que eu, a garfada invadiu-me o palato, depois a faringe e em vez de se dirigir ao esófago, caiu-me no goto. Tossi, tossi, tossi e estava eu neste meu tossir engasgado, quando ouvi o jornalista dizer que o Tribunal de Menores de Torres Vedras informou o canal de televisão de que o processo estava a decorrer nos prazos normais. Normais (!), leram bem? Noutras circunstâncias teria desatado a rir, mas nesta apenas vos posso dizer que passei da tosse convulsiva à náusea.

Vá lá senhor Ministro da Justiça, faça coisas bonitas, vá lá. Se não, é tudo a dizer mal da geringonça e ainda vamos ouvir esta gente a dizer que os donos dos patrimónios imobiliários de luxo, apesar das cristas levantadas, pagam agora menos com este novo IMI da Mortágua do que com o imposto de selo do Sócrates/Coelho. E se calhar é verdade, não é? Desvie-lhes a atenção e ajude a que a nossa Justiça passe a funcionar. Era cá uma finta, que qual messi, qual ronaldo...
PS. Obviamente que a Florinha e a Charline, as minhas gatas de estimação, me disseram que isso passava melhor com um copinho de água, mas eu teimei no branco de Palmela. São gostos...

quinta-feira, setembro 15, 2016

1627. Lunch Time Blog (revisited). Favas com futebol.

Cheira-me lá dentro à morcela e à cacholeira, às ervas aromáticas e ao entrecosto no estrugido que promete. As favas estão quase a invadir a panela e dou uma vista de olhos pelos jornais desportivos. Como não sou masoquista, quase só leio as "gordas". Não sou um saudosista, mas tenho saudades. Lembro-me de Carlos Miranda, de Aurélio Márcio, de Carlos Pinhão, de Alfredo Farinha e comparo-os, dececionado, a escribas de hoje em dia. Meu Deus quanta diferença. Bem sabemos que hoje há mais canais de televisão que as mães que os pariram, mas como era belo ler uma crónica de um jogo que não vimos e estarmos "lá dentro" do próprio jogo. E no momento do golo escrito nos apetecer gritar goooollllooo a plenos pulmões, mesmo quando esse golo já tinha acontecido vinte e quatro horas antes. Que pena a imprensa desportiva escrita ter descaído tanto e agora, para vender jornais, se decida pela opinião escrita de adeptos famosos (adeptos a quem a televisão deu fama, mesmo que advenha de minutos consecutivos a insultarem-se uns aos outros). Mas hoje, neste LTB ainda consegui sentir o perfume da pena de Santos Neves, não sei se inebriado pela sua escrita inteligente e assertiva se num misto de palavras com o aroma de umas favas com entrecosto numa tarde que se apresenta com menos 15 graus 15, que a tarde homónima de há uma semana atrás. Cheira-me a favas com entrecosto, cheira-me a outono, que quase me bate à porta e só já me falta escolher o vinho. Os jornais desportivos estão já arrumados, daqui a pouco é hora de reler Saramago, de preparar mais umas aulas de fotografia. Acho que vai ser alentejano. Regional, que os enchidos também o são! Só o meu Schubert não me fará companhia neste novo LBT. Partiu há mais de dois anos e será lembrado por muitos mais. Quanto ao Lunch Time Blog, se o ou os governos não aplicarem um imposto direto sobre quem escreve blogs, talvez eu venha a (re)tomar-lhe o gosto. Desculpem partir assim, repentinamente, mas já tenho o almoço na mesa.

PS. Ainda há tempo para um PS. O Schubert era o meu gato siamês. Era lindo!

segunda-feira, julho 18, 2016

1626. Roast

Costumo achar, como se diz agora noutras linguagens que não vêm a propósito, que tenho um critério muito largo no que respeita ao humor. Chego mesmo, por vezes, a sentir-me isolado ou deslocado quando esboço um sorriso enquanto os outros que me estão perto parecem estar num velório. Não admira pois que ainda hoje, apesar de ter visto dezenas de vezes as mesmas cenas, "parta o coco" a rir com Vasco Santana, com António Silva, com Ribeirinho e que, a imagem do eterno compère  Eugénio Salvador me seja, também, tão presente.  Raul Solnado é para mim (a expressão ainda se não usava nessa altura) o melhor ator em stand-up comedy que alguma vez vi e ouvi e o grande José Viana o homem a quem melhor escutei a contar uma anedota. Não por ser intelectualmente correto dizê-lo, mas porque não me revejo em anedotas contadas como sketchs televisivos, não faz parte das minhas preferências o humor tipo «Malucos do Riso», pese embora o meu anunciado critério largo, confessando, no entanto, que em um ou outro momento tenha soltado uma gostosa gargalhada. Nunca conheci um comediante "tão sério" como Mário Viegas e ainda hoje não ouvi ninguém ler um poema de Mário-Henrique Leiria como ele em que não sabemos se havemos apenas rir ou, em alternativa, chorar a rir.  Herman José  fez-me, durante muitos anos, sentir apaixonado pelos seus programas de humor e até  com os Gato Fedorento ri a bom rir (já sei que vou levar porrada de alguém). E vi também aparecer em programas mais recentes (?) como o «Levanta-te e Ri» alguns personagens que me alegraram os serões televisivos, como o Bruno ou o Serafim.


Vem este relambório a propósito de uma coisa que ontem passou na SIC Radical, chamada «Roast». Já sei que a resposta ao que vou dizer é que só vê quem quer, quem não quer muda de canal. Mas isso é treta. Então nunca poderia haver crítica. Toda a gente mudaria de canal quando a coisa não prestasse (ou não gostasse) e, pronto, mandava-se às urtigas a análise crítica e o direito à opinião contrária. Felizmente tenho bom estômago e não vomitei durante o programa. Consistia aquela coisa (chamo-lhe coisa porque não consigo arranjar um adjetivo qualificativo para aquilo) em apresentadores e criadores de programas da SIC Radical aproximarem-se do microfone para falarem mal dos colegas presentes, embora também o tenham feito de ausentes, pretendendo ter piada nas suas apreciações. O que se assistiu foi a um rol de ordinarices em que quase todos referiam que cada um dos outros e das outras só tinha conseguido um programa na SIC Radical porque passavam o tempo a fazer bobós ao seu diretor ou a dar-lhe o rabo. E isto ainda era, talvez, o menos ofensivo. E os outros que depois viriam insistir na mesma tecla quando chegava a sua vez riam feitos papalvos destas insinuações, fazendo até crer o espectador que poderia ser verdade. Houve então um que saiu na rifa aos restantes colegas e passou a noite toda a ser apelidado de paneleiro e sempre com um sorriso na cara. Culminava a apresentação com cada um a falar mal da própria SIC Radical, provavelmente na única verdade que diziam, pois o resto era pressuposto ser apenas piada (?????), referindo que a SIC Radical havia batido no fundo. Recuso-me referir os nomes dos protagonistas para não propagandear tão baixa qualidade mas abro duas exceções. A primeira é para a blogger Pipoca Mais Doce . A senhora até escreve umas coisas giras, conseguiu uma legião de fãs, tem, provavelmente, o blog mais lido na blogosfera, é profissional contratada por várias marcas, ganha uma pipa de massa assim, aceito, obviamente, que merecidamente e esteve menos mal na apreciação dos companheiros, não caindo na ordinarice pura e dura, malgré não ter resistido a chamar puta a uma outra que lá estava. Acho que a Ana Garcia Martins não precisava de ter aceitado aquele convite, mas da carteira de cada um, cada um é que sabe e é lá com ela. A outra para o diretor da SIC Radical, um tal Boucherie que é mais conhecido por ser júri no programa «Ídolos» e ter gozado com a deficiência de um concorrente efetivamente deficiente do que por ser diretor daquele canal do cabo. E refiro-me a ele porque fiquei com a impressão de que ele não estava nada envergonhado com aquilo a que assistiu. Se fosse eu o diretor, apesar do meu estômago ser bastante resistente era capaz de ter levado um baldinho comigo. É que ao vivo e a cores não sei se conseguiria resistir ao vómito.

quinta-feira, novembro 12, 2015

1625. A privatização da TAP



O lado para o qual me deito melhor é o de considerarem esta minha opinião de esquerda ou de direita. Posto isto, afirmo que a minha convicção é de que uma companhia aérea comercial não me parece estratégica para a economia e desenvolvimento de um país. Nem que esse país se chame Portugal e tenha relações (hoje em dia relevadas pelo PR na constituição do governo) privilegiadas com a CPLP e nas suas rotas inclua Moçambique, Angola, Guiné e por aí fora... e, se calhar também a Guiné Equatorial que o (ainda)  governo atual colocou no mapa dos países lusófonos. Uma empresa que tem mais de 100 milhões de prejuízos anuais, quanto mais depressa um governo se ver livre dela, melhor.  E a mais um governo (e outros anteriores) que deveriam corar de vergonha por pagarem salários principescos (quantos salários mínimos isso dá, quantos?) a gestores de uma companhia que acumula, ano após anos, prejuízos. Até abriria um parêntesis para dizer que se alguém a compra não será para perder dinheiro, antes pelo contrário e que, como consequência, porá no olho da rua todos estes gestores incompetentes. Se o não fizer e a TAP passar a dar lucros então o que o próximo governo tem de fazer é colocar os atuais gestores em tribunal por eventual boicote à economia nacional. Mas posto isto, o que me leva hoje a escrever este post não é facto de eu achar que a TAP deve ao não deve ser privatizada. Já dei isso de barato. O que eu quero chamar a atenção é para o oportunismo e falta de caráter de um governo demitido avançar com este processo à revelia de uma nova maioria parlamentar que o relegou para fora das portas de S. Bento. É que nesta política de vale tudo não sobra vergonha na cara a estes descarados.  As metas do deficit justificam isto? E a dignidade de quem quer ser, aos olhos dos outros efetivamente digno, hein? Não vale nada?

sexta-feira, maio 01, 2015

1624. O direito à greve


O direito à greve foi, em quase todo o mundo e em Portugal apenas após o 25 de abril de 1974, uma conquista dos trabalhadores. É bem provável que mais de metade dos trabalhadores portugueses de hoje nunca tenham trabalhado antes do 25 de abril de 1974 ou que já tenham nascido com este direito adquirido, alguns dos quais sem lhes passar pela cabeça que este direito já custou muito sangue, muito suor e muitas lágrimas. Sou totalmente contra aqueles que afirmam que este direito deve ser usado parcimoniosamente.  A greve deve ser usada como uma arma de quem trabalha contra as agressões de que são vítimas enquanto trabalhadores, agressões ao seu direito ao trabalho, ao seu direito a uma remuneração justa e até ao seu direito ao descanso.  

Vem este meu texto hoje, a propósito das duas greves anunciadas para, ou a começar, no dia 1º de maio, dia do Trabalhador num grande número de países do mundo. A greve dos pilotos da TAP e a greve dos trabalhadores do comércio. Se à greve dos trabalhadores do comércio está para mim fora de questão não lhe dar o meu total apoio, dada a justeza das reivindicações, já em relação à greve dos pilotos da Tap tenho a maior das reservas. No entanto, é esperado que uma e outra tenham níveis de adesão e até mesmo motivos para a não adesão completamente diversos.

Os trabalhadores do comércio convocados foram os das grandes superfícies de distribuição. Está condenada à partida, quer ao nível da adesão, quer ao impacto mediático. O impacto mediático está praticamente reduzido a zero dada a simultaneidade com a greve dos pilotos da Tap e do que esta representa parece representar para a privatização anunciada. Mesmo os critérios jornalísticos, que é uma direção para a qual não vou agora intensamente disparar não estão para aí virados. O que é isso de relevante de licenciados em relações internacionais ou em patologia forense, ou apenas com o "miserável" 12º ano,  estarem a ganhar 2,00 € por hora em lojas dos centros comerciais?  Se é para falar em miséria que se façam reportagens na China, na Coreia do Norte ou em Cuba...

"Mas os trabalhadores do comércio também não aderiram à greve", poderá, quem lê, argumentar. Pois, não! Reitero eu. Caminha-se a passos largos para a destruição dos direitos conquistados pelos senhores do capital com a conivência dos governos democraticamente eleitos. Quem é que, mesmo ganhando miseravelmente, com contatos precários de 3 e 6 meses (falaram-me já de casos de contratos mensais), com quase 1 milhão de desempregados à espera e bocas em casa para sustentar, estudos para pagar, medicamentos, muitos destes trabalhadores andam a trabalhar doentes, vidé o comunicado do sindicato, transportes, vestuário e renda de casa, se pode dar ao luxo de ceder o seu lugar a outro? Nem que morram no posto de trabalho, não "poderão" fazer greve.

Quanto à greve dos pilotos são outros quinhentos. Mas essa é amplamente debatida nos media.

Miguel Torga escrevia no seu Diário, em 1946. O Portugueses são imbecis ou por vocação, ou por coação ou por devoção.

A atender às sondagens, por devoção não tenho dúvida. Como por vocação é tão evidente que nem vale a pena argumentar, resta-me dizer que sob coação, se calhar, até eu sou português.

terça-feira, novembro 05, 2013

1623. Não havia necessidade



Durante alguns anos, após a inauguração do metro do sul do tejo na região de Almada, a ex-presidente da Câmara criou uma zona pedonal numa área nobre da cidade, nomeadamente, o eixo central desde a praça S. João Baptista  até, aproximadamente, metade da Av. D. Afonso Henriques. Na verdade não era totalmente reservada a peões, havia via aberta para algumas carreiras de autocarros, táxis, veículos em marcha de urgência e os chamados veículos autorizados. Aqui d’El Rey, gritaram os comerciantes e alguns outros que não tendo nada a ver com o comércio, faziam coro ideológico contra a Câmara Municipal de Almada (CMA). E Aqui d’El Rey que as alterações feitas tiravam a frequência dos clientes às lojas por ausência de estacionamento e de passagem pelas montras, etc. e tal e mais um par de botas e um conjunto de imbecilidades, perdoem-me a franqueza. Não sei por que razão, se tática ou se de falta de coragem ou mesmo falta de convicção numa solução que fazia parte integrante da mobilidade reconhecida internacionalmente, vejam os prémios recebidos, caraterística da cidade de Almada. Hoje o “canal está aberto”, a circulação pedonal é um perigo e uma aventura para corajosos, misturam-se zonas de passeio com faixas viárias (já assim era, na verdade, mas com um número muito reduzido de veículos) e um estacionamento anárquico. Vou desde já pedir ao Exmo. Presidente Dr. Joaquim Judas, pessoa por quem nutro estima, para que arrepie o caminho entretanto traçado e volte à fórmula antiga dos veículos prioritários. Porque o comércio no centro de Almada continua às moscas, é penoso o número de lojas fechadas e os que gritavam por esta solução hoje parecem bem mais calados porque se calhar ainda estão a engolir a própria gritaria. Deem uma voltinha pelo centro de Almada e confirmem. É que enquanto houverem  zaras e pulls e outras âncoras espanholas em grandes superfícies comerciais, só se safam as lojas de chineses no chamado comércio tradicional. E não me venham com o tratamento personalizado e de proximidade que eu já não ganho para isso.