segunda-feira, julho 31, 2006

1010. O Apagão
(onde se fala de telejornais, vinho tinto e se fica a saber que o gato fedorento está a ser plagiado)


O Ricardo Araújo Pereira e os seus colegas do Gato Fedorento que se cuidem. As nossas televisões andam numa frenética concorrência aos Meireles, aos Barbosas e aos Lopes da Silva. Está um gajo a almoçar calmamente uma sardinhada assada com salada de pimentos, tomate, alface, pepino e muita cebola, acompanhado de um Herdade do Pinheiro, tinto (sim que eu gosto de beber bom) e de repente fica a saber que nessa noite faltou a luz em Santarém. Bolas, fiquei logo com uma espinha entalada na garganta, Bebe um golinho de vinho disseram-me, Não respondi eu, tanto quanto consegui responder com uma espinha na garganta, que o vinho para mim não é um desembuchador de comidas, mas sim um néctar em constante degustação. É que sempre que há um caso destes eu fico logo a imaginar grandes tragédias, do tipo o metro parou e ficaram quatrocentos passageiros retidos durante 6 horas debaixo de um calor de 30 graus, mas não podia ser, porque em Santarém não há metro, ou do tipo foi um apagão provocado por uma cegonha, fico logo a imaginar aquelas bebé-cegonhas desamparadas de mãe, no alto dos postes, capazes de caírem dali a baixo. Foi por isso que me engasguei e não despreguei mais os olhos da televisão para ouvir a notícia e principalmente ouvir os testemunhos.
E o senhor sofreu muitos prejuízos, perguntava a repórter, ao que o dono do café dizia, Sim nem imagina quando cheguei estavam as cervejas quentes, mas desenrasquei-me de outra maneira, E a senhora? Olhe nem dei por isso porque quando me deitei ainda havia e quando acordei já havia luz, E você deu conta do apagão, Se dei, levantei-me de noite para fazer xixi e fiquei admirada de não haver luz quando liguei o interruptor.
Pronto, foi esta a reportagem que a TV (nem me lembro em qual canal), passou no noticiário da hora de almoço. Os pimentos estavam espectaculares. Ah, é verdade, esqueci-me de falar do melão à sobremesa, mas fica para depois.

1009. Artes e Sabores
(coisas gostosas, coisas de artistas)

A Ana Valente é um poço de simpatia (não desfazendo, como soi dizer-se, da D. Isabel, sua mãe). Há pouco mais de um mês, abriu uma pequena loja, a Artes e Sabores, onde se mistura o artesanato aos bons produtos da região. Mas se a loja é pequena o gosto é grande. Comecemos pelo pão, mas comecemos mesmo. Porque se o deixarmos para o fim corremos o risco de lá chegar e já não haver. Quem não gosta de pão alentejano, cozido em forno de lenha, passe adiante e vá direito ao queijo. (Relembro aqui uma pequena história de outras épocas, em que quando com o meu pai fomos a uma tasquinha, por acaso também no Alentejo, a senhora chegou com o pão quando já nós tínhamos comido queijo. Ao ar incrédulo da senhora que nos servia o meu pai ripostou: - Pois é, minha senhora, andei tantos anos a comer pão sem queijo que hoje me dei a liberdade de comer o queijo sem pão). Os queijos são da região de Serpa e têm-nos frescos, secos, curados, em azeite, amanteigados e de entorna. Têm chouriços ainda meio verdes para assar e já curadinhos para o pão. E paios… de porco preto. O presunto é imbatível, as azeitonas obrigam-nos a pecar, fechem os olhos à dieta só por uns minutos e não desdenhem os bolos regionais, as compotas caseiras e provem o hidromel. O artesanato é de várias regiões alentejanas com destaque para os barros pintados e, acreditem, não é caro. Quando passarem na Mina de S. Domingos não hesitem e façam-lhe uma visitinha.

PS. PUB completamente grátis e merecida porque aos prazeres da mesa e dos olhares não há nada que os pague.


1008. CPLP
(onde o Pré fala de férias e de pobres e isso)

Estava o PreDatado com os pés nas férias mas com a cabeça ainda no mundo real, em herética postura face aos que o acompanhavam (as férias são férias, tal como os que dizem a guerra é a guerra). E foi assim que se lhe deu conta das conclusões da cimeira da CPLP do passado dia 16 – vejam como tempo passa, parece que foi no século passado e quase já ninguém se lembra. Que agente vá de férias tudo bem, mas para que a memória colectiva não entre em letárgico repouso deixem-me cá voltar ao tema.

Nos dias que a antecederam a referida cimeira, ouvi muitas perguntas, muitos comentários e muitas análises sobre para que servia a CPLP. Infelizmente, não ouvi muitas opiniões coincidentes pelo que me parece que andam todos à nora com a questão. Mas se para outra coisa não servisse, esta cimeira tomou uma deliberação que considero demasiado importante para não ser levada à letra. Comprometeram-se a acabar com a fome e a pobreza até 2015. Ou pelo menos erradicar metade (diga-se de passagem que um desvio de 50% não deveria deixar muito alegres os políticos). E Aníbal Cavaco Silva e José Sócrates subscreveram. O que se subentende que não é apenas na África, em Timor ou no Brasil que essa acção deva ser levada a cabo. Também aqui em Portugal. E, atendendo às estimativas da União Europeia que diz que temos 2 milhões de pobres, isso significa que em cada ano, dos nove que faltam, 222 mil portugueses (ou pelo menos 111 mil) deixarão de ser pobres. Eu estou aqui para cobrar, porque eu sou uma das pessoas que não se esqueceu dos 150 mil novos empregos prometidos por Sócrates. E esses estão muito longe de estar conseguidos. Eu estarei atento porque as férias não são eternas.

sábado, julho 15, 2006

1007. E agora, férias!




Durante uns tempinhos o PreDatado vai a banhos. Férias são férias e por isso, não escreverei (aqui), não lerei (por aqui e por acolá com uma pantalha à frente), não comentarei. Mas depois voltarei em força. Esperem-me.

terça-feira, julho 11, 2006

1006. Confuso?

Anedotas
Há uns anos atrás contaram-me uma anedota de um taxista que passava todos os sinais vermelhos dos semáforos e parava nos verdes. Interrogado pelo cliente respondeu-lhe: “É evidente porque paro nos verdes. Imagine que vem aí outro maluco como eu”. Então não é que hoje vi um tipo, em pleno centro de Almada, a fazer o mesmo? Isto é mesmo um país de anedotas.

Confusão
Na repartição de finanças o sistema informático estava “em baixo”. Cada um, munido da sua senha, aguardava a sua vez e, por sua vez, que o sistema resolvesse dar sinal de si. Até que veio. A funcionária ao balcão perguntava “quem está primeiro?”. Nós, algumas dezenas, olhávamos para a senha e, com cara de parvos, um para os outros, sem que ninguém soubesse responder. Até que alguém lembrou à senhora que bastava ir carregando no botão que muda o número da vez, que cada um responderia na sua ordem. Confuso ou simplex?

Produtividade 1
Há dias em que me dão pancadas na cabeça. Hoje decidi sair de casa munido de cronómetro. Cheguei ao posto médico às 08h10m, tirei a senha e fui inscrito às 8h50m. 40 minutos de espera. A consulta tinha início previsto para as 09h00. Fui o número três, atendido às 9h45m. Mais 45 minutos de espera. A consulta, incluindo prescrição médica durou 6 minutos. Mais 47 minutos de espera para a colocação da vinheta e marcação de nova consulta. Vá lá, vá lá, na repartição de finanças apenas esperei 52 minutos pelo sistema informático. E apesar de que, entre o último chamado, antes da avaria, e a minha senha, houvessem 42 números de diferença, nem todos tiveram paciência para esperar e lá me safei. Ao todo perdi 185 minutos. Praticamente dois jogos de futebol já com os descontos. Mas sem prolongamento. Produtividade?

Produtividade 2
À saída do posto médico um casal chamou um táxi. O taxista tomou os passageiros e arrancou de imediato. Antes que tivessem tempo de colocar os cintos, mas pior, antes que a passageira que se sentou no banco de trás tivesse fechado a porta do carro. Este taxista sabe o que é produtividade. Não sabe é o que é segurança. Não me admiro que a seguir passasse o semáforo vermelho. Valha-nos ao menos que parará no próximo verde. País de anedotas? Não, nem por isso.

segunda-feira, julho 10, 2006

1005. Pagar duas vezes

Esta notícia não me surpreende. Desde há muito tempo que vem sendo assim. As empresas utilizam o dinheiro que descontam aos trabalhadores para se auto-financiarem. Não entregam as respectivas contribuições nem à Segurança Social nem ao fisco e mais tarde abrem falência. Ninguém é responsabilizado, os empresários continuam com os seus brutos automóveis de topo de gama, as suas mansões, as suas casas de férias nos melhores locais de Portugal e do estrangeiro, as mulheres e as filhas nas vernissages e nas capas de revista, os filhos nos melhores colégios. Vêm depois os governos, aqui del-rei que a segurança social está falida, que é preciso aumentar a idade da reforma, que é preciso que os trabalhadores financiem, uma vez mais, a mesma Segurança Social. Aquela que já financiaram à partida para encherem os bolsos a uma dúzia de gulosos. Tudo com a conivência dos vários governos que temos tido desde o 25 de Abril e que como é óbvio iremos continuar a ter. É por isso que a minha bandeira portuguesa só se desfralda por causa da selecção nacional de futebol. Não alinho com esta promiscuidade.

sábado, julho 08, 2006

1004. Ao Sábado alguem lê blogs?

Eu não devia ser assim, mas… Porque é que depois de termos perdido com a França num jogo de futebol eu perdi a pica pelo Tour de France?

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Não me admira nada que a plataforma logística, ontem apresentada com pompa e circunstância pelo Governo, seja um investimento espanhol. Há mais de 10 anos que tenho um jogo de setas que quando acertamos no centro nos responde “bien apuntado!”.

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Por falar em pompa e circunstância, porque é que sempre que o Governo faz este show-off (recorde-se também a refinaria de Sines), da apresentação de um grande investimento, com a criação de uma data de postos de trabalho, poucas semanas depois fecha mais uma fábrica e vão mais de mil trabalhadores para o olho da rua?

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Simplex não é? Para pagar a contribuição para a segurança social da minha filha e da minha empregada não me foi autorizado a passar um cheque pela totalidade. Dirigido à mesma entidade e pago na mesma hora foram necessários dois cheques em separado. É muito simplex para a minha cabeça.

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O Sr. Ministro das Finanças anunciou ontem que Portugal vai poupar 955 milhões de euros em dois anos, na Administração Pública. Sem dizer bem como, sempre foi adiantando que será à custa do congelamento de salários e de carreiras bem como um rigoroso controlo de admissões. Reiterou o princípio de que para cada nova entrada serão necessárias duas saídas. Tendo em conta o meu post de ontem, ainda gostaria de saber quais foram os dois adjuntos do ministro Silva Pereira que tiveram de sair para a admissão da Drª Vera Sampaio. Mas isto talvez seja querer saber de mais.

quinta-feira, julho 06, 2006




















1003. Felicidades no seu novo emprego

Eu não tenho nada contra. Na realidade apenas me entretive a consultar o Diário da República. Mas faz-me muita espécie como certas pessoas não têm nenhuma dificuldade em arranjar emprego e outras passam anos para o conseguir. Muitas felicidades à Vera de todo o meu coração. Por algum lado se tem de começar não é?

segunda-feira, julho 03, 2006

1002 . Futebolândia

O príncipe Felipe de Bourbon assistiu, com sua esposa Letícia Ortiz, ao jogo França x Espanha. Também Giscard d’Estaing assistiu ao jogo França x Brasil. Angela Merk não perde um jogo da sua Alemanha e até José Sócrates esteve presente no Portugal x Angola. Não tenho a certeza, porque não vi todos os jogos, se Prodi já esteve nas bancadas e não posso garantir, mas quase aposto que sim, que Cavaco Silva estará presente se Portugal for à Final da Taça do Mundo (ou talvez até já na meia-final). Para José Pacheco Pereira devem tratar-se de alienados. Com tanto problema no mundo e estes gajos e gajas a verem futebol. Ora se fossem mas é resolver o problema da Bolívia.

Ainda Pacheco Pereira, na sua crítica à futebolândia e ao tratamento jornalístico, refere no Abrupto o que tem passado ao lado dos portugueses. Transcrevo “…deu-se uma importante remodelação governamental, em que foi embora o único ministro com autonomia política, parece que as férias dos portugueses começam a revelar a crise (meio caminho andado para a Revolução), os agricultores vão poder construir casas de primeira habitação em áreas classificadas como Reserva Ecológica Nacional (vão ver o número de agricultores a aumentar...) na Bolívia continua o plano inclinado para a desgraça da América Latina, na Palestina as coisas estão como se sabe, etc.”
Eu não sou de intrigas, mas acredito que no “etc.” que lá colocou ele também gostaria de ver discutida publicamente a questão das fragatas e dos F-16, comprados e nunca usados, entretanto postos à venda, na perspectiva das responsabilidades de quem comprou, dos interesses que estiveram por detrás (se é que houve interesses) e no julgamento dos responsáveis por este devaneio de lesa-cofres que é como quem diz, também a mim me vieram ao bolso. Ou então estou a exigir demais ao Pacheco Pereira e ele não queria nada disso.

Ainda no campo do futebol quero reiterar a minha convicção de que aos sapateiros deveria ser interdito tocar rabecão. Quer dizer eu não sou pela supressão da liberdade de expressão, sou apenas contra a impunidade do disparate. Ao cineasta António-Pedro de Vasconcelos, concedo-lhe a dúvida, que crítico não sou, de fazer bons filmes. Já afirmar que o modelo do Campeonato do Mundo de Futebol deveria ser revisto, pois vemos selecções serem afastadas quando praticam “futebol de sonho como o Gana e Argentina” (sic), em favor de equipas das quais nada se viu (como Portugal, lido nas entrelinhas ou escutado nos silêncios, como queiram), é de sapateiro mesmo. Ou António-Pedro de Vasconcelos acha que o Mundial é o Festival da Eurovisão ou o Festival de Cinema de Cannes? Vamos a votos e acabamos com os golos, é?

Queria já acabar com isto, porque um post grande ninguém lê, mas não me posso calar ante a fúria anti bandeiras nas janelas, que tenho ouvido e lido a todos aqueles que se querem aproximar das opiniões intelectualizadas da nossa praça. Se as vitórias alcançadas pela selecção nacional, não são motivo para aumentar a auto-estima dos portugueses nos últimos meses, que os (nos) façam erguer uma bandeira nacional, dêem-me um só, mas um só, exemplo de um outro feito no último semestre que me faça levantar uma bandeira, que a levantarei de bom grado. Posso até dar uma ajudinha, por exemplo, uma medida governamental, (não vale a banda larga e a sua equiparação à electricidade no século XVIII porque o Benjamim Franklin, o Edison, o Foucault, o Faraday, e mais uns quantos, desatam-se já a rir).

sexta-feira, junho 30, 2006

1001. Olhem lá, ele se há putas é para todos os gostos, ouviram?

(Prostituta, Georges Rouault, 1871-1958)

Há coisas que eu sei.
Por exemplo:
- Sei que o estilo PreDatado não agrada (nem tem de agradar) a toda a gente e por isso,
- Sei que abordar temas como a deslocação de empresas, a corrupção, os pressupostos interesses de alguns, nos e dos municípios, as presidências abertas, hoje roteiros ou os interesses americanos nas petrolíferas do Sudão versus Darfur, deveriam ser tratados em exclusivo nos blogs políticos e (principalmente) nos de figuras públicas, em vez de o ser em blogs generalistas como este e como tal não dá muitas visitas;
- Sei que se o PreDatado escrevesse contos eróticos, apelativos, com fotos de gajos e gajas a dar valentes quecas, talvez hoje fosse um blog de sucesso;
- Sei que se o PreDatado publicasse receitas de pratos exóticos comidos com dois pauzinhos, ou à beira mar tropical ou, ainda, receitas de bolos conventuais portugueses hoje tinha aqui uma troupe de fans, cozinheiras e cozinheiros amadores a copiar e a experimentar;
- Sei que se o PreDatado linkasse os 4876 blogs portugueses, mais os talvez 2.430.000, aproximadamente, blogs internacionais, teria por cada um deles, pelo menos uma visita de retribuição, assim S. Technorati o ajudasse.

Mas meus amigos tenham lá a santa paciência. Virem aqui todos os dias à procura de “putas pretas”, não vale. Se Maomé não vai à montanha terá, forçosamente, a montanha que se desmoronar e cair-lhe em cima? Quantas vezes terei aqui que dizer que o PreDatado não é um blog racista?

quinta-feira, junho 29, 2006

1000. Mil

Este é o post número 1000 publicado aqui no PreDatado. Poderiam ter sido dois mil ou apenas quinhentos. Mas não foram, foram mil. E como o PreDatado é feito de originais, esta é a milésima vez que o Pré teve que inventar um texto para aqui publicar. É claro que ao PreDatado, quando começou a publicar, jamais lhe passaria pela cabeça ser capaz de se aguentar assim à bronca. E uma vez que o PreDatado nunca ganhou um único prémio daqueles que sistematicamente a blogosfera teima a atribuir a uns e a outros por esta ou aquela razão, o Pré decidiu atribuir hoje um prémio ao PreDatado ou seja, a ele próprio. E como quando se recebem prémios é usual fazer um discurso de agradecimento, aqui vai: Quero agradecer este prémio a todos vós meus fieis leitores, sem os quais o PreDatado não teria razão de existir.

terça-feira, junho 27, 2006

999. Darfur

Na frente dos amigos ele sempre se apresentava como um indivíduo muito culto. A sua boa memória levava-o a discutir pormenores da História de Portugal tais como o casamento de Maria Francisca Isabel de Sabóia com D. Afonso VI e com D. Pedro II ou a detalhes da História Universal como a biografia de Emiliano Zapata. Tão depressa se mostrava um defensor da teoria da moral de Immanuel Kant como em outros fóruns se deliciava a bisturiar a obra de Marquês de Sade. Sabia tudo sobre armas convencionais e nucleares, tinha opinião formada sobre o ensino, a educação e a justiça. Não era raro vê-lo dissertar sobre o papel das instituições, da câmara Municipal ao Presidente da República e, aqui e ali, deixava recados que, dizem as más-línguas, eram muito tidos em consideração. Quando, em frente de um televisor, assistia com a família e amigos aos concursos televisivos tinha sempre uma resposta na ponta da língua para as mais rebuscadas perguntas ou mesmo, quando errava, sabia desenvolver uma teoria sobre a falha que cometera onde em larga prosa, que poucos entendiam, explicava o motivo da sua confusão. Era também um colunista de jornais, usava a Internet com frequência e tinha até um blog de referência. A sua vocação política obrigava-o a aceitar fazer prelecções públicas, fosse para assistências de 50 pessoas, em pequenos espaços de sociedades recreativas ou estúdios de cine-teatro, fosse em Universidades ou em debates televisivos, onde era visto por muitos milhares de telespectadores. Defendeu a intervenção dos Estados Unidos da América no Afeganistão e no Iraque e é um defensor também da teoria do eixo do mal. Quando lhe perguntaram uma opinião sobre Omar-Al-Bashir e a situação em Darfur, recusou fazê-lo. Parece que não quer misturar a sua aura de humanista com os interesses americanos nas companhias petrolíferas do Sudão. Ainda há pessoas com pudor, digo eu.

segunda-feira, junho 26, 2006

998. Adoptem-me




Toda a noite miou debaixo do capot de um carro. Alguém que descobriu de onde o som vinha, colocou um aviso: “Por favor, não ligue o motor antes de abrir o capot”. E lá estava esta bigodinhas linda. Depois de a salvarmos, lavarmos e desparasitarmos, a bonequita da foto ficou à nossa guarda. O Schubert, a Yasmim e a Flora estão a tentar convencer-nos a ficar com a Charline (já notaram aquele bigode à Charlie Chaplin?). Mas nós não podemos porque nos arriscamos a que cada bicharoco que salvemos entre para a família e a nossa missão de Família de Acompanhamento Temporário não será bem cumprida. Assim e porque a Charline quer viver 15 anos, com mimos, bem tratada e compromissada com uns donos que nunca a abandonem, nem mesmo nas férias, ela está disposta a ser adoptada. Se você que me lê reúne os atributos necessários para cuidar de uma doçura destas não hesite em me mandar um e-mail (vmaf@netcabo.pt). A Charline ficará grata, nós e os potenciais candidatos a novo salvamento também. Ah, é verdade, eu moro na região Almada / Corroios.
997. O dia seguinte

Ele parou ali o carro porque ali havia um quiosque. E ao lado, um pequeno café com três mesas na esplanada. Tudo junto perfazia as suas necessidades de espaço, de tempo e também de um café e de um cigarro. Não poderia demorar mais do que meia hora já que não era seu hábito chegar atrasado a nenhum compromisso. Estava numa pequena vila, num subúrbio da grande cidade.
Isto foi hoje, nos arredores de Lisboa.
Nos subúrbios podem-se encontrar pequenos cafés com só três mesas na esplanada. E podemo-nos sentar, com o jornal comprado, mas ficar a olhar o garoto que sozinho dá uns pontapés na bola em cima do passeio onde uma senhora, que aparenta não ter mais de 40 anos, passeia um caniche. Podemos ver as duas vizinhas que se encontram e não se cumprimentam apenas, mas que ficam ali uns minutos na conversa. Talvez a dissertar sobre o custo de vida, atendendo à alcofa de onde saía uma rama de nabos. Na porta da padaria em frente, talvez reformado, um idoso suporta numa mão uma bengala e na outra um saquinho plástico com quatro papo-secos. Também passou o carteiro que cumprimentou cada um sem nunca abrandar o passo, excepto na porta de cada prédio. Puxou de um segundo cigarro, olhou furtivamente a capa do jornal acabado de comprar, levantou a cabeça e interrogou-se porque é que toda aquela gente, inclusive o fulano que estava a aspirar o carro, junto á janela de onde saía um cabo eléctrico por baixo da persiana, assobiava, interrogou-se, continuo narrando, porque é que haveria tantos sorrisos nos rostos daquelas pessoas. Apagou a beata no cinzeiro improvisado com uma taça de gelado, dobrou o jornal, olhou o relógio e levantou-se. Ergueu a cabeça e deu uma olhada em redor. E viu em cada varanda uma bandeira portuguesa.
Não queria nem deveria chegar atrasado. Ligou a ignição do carro e o rádio onde falavam de futebol.

domingo, junho 25, 2006

996. Roteiro

O galo cantou quatro vezes, mas nem teria sido preciso. Ela estava atenta e pulou da cama ao primeiro có-có-ró-có. Na véspera tinha-se deitado cedo, mais ou menos quando o noticiário da TVI começava a dar uma reportagem de futebol. A bola não lhe interessava para nada e, o mais importante já ela tinha visto.
Isto foi no Alentejo, no ano de 2006.
Abriu a porta do galinheiro e ao mesmo tempo que, entre cacarejos, as galinhas saíam para a rua, ela recolhia os primeiros ovos da manhã, quase todos eles ainda quentes. Eram bem mais de duas dúzias. Depois foi ela quem saiu, ligou a bomba do poço e começou a regar a horta. As alfaces, a couve-galega, os tomateiros, os pepinos e as várias leiras de nabiças não podiam deixar de beber logo pela manhã. Eram o seu sustento, mas hoje não haveria colheita. Amanhã, bem cedo, logo ela iria acartar mais umas cestas de legumes onde os venderia na vila e recolheria os magros cobres da sua subsistência. Hoje era um dia especial e por isso também não se importava de ter de gastar mais água. Hoje iria tomar banho completo. E vestiria o mesmo vestido preto e cuidaria melhor do lenço da cabeça e até as meias e os sapatos seriam os mesmos com que vai à missa. Hoje era um dia especial e ela também (lá no seu íntimo não sabia bem o que isso queria dizer) achava que era uma excluída. E o Senhor Presidente iria vê-la lá no meio da multidão, talvez até lhe acenasse e, com sorte, coisa que ela nunca teve na vida, vinha-lhe sempre à memória o ter ficado viúva com 30 anos de idade e já três filhos, um dois quais ainda de colo, talvez, com sorte pensava ela, quem sabe lhe desse um beijo.

sábado, junho 24, 2006

995. Os intelectuais e o rei na barriga

Talvez eu tenha alguma raivinha de estimação por políticos, jornalistas, intelectuais e outros fazedores de opinião. Talvez seja algum recalcamento, um trauma de infância, alguma dor de corno. É um bom tema a explorar nas minhas próximas consultas com a minha psicóloga. O que eu não tenho é a má-criação que muitos deles aparentam sob a intelectualoide capa com que se revestem. E se há coisa que não tenho é o rei na barriga.
Vem isto a propósito de um comentário que deixei, num dos raros blogs, que leio, escritos pelas classes que mencionei.
Eu conto a história.
Um famoso senhor Fernando Venâncio, ao que sei (saberei?) ligado aos meios universitários, intelectuais e de opinião da nossa praça, publicou uma tradução portuguesa, a partir de uma versão holandesa de um poema de um poeta que ele (Fernando Venâncio) considera (ou pelo menos faz eco), "…Han Dong, representante - assim foi dito - de certa nova corrente, que preza a linguagem comum". Porque eu não gostei do poema, não achei nada de interessante nessa linguagem comum, mas os intelectuais lá sabem, serão porventura mais avalizados para achar o que é bom do que eu, resolvi fazer uma pequena charge num comentário. Um comentário ao estilo do PreDatado, blogger, mas não desligado do Alves Fernandes, pessoa, pois tudo o que aqui escrevo não só o assumo, mas é também, obviamente, um reflexo do seu autor.
Ora o Senhor Fernando Venâncio não gostou nada da brincadeira o que eu, mesmo sem ser um intelectual do seu nível, reconheço ser um direito dele. O que não lhe reconheço é o direito de me ter apelidado de estúpido. Por isso lhe dei uma resposta imediata na caixa dos comentários e agora à posteriori aqui no meu blog, para que se posterize. É que ser intelectual não é forçosamente sinónimo de ser bem formado ou de ser bem educado. Pode apenas ter sido consequência do berço que tiveram. Pode não ser o caso do senhor Fernando Venâncio. Mas eu conheço vários assim. E quando alguém me quiser chamar estúpido que me chame, mas que o demonstre primeiro.


PS. Senhor Fernando Venâncio fique também a saber o seguinte, já que fez o favor de me referir as suas competências. 1- Não sei chinês; 2 – Falo razoavelmente português, espanhol e francês; 3 – Antes dos seus “há 37 aninhos” a falar holandês, já eu falava inglês. 4 – Gosto de bolacha Maria a acompanhar o café com leite.

sexta-feira, junho 23, 2006

994. Tiramissus e pasteis de nata

Ricardo tinha terminado um curso superior. Via negro o seu futuro. Não negro como um carvoeiro vê os seus dias, porque essa é a cor do seu futuro. Nem negro como o fato do gato-pingado pois essa é a cor do seu presente. Vê negro como quem espreita aquele túnel do comboio, sem comboio. Sem nenhuma luz lá no fundo.
Isto foi em Portugal, na cidade de Lisboa, em 2006.
Ricardo pegou no Correio da Manhã que estava em cima da mesa do café para ler os classificados. É um café de bairro, do bairro onde vive, onde conhece toda a gente e toda a gente o conhece desde miúdo. Foi por isso que teve de perder uns minutos a conversar sobre as prestações da selecção no Mundial com o Sr. Joaquim, o dono do talho onde a D. Henriqueta, a mãe, lhe compra o inevitável bife diário do almoço Também é porque conhece toda a gente lá da zona que a Fernandinha, uma solteirona militante, se senta sempre na mesa dele para beber o galão e comer a tacinha de tiramissu (*) diária. E para ouvir o humor sempre brejeiro de Ricardo. A Fernandinha fica corada com a malandrice sub-reptícia de Ricardo, mas pela-se por ouvi-lo. Depois deve sair dali a pensar num casamento que nunca conseguiu ou que nunca quis e quiçá a tentar desvendar se a culpa é dela ou do tiramissu. É que na mente de Fernandinha tem sempre de haver um culpado. O Ricardo acha que não, que nem sempre tem de haver um culpado. E hoje foi com Fernandinha que dissertou sobre o tema, ainda com o Correio da Manhã na mão. Deu-lhe a ler (enfatizando algumas passagens com leitura simultânea em voz alta), aqueles artigos que falavam de uma suspeita venda de terrenos ao Metro do Porto, numa história mal contada, lá para os lados de Gondomar, uma outra que falava de um tipo que outrora foi secretário pessoal de um conhecido apresentador de televisão e que dizia que este tinha fontes privilegiadas no processo Casa Pia, outra ainda que dizia que o processo Apito Dourado estava mais uma vez suspenso. A Fernandinha, decepcionada por não descortinar culpados, pagou a sua despesa e gentilmente a bica de Ricardo. Saiu, como sempre, pensando que se calhar culpados só mesmo os tiramissus (malditos homens que não gostam de gordas), pois no meio daquelas notícias havia outra que dava conta de uma intensa actividade da justiça italiana sobre a corrupção no futebol transalpino. Ricardo, devorava agora um pastel de nata enquanto voltava aos classificados. Pelo olhar distante, supõe-se que estaria a culpabilizar-se por não se ter licenciado em Engenharia da Corrupção.


(*) para quem estiver interessado, encontram-se na Internet várias receitas de tiramissu.
993. Fecharam 195 parques infantis

O dia nasceu azul quando o Sol lhe beijou as roseiras do quintal.
Isto foi em Portugal em 2006. Era Sábado.
Na televisão, acesa desde que o pequeno Carlos, sorrateiro, saiu da cama, passavam os desenhos animados mais estúpidos que as crianças podem assistir. Isto dizia o avô Luís que ainda era do tempo do Bip-Bip e do Coyote, do Pernalonga e do Gaguinhas, do Silvestre e Piu-Piu, do Tom e do Jerry, do Poppey e até do Super Rato e também do Gato Félix. A mãe colocou-lhe à frente um prato de cereais com leite que ele devorou sem levantar os olhos da tela. Depois de o obrigar a lavar os dentes, vestiu-lhe aquela blusa branca e o calção azul às riscas, com alças e peitilho de jardineiro, que a tia Ivone lhe tinha oferecido quando fez quatro anos. Ajudou-o a apertar as sandálias e passou-lhe os dedos pelos cabelos encaracolados.
Saíram de mão dada, cumprimentaram a D. Gertrudes que chegava do supermercado (o que faz correr esta senhora, viúva, mais de 70 anos, bicos de papagaio, a chegar do supermercado às dez da manhã, terá pensado). Carlos ainda perguntou à mãe porque é que a D. Gertrudes andava assim meio agachada, mas a resposta não lhe deve ter interessado muito, pois não fez mais nenhuma pergunta. Continuaram o passeio em silêncio, com o Carlos de olhos muito abertos a observar tudo quanto o rodeava, duas raparigas que corriam para o autocarro com os braços levantados a acenar, o cego que tocava acordeão na esquina da Rua 25 de Abril com a Rua de Angola, dois polícias com as mãos agarrada aos sacos de plástico pretos (com roupa contrafeita, mas isso só a mãe o sabia) e a algazarra que rodeava a acção, um senhor a ler A Bola encostado ao semáforo.
Pararam e esperaram o sinal verde. Só atravessavam no sinal verde, de pequenino é que se torce o pepino. Iriam repetir a travessia tantas vezes quantas as passadeiras que circundavam a rotunda. Deram duas voltas à rotunda, depois voltaram para casa. A vila tem muitas rotundas, mas aquela tem relva e flores. Só não tem baloiços.
Carlos sentou-se à frente da televisão e continuou a ver os desenhos animados. Aqueles desenhos estúpidos, como dizia o avô Luís.

quinta-feira, junho 22, 2006

992. Deslocação

Uma nuvem de cheiros atravessou a casa e penetrou-o no estremunhado sono que ainda lhe restava. Um agradável odor, misto de café e torradas, anunciava-lhe a presença de alguém na cozinha, onde um tiritar de colher beijando a chávena confirmava um, agora, leve receio. Estendeu o braço esquerdo perpendicularmente ao corpo e obteve a certeza da primeira desconfiança. Ela já lá não estava, apenas um quase vazio preenchido por uma almofada. Do outro lado com uma ligeira apalpadela descobriu os óculos e colocou-os. Depois abriu os olhos e pestanejou várias vezes como que a dar os bons dias ao raio de luz que atravessava a frincha da janela mal fechada. Desceu cuidadosamente da cama (a malvada dor de coluna acompanhava-o há largos anos), mal acordado, olhou em volta e descobriu na cadeira onde tinha deixado de véspera o roupão em cetim azul-escuro que ela lhe tinha oferecido no início deste verão. Por uns momentos ficou a pensar na importância que tem uma cadeira de quarto, no seu papel de fiel depositária e da tranquilidade de um objecto que durante anos não sai do mesmo local. Palermices, pensou, será a idade… De repente alteraram-se-lhe os humores (terá descoberto que dia era hoje?). Arrastou os pés até estes se enfiarem nos chinelos, quase com uma precisão matemática. Pudera. Durante mais de quarenta anos colocava os chinelos de quarto sempre no mesmo sítio e sempre que se levantava era a segunda coisa que procurava. A primeira eram os óculos depositados sobre o livro da noite na mesa de cabeceira. Pegou no roupão, seguiu a trilha dos cheiros e observou-lhe a nuca prateada na entrada da porta da cozinha. – Bom dia!, disse-lhe ela, mal o pressentiu. - Bom dia, respondeu-lhe acariciando-lhe o cabelo e debruçando-se para lhe beijar o pescoço. - Acho que adormeci, como que a desculpar-se. Porque não me acordaste? Hoje vou chegar atrasado. Maldito vício o de adormecer agarrado aos livros. Esta noite, juro, apagarei a luz mais cedo e serei eu quem fará o pequeno-almoço. Ela rodou a cabeça, olhou-o com ternura nos olhos, pediu-lhe que se sentasse no lugar em frente e respondeu-lhe. – Agora já não precisas. Uma pequena lágrima correu-lhe, inevitável, pelo rosto. Pela primeira vez, desde os seus vinte anos que não tinha de ir trabalhar à segunda-feira. E vieram-lhe à memória, numa catadupa de imagens, os anos da fábrica que acabara de fechar. Um macaréu subiu-lhe corpo acima num curso percurso do estômago ao peito. Baixou a cabeça, e começou a barrar o pão com doce de cereja. Uma segunda lágrima caiu-lhe na chávena de café.

terça-feira, junho 20, 2006