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sexta-feira, dezembro 03, 2010

1562. Fumos

Tirou o último cigarro do maço e deve ter exclamado, bolas. Provavelmente por não ter mais cigarros ou, talvez, zangado com ele próprio por estar já a esvaziar o segundo maço do dia. Mas era noite e não tinha onde comprar mais. Iria fumar apenas metade e deixar o resto para quando lhe fizesse mais falta. De resto o livro estava à beira do fim, este seria um best-seller, ele já o imaginava nos escaparates com o um dístico redondo com o número 1. Foram mais de dois meses de escrita e de algumas pesquisas, poucas porque, a verdade seja dita, era rapaz de muita cultura e, se a uma personagem lhe queria dar um corpo de um Modigliani ele sabia exactamente como o descrever ou se outro tocava trombone então era um potencial Glenn Miller. Para não falar que era quase formado em botânica. Daria umas boas 350 páginas em Sabon/12 A5, a editora iria ficar satisfeita. A Rosália sorriu, um pobre e desmaiado sorriso quando a imagem de Jaime lhe veio à memória. E de tantos anos de mágoa apenas uma a fustigava naquele momento. Nunca ter dormido em lençois de linho. Levantou-se e foi espevitar o lume que, àquela hora, já morria na lareira. Ponto final, estava pronto. Retirou a folha da máquina, ajeitou a resma e foi para a janela olhar a estrelas. Deu duas baforadas na outra metade do cigarro.

Foto e texto PreDatado 2010

sexta-feira, novembro 26, 2010

1559. Outonos

Era matemático! Àquela hora, lá estava ele, de livro debaixo do braço, sobretudo e chapéu se fosse inverno, mangas de camisa, usava sempre camisas de manga comprida e boné, pois claro, se fosse verão. Conheciam-no como o homém dos mil chapéus. Era coisa que não dispensava fosse por moda, por cultura ou por habituação. E também não falhava nenhum dia da semana, a sua chegada era pontual. De um rigor matemático. Tinha até um chapéu especial para os domingos, não lhe sei dizer o nome mas era assim a modos como que uma cartola. A garotada gostava de se sentar ao lado dele e disfrutar dos caramelos espanhois que sempre trazia no bolso. A senhora que passava a empurrar o carrinho de bebé (devem ter sido muitas, pois uma delas lembro-me de a ter visto, mais tarde, passar com o pequenote pela mão e, mais tarde ainda, ter visto o garoto aos pontapés numa bola e, se a memória me não falha, vi-o mesmo passar com a sacola da escola), em troca de um sorriso recebia uma vénia de chapéu na mão e de corpo, alguns anos depois, já curvado. A moça do vestido às flores sentava-se ao lado dele e passavam largos minutos a conversarem. Não eram poucas as vezes em que se ouviam sonoras gargalhadas. A moça deixou de vestir vestidos com flores e os cabelos começaram a ficar mais curtos mas, ainda assim, se sentava ao lado do velho fazendo reluzir uma aliança de ouro. Já não soltava tão grandes gargalhadas mas ainda se ouvia rir. Os miúdos cresceram, não lhe pediam mais rebuçados. Àquela hora, todos os dias, o homem dos mil chapéus, o último que se lhe viu era um chapéu de coco que não lhe assentava particularmente bem com a gabardinha beje, chegava com um livro na mão e sentava-ve à espera de alguém a quem tirar o chapéu. Quando deixou de apararecer soube-se que todos os dias, rigorosamente à mesma hora, recebia sobre a campa uma flor. Flores de mil cores, como os seus mil chapéus chegavam-lhe à mesma hora. Era matemático.

Foto e texto PreDatado 2010

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

1519. Horas douradas

Hoje vou pintar-vos um conto. A lata de tinta já está pronta e a velhinha sentada num corte de tronco de azinho ajeita o lenço. Vê-se que está impaciente pois atou e desatou o nó por mais de uma vez, tirou o chapéu e voltou a pô-lo, colocou o lenço sobre o chapéu e apertou o lenço de novo. Esta forma graciosa de usar um lenço sobre o chapéu preto é muito típica aqui da região. Víamo-las assim quando em “bandos” ceifavam o trigo ou quando, à tardinha, sentadas no mocho acariciavam o bezerrito que Bonita, a ovelha, acabara de parir. Uma ave, esclareceu-me numa voz meiga, com a ternura do costume, que era um rabilongo, posou na figueira em frente à porta. Comia os restos de um figo maduro que desta vez não teria tempo de passar. Depois aparentando um ar sério e fingindo-se zangada, disse-me, são uns bandidos, comem tudo. Rimos os dois e ficamos ali um pouco à conversa explicando-lhe que a luz do sol ainda não era aquela que eu queria para iniciar a pintura. Teria ainda tempo para atender o telefone e trazer-me uma chávena de chá bem quente que por este tempo, no inverno, faz frio por estas bandas. Um cheiro a lúcia-lima invadiu o espaço. Voltou a sentar-se, esperou que eu terminasse a bebida, enxotou o gato e disse-me, estou pronta. Eu também, avó, esta é a hora de ouro para um pintor. Peguei no pincel mas acabei por terminar o trabalho já sob a luz de uma fraca lâmpada de tungsténio. Vai ali para o lado do meu Joaquim. Nunca mais vais dormir só. Retirou um velho calendário já manchado pela humidade dos anos e no seu lugar pendurou o quadro.

quinta-feira, novembro 12, 2009

1506. Rotinas

Vão chegando, entre as seis e as sete, juntam-se no muro com uma mini na mão. Como se fossem um bando de estorninhos que atacam a oliveira. Depois de um largo linguajar, os apertos de mão, dão meia volta e regressam ao lar. No muro fica a fila de garrafas que o tasqueiro, solicito, deita num balde. Amanhã sairá nova rodada. Até que o inverno chegue.

Fico na varanda a vê-los chegar, agora mais cedo porque a hora mudou. Para nós, não para eles, para eles o que muda é o tamanho do dia, o menor intervalo entre a manhã e a noite. Regressam em bandos às árvores, num estranho linguajar feito de chilreios. Não sei se me parecem estorninhos ou se o são.

Agasalhados, porque o vento ribeirinho corta, saímos todos como se fossemos um bando (de estorninhos?) do vapor – já ninguém lhe chama vapor, gente de outras gerações que têm catamarans de usufruto - na outra margem. Acenam em linguajares de até amanhã, de espere aí, de que chatisse, perdeu-se o autocarro, perdeu-se o metro, numa correria de horários. Aconchega-se o cachecol ao nariz, porque o vento ribeirinho corta. Amanhã, pela manhã, quer a luz do alvorecer raie ou não, abandonaremos a árvore e sairemos para os nossos campos (como estorninhos?) à espera de vindouros invernos.

Corta!

(gostaria de conhecer o autor da foto para lhe prestar os devidos créditos, mas infelizmente encontrei-a na net sem referência ao autor)

quinta-feira, setembro 24, 2009

1485. On the rocks

Entrei no quarto e vi-a com aquele sorriso lindo que me fazia sempre quando eu chegava. Bem sei que naquele dia regressei um pouco mais tarde mas, de facto, tive um dia muito agitado. Tão diferente e tão estranho que, ao contrário do que era habitual, resolvi relatá-lo, enquanto me despia. Tirei primeiro os sapatos e arrumei-os como habitualmente. As rotinas estão-me no corpo. Depois abri o botão da camisa, junto ao pescoço e saí para preparar um whisky. Se ela não estivesse deitada era ela quem mo prepararia. Gostava de ganhar um beijo de lábios frios de gelo, doce e prolongado, derretendo o cubo, num abraço apertado e terno. Depois pendurei o casaco nas costas da cadeira do quarto. Normalmente é ela que o pendura enquanto eu a aperto por detrás, dificultando-lhe a tarefa e ela me olha com um olhar cúmplice por cima do ombro ao mesmo tempo que dou uma gargalhada e desaperto o nó da gravata. Continuei a contar-lhe o meu dia, mas ela nada me respondia. Com aquele sorriso não poderia estar amuada com certeza. Estaria no mínimo a ser sarcástica, mas não era esse o tipo de expressão que fazia. Tirei as calças, foi à casa de banho e molhei abundantemente o rosto. Lembrei-me, entretanto de lhe dizer que encontrei esta manhã a descer no elevador, o António, o filho da D. Gina de quem ela gosta tanto e lhe oferece rebuçados e cromos. Tirei a gravata e arremessei a camisa para o cesto da roupa. Bebi de um gole o resto do whisky, bochechei e gargarejei com o eterno elixir de menta e enfiei-me nos lençóis. Já nem lhe iria falar do almoço que tive com o Dr. Gregório quando um estranho arrepio me percorreu o corpo. Toquei-lhe de novo. Não havia dúvidas, estava gelada. Olhei-lhe o rosto e apercebi-me de que estava morta. E no entanto continuava a sorrir-me.

Foto de David Le Beck via Imagens

sexta-feira, setembro 18, 2009

1483. Escadas


Fetiche, prazer, ilusão, vertigem. E quanto mais altas mais atractivas. Era o abismo? Era o desejo? Chegou a fazer amor nas escadinhas da Madalena, no último degrau, numa noite de Verão sem brisa, pelas quatro da manhã. E também no escadote lá de casa enquanto trocava as roupas de primavera/verão com as da estação anterior. Na praia, nas escadinha de acesso ao areal, quando o sol se acaba de pôr e os últimos veraneantes do dia ainda restam na paragem do autocarro. E os seus olhos riam, não sei se depravação ou cumplicidade quando me contou que fez amor com um peregrino nas escadarias do Bom Jesus. Fui visitá-la à clínica psiquiátrica onde foi internada e levar-lhe algumas fotos de escadarias, que recolhi aqui e além, depois de ter sido apanhada em flagrante a fazer amor com um bombeiro no alto de uma escada Magirus.

Foto PreDatado©, 2008