sexta-feira, dezembro 03, 2010
1562. Fumos
sexta-feira, novembro 26, 2010
1559. Outonos
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
1519. Horas douradas
Hoje vou pintar-vos um conto. A lata de tinta já está pronta e a velhinha sentada num corte de tronco de azinho ajeita o lenço. Vê-se que está impaciente pois atou e desatou o nó por mais de uma vez, tirou o chapéu e voltou a pô-lo, colocou o lenço sobre o chapéu e apertou o lenço de novo. Esta forma graciosa de usar um lenço sobre o chapéu preto é muito típica aqui da região. Víamo-las assim quando em “bandos” ceifavam o trigo ou quando, à tardinha, sentadas no mocho acariciavam o bezerrito que Bonita, a ovelha, acabara de parir. Uma ave, esclareceu-me numa voz meiga, com a ternura do costume, que era um rabilongo, posou na figueira em frente à porta. Comia os restos de um figo maduro que desta vez não teria tempo de passar. Depois aparentando um ar sério e fingindo-se zangada, disse-me, são uns bandidos, comem tudo. Rimos os dois e ficamos ali um pouco à conversa explicando-lhe que a luz do sol ainda não era aquela que eu queria para iniciar a pintura. Teria ainda tempo para atender o telefone e trazer-me uma chávena de chá bem quente que por este tempo, no inverno, faz frio por estas bandas. Um cheiro a lúcia-lima invadiu o espaço. Voltou a sentar-se, esperou que eu terminasse a bebida, enxotou o gato e disse-me, estou pronta. Eu também, avó, esta é a hora de ouro para um pintor. Peguei no pincel mas acabei por terminar o trabalho já sob a luz de uma fraca lâmpada de tungsténio. Vai ali para o lado do meu Joaquim. Nunca mais vais dormir só. Retirou um velho calendário já manchado pela humidade dos anos e no seu lugar pendurou o quadro.
quinta-feira, novembro 12, 2009
1506. Rotinas

Vão chegando, entre as seis e as sete, juntam-se no muro com uma mini na mão. Como se fossem um bando de estorninhos que atacam a oliveira. Depois de um largo linguajar, os apertos de mão, dão meia volta e regressam ao lar. No muro fica a fila de garrafas que o tasqueiro, solicito, deita num balde. Amanhã sairá nova rodada. Até que o inverno chegue.
Fico na varanda a vê-los chegar, agora mais cedo porque a hora mudou. Para nós, não para eles, para eles o que muda é o tamanho do dia, o menor intervalo entre a manhã e a noite. Regressam em bandos às árvores, num estranho linguajar feito de chilreios. Não sei se me parecem estorninhos ou se o são.
Agasalhados, porque o vento ribeirinho corta, saímos todos como se fossemos um bando (de estorninhos?) do vapor – já ninguém lhe chama vapor, gente de outras gerações que têm catamarans de usufruto - na outra margem. Acenam em linguajares de até amanhã, de espere aí, de que chatisse, perdeu-se o autocarro, perdeu-se o metro, numa correria de horários. Aconchega-se o cachecol ao nariz, porque o vento ribeirinho corta. Amanhã, pela manhã, quer a luz do alvorecer raie ou não, abandonaremos a árvore e sairemos para os nossos campos (como estorninhos?) à espera de vindouros invernos.
Corta!
(gostaria de conhecer o autor da foto para lhe prestar os devidos créditos, mas infelizmente encontrei-a na net sem referência ao autor)
quinta-feira, setembro 24, 2009
1485. On the rocks

Entrei no quarto e vi-a com aquele sorriso lindo que me fazia sempre quando eu chegava. Bem sei que naquele dia regressei um pouco mais tarde mas, de facto, tive um dia muito agitado. Tão diferente e tão estranho que, ao contrário do que era habitual, resolvi relatá-lo, enquanto me despia. Tirei primeiro os sapatos e arrumei-os como habitualmente. As rotinas estão-me no corpo. Depois abri o botão da camisa, junto ao pescoço e saí para preparar um whisky. Se ela não estivesse deitada era ela quem mo prepararia. Gostava de ganhar um beijo de lábios frios de gelo, doce e prolongado, derretendo o cubo, num abraço apertado e terno. Depois pendurei o casaco nas costas da cadeira do quarto. Normalmente é ela que o pendura enquanto eu a aperto por detrás, dificultando-lhe a tarefa e ela me olha com um olhar cúmplice por cima do ombro ao mesmo tempo que dou uma gargalhada e desaperto o nó da gravata. Continuei a contar-lhe o meu dia, mas ela nada me respondia. Com aquele sorriso não poderia estar amuada com certeza. Estaria no mínimo a ser sarcástica, mas não era esse o tipo de expressão que fazia. Tirei as calças, foi à casa de banho e molhei abundantemente o rosto. Lembrei-me, entretanto de lhe dizer que encontrei esta manhã a descer no elevador, o António, o filho da D. Gina de quem ela gosta tanto e lhe oferece rebuçados e cromos. Tirei a gravata e arremessei a camisa para o cesto da roupa. Bebi de um gole o resto do whisky, bochechei e gargarejei com o eterno elixir de menta e enfiei-me nos lençóis. Já nem lhe iria falar do almoço que tive com o Dr. Gregório quando um estranho arrepio me percorreu o corpo. Toquei-lhe de novo. Não havia dúvidas, estava gelada. Olhei-lhe o rosto e apercebi-me de que estava morta. E no entanto continuava a sorrir-me.
Foto de David Le Beck via Imagens
sexta-feira, setembro 18, 2009
1483. Escadas
Fetiche, prazer, ilusão, vertigem. E quanto mais altas mais atractivas. Era o abismo? Era o desejo? Chegou a fazer amor nas escadinhas da Madalena, no último degrau, numa noite de Verão sem brisa, pelas quatro da manhã. E também no escadote lá de casa enquanto trocava as roupas de primavera/verão com as da estação anterior. Na praia, nas escadinha de acesso ao areal, quando o sol se acaba de pôr e os últimos veraneantes do dia ainda restam na paragem do autocarro. E os seus olhos riam, não sei se depravação ou cumplicidade quando me contou que fez amor com um peregrino nas escadarias do Bom Jesus. Fui visitá-la à clínica psiquiátrica onde foi internada e levar-lhe algumas fotos de escadarias, que recolhi aqui e além, depois de ter sido apanhada em flagrante a fazer amor com um bombeiro no alto de uma escada Magirus.
Foto PreDatado©, 2008